sábado, 9 de setembro de 2023

⅔ da área queimada no Brasil ficam na Amazônia

Dois terços da área queimada no Brasil ficam na Amazônia.
O Brasil teve 2,15 milhões de hectares queimados entre janeiro e junho deste ano. Dessa área, três estados da Amazônia Legal responderam por mais de 80%. A Amazônia lidera o ranking, respondendo por dois terços da área queimada, seguida pelo Cerrado. Os dados são de levantamento do MapBiomas.

Um quarto da área total queimada na Amazônia (26%) foi em pastagem, que foi a classe de uso antrópico que mais queimou no bioma em junho, com 26 mil hectares

Entre janeiro e junho deste ano foram queimados 2,15 milhões de hectares no Brasil – área 1% menor em relação ao mesmo semestre de 2022.

Na Amazônia, porém, houve um aumento de 14%, em relação ao último ano. Ela foi o bioma com maior área queimada nos primeiros seis meses de 2023: 1,45 milhão de hectares, ou 68% de toda a área queimada no Brasil no primeiro semestre. Em segundo lugar vem o Cerrado, com 639 mil hectares, ou 30% do total – um aumento de 2% em comparação com o mesmo período de 2022.

A maior parte da área queimada – 84% – foi em vegetação nativa, a maioria em formações campestres. Dentre os tipos de uso agropecuário, as pastagens se destacaram, representando 8,5% da área queimada.

Quase metade da área queimada nos primeiros seis meses de 2023 em todo o país está concentrada em um único estado da Amazônia: Roraima. Foram 1 milhão de hectares entre janeiro e junho, ou 49% do total. Mato Grosso e Tocantins vêm em seguida, com 258 mil hectares e 254 mil hectares. Juntos, esses três estados respondem por 82% da área queimada total no período. Os municípios de Normandia (RR), Pacaraima (RR), e Boa Vista (RR) foram os que tiveram maior área queimada, todos em Roraima.

No caso do Cerrado, cerca de 75% da área queimada nos seis primeiros meses de 2023 ocorreram em vegetação nativa (principalmente formação campestre e savânica) e 25% em áreas antrópicas (principalmente agricultura).

“A área queimada no primeiro semestre de 2023 no Cerrado está dentro da média dos últimos anos, com destaque para ações de queimas prescritas que são realizadas durante esse período como parte da estratégia de prevenção de incêndios florestais do MIF (Manejo Integrado do Fogo). Porém a área queimada no mês de junho foi maior do que nos meses anteriores – isso porque o período de seca no bioma está só começando. A situação pode se agravar ainda mais com a chegada do fenômeno do El Niño”, explica a coordenadora operacional do MapBiomas Fogo e pesquisadora do IPAM, Vera Arruda.

Na Mata Atlântica e Pantanal, a área queimada entre janeiro e junho de 2023 foi a menor nos últimos 5 anos: 10.220 hectares e 13 mil hectares, respectivamente. No caso da Mata Atlântica, a maior parte foi concentrada em áreas antrópicas; no Pantanal, em formações campestres. A Caatinga seguiu a tendência de queda, com a área queimada entre janeiro e junho inferior aos anos anteriores (818 hectares queimados). No Pampa foram queimados 7 mil hectares entre janeiro e junho de 2023, sendo 58% da área queimada em formações campestres.

Queimadas crescem 203% de maio para junho

Apesar da relativa estabilidade dos dados semestrais, os números do mês de junho mostram um avanço maior nas queimadas em relação ao ano passado. Os 543 mil hectares queimados no mês passado estão 203% acima da área queimada em maio/2023, essa comparação foi 106% vezes maior do que o aumento de maio a junho/2022. A vegetação nativa respondeu por 81% da área queimada em junho – a maioria em formações campestres (201 mil hectares). Dentro os tipos de uso agropecuário, as pastagens se destacaram, representando 9% da área queimada no mês passado.

O bioma com maior área queimada em junho foi o Cerrado, com 425 mil hectares, ou 79% do total. Nesse mês, os estados que mais queimaram foram Tocantins, Mato Grosso, e Maranhão, e os municípios de Mateiros (TO), Tangará da Serra (MT) e Mirador (MA) foram os que tiveram maior área queimada.

Na Amazônia, as queimadas consumiram 102 mil hectares em junho – um aumento de 119% em relação a maio. A formação campestre foi o tipo de vegetação nativa que mais queimou no bioma: 45 mil hectares. Um quarto da área total queimada na Amazônia (26%) foi em pastagem, que foi a classe de uso antrópico que mais queimou no bioma neste período, com 26 mil hectares.

As Unidades de Conservação que lideraram o ranking de área queimada em junho de 2023 são: Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, Parque Nacional dos Campos Amazônicos e Parque Nacional do Araguaia.

No momento, muitas áreas de conservação, especialmente no bioma Cerrado, adotam o Manejo Integrado do Fogo (MIF) como técnica para reduzir o risco de incêndios florestais, utilizando a queima controlada e prescrita como uma estratégia para controlar o acúmulo de material combustível.

O MIF é uma prática de gestão preventiva que busca integrar o uso do fogo com outras medidas de conservação e manejo da biodiversidade.

(ecodebate)

Marrocos e Tunísia países da África com decrescimento populacional

Marrocos e Tunísia: dois países da África com decrescimento populacional no final do século XXI.
Mapa da África mostrando Índice de Desenvolvimento Humano (2004).

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Marrocos e a Tunísia vão apresentar decrescimento demográfico nas últimas décadas do atual século porque as taxas de fecundidade estarão abaixo do nível de reposição.

A África terá um grande crescimento demográfico ao longo do século XXI, como mostra o gráfico abaixo. A população mundial era de 2,5 bilhões de habitantes em 1950, sendo 228 milhões na África (com 9,1% do total global). Em 2022, a população mundial passou para 8 bilhões de habitantes, sendo 1,43 bilhão na África (17,9% do total). Segundo as projeções da Divisão de População da ONU, em 2100, a população mundial será de 10,3 bilhões de habitantes, sendo 3,9 bilhões na África (37,9% do total).

O alto crescimento demográfico da África se deve aos altos níveis de fecundidade. O artigo Africa’s unique fertility transition, do demógrafo John Bongaarts, publicado na prestigiosa revista acadêmica Population and Development Review (PDR), em 2017, mostra que a diferença da África Subsaariana em relação à outras regiões do mundo é que a transição demográfica acontece de maneira tardia (later), em ritmo mais lento (slower), teve início em um limiar de desenvolvimento mais baixo (Earlier). O nível da fecundidade é mais elevado (higher) do que em outras regiões do mundo, assim como é menor o uso de métodos contraceptivos.

Desta forma, a lenta transição da fecundidade na África – ao manter alto crescimento populacional e uma alta razão de dependência de jovens – retarda o aproveitamento do bônus demográfico, agrava a situação da “armadilha da pobreza”, comprometendo a possibilidade de um futuro de bem-estar social.

Mas nem todos os países africanos vão crescer ininterruptamente nas próximas décadas. O Marrocos e a Tunísia devem apresentar decrescimento populacional no final do atual século, como mostram os gráficos abaixo.

A população do Marrocos era de 8,9 milhões de habitantes em 1950, subiu para 37 milhões em 2022 e deve atingir o pico populacional em 2070, com 46,5 milhões. A partir de 2071 iniciará um período inédito de decrescimento demográfico e deve chegar a 43,9 milhões de habitantes em 2100.

A população da Tunísia era de 3,6 milhões de habitantes em 1950, subiu para 12,5 milhões em 2022 e deve atingir o pico populacional em 2060, com 14,5 milhões de habitantes. A partir de 2061 iniciará um período inédito de decrescimento demográfico e deve chegar a 13,5 milhões de habitantes em 2100.

A taxa de fecundidade total (TFT) do mundo é de 2,3 filhos por mulher em 2022. A TFT da África estava acima de 6,5 filhos por mulher entre 1950 e 1980 e caiu para pouco acima de 4 filhos por mulher em 2022, só devendo atingir o nível de reposição (2,1 filhos por mulher) no final do atual século.

O Marrocos e a Tunísia também tinham TFT acima de 6 filhos por mulher em meados do século passado, mas passaram pela transição da fecundidade nas últimas décadas. A Tunísia já atingiu o patamar da taxa de reposição e deve continuar com níveis abaixo de 2,1 filhos por mulher. O Marrocos está próximo de atingir o nível de reposição, que é aquele que delimita as tendências futuras da dinâmica demográfica. Mantida acima de 2,1 filhos por mulher, no longo prazo, a população cresce e mantida abaixo de 2,1 filhos a população decresce.

Portanto, o Marrocos e a Tunísia vão apresentar decrescimento demográfico nas últimas décadas do atual século porque as taxas de fecundidade estarão abaixo do nível de reposição daqui em diante. Quanto maior for a queda da TFT, maior será o decrescimento futuro.

A queda da fecundidade é fundamental para a redução da pobreza. Segundo Costa Azariadis, no artigo “The theory of poverty traps: What have we learned?”, publicado no livro Poverty Traps (2006), um país encontra-se em círculo vicioso quando a situação de pobreza convive com baixos níveis de investimento em educação e saúde pública, quando existem altas taxas de mortalidade infantil, grande insegurança pública, baixa esperança de vida, reduzido tempo de vida dedicado ao trabalho produtivo, baixo investimento em infraestrutura e baixos investimentos em setores produtivos, ciência e tecnologia, etc. A armadilha da pobreza seria uma situação em que o alto crescimento do número de pessoas pobres dificultaria a redução da percentagem da população pobre do país.

Azariadis considera que para sair da armadilha da pobreza é preciso garantir uma boa governança, manter a estabilidade institucional, combater os governos cleptomaníacos, aumentar os investimentos em políticas públicas de educação, saúde e habitação, reduzir as taxas de mortalidade infantil e de fecundidade, aumentar o percentual da população em idade ativa, aumentar a esperança de vida, aumentar as taxas de poupança e investimentos, aprofundar a base técnica para a produção de bens e serviços e para a maior geração de empregos e proteção social.

A expectativa de vida está abaixo de 50 anos na maior parte dos países africanos, e abaixo de 60 anos, em todos os países, exceto para a África do Norte.

A transição demográfica é fundamental para se atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Desta forma, somente com mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais se pode passar do círculo vicioso da pobreza para o círculo virtuoso do desenvolvimento humano e ambientalmente sustentável.

O Marrocos e a Tunísia vão viver a oportunidade de aproveitar o 1º bônus demográfico e poderão servir de exemplo para todo o continente. (ecodebate)

Ondas de calor extremo podem dobrar até a década de 2050

Pesquisa analisa o que esses níveis “perigosamente altos” e “extremamente perigosos” no índice de calor significariam para a vida humana.

À medida que as temperaturas globais aumentam, as pessoas nos trópicos, incluindo lugares como a Índia e a região africana do Sahel, provavelmente enfrentarão condições perigosamente quentes quase diariamente até o final do século – mesmo que o mundo reduza suas emissões de gases de efeito estufa, mostra um novo estudo.

As latitudes médias, incluindo os EUA, também enfrentarão riscos crescentes. Lá, o número de dias perigosamente quentes, marcados por temperaturas e umidade altas o suficiente para causar exaustão pelo calor, deve dobrar até a década de 2050 e continuar aumentando.

No estudo, os cientistas analisaram o crescimento populacional, padrões de desenvolvimento econômico, escolhas de energia e modelos climáticos para projetar como os níveis de índice de calor – a combinação de calor e umidade – mudarão ao longo do tempo. Pedimos ao cientista atmosférico da Universidade de Washington David Battisti, coautor do estudo, que explicasse as descobertas e o que elas significam para os humanos em todo o mundo.

Ondas de calor extremas atingem recordes e são reflexos das mudanças climáticas.

O que o novo estudo nos diz sobre as ondas de calor no futuro e, principalmente, o impacto nas pessoas?

Existem duas fontes de incerteza quando se trata de temperatura futura. Uma é a quantidade de dióxido de carbono que os humanos vão emitir – isso depende de coisas como população, escolhas de energia e quanto a economia cresce. A outra é quanto aquecimento essas emissões de gases de efeito estufa causarão.

Em ambos, os cientistas têm uma noção muito boa da probabilidade de vários cenários. Para este estudo, combinamos essas estimativas para obter uma probabilidade no futuro de temperaturas perigosas e com risco de vida.

Analisamos o que esses níveis “perigosamente altos” e “extremamente perigosos” no índice de calor significariam para a vida diária nos trópicos e nas latitudes médias.

“Perigoso” neste caso refere-se à probabilidade de exaustão pelo calor. A exaustão pelo calor não o matará se você conseguir parar e desacelerar – é caracterizada por fadiga, náusea, batimentos cardíacos lentos, possivelmente desmaios. Mas você realmente não pode trabalhar nessas condições.

O índice de calor indica quando uma pessoa provavelmente atingirá esse limite. O Serviço Nacional de Meteorologia define “perigoso” como um índice de calor de 103°F (39,4°C) e “extremamente perigoso” como 125°F (51,7°C). Se uma pessoa chegar a temperaturas “extremamente perigosas”, isso pode levar a uma insolação. Nesse nível, você tem algumas horas para obter atendimento médico para esfriar seu corpo ou morrer.

Sinais de doença de calor.

As condições de índice de calor “extremamente perigosas” são quase desconhecidas hoje. Eles acontecem em alguns locais perto do Golfo de Omã, por exemplo, por talvez alguns dias em uma década.

Mas as chances do número de dias “perigosos” estão aumentando à medida que o planeta aquece. Provavelmente teremos a mesma variabilidade climática de hoje, mas tudo está acontecendo em cima de uma temperatura média mais alta. Assim, a probabilidade de condições extremamente quentes aumenta.

O que seu estudo mostra para cada região?

Nas latitudes médias até 2050, veremos o número de dias de calor perigoso dobrar no cenário futuro mais provável – mesmo sob modestas emissões de gases de efeito estufa que atenderiam à meta do acordo climático de Paris de manter o aquecimento abaixo de 2°C (3,6°F).

No sudeste dos EUA, o cenário mais provável é que as pessoas experimentem um ou dois meses de dias de calor perigosos todos os anos. O mesmo é provável em partes da China, onde algumas regiões estão suando durante uma onda de calor no verão de 2022 por mais de dois meses consecutivos.

Descobrimos que até o final do século, a maioria dos lugares nas latitudes médias verá um aumento de três a dez vezes no número de dias perigosos.

Nos trópicos, como partes da Índia, o índice de calor agora pode exceder o nível perigoso por algumas semanas por ano. Tem sido assim nos últimos 20 a 30 anos. Em 2050, essas condições provavelmente ocorrerão ao longo de vários meses a cada ano, descobrimos. E até o final do século, muitos lugares verão essas condições na maior parte do ano.

O que isso significa na prática é que se você é um país rico como os EUA, a maioria das pessoas pode comprar ou encontrar ar condicionado. Mas se você estiver nos trópicos, onde vive cerca de metade da população mundial e a pobreza é maior, o calor é um problema mais sério durante boa parte do ano. E uma grande porcentagem de pessoas lá trabalha fora na agricultura.


O número médio de dias com níveis perigosos de índice de calor em 1979-1998 e as projeções medianas do estudo para 2050 e 2100.

À medida que chegarmos ao final do século, começaremos a ultrapassar as condições “extremamente perigosas” em vários lugares, principalmente nos trópicos.

O norte da Índia pode ver mais de um mês por ano em condições extremamente perigosas. A região do Sahel da África, onde a pobreza é generalizada, pode ver algumas semanas de condições extremamente perigosas por ano.

Os humanos podem se adaptar ao que parece um futuro distópico?

Se você é um país rico, pode construir instalações de resfriamento e gerar eletricidade para operar condicionadores de ar – esperamos que eles não sejam movidos a combustíveis fósseis, o que aqueceria ainda mais o planeta.

Se você é um país em desenvolvimento, uma fração muito grande de pessoas trabalha ao ar livre na agricultura para ganhar dinheiro para comprar comida. Lá, se você pensar bem, não há muitas opções.

Os trabalhadores migrantes nos EUA também enfrentam condições mais difíceis. Uma fazenda pode fornecer instalações de resfriamento, mas as margens dos agricultores são muito pequenas e os trabalhadores migrantes geralmente são pagos por volume, então quando não estão colhendo, não são pagos.

Eventualmente, as condições chegarão ao ponto em que mais trabalhadores estão superaquecendo e morrendo.

O calor também será um problema para as plantações. Esperamos que a maioria dos principais grãos sejam menos produtivos no futuro devido ao estresse térmico. Nas latitudes médias agora, estamos perto das temperaturas ideais para o cultivo de grãos. Mas à medida que as temperaturas aumentam, o rendimento de grãos diminui. Nos trópicos, isso pode estar em qualquer lugar entre uma redução de 10% a 15% por grau Celsius de aumento. Isso é um grande sucesso.

Previsão de mais calor extremo para os próximos anos exige cuidados maiores com a saúde.

O que pode ser feito para evitar esses riscos de calor extremo?

Parte do nosso trabalho neste estudo foi determinar as chances de o mundo realmente cumprir o acordo de Paris. Descobrimos que foi em torno de 0,1%. Basicamente, isso não vai acontecer.

Até o final do século, descobrimos que o cenário mais provável é que o planeta verá 5,4°F (3°C) de aquecimento global em comparação com os tempos pré-industriais. A terra aquece mais rápido que o oceano, o que se traduz em um aumento de cerca de 7°F (3,9°C) para os lugares onde vivemos, trabalhamos e nos divertimos – e você pode ter uma noção do futuro.

Quanto mais rápido a energia renovável entrar em operação e o uso de combustível fóssil for encerrado, maiores serão as chances de evitar isso. (ecodebate)

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Entenda a temporada de fogo na Amazônia e suas consequências

Em relação à área do bioma, 19,2% pegou fogo nesses 38 anos. Pastagens foram o tipo de vegetação mais atingida (56%), seguidas por florestas (44%). Só em 2022, foram 7,9 milhões de hectares queimados no bioma, um aumento de 50% em relação a 2021, quando 5,3 milhões de hectares foram queimados.

Especial do IPAM explica a temporada do fogo amazônica: meses de seca abrem brecha para propagação de incêndios causados por ação humana; a floresta não pega fogo sozinha.
IPAM

A “temporada do fogo” na Amazônia brasileira é o período com maior ocorrência de incêndios florestais, na estação seca do bioma, e só existe porque tem gente que continua usando o fogo em práticas agropecuárias e no processo de desmatamento: 81% dos focos de calor ocorrem de agosto a novembro, na média dos últimos sete anos, com base em dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Durante a estação seca, a vegetação e a matéria orgânica no solo ficam propícias à queima e espalham as chamas com maior velocidade, o que pode criar incêndios. O ar menos úmido também favorece o alastramento do fogo e dificulta o combate.

“A principal fonte de ignição dos incêndios florestais na Amazônia é humana, por práticas produtivas ainda ligadas ao desmatamento e ao manejo de pastagem. Descargas elétricas por raios seriam a fonte natural, entretanto, essas ocorrem normalmente no período de chuvas, quando a Amazônia está mais úmida, difícil para o fogo se alastrar”, explica Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e coordenadora da rede MapBiomas Fogo.

Na maior parte do bioma no Brasil, a seca começa em julho e vai até outubro, chegando ao auge a partir de agosto. Segundo o MapBiomas Fogo, também entre agosto e novembro está 75% de toda a área queimada na Amazônia de 1985 a 2022.

Embora as condições não sejam homogêneas em um ecossistema continental, a relação entre seca e fogo permanece: o norte amazônico acima da linha do Equador, por exemplo, tem menos chuva no primeiro trimestre. Neste ano, Roraima registrou alta de 95% na área queimada até abril.

A fumaça de incêndios de grande proporção na Amazônia foi notícia quando “o dia virou noite” na cidade de São Paulo ‒ naquele agosto de 2019, fazendeiros combinaram a ação criminosa que ficou conhecida como Dia do Fogo. Em 2022, a fumaça chegou de novo ao Sudeste brasileiro e alcançou países como Bolívia e Peru.

Temporada do fogo

A área queimada na Amazônia de agosto a novembro do ano passado foi de 5,4 milhões de hectares, mais que o dobro dos 2,2 milhões de hectares queimados de agosto a novembro de 2021. Dos últimos dez anos, 2017 foi o que mais queimou no período: foram 6,7 milhões de hectares, área maior que o estado da Paraíba. Os dados de área queimada mensal são da plataforma MapBiomas Fogo.

Há pelo menos 38 anos tem-se registro da temporada de fogo no bioma, indicam os dados do MapBiomas. O mês de setembro é o que tem maior ocorrência (30,4%). Na série histórica, 1997 é o ano com maior concentração de área queimada entre agosto e novembro. Cerca de 92%, ou 7,2 milhões de hectares, dos 7,8 milhões de hectares atingidos pelo fogo naquele ano foram queimados nesses meses.

Cicatrizes do fogo na Amazônia entre os anos de 1985 e 2022

A Flourish map

Amazônia e Cerrado foram os biomas que mais queimaram no Brasil desde 1985.

O fogo caiu com a implementação do PPCDAm (Plano de Prevenção de Combate ao Desmatamento da Amazônia), o que reflete a relação entre incêndios e desmate, ainda que não na mesma proporção. O plano reduziu em 83% o desmate no bioma entre 2004 e 2012.

A queda na área queimada foi de 46% entre agosto e novembro de 2004 (6,4 milhões de hectares) e os mesmos meses de 2012 (3,5 milhões de hectares). A média da área queimada na temporada de fogo nos oito anos anteriores ao plano (1995-2003) foi de 1,45 milhão de hectares; nos oito anos durante a aplicação do plano, foi de 1,49 milhão de hectares. Nos oito anos depois da conclusão da fase do PPCDAm (2013-2021), ficou em 1 milhão de hectares.

“O PPCDAm é um plano focado na redução do desmatamento e da degradação florestal na Amazônia. Em ambos, o contexto o fogo é peça central, pois está diretamente relacionado com o desmatamento e é um dos principais vetores de degradação das florestas da região”, comenta Alencar.

Tipos de fogo

“O incêndio florestal é gerado pelo fogo de desmatamento e pelo fogo de pastagem, então se a gente reduzir os dois, a gente vai reduzir os incêndios florestais por consequência”, diz a pesquisadora.

Alencar descreve os três tipos de fogo mais comuns na Amazônia brasileira:

1. Fogo de desmatamento: segue o processo de desmatamento; depois de derrubada e seca, a área é queimada

2. Fogo de manejo: provocado para “limpeza de pastagem” em área de pasto nativo ou cultivado, também chamado de fogo de pastagem

3. Incêndio florestal: é o fogo que se espalha e entra na floresta, com impactos diretamente proporcionais à frequência; pode ser originado por chamas que fugiram ao controle humano ou por ação criminosa

Onde queima

Avanços do fogo nos estados amazônicos.

A Flourish bar chart race

Pará, Mato Grosso e Roraima foram os estados com maior ocorrência de fogo na Amazônia de 1985 a 2022. Entre as cidades com maior área queimada na série estão: São Félix do Xingu, Cumaru do Norte e Altamira, no Pará; Porto Velho, capital de Rondônia; Santana do Araguaia, também no Pará; e Vila Bela da Santíssima Trindade, em Mato Grosso.

Cidades com maior área queimada

A Flourish chart

A Amazônia tem 43,6% de tudo o que queimou no Brasil de 1985 a 2022: o acumulado chega a 80,9 milhões de hectares dos 185,7 milhões de hectares queimados no país. Em relação à área do bioma, 19,2% pegou fogo nesses 38 anos. Pastagens foram o tipo de vegetação mais atingida (56%), seguidas por florestas (44%).

Só em 2022, foram 7,9 milhões de hectares queimados no bioma, um aumento de 50% em relação a 2021, quando 5,3 milhões de hectares foram queimados.

Como o clima interfere

A Amazônia tem uma precipitação média anual de 2.300 milímetros, com regiões que podem chegar a chover 3.500 milímetros por ano. Na estação chuvosa, calcula-se uma precipitação média de 10 milímetros por dia; já na estação seca, alguns locais podem ter 50 milímetros de precipitação mensal.

É o que se conhecia até agora. As mudanças climáticas causadas por ação humana têm alterado o padrão de chuva. Há uma tendência de diminuição da duração da estação chuvosa e aumento da duração da estação seca, principalmente no sul do bioma.

Projeções indicam maior probabilidade de eventos climáticos extremos de chuva e seca, com impacto multiplicado em grandes extensões de áreas desmatadas, como o arco do desmatamento ‒ do leste e sul do Pará em direção oeste, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre.

El Niño

Além das alterações no clima consequentes do superaquecimento global, a chegada de um El Niño forte em 2023 pode aumentar ainda mais a temperatura. O fenômeno climático que aquece as águas do oceano Pacífico tende a levar mais seca para a Amazônia, criando um ambiente que favorece ainda mais a propagação do fogo.

“Os anos de El Niño são sempre preocupantes para a Amazônia, pois a seca é mais severa e isso aumenta muito a probabilidade de uma queimada se tornar um incêndio florestal”, alerta a pesquisadora.

Em 1982 e 1983, um El Niño intenso contribuiu para o período com menor índice pluviométrico da Amazônia em 50 anos. A queda na chuva chegou a 70% em Manaus, em plena estação chuvosa.

Prevenção

Alencar ressalta que o controle do uso do fogo é chave para reduzir a frequência e intensidade dos incêndios na floresta: “Como não podemos controlar o clima, podemos, sim, controlar o uso do fogo pelas pessoas”. Para o bioma amazônico, o MIF (Manejo Integrado do Fogo) prevê a adoção de técnicas de prevenção, com atividades de conscientização sobre o uso do fogo em pastagens, além do reconhecimento da vegetação por mapeamentos, do trabalho na criação de aceiros e barreiras à passagem do fogo em áreas de risco, também com a formação de brigadas locais. (ecodebate)

Poluição plástica é quase onipresente nos recifes de corais

De acordo com o estudo, os recifes de corais parecem estar mais contaminados por plásticos e detritos de origem humana em geral do que outros ecossistemas marinhos que foram avaliados, mas são muito menos poluídos do que os ecossistemas costeiros, como praias e pântanos.
Poluição plástica em recife de coral a 140m.

Na pesquisa mais abrangente até o momento, os pesquisadores revelaram a escala da poluição plástica nos recifes de corais, mesmo em grandes profundidades.

Esses resultados, no entanto, sugerem estratégias promissoras para proteger melhor esses hotspots de biodiversidade. O estudo foi publicado na Nature.

Os detritos de plástico são uma ameaça crescente para os ecossistemas dos recifes de corais, pois podem se acumular ao longo das cadeias alimentares, danificar as estruturas dos recifes e aumentar a transmissão de doenças. Mas, até o momento, a extensão da poluição plástica presa nos recifes de coral do mundo é incerta.

Para o novo estudo, liderado pela Academia de Ciências da Califórnia, Universidade de São Paulo, Universidade de Oxford, Universidade de Exeter e outros colaboradores, os pesquisadores realizaram mais de 1.200 pesquisas visuais em 84 ecossistemas de recifes localizados em 14 países.

Estes incluíram recifes rasos (<30m) e profundos (zona mesofótica ou ‘crepúsculo’ a 30 – 150 m de profundidade) nos oceanos Índico, Pacífico e Atlântico, cobrindo aproximadamente 68.000 m² de área de recife de coral. Os pesquisadores usaram uma combinação de contagem manual de detritos de plástico encontrados ao longo de transectos de 20 metros de comprimento e contagem de detritos capturados em imagens de sistemas de vídeo operados por mergulhadores, veículos operados remotamente e submersíveis tripulados.

Detritos de origem humana estavam presentes em quase todos os locais (77 recifes de 84), incluindo alguns dos recifes de corais mais remotos e intocados do planeta, como os adjacentes a ilhas desabitadas no Pacífico central. Do total de detritos, 88% eram macro plásticos maiores que cinco centímetros. Embora parte disso fosse detritos de consumo, como garrafas de água e embalagens de alimentos (geralmente a principal fonte de poluição plástica em outros ecossistemas), quase três quartos de todos os itens de plástico documentados nos recifes pesquisados estavam relacionados à pesca, incluindo cordas, redes, e linhas de pesca.

Poluição plástica prejudica mais de 92% dos recifes de corais do planeta.

De acordo com o estudo, os recifes de corais parecem estar mais contaminados por plásticos e detritos de origem humana em geral do que outros ecossistemas marinhos que foram avaliados, mas são muito menos poluídos do que os ecossistemas costeiros, como praias e pântanos.

No entanto, ao contrário dos estudos de ambientes próximos à costa, os pesquisadores descobriram que a quantidade de plástico aumentava com a profundidade – atingindo o pico na zona mesofótica – e era derivada principalmente das atividades pesqueiras.

O autor colaborador e biólogo marinho Dr. Paris Stefanoudis (baseado no Departamento de Biologia na época do estudo, agora Museu de História Natural da Universidade de Oxford) disse: ‘Inicialmente foi surpreendente descobrir que a quantidade de detritos de plástico aumentou com a profundidade, como esperaríamos que os recifes mais profundos estivessem mais longe das fontes de poluição. As causas potenciais disso incluem a ação de ondas perto da superfície desalojando detritos e levando-os para maiores profundidades; corais rasos com taxas de crescimento mais altas, obscurecendo itens dos agrimensores; e mergulhadores recreativos removendo detritos de recifes rasos mais acessíveis.

As menores densidades de poluição – cerca de 580 itens por quilômetro quadrado – foram observadas em locais como as Ilhas Marshall. Comores, um arquipélago na costa sudeste da África, teve a maior densidade de poluição, com quase 84.500 itens por quilômetro quadrado: o equivalente a cerca de 520 pedaços de entulho em um único campo de futebol.

É preocupante porque os recifes profundos são mais difíceis de estudar, eles raramente são incluídos nas discussões e ações de conservação, apesar de abrigar uma biodiversidade única não encontrada em recifes rasos. Para descobrir as causas da poluição dos recifes de corais e identificar possíveis soluções, os pesquisadores avaliaram como a abundância de detritos de origem humana se correlacionava com vários fatores geográficos e socioeconômicos. Em geral, a poluição nos recifes aumentou com a proximidade de cidades densamente povoadas, mercados locais e, contraintuitivamente, áreas marinhas protegidas.

 ‘Como as áreas marinhas protegidas geralmente permitem certa quantidade de pesca dentro ou perto de suas fronteiras e são tipicamente mais produtivas do que outras áreas devido ao seu status de proteção, elas são frequentemente muito frequentadas por pescadores. Isso pode explicar o aumento da quantidade de detritos relacionados à pesca em áreas próximas a zonas marinhas protegidas’, explicou o Dr. Stefanoudis.

Apesar dessas descobertas preocupantes, os novos insights do estudo sugerem soluções que podem ser eficazes na redução da quantidade de poluição plástica que atinge os recifes mais profundos. Isso inclui expandir a profundidade das áreas marinhas protegidas para incluir recifes mesofóticos; atualizar acordos internacionais para incluir equipamentos de pesca; e desenvolver alternativas biodegradáveis de baixo custo para artes de pesca que não impactarão negativamente o bem-estar das comunidades costeiras que dependem da pesca sustentável para sua subsistência.

Recifes são sufocados por plástico, mostra estudo.

“Os recifes de corais estão perdendo a capacidade de sustentar suas funções ecossistêmicas fundamentais, com a poluição plástica aumentando as ameaças das mudanças climáticas e da pesca predatória”. À medida que o mundo se move em direção a um tratado global para combater a poluição plástica, entender sua distribuição e fatores fornecem informações importantes para ajudar a projetar estratégias necessárias para lidar com essa ameaça onipresente’, concluiu o Dr. Stefanoudis. (ecodebate)

Países desenvolvidos precisam diminuir a demanda de energia

Emissões de CO2: Países desenvolvidos precisam diminuir a demanda de energia.

“Então, a demanda de energia terá que ser reduzida. Essa é a realidade inescapável. Especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU estimam que a redução da demanda de energia poderia produzir entre 40% e 70% das reduções de emissões que precisam ser encontradas até 2050.
Os consumidores das nações mais ricas e desenvolvidas terão de aceitar restrições ao uso de energia se quiserem cumprir as metas internacionais de mudança climática, alertam os pesquisadores.

O grande desafio é identificar a forma mais justa e equitativa de os governos reduzirem o uso de energia, processo conhecido como redução da demanda de energia.

Escrevendo na revista Nature Energy, a equipe de pesquisa – liderada por Milena Büchs, professora de bem-estar sustentável da Universidade de Leeds – analisou vários cenários para identificar uma solução potencial.

Uma opção é limitar os 20% principais usuários de energia, permitindo que as pessoas que usam pouca energia e têm renda no nível da pobreza possam aumentar seus níveis de consumo e melhorar sua qualidade de vida.

Definindo o limite de uso de energia

Em qualquer população, haverá uma faixa – ou distribuição – de valores para quanta energia os indivíduos usam. Os valores são classificados em percentis 100 – por exemplo, o percentil 50 representa o valor que está exatamente no meio da distribuição de energia, que metade da população não consegue atingir e a outra metade ultrapassa.

Sob o esquema de redução da demanda de energia, os usuários de energia de nível superior veriam seu uso de energia restrito ao valor do uso de energia no percentil 80. No cenário modelado, isso seria 170,2 Giga Joules (GJ) por pessoa por ano, em comparação com o uso médio de energia dos 20% maiores consumidores de 196,8 GJ por pessoa por ano.

Usando dados de 27 estados europeus, os pesquisadores modelaram a eficácia dessa estratégia de redução da demanda de energia. Eles descobriram que reduziria as emissões de gases de efeito estufa em 11,4% das fontes domésticas de energia; 16,8% dos transportes e 9,7% do consumo total de energia.

Permitir que as pessoas em situação de pobreza aumentem seu uso de energia reduziria essas economias de emissões em quantidades relativamente pequenas – 1,2 pontos percentuais para energia doméstica; 0,9 para transporte; e 1,4 para o consumo total de energia. Isso permitiria que os menos abastados atendessem às necessidades não atendidas, talvez onde não pudessem aquecer adequadamente suas casas.

O professor Büchs disse: “Os formuladores de políticas precisam obter apoio público para os mecanismos de redução da demanda de energia. A realidade é que a descarbonização do lado da oferta, onde a energia é gerada e distribuída, não será suficiente para proporcionar as reduções de emissões necessárias”.

“Então, a demanda de energia terá que ser reduzida. Essa é a realidade inescapável. Especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU estimam que a redução da demanda de energia poderia produzir entre 40% e 70% das reduções de emissões que precisam ser encontradas até 2050.

“Nossa pesquisa indica que o apoio público à redução da demanda de energia é possível se o público considerar os esquemas justos e cumprir a justiça climática”.

Os dados do estudo foram coletados como parte da Pesquisa de Orçamento Familiar Europeu de 2015 de 275.614 domicílios. Os gastos domésticos e os dados do conjunto de dados Exiobase foram usados como proxies para uso de energia e emissões.

Suporte público

Como parte do estudo, a equipe de pesquisa também realizou grupos focais com o público para avaliar as respostas das pessoas a diferentes intervenções políticas para reduzir o uso de energia. Cotas em voos e quilometragem de carros foram vistas por alguns entrevistados como ataques à liberdade e à escolha.

Por outro lado, outras pessoas apoiaram a proibição de atividades além de certo nível, digamos para negócios ou voos pessoais.

Houve o reconhecimento de que existe uma emergência climática e que o problema precisa ser resolvido com urgência.

Escrevendo na revista, os pesquisadores observaram: “Vários participantes reconheceram que os regulamentos que limitam o uso de energia de ‘luxo’ tratariam todos igualmente e, portanto, de maneira justa, o que pode ser propício à aceitação se for fornecidas boas razões, como viagens e outras restrições durante a pandemia do COVID -19 demonstraram”.

EA destaca a necessidade de implantação acelerada de tecnologias de energia limpa.

Renováveis devem cobrir quase toda a alta da demanda de energia até 2025.

Economias emergentes e em desenvolvimento na Ásia são as forças motrizes por trás desse ritmo, aponta IEA/ International Energy Agency (Agência Internacional de Energia).

Visar o uso de energia de ‘luxo’ seria visto como um tratamento justo e igual para todos e isso poderia suavizar qualquer oposição aos mecanismos de demanda de energia. (ecodebate)

20 municípios de maior crescimento demográfico entre 2010 e 2022

Os 20 municípios com maior crescimento demográfico entre 2010 e 2022 e a votação presidencial.
O IBGE divulgou em 28/06/23 os primeiros resultados do censo demográfico de 2022. A população brasileira reduziu o ritmo de crescimento.

De fato, os demógrafos esperavam um ritmo menor, mas o número de 203.062.512 habitantes, em 01/08/22, veio um pouco abaixo do esperado. Houve aumento de 12 milhões de pessoas entre 2010 e 2022, representando um crescimento de 6,5% no período intercensitário.

Em outra escala geográfica, os dados divulgados pelo IBGE para as populações municipais também causaram surpresa, pois grandes capitais como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Natal, Belém, dentre outras, apresentaram decrescimento demográfico. Contudo, houve cidades que cresceram bem acima da média nacional.

A tabela abaixo mostra os 20 municípios com maior crescimento populacional entre 2010 e 2022 e indica também o percentual de votos dos dois candidatos no segundo turno das eleições presidenciais de 2022. Nota-se que são cidades médias de diversas Unidades da Federação (UF) e Bolsonaro teve mais votos em 18 dos 20 municípios e Lula ganhou em apenas 2 cidades (ambas no Maranhão).

 

A coincidência entre a maior votação do candidato Jair Bolsonaro nos municípios de maior crescimento populacional é que a população cresceu mais naquelas cidades localizadas em regiões de exportação de commodities agrícolas e minerais. Isto porque o processo de desindustrialização do país enfraqueceu as regiões e municípios com maior base produtiva do setor secundário e aumentou o crescimento dos municípios ligados à reprimarização da economia, particularmente na produção agrícola e mineral.

Em geral, a base eleitoral do presidente Luiz Inácio da Silva está ligada aos trabalhadores do Sudeste e às reivindicações populares do Nordeste, enquanto a base eleitoral do ex-presidente Bolsonaro está ligada ao agronegócio, ao garimpo e outras atividades primárias.

Por conseguinte, os dados da tabela acima não chegam a ser uma surpresa, pois os municípios de maior crescimento demográfico estão, em sua maioria, localizados nas áreas azuis da figura abaixo. Por exemplo, as duas cidades onde houve vitória do candidato do Partido dos Trabalhadores estão no Maranhão e no Nordeste, locais de grande predomínio do voto mais à esquerda.

As informações do censo 2022 divulgadas até o momento não permitem uma análise mais detalhada. Quando o IBGE divulgar os dados de sexo, idade, educação, mercado de trabalho, dentre outros, os demógrafos e cientistas políticos poderão se debruçar sobre as novas informações para entender o tamanho da população e o perfil sociodemográfico e político das cidades brasileiras. (ecodebate)

Super El Niño não para de ganhar força

Super El Niño não para de ganhar força e tem data atualizada para atingir pico máximo. O Super El Niño de 2026 deve atingir seu pico máximo ...