Após esgotar vegetação na região sul do bioma, destruição ruma para o norte.
Valor da biodiversidade é mil vezes superior ao da agricultura. O Cerrado ainda tem 800 mil Km² de terras agricultáveis, área igual à da França e Reino Unidos juntos, suficiente para duplicar tudo o que já é ocupado pela agropecuária no bioma.
Se o País for inteligente, não precisará desmatar nem um hectare dessa terra. “A riqueza que temos guardada na biodiversidade do Cerrado é mil vezes superior à da agricultura”, diz o engenheiro agrônomo Eduardo Assad, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
A afirmação surpreende. Não só pelo conteúdo, mas por sair da boca de um cientista que há mais de 20 anos dedica sua vida ao agronegócio e que se lembra, sorrindo, dos tempos em que passava o correntão no Cerrado em cima de um trator, na fazenda da família em Quirinópolis, no sul de Goiás. Os tempos mudaram, agora é hora de preservar e pesquisar as riquezas que o bioma tem a oferecer no seu estado natural.
Até mesmo para o bem da própria agricultura. A preservação do Cerrado é a salvação da lavoura. É no DNA das plantas nativas do bioma que estão escondidos os genes capazes de proteger suas inquilinas estrangeiras (a soja, o milho, o algodão, o arroz) do aquecimento global. Dentre as 12 mil espécies nativas conhecidas, só 38 ocorrem no bioma inteiro, o que significa que estão adaptadas a uma grande variabilidade de condições climáticas e de solo.
“A elasticidade genética das plantas do Cerrado é impressionante”, afirma Assad. Ele e sua mulher, Leonor, também pesquisadora, destacam que o Cerrado é uma formação mais antiga do que a Amazônia e a Mata Atlântica, tanto do ponto de vista geológico quanto biológico. O que significa que suas espécies já foram expostas e sobreviveram a todo tipo de situação: muito frio, calor, seca, etc.
Os genes que conferem essa capacidade adaptativa poderiam ser transferidos para culturas agrícolas via transgenia, tornando soja e companhia igualmente resistentes às intempéries climáticas que estão por vir. Só falta descobri-los. O Cerrado é o maior laboratório de prospecção de genes do mundo, mas ninguém olha para isso. Nem estudamos o genoma dessas espécies e já estamos acabando com elas.
Sem falar no potencial farmacológico das plantas medicinais e nos serviços ambientais prestados pelo bioma como um todo: estocagem de carbono, controle climático, controle de erosão, produção de água e outros fatores cruciais para a agricultura. “A conservação tem de ser vista como uma atividade produtiva também”, diz a bióloga Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília.
DESCONHECIMENTO
Não é o que acontece. A riqueza econômica e tecnológica do agronegócio contrasta com a pobreza de recursos e de conhecimento sobre o bioma. “Trabalhar com políticas públicas no Cerrado é muito frustrante”, admite o diretor de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente, Mauro Pires. “Quando se fala em trabalhar com a Amazônia as portas se abrem. Quando se fala em trabalhar com o Cerrado, elas não se mexem.”
Mercedes sente a mesma dificuldade. Ela é coordenadora científica da Rede de Pesquisa Com Cerrado, recém-criada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), com representantes dos 11 Estados do bioma.
A ideia é fazer pelo Cerrado o que o Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera (LBA) faz pela Amazônia, produzindo o conhecimento científico necessário para entender, valorizar e explorar adequadamente, quando possível, os serviços ambientais prestados por seus ecossistemas. “Não há como fazer boa gestão sem informação”, ressalta Mercedes. “Vemos muitas políticas públicas que carecem de embasamento técnico adequado.”
O programa tem R$ 220 mil em caixa para pesquisa. A expectativa é que receba R$ 6 milhões do MCT nos próximos dois anos, mais o valor de uma emenda parlamentar apresentada pela bancada do Distrito Federal, inicialmente orçada em R$ 7 milhões, mas reduzida para R$ 1,7 milhão.
Parte da dificuldade, diz Mercedes, é o Cerrado estar espalhado por várias regiões e não concentrado em um bloco geopolítico coeso, como a Amazônia. “Até a Caatinga tem mais força política do que o Cerrado”, diz o gerente do Programa Cerrado-Pantanal da ONG Conservação Internacional, Mario Barroso, sem desmerecer a importância da Caatinga.
O entendimento vem de acordo com o nível cultural e intelectual de cada pessoa. A aprendizagem, o conhecimento e a sabedoria surgem da necessidade, da vontade e da perseverança de agregar novos valores aos antigos já existentes.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
domingo, 27 de setembro de 2009
Pesquisa indica que El Niño do futuro vai trazer seca ao Sudeste
O aquecimento global tem grandes chances de mudar a dinâmica do El Niño, um dos fenômenos periódicos mais importantes para o clima da Terra. A forma mais atípica do fenômeno pode se tornar cinco vezes mais comum, trazendo consequências como secas no Sudeste e no Sul do Brasil.
O declínio do El Niño convencional e a ascensão do chamado El Niño Modoki (palavra japonesa que significa “parecido, mas diferente”) foi previsto em simulações de computador, detalhadas em artigos na revista científica “Nature” de hoje (El Niño in a changing climate e Climate change: The El Niño with a difference).
Sang-Wook Yeh e seus colegas do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Oceânico da Coreia do Sul assinam a pesquisa, que usou os dados históricos sobre o El Niño (de 1850 até hoje) e as projeções sobre o aquecimento para avaliar como será o fenômeno neste século.
“Desde os anos 1980, o El Niño Modoki já está aparecendo com mais frequência. Yeh e seus colegas mostram que é viável associar isso com o aumento da temperatura que vem acontecendo desde então”, explica Karumuri Ashok, do Centro Apec do Clima, na Coreia do Sul, que comentou a pesquisa a pedido da “Nature”.
Mudança de estilo
A diferença entre os dois tipos de El Niño tem a ver principalmente com a região do oceano Pacífico que passa por um aquecimento anormal de suas águas, desencadeando os efeitos do fenômeno. Enquanto o El Niño tradicional está ligado às águas relativamente quentes no leste do Pacífico, perto da costa peruana, o Modoki aparece na região central do oceano –daí outro de seus apelidos, “El Niño da Linha Internacional da Data”, por estar perto da linha imaginária usada para marcar a mudança de um dia para outro nos fusos horários.
Por enquanto, o El Niño Modoki fica muito atrás da forma normal do evento em número de ocorrências, apenas sete contra 32 casos nos últimos 150 anos. O aumento projetado na nova pesquisa indica que o Modoki poderia se tornar tão comum quanto a forma normal do El Niño. O Nordeste do Brasil vai receber mais chuva do que o normal, impacto que é o contrário do que ocorre no El Niño tradicional.
O Sul e o Sudeste terão menos chuva do que o normal, outra inversão da forma típica do fenômeno, é claro, se mais pesquisas confirmarem as simulações. Lembre-se de que os modelos ainda não são perfeitos.sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Ruralistas e ambientalistas buscam acordo
De acordo com o site pecuária.com.br, em clima de hostilidade desde o início do governo Lula, dirigentes ambientalistas e ruralistas esboçaram ontem uma aproximação política que pode resultar em uma proposta consensual de alteração do Código Florestal Brasileiro, em vigor desde 1965.
Expoentes das partes em litígio "fumaram o cachimbo da paz", como definiu o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), durante seminário promovido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) sobre meio ambiente e produção de alimentos.
A presidente da CNA, senadora Kátia Abreu (DEM-TO), lançou a proposta de revisão do Código Florestal por meio de um "pacto nacional com sanção social", baseado em conhecimentos científicos e dados econômicos e sociais. "Cometemos erros, mas não intencionais. O Brasil tem 56% de cobertura vegetal nativa original e o debate chegou a tempo de salvar o ambiente", afirmou.
O acordo proposto pela CNA deveria conter um compromisso de "desmatamento zero" da floresta Amazônica, da Mata Atlântica, do Pantanal, das áreas de preservação permanente (APPs) e regiões "sensíveis" de topos de morro. Além disso, deve incluir o pagamento por serviços ambientais por "450 milhões de hectares preservados", a legalização das áreas de agropecuária consolidadas e a descentralização da legislação ambiental da União para os Estados.
À vontade diante da plateia de estudantes e dirigentes rurais, Gabeira acenou com a abertura de um diálogo mais concreto com a bancada ruralista. "Aceitamos a ciência para mediar, porque [fixar] 80% como reserva legal na Amazônia é metafísica. Mas o debate sobre rastreamento do gado e uso da água são fundamentais (...) Se não der, vamos para a luta política".
Braço direito da ex-ministra Marina Silva, o ambientalista João Paulo Capobianco defendeu um amplo consenso sobre o tema. "Os ambientalistas sabem que é preciso um acordo. Ninguém quer acabar com a agricultura. Temos que eliminar o desmatamento e recuperar o que for possível". Capobianco concebeu o pacote de arrocho ambiental ao setor rural, que culminou com a publicação de um decreto de crimes ambientais pelo atual ministro Carlos Minc, no fim de 2008. "É ridícula essa separação entre ambientalistas e ruralistas. O acordo não saiu porque algumas lideranças do agronegócio acharam pouco. E esse Código não é fruto do movimento ambientalista".
Mesmo em clima amistoso, Kátia Abreu aproveitou o seminário para rebater ao que considera ataques de ONGs ambientalistas. "Estou cansada de prêmio motosserra, cansada de deboches. Acusações recíprocas não são boas. Temos que agir sem violência, raiva nem rancor", afirmou, em clara referência ao Greenpeace. "Os produtores reagem porque foram provocados por ONGs que os colocam no canto do ringue". Produtor e consultor, o ex-ministro da Agricultura, Alysson Paulinelli, disse que a tensão entre os dois lados tem levado experiências importantes, como a integração lavoura- pecuária- florestas, a ficar "no pelourinho". Para o mediador dos debates, o ex-ministro Roberto Brant, a CNA tem dificuldades para dialogar com todos os segmentos do setor, mas apelou por uma "conservação compatível" com a produção agropecuária. Com informações do Valor.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Casca das árvores filtra a poluição
Por isso, ar é mais puro dentro dos parques do que no entorno
A tese que será defendida em outubro no Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) mostra algo já percebido na prática pelos paulistanos. Nosso organismo está mais protegido da poluição dentro dos parques do que nas extremidades ou fora deles.
O estudo aponta que a concentração de metais pesados no ar é maior nos trechos das áreas verdes próximos a avenidas do que no meio dos parques. O que provoca essa diferença são as árvores, principalmente as do entorno. Elas absorvem os poluentes nas cascas, funcionando como um filtro.
A constatação foi feita pela engenheira florestal Ana Paula Martins, de 34 anos, doutoranda do Laboratório de Poluição da USP, que estudou por quatro anos amostras de cascas de árvores de cinco parques da capital: Trianon e Luz, na região central, Previdência, na zona oeste, e Ibirapuera e Aclimação, na zona sul.
O estudo revela que nenhum deles está imune a pelo menos 11 metais, mas mostra que a concentração desses elementos varia de acordo com a localização de cada parque. O índice de chumbo no Ibirapuera, por exemplo, é de 13,5 mg/kg, enquanto no Previdência, que beira a Rodovia Raposo Tavares, a quantidade é de 3,9 mg/kg.
Para chegar aos índices, a engenheira coletou amostras de cascas da camada externa das árvores que ficavam a 1,5 m de distância do solo. "O ar traz os poluentes, que ficam depositados nas cascas", afirma Ana.
As árvores com maior concentração de poluentes beiram avenidas com grande fluxo de tráfego, como a Avenida Paulista, onde fica o Parque Trianon. Com isso, segundo a engenheira, é possível identificar os tipos de veículos que trafegam próximo a cada área verde e confirmar os efeitos nocivos do tráfego na qualidade do ar.
CONCENTRAÇÃO IDEAL
Ana Paula diz que o escapamento, a freada e o arranque dos carros, que soltam pedaços de pneu, liberam partículas de metais. "Enxofre, zinco, chumbo e cobre vêm da poluição veicular", diz. A dosagem dos metais nas cascas das árvores pode ajudar a listar tipos de poluentes no ar. A CETESB faz a medição somente dos gases e não indica a sua concentração ideal para evitar males à saúde.
"Encapar as avenidas com cobertura vegetal pode diminuir o impacto da poluição na saúde, além de aumentar a qualidade do ar", explica o professor Paulo Saldiva, médico, pesquisador do Laboratório de Poluição da USP e orientador da tese de Ana, recomendando que a população troque o carro pelo transporte coletivo para melhorar a qualidade do ar.
Inalar metais pesados pode trazer mal-estar tanto imediato, como uma tontura, quanto a longo prazo, como dificuldades de aprendizado, embora não existam estudos suficientes sobre o real impacto desses elementos na saúde humana.
Apesar disso, o que se sabe é que essas substâncias são tóxicas para o corpo. "Elas podem induzir a doenças como câncer e distúrbios neurológicos", afirma o pneumologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Ciro Kirchenchteje. Já algumas partículas grandes de metais ficariam retidas nos pelos do nariz, evitando a sua inalação. "Mesmo assim, podem irritar os olhos e secar a mucosa do nariz."
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Não é justo ser o pulmão do mundo e não receber nada
"O Brasil tem que ser muito mais agressivo nas discussões para o acordo climático", diz Rubens Ometto, presidente da Cosan, a maior processadora mundial de cana-de-açúcar.
"Não é só cobrar dos outros países. Tem que ameaçar, ser mais duro nas negociações, para conseguir vantagens, recursos", diz o empresário, sobre a posição que o Brasil deve adotar na Convenção do Clima das Nações Unidas, em Copenhague, em dezembro/09.
"O governo está sendo muito bonzinho e ser bonzinho é fácil, mas improdutivo."
Ometto alega que os países desenvolvidos devastaram suas florestas, criam barreiras para produtos brasileiros como o açúcar, e ainda cobram do Brasil, mesmo que com razão, uma solução para o problema da devastação da floresta.
"Não dá para os brasileiros agora pagarem toda a conta sozinhos. Veja o exemplo do norte-coreano [o líder Kim Jong-il], ele ameaça para valorizar a posição dele."
Se o Brasil não tem bomba, tem com que barganhar, segundo o controlador da Cosan.
"A floresta é a nossa bomba. Temos que criar momentos firmes de troca, senão vamos vendê-la barato", afirma.
Ometto lembra que os Estados Unidos e a Europa protegem-se bem ao não permitir que produtos brasileiros, entre eles o etanol, sejam vendidos sem a cobrança de muita taxa, a ponto de torná-los proibitivos.
"Temos que valorizar nossa floresta também. Não é justo ser o pulmão do mundo sem receber nada. E pior, ainda querer que agricultores e o povo brasileiro paguem a conta", diz.
"É preciso ser mais duro: é a única linguagem que esse pessoal do mundo desenvolvido entende, mas com elegância."
Países ricos, segundo o empresário, pressionam para depreciar produtos brasileiros. Em relação ao etanol, diz que o mundo desenvolvido inventa regras infundadas e argumenta, erroneamente, que a cana entra em área de alimento.
"Temos muita terra para ser plantada, não precisamos devastar florestas. Não há concorrência para nós."
sábado, 19 de setembro de 2009
Aquecimento global pode ser desastroso para saúde
Mudanças climáticas devem aumentar índices de desnutridos no mundo. Foto da AFP na BBC News.
O possível fracasso de países membros em firmar um novo acordo para mudanças climáticas na cúpula da Organização das Nações Unidas (ONU) em dezembro resultará em uma “catástrofe global de saúde”, na opinião de 18 entidades médicas internacionais.
Em carta publicada nas revistas especializadas Lancet e British Medical Journal, as entidades pedem a médicos em todo o mundo que “assumam a liderança” no debate sobre o assunto. Reportagem de Richard Black, Especialista de meio ambiente da BBC News.
Em editoriais, as duas publicações especializadas afirmam ainda que o impacto será maior sobre habitantes de países tropicais pobres. As revistas argumentam que conter as mudanças climáticas poderia trazer outros benefícios, como dietas mais saudáveis e um ar mais puro.
A cúpula da ONU marcada para dezembro, em Copenhagen, na Dinamarca, vai discutir um novo tratado global para o clima, que substituirá o Protocolo de Kyoto.
No entanto, as negociações preparatórias tem sido prejudicadas pela falta de acordo em questões como quanto das emissões de gases associados ao efeito estufa deve ser cortado e como financiar a proteção climática para os países mais pobres.
“Existe um perigo real de que os políticos estejam indecisos, especialmente em tempos de turbulência econômica como estes”, diz a carta assinada por diretores de 18 faculdades de medicina e de outras disciplinas médicas.
“Se as respostas (dos políticos) forem fracas, os resultados para a saúde internacional podem ser catastróficos.”
Risco Crescente
No ínicio do ano, a Lancet publicou, em associação com a University College London, uma grande avaliação dos impactos da mudança climática sobre a saúde.
O levantamento concluiu que o aumento na temperatura global deverá aumentar a transmissão de doenças infecciosas, reduzir suprimentos de comida e água pura em países em desenvolvimento e aumentar o número de pessoas morrendo por problemas associados ao calor em regiões de clima temperado.
Mas a avaliação também reconhecia algumas lacunas na pesquisa. Por exemplo, “quase não existem dados confiáveis sobre mortalidade induzida por ondas de calor na África ou no sul da Ásia”.
Ainda assim, a principal conclusão do estudo foi que, em um mundo que deverá ter 3 bilhões de novos habitantes em meados deste século, “os efeitos da mudança climática sobre a saúde vão atingir a maior parte das populações nas próximas décadas e colocar as vidas e o bem-estar de bilhões de pessoas sob risco crescente”.
Os editoriais da Lancet e do British Medical Journal, que acompanham a carta das entidades médicas, argumentam que a mudança climática fortalece as propostas que organizações governamentais ligadas à saúde e ao desenvolvimento já vêm defendendo.
“Mesmo sem mudança climática, o argumento a favor de energia limpa, carros elétricos, proteção de florestas, eficiência no uso de energia e novas tecnologias agrícolas é forte”, diz o texto. “A mudança climática torna-o irrefutável.”
O editorial, escrito conjuntamente por Michael Jay, presidente da ONG de saúde Merlin, e por Michael Marmot, da UCL, diz ainda que existem várias soluções possíveis.“Uma economia de baixas emissões de carbono vai significar menos poluição”, afirma o editorial. “Uma alimentação com baixas emissões de carbono (especialmente com menor consumo de carne) e mais exercícios vão significar menos problemas como câncer, obesidade, diabetes e doenças cardíacas.”
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Ministério do Meio Ambiente descobre o cerrado brasileiro
O Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Cerrado parece o PAC, anuncia com estardalhaço coisas que o governo deveria estar fazendo calado há muito tempo. Trata como novidade o que não passa de velhas dívidas acumuladas na lerdeza da rotina.
Mas ele tem, sobre o PAC, a vantagem de começar com algum resultado, em vez de sair inaugurando o que ainda é só promessa de campanha presidencial da ministra Dilma Rousseff. Sem falar que, ao contrário do outro, é a favor do meio ambiente.
Estreou com a destruição de seis fornos de carvão em um assentamento da reforma agrária em Niquelândia. Com direito a cenografia de festa, até mesmo com o ministro Carlos Minc desfraldando o colete em cima do trator que consumou o "bota abaixo". E a um assentado reclamando que nunca apareceu em Niquelândia alguém para lhe dizer que não fica bem colher carvão vegetal de mata nativa em nome da reforma agrária. Ambos estiveram esplêndidos em seus papéis. Mas o assentado superou de longe o ministro em exagero. Disse que esses sustos só quem leva no Brasil é o pobre. Ledo engano.
Se em alguma conta da população com o governo os pobres andam devendo cada vez mais ao País é na dos flagrantes de desmatamento. Como estava entendido no Ministério do Meio Ambiente que o pobre nunca desmata e sempre conserva, oficialmente as derrubadas dos assentamentos do INCRA, das reservas extrativistas, dos territórios indígenas, quilombos e outros santuários das populações tradicionais durante muito tempo deixaram de existir. O que até dá ao tal assentado uma certa razão ao dizer que nunca recebeu uma visita de autoridade para "instruí-lo".
Na prática, a autoridade "instrui" é assim mesmo, com trator e multa. Mas Niquelândia fica em Goiás, um dos Estados que mais devastam o cerrado. E Goiás fica ao lado de Brasília, que até hoje não tinha visto o que vinha acontecendo há anos bem debaixo dos jatinhos que levam sem parar, de cá para lá, nossas excelências.
Elas devem enxergar mal. Porque, ali mesmo, no começo da década, sobrevoando a região num monomotor para escolher a área em que implantaria uma reserva ambiental da fundação O Boticário, a engenheira florestal Verônica Theulen teve medo de perder a corrida para os fornos de carvão, que avançavam de todos os lados sobre a paisagem.
Foi por essas e outras que Goiás perdeu 162 mil km² de cerrado. Em grande parte, nas barbas do governo Lula.
O cerrado perdeu em poucas décadas 1 milhão de km² para pastos e plantações, num país que ainda ouve calado o ministro Reinhold Stephanes dizer que a agricultura brasileira está estrangulada pelo excesso de territórios protegidos. Tudo porque ele põe na conta a imensidão de hectares que o Brasil finge proteger, mas não protege, porque o Ministério do Meio Ambiente considerava as populações tradicionais e os assentamentos aliados naturais da política nacional de conservação.
O Ministério da Agricultura e o do Meio Ambiente podiam em tudo. Mas nisso tinham acertado o passo e o ministro Carlos Minc está nos fazendo o favor de finalmente desacertá-los.
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