quinta-feira, 17 de julho de 2025

Decrescimento populacional com prosperidade social e ambiental na Grécia

A Grécia enfrenta um decrescimento populacional que, no entanto, não se traduz numa crise socioeconómica e ambiental generalizada. A combinação de políticas públicas, envelhecimento populacional e outros fatores contribui para uma mudança gradual e para a possibilidade de se alcançar um equilíbrio entre crescimento demográfico e qualidade de vida.
A população da Grécia de 1950 a 2100

Análise detalhada:

Declínio populacional:

A Grécia tem uma das taxas de natalidade mais baixas da Europa, e a população está a envelhecer, o que leva a um declínio populacional.

Prosperidade social e ambiental:

Apesar do declínio populacional, a Grécia tem políticas públicas que visam apoiar a população idosa, garantir a qualidade de vida e promover a sustentabilidade ambiental.

Envelhecimento populacional:

A idade média na Grécia tem vindo a aumentar, o que pode gerar desafios, mas também oportunidades para o desenvolvimento de serviços e produtos específicos para este grupo etário.

Sustentabilidade ambiental:

A Grécia tem uma natureza rica e diversificada, com muitas áreas protegidas. O governo tem vindo a investir em políticas de sustentabilidade ambiental, como a promoção de energias renováveis e a gestão de resíduos.

Desafios e oportunidades:

O declínio populacional pode gerar desafios, como a escassez de mão de obra e a diminuição da taxa de crescimento económico. No entanto, também pode trazer oportunidades para o desenvolvimento de uma economia mais sustentável e para a melhoria da qualidade de vida da população.

Políticas públicas:

A Grécia tem políticas públicas que visam apoiar a população idosa, promover a educação e a saúde, e garantir o acesso a serviços de qualidade.

Exemplo:

A Grécia pode ser um exemplo para outros países que enfrentam desafios demográficos. A combinação de políticas públicas, envelhecimento populacional e outros fatores pode levar a um equilíbrio entre crescimento demográfico e qualidade de vida.

Conclusão:

O decrescimento populacional na Grécia não é sinónimo de crise social ou ambiental. A combinação de políticas públicas, envelhecimento populacional e outros fatores pode levar a um equilíbrio entre crescimento demográfico e qualidade de vida, demonstrando que é possível alcançar a prosperidade social e ambiental mesmo com um declínio populacional.

O exemplo da Grécia, que tem uma idade mediana de 46 anos em 2024, mostra que pode haver decrescimento da população com prosperidade social e ecológica

A Grécia já deu grandes contribuições para a humanidade no passado, mas foi considerada uma “Nação falida” após a crise financeira de 2008. A renda per capita caiu e parecia que a Grécia iria entrar em uma fase de retrocesso do bem-estar, junto ao envelhecimento populacional. Mas, apesar das dificuldades, a Grécia reagiu e tem apresentado certa recuperação do progresso social e ambiental nos últimos 10 anos.

A Grécia tinha uma renda per capita, em preços constantes, em poder de paridade de compra (ppp), de US$ 26,8 mil em 1980 e uma população de 9,6 milhões de habitantes, aumentando para US$ 31,5 mil no ano 2000, com uma população de 10,8 milhões de habitantes. O pico da renda ocorreu em 2007 com US$ 41,9 mil e o pico da população ocorreu em 2011 com 11,1 milhões de habitantes. Na década passada houve decrescimento da economia e da população. A renda per capita atingiu o nível mais baixo do século em 2020, durante a pandemia da covid-19.

Mas na atual década a renda voltou a crescer, mesmo em um quadro de decrescimento populacional. Em 2025, a renda per capita recuperou para US$ 38,6 mil, enquanto a população caiu para 10,4 milhões de habitantes. As estimativas do FMI mostram que a renda per capita grega deve atingir US$ 41,9 mil em 2030, enquanto a população deve diminuir para 10,3 milhões na mesma data, conforme mostra o gráfico abaixo. Ou seja, a redução do volume de habitantes não tem impedido a recuperação do crescimento do poder de compra médio da população grega.

No pensamento convencional, o envelhecimento populacional conjugado com o decrescimento demográfico é interpretado como “armadilha fiscal gerontológica” ou “inverno demográfico” e seria o fim da linha para o desenvolvimento humano de qualquer nação. Contudo, o exemplo da Grécia, que tem uma idade mediana de 46 anos em 2024, mostra que pode haver decrescimento da população com prosperidade social e ecológica.

O gráfico abaixo, do Instituto Global Footprint Network, apresenta os valores da pegada ecológica e da biocapacidade da Grécia de 1961 a 2019, com uma estimativa até 2022. A pegada ecológica serve para avaliar o impacto do ser humano sobre a biosfera. A biocapacidade, avalia o montante de terra, água e demais recursos biologicamente produtivos para prover bens e serviços do ecossistema, sendo equivalente à capacidade regenerativa da natureza. Ambas as medidas são representadas em hectares globais (gha).

Em 1961, a Grécia tinha uma biocapacidade de 10,9 milhões de gha e uma pegada ecológica de 14,9 milhões de gha. Portanto, havia um pequeno déficit ambiental. Até o final do século XX este déficit aumentou. No ano 2000, a biocapacidade estava em 19,5 milhões de gha e a pegada ecológica em 73,2 milhões de gha (foi o ano do maior déficit ambiental). Mas desde então, o déficit ambiental diminuiu. Em 2022, a pegada ecológica passou para 39,3 milhões de gha e a biocapacidade ficou em 26,7 milhões de gha. Isto significa que ainda existe um déficit ambiental, mas ele diminui em 50% dede o ano 2000.

De fato, a diminuição da população em idade ativa significou o fim do 1º bônus demográfico. Mas a Grécia contou com o 2º bônus demográfico – bônus da produtividade – e o 3º bônus demográfico – bônus da longevidade e da geração prateada. O padrão da produção se alterou e contribuiu para a melhoria das condições ambientais.

Esta visão sobre o decrescimento populacional como oportunidade de progresso social e ambiental é apontada pelo renomado demógrafo Wolfgang Lutz, que traça um quadro bastante otimista do futuro da civilização humana se for dada prioridade à educação universal e, em particular, à educação feminina:

“Mais investimento em educação compensa em termos de maior bem-estar, e ainda mais quando combinado com níveis de fecundidade que levam ao declínio populacional a longo prazo em países individuais e, em última análise, em todo o mundo. Portanto, esta conclusão apoia o título do artigo, que afirma que o declínio da população global não é apenas provável, mas também irá beneficiar o bem-estar humano a longo prazo” (Lutz, 2023, p. 13).

Desta forma, o envelhecimento populacional é inexorável, mas isto não implica necessariamente em retrocesso nos indicadores sociais. O mundo será um lugar melhor para se habitar se o decrescimento populacional dos países for acompanhado do aumento da renda per capita e da redução da pegada ecológica e do déficit ambiental. Um mundo com menor quantidade de pessoas, pode ser um mundo com maior qualidade de vida humana e ecológica.

Pirâmide populacional do Grécia em 2025

O avanço tecnológico pode compensar a diminuição do número de trabalhadores. Por exemplo, a Inteligência Artificial (IA) – a despeito de seus efeitos potencialmente perigosos – pode contribuir para mitigar as tendências de declínio da população em idade produtiva, mesmo não substituindo completamente o trabalho humano. A IA pode ajudar a aumentar a produtividade, transformar setores e criar novas oportunidades, compensando, em parte, a escassez de mão de obra, podendo contribuir da seguinte forma:

1. Aumento da produtividade

A IA pode automatizar tarefas repetitivas e rotineiras, liberando os trabalhadores humanos para focarem em tarefas mais complexas e de maior valor agregado. Isso é especialmente importante em setores como a manufatura, serviços financeiros, saúde e logística, onde a automação já está permitindo operações mais eficientes.

2. Compensação em setores críticos

Nos cuidados de saúde e na assistência aos idosos, onde a demanda aumentará devido ao envelhecimento populacional, a IA pode desempenhar um papel crucial. Sistemas baseados em IA podem ajudar no diagnóstico precoce de doenças, monitoramento de pacientes e administração de medicamentos, reduzindo a carga sobre médicos, enfermeiros e cuidadores.

3. Economia baseada em habilidades tecnológicas

Com a adoção de IA, muitos setores estão se transformando, exigindo novas habilidades. Isso pode compensar o decrescimento da força de trabalho em setores mais tradicionais, desde que as economias estejam preparadas para transições tecnológicas. A educação e a requalificação serão cruciais para permitir que as pessoas se adaptem a essas mudanças.

4. Autonomia em infraestrutura e transportes

Sistemas autônomos, como veículos sem motorista e drones, podem reduzir a necessidade de trabalhadores em setores como transporte e logística. Essas inovações também podem ser aplicadas em infraestruturas inteligentes para melhorar a eficiência de cidades e indústrias, com menos necessidade de mão de obra direta.

5. Melhoria da eficiência econômica

A IA pode ajudar a otimizar processos econômicos em várias escalas. Com a capacidade de analisar grandes volumes de dados e prever padrões, a IA pode identificar áreas de melhoria nas cadeias de suprimento, na alocação de recursos e no consumo de energia, aumentando a produtividade geral da economia.

6. Automação de trabalhos intelectuais

Além dos trabalhos manuais, a IA também pode assumir tarefas que tradicionalmente requerem habilidades cognitivas, como análises financeiras, geração de conteúdo e tomada de decisões estratégicas, o que pode compensar a falta de profissionais em certos campos especializados.

Como disse Larry Fink, Chairman and CEO at BlackRock (2025): “Há uma preocupação de que a IA possa eliminar empregos. É uma preocupação válida. Mas em sociedades ricas e envelhecidas que enfrentam escassez inevitável de mão de obra, a IA pode ser menos uma ameaça do que uma tábua de salvação”.

Evidentemente, o progresso tecnológico não é inevitavelmente positivo, uma vez que ele precisa ser orientado por escolhas conscientes que busquem beneficiar o coletivo e não apenas o poder econômico. Para garantir que os avanços tecnológicos beneficiem a maioria da população e não apenas uma elite é importante garantir o funcionamento de instituições fortes e inclusivas, possibilitando um futuro mais próspero e equitativo para todas as pessoas.

As transições demográfica, energética e tecnológica podem reconfigurar a dinâmica social e econômica no século XXI.

O caso da Grécia deve servir de inspiração para os demais países do mundo, especialmente para aqueles países que apresentam grande crescimento populacional e baixo crescimento econômico, visando a redução da pobreza e o aumento da qualidade de vida humana e ambiental. (ecodebate)

terça-feira, 15 de julho de 2025

Impactos climáticos globais que você precisa conhecer

Desmatamento na Amazônia: Impactos climáticos globais que você precisa conhecer.
Mudanças Climáticas: Causas humanas e Impactos Globais

Os impactos climáticos globais, causados principalmente pelas mudanças climáticas e pelo aquecimento global, são uma série de consequências que afetam o planeta e a vida em todos os seus níveis. Alguns dos principais impactos incluem o aumento da temperatura média do planeta, o derretimento de geleiras e calotas polares, o aumento do nível do mar, a alteração dos padrões de chuva e temperatura, a intensificação de eventos climáticos extremos como tempestades e secas, e a perda de biodiversidade e extinção de espécies.

Impactos Detalhados:

Aumento da Temperatura:

A temperatura média global tem aumentado, com a última década sendo a mais quente já registrada.

Derretimento de Gelo e Aumento do Nível do Mar:

O derretimento de geleiras e calotas polares contribui para o aumento do nível do mar, o que pode levar à inundação de áreas costeiras e deslocamento de populações.

Mudanças nos Padrões Climáticos:

Há mudanças nos padrões de chuva e temperatura, com alguns locais experimentando mais chuvas, enquanto outros sofrem com secas prolongadas.

Intensificação de Eventos Extremos:

Tempestades, inundações, ondas de calor, secas e incêndios florestais estão se tornando mais frequentes e intensos devido às mudanças climáticas.

Perda de Biodiversidade:

A mudança no clima pode levar à extinção de espécies e à perda de biodiversidade, pois os ecossistemas não conseguem se adaptar rapidamente às novas condições.

Impactos na Saúde Humana:

As mudanças climáticas podem afetar a saúde humana, causando doenças transmitidas por vetores (como mosquitos), problemas respiratórios devido à poluição do ar, e aumento de casos de doenças relacionadas ao calor.

Impactos na Agricultura:

Mudanças nos padrões de chuva e temperatura podem afetar a produção agrícola, levando a problemas de escassez de alimentos e aumento de preços.

Mudanças Climáticas: Causas naturais e Impactos Globais

Impactos Econômicos:

Os impactos climáticos podem causar prejuízos econômicos, como desastres naturais, perda de produção agrícola, e aumento de custos com saúde.

Impactos Sociais:

As mudanças climáticas podem levar a deslocamentos de pessoas, conflitos por recursos escassos, e aumento da pobreza e desigualdade.

Ações para Mitigar os Impactos:

Redução das Emissões de Gases de Efeito Estufa:

É crucial reduzir a emissão de gases de efeito estufa, como CO2 e metano, que contribuem para o aquecimento global.

Transição para Energias Renováveis:

A transição para fontes de energia renováveis, como solar e eólica, é essencial para reduzir a dependência de combustíveis fósseis.

Preservação de Ecossistemas:

A preservação de florestas e outros ecossistemas é importante para a absorção de CO2 e a manutenção da biodiversidade.

Adaptação às Mudanças:

É importante adaptar as cidades e as comunidades às mudanças climáticas, como a construção de infraestrutura resiliente a eventos extremos e a implementação de sistemas de alerta precoce.

Conscientização e Educação:

É fundamental conscientizar a população sobre as mudanças climáticas e a importância de ações para mitigá-las.

Ao entender os impactos climáticos globais e as ações que podem ser tomadas para mitigá-los, é possível contribuir para um futuro mais sustentável e resiliente.

A floresta amazônica, essencial para o clima e chuvas da América do Sul, enfrenta ameaças que afetam desde a produção agrícola até a saúde global. Entenda como o vasto impacto do desmatamento pode gerar aumento de mortes e doenças respiratórias.

Descubra como a perda da maior floresta tropical do mundo influencia o regime de chuvas, o aquecimento global e as consequências socioeconômicas e ambientais para o Brasil e o planeta.

O desmatamento da Amazônia reduz a capacidade da floresta de atrair e reciclar a água da chuva, diminuindo a quantidade e a regularidade das precipitações na região e em áreas mais distantes.

Resumo: A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e regula o clima e o ciclo de chuvas de toda a América do Sul e de outras regiões do planeta. Ela faz isso por meio dos rios voadores, que são massas de ar úmido que transportam a umidade do oceano Atlântico para o interior do continente e depois para o sul. O desmatamento da Amazônia reduz a capacidade da floresta de atrair e reciclar a água da chuva, diminuindo a quantidade e a regularidade das precipitações na região e em áreas mais distantes. Além disso, o desmatamento aumenta a emissão de gases de efeito estufa, que contribuem para o aquecimento global.

A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo, abrangendo cerca de 59% do território brasileiro e parte de outros oito países sul-americanos. Além de abrigar uma rica biodiversidade, a floresta desempenha um papel fundamental na regulação do clima e no ciclo de chuvas de toda a América do Sul e até de outras regiões do planeta. No entanto, nos últimos anos, a Amazônia vem sofrendo com altos índices de desmatamento e queimadas, que ameaçam sua integridade e seus serviços ecossistêmicos.

Um dos principais mecanismos que a floresta utiliza para influenciar o clima é o fenômeno dos rios voadores, que são massas de ar úmido que transportam a umidade evaporada do oceano Atlântico para o interior do continente. Ao chegar na Amazônia, essa umidade se transforma em chuva, que é devolvida para a atmosfera pela transpiração das árvores e plantas.

Esse processo se repete várias vezes, formando correntes de vapor que seguem para o oeste e depois, ao encontrar a Cordilheira dos Andes, mudam de direção para o sul. Assim, os rios voadores contribuem para as chuvas nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil, além de outros países como Bolívia, Argentina e Paraguai.
O desmatamento da Amazônia é um grave problema ambiental que traz consequências não apenas para a biodiversidade, mas também para o regime de chuvas e o clima do Brasil e do mundo. Segundo um estudo publicado na revista Nature Climate Change, a perda de floresta na região pode reduzir em até 12% a precipitação na América do Sul e em até 5% na Europa e na África.

Quando a floresta é desmatada ou queimada, ela perde sua capacidade de atrair a umidade e de reciclar a água da chuva. Isso reduz a quantidade e a regularidade das precipitações na região e em áreas mais distantes. Além disso, o desmatamento aumenta a emissão de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono (CO2), que contribuem para o aquecimento global. A floresta amazônica é um importante sumidouro de carbono, pois retira esse gás da atmosfera pela fotossíntese e o armazena na biomassa vegetal. Sem desmatamento e queimadas, a Amazônia brasileira seria capaz de absorver 0,19 bilhões de toneladas de CO2 por ano.

Quando a floresta amazônica é derrubada, o processo hidrológico é enfraquecido e o clima se torna mais seco e quente. Isso pode afetar a produção agrícola, a geração de energia hidrelétrica, a saúde humana e a biodiversidade.

As consequências do desmatamento da Amazônia são graves e variadas. Entre elas, podemos citar:

– Alteração do funcionamento dos ecossistemas;

– Perda da biodiversidade e dos recursos naturais;

– Prejuízos econômicos e sociais para as populações locais e regionais;

– Impacto na fertilidade do solo e nos ciclos hidrológicos;

– Aumento das temperaturas médias e dos eventos climáticos extremos;

– Crescimento das taxas de nascimentos prematuros;

– Aumento de mortes e doenças respiratórias nas pessoas e nos animais.

Diante desse cenário, é urgente adotar medidas para conter o avanço do desmatamento na Amazônia e promover o uso sustentável dos recursos naturais. Além disso, é necessário investir em fiscalização, monitoramento, educação ambiental e incentivos econômicos para a conservação da floresta.

Somente assim será possível garantir a sobrevivência da Amazônia e dos benefícios que ela proporciona para o Brasil e para o mundo. (ecodebate)

Gelo derrete 17 vezes mais rápido que a média na Groenlândia

Icebergs flutuam nas águas de Nuuk, na Groenlândia, onde temperaturas foram até 3,9°C mais quentes que o normal.

O estudo do World Weather Attribution aponta que a onda de calor recorde em maio na Groenlândia foi 3°C mais quente devido às mudanças climáticas.

O derretimento do gelo na Groenlândia foi 17 vezes mais rápido que a média, com impactos sérios nas comunidades inuit e riscos para o equilíbrio climático.

Cientistas alertam sobre a possível irreversibilidade do colapso das geleiras, o risco às nações insulares e a necessidade urgente de abandonar combustíveis fósseis.

Um estudo divulgado hoje pelo grupo científico World Weather Attribution concluiu que a onda de calor recorde registrada em maio na Islândia e na Groenlândia foi, em média, 3°C mais quente por causa das mudanças climáticas provocadas pela queima de combustíveis fósseis. A pesquisa mostra que o aquecimento global já impõe riscos imediatos até a países de clima frio, com impactos diretos na saúde das populações locais e no equilíbrio climático global.

O que aconteceu?

- Onda de calor recorde na Islândia e na Groenlândia. No dia 15 de maio, a estação do aeroporto de Egilsstaðir, na Islândia, registrou 26,6°C — novo recorde nacional para o mês. Em 19/05/25, Ittoqqortoormiit, no leste da Groenlândia, marcou 14,3°C, muito acima da média histórica de 0,8°C para o período.

- Perda massiva de gelo. Segundo os cientistas, o aquecimento global tornou a onda de calor cerca de 3°C mais quente na Islândia e até 3,9°C mais quente na Groenlândia, em comparação com o clima pré-industrial. Na Groenlândia, o derretimento da camada de gelo durante os 7 dias de calor foi 17 vezes superior à média para o mês.

- Impactos imediatos e futuros. Além do derretimento acelerado, o calor precoce traz riscos para populações vulneráveis. Na Islândia, o aumento súbito de temperatura pode afetar especialmente pessoas com problemas de saúde, antes que o corpo se acostume às mudanças. Na Groenlândia, o gelo marinho mais fino dificulta o acesso das comunidades indígenas inuit aos territórios de caça tradicionais e ameaça modos de vida milenares — inclusive provocando uma redução drástica no número de cães de trenó, usados há séculos na região.

- Derretimento pode ser irreversível. A pesquisa reforça o alerta sobre o ponto de não retorno do manto de gelo da Groenlândia. Cientistas estimam que até mesmo 1,5°C de aquecimento pode desencadear um colapso irreversível das geleiras, elevando o nível do mar em vários metros nos próximos séculos. Isso colocaria em risco a sobrevivência de nações insulares, como Vanuatu, Kiribati e Tuvalu.

- Derretimento afeta a circulação oceânica global. A Corrente de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC), que regula o clima em várias partes do mundo, pode enfraquecer ou colapsar com o avanço do aquecimento, provocando mudanças climáticas severas e generalizadas.

- Cientistas reforçam alerta sobre combustíveis fósseis. Se o aquecimento global atingir 2,6°C até 2100 — como previsto caso as emissões sigam no ritmo atual — ondas de calor como a registrada em maio poderão ser ainda 2°C mais intensas, advertem os pesquisadores.

“O que acontece no Ártico não fica no Ártico. Sabemos exatamente o que está causando o aquecimento e o derretimento — a queima de petróleo, gás e carvão. A boa notícia é que podemos impedir que o calor extremo piore ainda mais, o que exige abandonar os combustíveis fósseis. Isso não requer mágica. Temos o conhecimento e a tecnologia necessários — mas é preciso reconhecer que os direitos humanos são para todos, não apenas para os ricos e poderosos” - Friederike Otto, climatologista do Imperial College London.

- Ártico aquece mais do que o dobro da média global. O fenômeno do "amplificação ártica" — no qual o Ártico aquece mais rápido do que o restante do planeta — está diretamente ligado à perda do gelo, que é substituído por oceano escuro, capaz de absorver muito mais calor solar.

- Estudo envolveu especialistas de 6 países. O estudo contou com a participação de 18 cientistas de universidades e institutos meteorológicos da Islândia, Dinamarca, Suécia, Reino Unido, Estados Unidos e Países Baixos. Halldór Björnsson, do Escritório Meteorológico da Islândia, afirma que os eventos recentes representam uma ruptura nas estatísticas históricas. "Estamos vendo algo além de um evento isolado. É uma mudança no padrão do clima".
Estudo recente revelou que o manto de gelo da Groenlândia está a diminuir a um ritmo alarmante.

O manto de gelo da Groenlândia perde uma Torre Eiffel de gelo a cada hora, o perturbador paralelismo de um cientista.

A um ritmo vertiginoso e alarmante, a camada de gelo da Groenlândia está a perder uma quantidade de gelo equivalente à altura da icônica Torre Eiffel a cada hora. (uol)

domingo, 13 de julho de 2025

A transição religiosa no Brasil: 1872-2049

Fica evidente que o Brasil está passando por um processo de transição religiosa que se desdobra em quatro movimentos: declínio absoluto e relativo das filiações católicas; aumento acelerado das filiações evangélicas; crescimento percentual das religiões não cristãs; aumento absoluto e relativo das pessoas que se intitulam sem religião.
A aceleração da transição religiosa no Brasil: 1872-2032

O Brasil foi concebido no contexto das grandes navegações promovidas pela Europa cristã. A ocupação econômica das terras americanas constituiu um capítulo fundamental da expansão comercial europeia. No entanto, para além dos interesses econômicos, é importante destacar que o Brasil nasceu e se desenvolveu profundamente vinculado à religião católica, especialmente ao catolicismo ibérico.

O projeto colonizador português tinha como uma de suas metas prioritárias a evangelização do Novo Mundo. As velas das naus comandadas por Pedro Álvares Cabral ostentavam a Cruz de Malta — uma cruz de 8 pontas, formada por 4 “Vs”, cujo desenho remonta às cruzadas medievais. O primeiro nome atribuído ao território foi Ilha de Vera Cruz.

Com o avanço das explorações e a constatação de que se tratava de um continente, o nome foi alterado para Terra de Santa Cruz. Foi também aos pés de uma cruz que se oficializou a Primeira Missa em solo brasileiro, celebrada por Frei Henrique de Coimbra no domingo, 26 de abril de 1500 (ALVES, 2022).

O catolicismo tornou-se, ao longo do tempo, uma das principais marcas identitárias do Brasil. Até o início da República, a Igreja Católica era a única instituição religiosa oficialmente reconhecida, mantendo-se hegemônica por grande parte do século XX. Ser brasileiro era, em larga medida, sinônimo de ser católico.

O primeiro censo demográfico do país, realizado em 1872 — meio século após a Independência —, indicou que 99,7% da população de 9,9 milhões de habitantes se declarava católica. Entre esses estavam a maioria dos escravizados e dos povos indígenas, classificados como católicos. Apenas 0,1% (cerca de 10 mil pessoas) foram registrados como evangélicos, em sua maioria imigrantes europeus oriundos de países de tradição protestante. Em 1890, primeiro ano da República pouca coisa mudou nos números.

Mas 98 anos depois, em 1970, a população total brasileira deu um salto para 93,1 milhões de habitantes, sendo 85,5 milhões de católicos (91,8%), 4,8 milhões de evangélicos (5,2%), 2,1 milhões de outras religiões (2,3%) e 702 mil autodeclarados sem religião (0,8%). A perda de filiações católicas ficou pouco abaixo de 1% por década.

Todavia, a redução do percentual de católicos brasileiros se acelerou bastante nas décadas seguintes. O número de católicos chegou a 121,8 milhões (83%) em 1991, passou para 124,9 milhões (73,6%) em 2000 e diminuiu para 123,3 milhões em 2010. Percebe-se que o número absoluto de católicos atingiu o valor máximo no ano 2000 e, pela primeira vez na história brasileira, o número absoluto de católicos caiu na década inaugural do século XXI.

O gráfico abaixo mostra que o percentual de pessoas que se autodeclaram católicas caiu de 89% em 1980, para 83,3% em 1991, para 73,9% no ano 2000, para 64,6% em 2010 e 56,7% em 2022. Entre 1980 e 2022 o percentual de pessoas que se autodeclaram evangélicos passou de 6,6% para 26,9%. Em 2022, o percentual de pessoas que se declaram sem religião ficou em 9,3% e o percentual de pessoas das demais religiões ficou em 7,1%. Os dados de 2010 e 2022 não incluem as crianças com menos de 10 anos.

Fica evidente que o Brasil está passando por um processo de transição religiosa que se desdobra em quatro movimentos: declínio absoluto e relativo das filiações católicas; aumento acelerado das filiações evangélicas; crescimento percentual das religiões não cristãs; aumento absoluto e relativo das pessoas que se declaram sem religião.

A tabela abaixo mostra a variação anual das mudanças percentuais dos quatro grandes grupos religiosos no Brasil entre 1980 e 2022. Nota-se que a queda dos católicos foi de -0,52% entre 1980 e 1991, subiu para o recorde de -1,04 entre 1991 e o ano 2000, caiu ligeiramente para -0,89% entre 2000 e 2010 e teve uma queda mais expressiva de -0,69% entre 2010 e 2022.

Os evangélicos cresceram 0,22% ao ano entre 1980 e 1991, subiram para 0,71% entre 1991 e 2000, caíram ligeiramente para 0,63% ao ano entre 2000 e 2010 e tiveram uma queda mais significativa para 0,43% entre 2010 e 2022. O grupo que se autodeclara sem religião cresceu 0,18% ao ano entre 1980 e 1991, subiu para 0,20% entre 1991 e 2000, caiu para 0,15% ao ano entre 2000 e 2010 e caiu novamente para 0,12% entre 2010 e 2022.

Já o grupo das demais religiões apresentou uma variação positiva de 0,12% ao ano entre 1980 e 1991, subiu ligeiramente para 0,13% ao ano entre 1991 e 2000, caiu para 0,11% ao ano entre 2000 e 2010 e subiu para 0,14% ao ano entre 2010 e 2022. O maior crescimento ocorreu entre as religiões de matriz africana (Umbanda e Candomblé) que passaram de 0,3% do total populacional em 2010 para 1% em 2022.
Há que se destacar duas observações sobre o censo demográfico 2022. Primeiro é que houve um erro de cobertura censal que pode ter afetado ligeiramente os dados do quesito religião de 2022, pois enquanto o censo indicou uma população total de 203,081 milhões de habitantes em 2022, as projeções populacionais (revisão 2024) indicaram 210,863 milhões de habitantes (Alves, 02/09/2024). Em segundo lugar, houve uma ligeira mudança de metodologia, pois os resultados do censo 2022 não incluíram as crianças de 0 a 9 anos. Proporcionalmente os evangélicos são mais fortes entre os jovens e os católicos são mais fortes entre os idosos.

De qualquer maneira, os resultados do censo demográfico de 2022 mostram que houve uma desaceleração da queda dos católicos e uma redução do ritmo da subida dos evangélicos e também do grupo sem religião (a ausência de crianças com menos de 10 anos afetou a taxa do grupo sem religião). A única aceleração (mesmo que pequena) foi do grupo das demais religiões, conforme mostrado na tabela acima.

Tomando como base a variação percentual anual dos quatro grandes grupos entre 2010 e 2022, o gráfico abaixo apresenta uma projeção até o ano de 2049 quando as filiações evangélicas podem ultrapassar as filiações católicas se o ritmo da última variação intercensal for mantida.

O gráfico mostra que o percentual de católicos deve cair para 51,2% em 2030, para 44,3% em 2040 e para 38% em 2049. O percentual de evangélicos deve subir para 30,4% em 2030, para 34,7% em 2040 e para 38,6% em 2049. O percentual de pessoas que se declaram sem religião deve chegar a 12,5% em 2049 e o percentual das demais religiões deve chegar a 10,9% em 2049.

Em projeção anterior publicada aqui no Portal Ecodebate (Alves, 12/10/2022) foi estimado que a mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos se daria em 2032. Na ausência de dados oficiais do IBGE entre 2010 e 2022, utilizamos os dados do grande crescimento dos templos evangélicos como base para estimar uma aceleração da transição religiosa no Brasil, como mostrado no artigo “O acelerado crescimento dos templos evangélicos e a transição religiosa no Brasil” (Alves, 20/12/2023).

Contudo, os dados do censo 2022, mesmo com suas possíveis limitações, mostram que houve uma desaceleração da transição religiosa no Brasil entre 2010 e 2022, com os católicos caindo em ritmo menor e os evangélicos subindo em ritmo mais lento.

Estudos mais aprofundados são necessários para avaliar toda a complexidade do cenário religioso do país.

Sem dúvida, os católicos mostraram resiliência e diminuíram o ritmo de perda de fiéis, valendo-se da capilaridade da longa tradição da Igreja Católica no Brasil. Os dados do censo 2022 indicam que os católicos devem manter a maioria absoluta (mais de 50%) das filiações religiosas no Brasil na atual década. A que se destacar que os evangélicos ultrapassaram os católicos no Acre e em Rondônia.

O ritmo de avanço dos evangélicos, no geral, perdeu força. Evidentemente, as explicações são multifacetadas. Porém, há evidências de que a associação entre alguns grupos evangélicos e movimentos de extrema-direita tem causado afastamento de fiéis mais moderados, além de gerar críticas dentro e fora das igrejas. Esse fenômeno ocorre em vários países, incluindo o Brasil, onde parte do evangelicalismo se alinhou a discursos políticos polarizados.

Uma das possíveis razões para o afastamento de moderados é que muitos fiéis buscam nas igrejas um espaço espiritual, não político. Quando líderes religiosos adotam posições partidárias radicais, alguns membros se sentem desconfortáveis ou até traídos. Igrejas que abraçam discursos extremistas (contra minorias, negacionistas, contra os direitos reprodutivos, etc.) podem afastar jovens e pessoas com visões mais inclusivas. Escândalos envolvendo pastores aliados a políticos controversos ou casos de corrupção e abusos sexuais minam a confiança nas instituições religiosas.

Desta forma, o fundamentalismo de setores evangélicos mais radicais parece provocar rejeição em boa parte da população brasileira. Há relatos de pessoas que deixaram igrejas evangélicas devido ao apoio incondicional a Bolsonaro e a pautas extremistas.

A politização extrema pode fortalecer a lealdade de quem vê a fé e a política como uma batalha, mas pode afastar os setores moderados que desejam equilibrar engajamento político e espiritualidade.

Os dados do censo 2022 não possibilitam uma análise definitiva sobre a transição religiosa no Brasil. Novas pesquisas serão necessárias para se traçar um quadro mais amplo do cenário atual e das perspectivas futuras.

O debate está aberto e é preciso mais tempo para se analisar todos os aspectos da transição religiosa no maior país católico do mundo. (ecodebate)

Crescimento de sem religião favorece a laicidade nacional

Censo 2022: Crescimento de sem religião favorece a laicidade nacional.

Análise dos dados do IBGE revela aumento de 7,9% para 9,3% de brasileiros sem religião, com destaque para o sudeste e RJ, e seu impacto na neutralidade do estado

Acompanhe os dados do Censo 2022 que mostram não apenas a mudança entre católicos e evangélicos, mas principalmente o crescimento de 1,4 % da população sem religião. Com 16,4 milhões de pessoas, e o Rio de Janeiro com a maior proporção (16,9%), esse fenômeno é um pilar para o fortalecimento da laicidade estatal e a garantia de direitos plurais.
Além da polarização religiosa: o crescimento dos sem religião e o fortalecimento da laicidade no Brasil

O Censo Demográfico de 2022 trouxe à tona discussões importantes sobre o panorama religioso brasileiro. A grande mídia, com razão, deu destaque à redução percentual de católicos apostólicos romanos e ao contínuo crescimento dos evangélicos, uma tendência já observada em censos anteriores.

No entanto, um dado igualmente relevante, e muitas vezes subestimado, é o aumento percentual das pessoas que se declaram sem religião. Essa parcela da população, que já representa mais de 16 milhões de brasileiros, desempenha um papel crucial no fortalecimento da laicidade do Estado no longo prazo.

O que os dados revelam

Os números do Censo 2022 são claros:

• De 2010 a 2022, a proporção de católicos apostólicos romanos na população de 10 anos ou mais diminuiu de 65,1% para 56,7%, uma queda de 8,4%.

• No mesmo período, os evangélicos viram sua participação crescer de 21,6% para 26,9%, um aumento de 5,2%.

• Enquanto isso, a parcela dos que se declaram sem religião saltou de 7,9% em 2010 para 9,3% em 2022, um crescimento de 1,4 %. Embora possa parecer modesto em comparação com as oscilações das duas maiores religiões, esse aumento é constante e significativo, refletindo um fenômeno social em evolução. Em números absolutos, são 16,4 milhões de pessoas que se identificam sem religião.

Perfil e distribuição geográfica

É interessante notar o perfil demográfico desse grupo: a maioria das pessoas que se declaram sem religião são homens, representando 56,2% ou 9,2 milhões do total.

Geograficamente, a Região Sudeste se destaca, com 10,6% de sua população sem religião, superando a média nacional e concentrando 7,9 milhões de pessoas. Já a Região Sul apresenta a menor proporção, com 7,1%. Entre as unidades da federação, Roraima e Rio de Janeiro lideram com 16,9% de sua população sem religião, enquanto Piauí (4,3%), Ceará (5,3%) e Minas Gerais (5,7%) registram as menores proporções.

A importância do crescimento dos sem religião para a laicidade

O Brasil é um Estado laico, o que significa que não há uma religião oficial e que o Estado deve ser imparcial em relação a todas as crenças e descrenças. No entanto, a influência de grupos religiosos na esfera pública e política ainda é um tema constante de debate.

O contínuo crescimento do percentual de pessoas que se declaram sem religião é de suma importância para o futuro da laicidade brasileira por diversos motivos:

1. Diversidade de Vozes: À medida que mais pessoas se identificam fora de um arcabouço religioso tradicional, aumenta a diversidade de perspectivas e demandas na sociedade. Isso pode levar a um maior questionamento de políticas ou leis que possam ter um viés religioso, promovendo uma discussão mais abrangente sobre temas como direitos humanos, educação e saúde pública.

2. Pressão por Neutralidade Estatal: O aumento de cidadãos sem filiação religiosa fortalece a cobrança por uma atuação estatal verdadeiramente neutra, desvinculada de dogmas ou interesses de grupos religiosos específicos. Quanto maior a proporção de indivíduos que não se identificam com nenhuma fé, menor a legitimidade de discursos que busquem impor visões religiosas na esfera pública.

3. Diálogo e Respeito: Embora não professem uma religião, a presença crescente dos sem religião reforça a necessidade de um diálogo respeitoso e da coexistência pacífica entre diferentes visões de mundo. Isso contribui para uma sociedade mais tolerante e plural, onde a liberdade de crença – e de não crença – é plenamente assegurada.

Olhando para o futuro

Os dados do Censo 2022 são um lembrete de que a sociedade brasileira é dinâmica e está em constante transformação.

O crescimento das pessoas que se declaram sem religião não é apenas um número estatístico, mas um indicativo de uma mudança cultural que, no longo prazo, poderá pavimentar o caminho para um fortalecimento ainda maior da laicidade do Estado, garantindo que os direitos e liberdades de todos os cidadãos, independentemente de suas convicções ou ausência delas, sejam plenamente respeitados.

Como você percebe essa evolução da paisagem religiosa e secular no Brasil? (ecodebate)

Mudança climática compromete o desenvolvimento de crianças no Brasil

Impactos no desenvolvimento e desigualdades

Estresse tóxico e prejuízos à saúde mental, perda de moradia, deslocamentos forçados e o aumento de doenças infecciosas são apenas alguns dos impactos diretos da crise climática na vida das crianças na primeira infância.
Uma nova publicação lança luz sobre os impactos da crise climática no desenvolvimento de bebês e crianças na primeira infância (0 a 6 anos).

O documento “A primeira infância no centro da crise climática”, produzido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), compila evidências que demonstram como as mudanças no clima e a intensificação de eventos extremos afetam diretamente a saúde, nutrição, aprendizado e bem-estar infantil no Brasil.

Estima-se que 40 milhões de crianças e adolescentes brasileiros enfrentam ao menos um risco climático, sendo que 1,1 milhão sofre com a escassez de água. Globalmente, quase 1 bilhão de crianças vivem em áreas ameaçadas por eventos extremos.

O cenário é agravado pelo aumento na frequência e intensidade dos eventos climáticos no Brasil. Dados mostram um salto expressivo, passando de 1.779 eventos em 2015 para 6.772 em 2023. Ondas de calor, chuvas torrenciais, secas prolongadas e incêndios florestais impõem riscos significativos, em especial para quem está no começo da vida. Uma projeção indica que crianças nascidas em 2020 viverão, em média, 6,8 vezes mais ondas de calor e 2,8 vezes mais inundações de rios e perdas de safra ao longo da vida do que aquelas nascidas em 1960.

“A ciência já nos mostra que a primeira infância é um período crítico para o desenvolvimento humano. Os impactos da crise climática em uma fase tão delicada do desenvolvimento podem comprometer capacidades físicas, cognitivas e emocionais por toda a vida”, afirma Marcia Castro, professora e chefe do departamento de Saúde Global e População da Universidade Harvard e uma das coordenadoras da publicação. “São as crianças pequenas e, em especial, as que já vivem em alguma situação de vulnerabilidade que estão mais expostas aos riscos. Isso evidencia ainda mais as desigualdades e traz a urgência de colocar a primeira infância no centro do debate climático”, completa.
Impactos no desenvolvimento e desigualdades

Estresse tóxico e prejuízos à saúde mental, perda de moradia, deslocamentos forçados e o aumento de doenças infecciosas são apenas alguns dos impactos diretos da crise climática na vida das crianças na primeira infância.

Os riscos envolvem também perdas agrícolas e insegurança alimentar, acesso menor a educação de qualidade e cuidados com a saúde, morte precoce, entre outros.

Esses efeitos são desproporcionalmente sentidos por populações vulneráveis, como crianças negras, indígenas e moradoras das regiões Norte e Nordeste do Brasil, reflexo do racismo ambiental potencializado ainda mais pela pobreza.

O Brasil tem cerca de 18,1 milhões de crianças na primeira infância. Dessas, 8,1 milhões vivem em situação de pobreza ou extrema pobreza. Além disso, 37,4% das crianças brasileiras de 0 a 4 anos (uma em cada três) vivem em situação de insegurança alimentar, o maior índice entre todas as faixas etárias. Ao todo, 5,4 milhões de crianças até 4 anos enfrentam algum grau de insegurança alimentar.

A crise climática também intensifica vulnerabilidades e afeta as relações familiares, comprometendo o desenvolvimento infantil. A perda de renda e o deslocamento forçado dificultam a frequência escolar. No país, mais de 4 milhões de pessoas foram desalojadas por eventos climáticos extremos entre 2013 e 2023. Nas enchentes do Rio Grande do Sul em 2024, 580 mil pessoas foram desalojadas e mais de 3.930 crianças de 0 a 5 anos foram acolhidas em abrigos públicos.

Crianças deslocadas ainda enfrentam maiores riscos: em abrigos temporários, a incidência de doenças diarreicas é 34% superior à média nacional, e a desnutrição aguda é até 2,5 vezes mais frequente. Projeções indicam também que, até 2050, cerca de 216 milhões de pessoas poderão ser forçadas a migrar devido ao clima, sendo aproximadamente 40% desse contingente composto por crianças.

Impactos na educação

A educação infantil também é diretamente afetada pela crise climática, que prejudica a concentração das crianças e destroem a infraestrutura escolar. “Não podemos esquecer que, em momentos de crise, as escolas viram abrigos as aulas são interrompidas. Sem aulas, as desigualdades educacionais aumentam ainda mais”, pondera Castro.

Apenas em 2024, cerca de 1,18 milhão de crianças e adolescentes tiveram as aulas suspensas no Brasil, principalmente por alagamentos. Nas enchentes do Rio Grande do Sul, por exemplo, estima-se que 55.749 horas-aula foram perdidas na educação básica, com prejuízos materiais estimados em R$ 2,36 bilhões.

Vale ressaltar que a falta de acesso a espaços verdes nas escolas é uma realidade: 43,5% das escolas de educação infantil em capitais brasileiras não possuem áreas verdes, índice que sobe para 52,4% nas escolas localizadas em favelas e comunidades urbanas.

Crianças e adolescentes são os mais impactados pelos riscos climáticos

Políticas pública de prevenção

Segundo a publicação, é fundamental investir em proteção imediata, adaptação, infraestrutura e serviços resilientes para minimizar esses impactos.

“Proteger a primeira infância diante da emergência climática não é uma escolha, é uma prioridade. Precisamos de políticas públicas urgentes, baseadas em evidências, que considerem as desigualdades sociais e coloquem bebês e crianças no centro das estratégias de adaptação e prevenção”, defende Alicia Matijasevich, professora associada do Departamento de Medicina Preventiva, Faculdade de Medicina da USP, também coordenadora do working paper.

Os impactos da crise climática na vida das crianças

Recomendações incluem fortalecer a atenção primária à saúde, modernizar saneamento, promover agroecologia e agricultura familiar integrada a programas de transferência de renda, estabelecer espaços seguros para acolhimento infantil em deslocamento, fortalecer saúde mental infantil, priorizar reassentamento digno, criar zonas climatizadas em creches (bairros densos podem ser 5°C mais quentes, escolas podem não ter áreas verdes), capacitar educadores e promover a escuta e participação das crianças na prevenção. (ecodebate)

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Vários eventos climáticos extremos ao mesmo tempo podem ser o novo normal

É possível que eventos climáticos extremos ocorram simultaneamente e se tornem cada vez mais comuns. Estudos científicos indicam que a combinação de eventos como ondas de calor, secas, incêndios florestais e outros, pode se tornar uma realidade cada vez mais frequente devido ao aumento da temperatura e a intensificação do ciclo hidrológico.

Explicação Detalhada:

Eventos Extremos:

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirma que os eventos climáticos extremos estão se tornando o novo normal, com a média de temperatura global ultrapassando 1°C acima dos níveis pré-industriais.

Mudanças Climáticas:

O aumento da frequência e intensidade desses eventos é diretamente ligado às mudanças climáticas, que são causadas pelo aquecimento global, especialmente pela emissão de gases de efeito estufa.

Impacto Conjunto:

A ocorrência simultânea de diferentes eventos extremos pode ter impactos significativos e complexos, especialmente em áreas vulneráveis, onde a falta de planejamento e gestão adequada pode aumentar o risco de desastres naturais e crises sociais.

Exemplos:

Estudos científicos têm identificado que a combinação de ondas de calor com incêndios florestais pode ser comum em diversas regiões, além de outras combinações, como secas e quebras de safra.

Desafios:

Essa mudança no padrão climático exige que as autoridades e a população estejam cada vez mais preparadas para lidar com eventos climáticos múltiplos e complexos, incluindo a necessidade de adaptar infraestruturas, políticas públicas e práticas de vida.

Ondas de calor, secas e incêndios florestais são alguns dos eventos climáticos extremos que devem não apenas se tornar mais frequentes, mas também ocorrer cada vez mais simultaneamente.

Essa descoberta surge de um novo estudo liderado pela Universidade de Uppsala, no qual pesquisadores mapearam o impacto das mudanças climáticas em diferentes regiões do mundo.

Em um novo estudo publicado na revista Earth’s Future, pesquisadores da Universidade de Uppsala e de universidades belgas, francesas e alemãs demonstraram que, em um futuro próximo, diversas regiões do mundo não serão mais afetadas apenas por eventos climáticos isolados. Em vez disso, diversos eventos diferentes ocorrerão simultaneamente ou em rápida sucessão.

O uso de modelos para prever o clima futuro – temperatura, precipitação, vento e assim por diante – é um método comum em pesquisas climáticas.

Neste estudo, os pesquisadores foram um passo além, alimentando esses dados em modelos adicionais que fornecem informações sobre o impacto concreto na sociedade. Ao calcular o efeito das mudanças climáticas sobre, por exemplo, o risco de incêndios florestais ou inundações, surge uma imagem mais clara de como diferentes regiões do mundo podem ser efetivamente afetadas. A análise examina o que acontecerá entre 2050 e 2099.

Os pesquisadores analisaram especificamente seis tipos de eventos: inundações, secas, ondas de calor, incêndios florestais, ventos de ciclones tropicais e quebras de safras.

Eventos climáticos extremos serão cada vez muito mais constantes e devastadores na América do Sul e no mundo todo também.

Ondas de calor e incêndios florestais são uma característica recorrente

O estudo mostra que a combinação de ondas de calor e incêndios florestais aumentará acentuadamente em quase todas as regiões do mundo, exceto onde não há vegetação, como no Saara.

Ondas de calor e secas se tornarão recorrentes em áreas como a região do Mediterrâneo e a América Latina. Áreas que agora geralmente sofrem eventos isolados, como os países nórdicos, também serão mais frequentemente afetadas por ondas de calor e incêndios florestais combinados.

Apresenta novos desafios para a preparação

A análise dos pesquisadores abrange diversos cenários possíveis de emissão. No entanto, o foco principal está em um cenário médio, considerado realista, dadas as tendências atuais de emissão.

É importante enfatizar que essa mudança que observamos não ocorre apenas se considerarmos o caso mais extremo, em que não fazemos nada para reduzir nossas emissões, mas também se considerarmos um cenário menos pessimista. De uma perspectiva social, precisamos ampliar nossa preparação para lidar com esses eventos extremos concomitantes. Enfrentaremos uma nova realidade climática da qual temos experiência limitada atualmente.

Mudanças Climáticas extremas: O Novo Normal em um Mundo com catastrófica e devastadora transformação. (ecodebate)

Microplásticos no ar de casas e carros

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