segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Comissão de Meio Ambiente do Senado e o reuso de água

Comissão de Meio Ambiente do Senado pode aprovar incentivo fiscal para reuso de água
A Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle (CMA) se reunirá em 28/10/14, às 10h, e pode votar projeto que concede redução de 75% do Imposto de Renda e isenção da contribuição de PIS/Pasep e Cofins para empresa que produzir ou distribuir água de reuso.
A medida incentiva a reutilização de água não potável, para evitar que água tratada seja usada para irrigação de jardins, lavagem áreas públicas, desobstrução de tubulações e combate a incêndios.
Para esses casos, poderá ser feita a reutilização de água proveniente de esgoto e de demais efluentes líquidos domésticos e industriais, desde que dentro de padrões definidos para as modalidades de uso pretendidas.
O projeto (PLS 12/2014), do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), é voltado a empresas que fazem a adequação a esses padrões e a distribuição dessa água reaproveitada, como forma de reduzir seu custo e ampliar sua utilização nas cidades brasileiras.
Depois de analisada pela CMA, a proposta vai à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), para decisão terminativa.
Licença ambiental de instalação
A pauta da CMA, formada por 26 itens, inclui ainda projeto (PLS 401/2013) que torna obrigatória a inclusão da licença ambiental de instalação entre os documentos que devem constar de edital para licitação de obra pública.
A lei em vigor obriga que, ao lançar um edital para licitação de obras públicas, o governo inclua nos anexos o projeto básico aprovado e as licenças ambientais prévias, entre outros documentos. Já a licença de instalação é exigida da empresa vencedora da licitação, como condição para o início das obras do projeto.
Para Aloysio Nunes, a facilidade de concessão de licenças prévias e a deficiência dos projetos básicos resultam com frequência na paralisação de obras já licitadas, por problemas na obtenção da licença de instalação.
A exigência dessa licença ainda no edital, diz ele, contribuirá para melhorar a qualidade dos projetos e obrigará os órgãos ambientais a analisar esses projetos de forma mais criteriosa.
A matéria também será analisada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ). (ecodebate)

A complexa teia hídrica que brota do Cerrado está ameaçada

A complexa teia hídrica que brota do Cerrado está ameaçada
“A questão atual do desaparecimento dos pequenos cursos d’água, alimentadores dos maiores, é apenas a ponta de um ‘iceberg’ que tende a se tornar cada vez mais evidente”, adverte o antropólogo.
O problema que gera as crises de abastecimento de água que afetam o estado de São Paulo “jamais será solucionado em sua totalidade”, alerta Altair Sales Barbosa, na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line.
Segundo ele, a dificuldade de solucionar tais crises está relacionada a outros dois fenômenos: “o primeiro é a estiagem prolongada provocada por fatores que independem da ação humana, como el Niño, por exemplo. O segundo é a vazão dos rios alimentadores das represas, que não ostentam mais a quantidade de água de tempos atrás. A consequência: com a normalização da precipitação pluviométrica depois de certo tempo (uns quatro anos), os níveis das represas podem atingir a plenitude. Entretanto, com o advento de outra estiagem cíclica, a situação voltará a se repetir”.
Na entrevista a seguir, o pesquisador explica que o Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de São Paulo, “é abastecido principalmente pelo rio Piracicaba, afluente do rio Doce, que aparentemente nada tem a ver com a bacia do Paraná”, que é formada e alimentada pelas águas do Cerrado. Entretanto, esclarece, “se penetrarmos além das aparências, iremos constatar que além das águas que fluem da Serra do Mar, as águas do aquífero Guarani são as responsáveis pela alimentação das nascentes da represa, basta ver a geotecnia das nascentes do rio Piracicaba, bacia do rio Doce, e suas relações com as nascentes do ribeirão Baguaçu, proveniente do aquífero Guarani e pertencente a Bacia Paraná”. Isso significa, pontua, que o “Sistema Biogeográfico do Cerrado, que ocupa desde a aurora do Cenozoico até a parte central da América do Sul, também é conhecido como o ‘berço das águas’ ou a ‘cumeeira’ do continente, porque é distribuidor das águas que alimentam as grandes bacias hidrográficas da América do Sul”.
Somente na abrangência do Cerrado, destaca, “encontram-se três grandes aquíferos responsáveis pela formação e alimentação dos grandes rios continentais. Um deles e o mais conhecido é o aquífero Guarani, associado ao arenito Botucatu e a outras formações areníticas mais antigas. Esse aquífero é responsável pelas águas que alimentam a bacia hidrográfica do Paraná, além de alguns formadores que vertem para a bacia Amazônica. Os outros dois são os aquíferos Bambuí e Urucuia (…) Os aquíferos Bambuí e Urucuia são responsáveis pela formação e alimentação dos rios que integram a bacia do São Francisco e as sub-bacias hidrográficas do Tocantins, Araguaia, além de outras situadas na abrangência do Cerrado”. Isso significa que, “representada por uma complexa teia, as águas que brotam do Cerrado são as responsáveis pela alimentação e configuração das grandes bacias hidrográficas da América do Sul”.
Fundador do Memorial do Cerrado, Goiânia-GO, o antropólogo adverte que o Cerrado é uma das matrizes ambientais mais antigas, e “já chegou ao seu clímax evolutivo, ou seja, uma vez degradado, não se recupera jamais na plenitude de sua biodiversidade”. A vegetação nativa do bioma é responsável pela alimentação dos lençóis profundos, contudo, com a introdução da agricultura do Cerrado, parte da vegetação já foi extinta e impacta diretamente no funcionamento dos corpos hídricos. “No caso específico das plantas do cerrado, estas possuem um sistema radicular extremamente profundo e complexo. Estas plantas existiam até bem pouco tempo, nas áreas de recargas do aquífero Guarani, responsáveis pelas águas da bacia do Paraná. Com a introdução da monocultura, essas plantas foram substituídas por vegetais com raízes subsuperficiais que não sugam as águas como as plantas nativas. A consequência é que com o passar dos tempos as águas dos aquíferos vão diminuindo. Num primeiro momento ocorre o fenômeno denominado migração de nascentes das partes mais elevadas para as partes mais baixas. Num segundo momento os cursos d’águas menores iniciam um processo de desaparecimento e assim por diante, são veias menores que deixam de irrigar as maiores”, informa.
Se a atual situação do Cerrado não for alterada, o futuro será ainda mais catastrófico. De acordo com o diagnóstico de Barbosa, “o primeiro aquífero a ter suas reservas diminuídas será o Urucuia, até o quase total desaparecimento, seguido do aquífero Bambuí e do aquífero Guarani”. Posteriormente, frisa, “os fenômenos ocorridos nos chapadões centrais do Brasil, em função do desaparecimento do cerrado, afetarão, de forma direta, várias partes do continente” e a “floresta equatorial deixará de existir na sua configuração original, sendo paulatinamente substituída por uma vegetação rala do tipo caatinga, salpicada em alguns locais por espécies de plantas adaptadas a um ambiente mais seco”.
Altair Sales Barbosa é graduado em Antropologia pela Unbiversidade Católica do Chile e doutor em Arqueologia Pré-Histórica – Smithsonian Institution National Museum Of Natural History (1991). É professor titular da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.
IHU On-Line – O senhor está entre os pesquisadores que já afirmam a extinção do Cerrado. Quais fatores levaram a esse quadro? É possível revertê-lo?
Altair Sales Barbosa - Em primeiro lugar, o Cerrado dos Chapadões Centrais do Brasil se nos apresenta como um Sistema Biogeográfico, que envolve vários subsistemas. Esses subsistemas se diferenciam por solos, fisionomia vegetal, quantidade de água nos lençóis, comunidades animais, etc., e qualquer modificação nos elementos dos subsistemas provoca modificações nos Sistema como um todo.
Em segundo lugar, convém destacar que o Cerrado é uma das matrizes ambientais mais antigas da história recente do Planeta Terra, que tem seu início no Cenozoico. Isto significa que este ambiente já chegou ao seu clímax evolutivo, ou seja, uma vez degradado, não se recupera jamais na plenitude de sua biodiversidade.
Em terceiro lugar, a maior parte das plantas do cerrado tem um desenvolvimento lento, algumas levam séculos para atingir a maior idade, fato que torna quase impossível um trabalho de recomposição vegetal. Sem mencionar que estas plantas estão condicionadas a um tipo de solo oligotrópico com balanço hídrico específico, fato hoje difícil de ser encontrado em equilíbrio no cerrado.
Não se mede a degradação ambiental apenas pela ocorrência de uma ou outra planta. Há de se considerar comunidades, tanto vegetais como animais, incluindo insetos polinizadores, água, etc., tudo isto já não existe no cerrado de forma contínua. O que há são fragmentos que não representam 10% da área total.
IHU On-Line – Qual a função do Cerrado brasileiro enquanto elo para garantir o abastecimento da água tanto no Norte quanto no Sul do país? Ainda nesse sentido, qual é a conexão existente entre o Cerrado e os demais biomas brasileiros?
Altair Sales Barbosa – O Sistema Biogeográfico do Cerrado, que ocupa desde a aurora do Cenozoico até a parte central da América do Sul, também é conhecido como o “berço das águas” ou a “cumeeira” do continente, porque é distribuidor das águas que alimentam as grandes bacias hidrográficas da América do Sul.
Isso ocorre porque, na área de abrangência do Cerrado, encontram-se três grandes aquíferos responsáveis pela formação e alimentação dos grandes rios continentais. Um deles e o mais conhecido é o aquífero Guarani, associado ao arenito Botucatu e a outras formações areníticas mais antigas. Esse aquífero é responsável pelas águas que alimentam a bacia hidrográfica do Paraná, além de alguns formadores que vertem para a bacia Amazônica. Os outros dois são os aquíferos Bambuí e Urucuia. O primeiro está associado às Formações geológicas do Grupo Bambuí, e o segundo está associado à Formação arenítica Urucuia, que em muitos locais está sobreposta à Formação Bambuí. Em certos pontos, há até um contato entre os dois aquíferos, apesar de existir entre ambos uma imensa diferença cronológica. Os aquíferos Bambuí e Urucuia são responsáveis pela formação e alimentação dos rios que integram a bacia do São Francisco e as sub-bacias hidrográficas do Tocantins, Araguaia, além de outras situadas na abrangência do Cerrado.
Esses três grandes aquíferos, armazenados nos lençóis artesianos, intercalam-se na parte central dos chapadões do continente sul-americano, formando lagoas conhecidas como águas emendadas, que tomam a direção norte, sul, leste e oeste do continente. Essa direção está condicionada à estrutura geomorfológica que caracteriza cada área, definindo e delimitando, dessa forma, as bacias e sub-bacias hidrográficas.
Dos planaltos do centro da América do Sul brotam águas responsáveis pela grande alimentação do rio Amazonas, pela sua margem direita. Das entranhas dos arenitos de idades Mesozoicas brota a grande maioria das águas da imponente bacia do Paraná, que verte para o sul do continente. Do alto da Serra da Canastra, juntando águas oriundas do arenito da Formação Urucuia e águas retidas nas galerias do calcáreo Bambuí de idade Proterozoica, correm em direção ao nordeste do Brasil as águas do São Francisco.
“No início do século XXI, encontra-se em suspenso o destino do Cerrado”
Bacias hidrográficas independentes
Além dessas imponentes bacias hidrográficas de dimensões continentais, no cerrado, ainda brotam águas que dão origem a bacias hidrográficas independentes de grande importância regional. Algumas são tão fenomenais que formam acidentes únicos. É o caso da bacia do Parnaíba, que nasce na Chapada das Mangabeiras, alimentada com águas oriundas do arenito Urucuia, situado no cerrado do Jalapão, estado do Tocantins. A bacia do rio Parnaíba, apesar de as dimensões serem bem menores que as anteriores, está associada a um grande transporte de sedimentos, que são distribuídos por vasta área do litoral norte do Brasil, formando dunas, lagoas, os lençóis maranhenses, os lençóis piauienses, estendendo até as dunas de Jericoacoara, no Ceará. No seu encontro com o oceano Atlântico, forma o Delta do Parnaíba, tão complexo e ao mesmo tempo impressionante que está entre os maiores do Planeta.
Outro exemplo importante refere-se à sub-bacias do rio Gurgeia, oriunda do cerrado piauiense, responsável pela irrigação de uma vasta área e pela formação dos poços jorrantes com águas que brotam com tanta pressão que, ao surgirem até a superfície, atingem vários metros de altura.
O Cerrado e os rios do Amazonas
A Bacia Amazônica é considerada a maior rede hidrográfica do Planeta. Para descrevê-la, um observador, mesmo do espaço, é incapaz de avaliar sua complexidade em meio a ilhas, furos, paranás e igarapés.
A bacia hidrográfica do Amazonas tem sua gênese a partir de três importantes regimes: águas de origem glacial, provenientes dos Andes; águas de origem pluvial, que alimentam a bacia pela margem esquerda; e águas tanto de origem pluvial como de lençóis profundos, que a alimentam pela margem direita. Na realidade, são esses rios da margem direita que contribuem para os maiores volumes de água na alimentação do Amazonas e também são responsáveis pela sua regularidade e sua perenização, já que as águas pluviais e glaciares da sua margem esquerda e nascentes, apesar de volumosas, possuem regimes irregulares.
Tomando a orientação de leste para oeste, pode-se constatar quão extensos e volumosos são os afluentes da margem direita do rio Amazonas, que brotam no coração do cerrado e cujas vertentes, qual artérias interligadas, são bombeadas para irrigar e oxigenar o pai dos rios.
Tocantins ou Araguaia
As sub-bacias do Tocantins e Araguaia são tão complexas e extensas que não se tem certeza de qual dos dois chega primeiro ao Amazonas, ao sul de Marajó. Oficialmente é o Tocantins, mas é ele que deságua no Araguaia, e não o inverso. Porém a nomenclatura não é um fator relevante. O mais importante é a quantidade de água e sedimentos que esses rios levam até a foz do Amazonas, transformando-a num ecossistema extremamente complexo.
Tocantins, um rio de vários nomes
O rio Tocantins bem poderia ser chamado de rio Uru, que nasce nos contrafortes da Serra Dourada e segue ao norte, ao passo que seus irmãos de nascentes tomam rumo oeste em direção ao Araguaia ou rumo sul em direção ao Paranaíba.
Entre as pedras, o Uru é Uruíta, mais abaixo dialoga com dona Ana e se formou Uruana. Depois de tanto se encorpar, tornou-se Uruaçu ou Uru-grande, nos vocábulos do Tupi. Ou o Tocantins seria o Rio das Almas, proveniente dos Pirineus, ou Maranhão ou ainda o Paraná, que vem do longínquo lugar onde as águas se emendam? O fato é que o rio Tocantins é todos eles e muito mais. Inúmeros afluentes caudalosos o alimentam pela margem direita e pela margem esquerda. Alguns da margem direita têm suas nascentes emendadas com águas que correm para a bacia do São Francisco, como é o caso das águas provenientes do Jalapão e as águas do Paranã, oriundas do atual município de Formosa, em Goiás.
O mesmo fenômeno acontece em relação aos afluentes da margem esquerda, com aqueles da margem direita do Araguaia. São as reentrâncias do interflúvio formado pela Serra do Estrondo que os separam.
Rio Araguaia
O rio Araguaia nasce em formações pertencentes à bacia geológica do Paraná, mas integra a bacia hidrográfica do Amazonas. Seu berço e seu curso superior são compostos por águas do Aquífero Guarani. No seu nascedouro, esse aquífero se encontra nas formações Bauru e Botucatu. No mesmo local nascem os rios Taquari, que corre no sentido oeste integrando a sub-bacia do rio Paraguai no Pantanal Mato- grossense, e o Aporé, que corre para sudeste, desaguando no Paranaíba, formador do Paraná.
Entretanto o Araguaia segue sereno para o norte, recebendo a todo instante portentosos afluentes tanto pela margem direita quanto pela esquerda. Alguns desses afluentes são tão extensos e complexos que delimitam, no tempo e no espaço, histórias próprias. Esse é o caso dório das Mortes, cuja nascente brota das reentrâncias da Serra do Roncador, a pouca distância, onde ao sul nascem os rios do Pantanal Norte, sub-bacia do Paraguai. No seu curso intermediário, o Araguaia abraça a Ilha do Bananal, a maior ilha fluvial do mundo. Na realidade, trata-se de um grande território com rios próprios, lagos e uma diversidade biótica impressionante. Em meio a essa complexidade, segue o Araguaia, até encontrar-se com o Tocantins ou vice-versa, como já foi dito.
Bem próximo à nascente do Rio das Mortes, emergem também das reentrâncias da Serra do Roncador os grandes afluentes do Xingu. Aí também se situam as nascentes do caudaloso Teles Pires. Na borda oeste dessa Serra, surgem as águas do rio Arinos, que mais abaixo se une com as águas do Juruena, formado por uma complexa rede de nascentes oriundas da borda norte da chapada dos Parecis, toda coberta por cerrado. Teles Pires, Arinos e Juruena se juntam para formar o Tapajós, que deságua no Amazonas na cidade de Santarém.
Guaporé, Mamoré e Madeira têm suas nascentes situadas nos limites oeste do Cerrado, desde a depressão relativa do Pantanal Mato-Grossense até as águas provenientes das ilhas de cerrado situadas nos longínquos planaltos de Alta Lídia, Serra dos Pakaás-Novos. Daí, então, descambam águas do Jamarí que vão engrossar o já grandioso Ji-Paraná, que deságua no Madeira.
“O que se pode afirmar é que enquanto o desejo de explorar o Cerrado tiver raízes estrangeiras, a possibilidade de um programa racional de desenvolvimento será nula”
O Cerrado e a Bacia hidrográfica do São Francisco
O rio São Francisco e toda sua bacia hidrográfica correm por inúmeras terras do território brasileiro. O São Francisco tem sua nascente situada em áreas de cerrado, na Serra da Canastra, estado de Minas Gerais. É alimentado especialmente pelas águas acumuladas no aquífero Urucuia e no aquífero Bambuí. Seu regime é marcado por diferenciações básicas. A grande totalidade dos afluentes da margem direita que recebe suas águas principalmente das chuvas sofre influência direta de climas semiáridos, conduzidos até o curso médio superior do grande vale, pelos eixos de expansão de semiaridez. Esses rios são classificados como rios temporários, que desaparecem na estação seca. Portanto, a perenização do São Francisco está na dependência direta dos seus afluentes que o alimentam pela margem esquerda.
Esses rios caudalosos e outrora cristalinos correm encaixados e paralelos na formação geológica Urucuia. A grande maioria provém dos contrafortes leste da Serra Geral ou Espigão Mestre, como é o caso dos rios Carinhanha, Pratudinho, Pratudão, Formoso, Arrojado, Correntina, do Meio, Guará, Santo Antonio, Corrente e Grande.
Outros que o alimentam na porção superior têm suas nascentes nas águas emendadas próximas ao Distrito Federal, como é o caso dos rios Preto e Urucuia. Este dá nome à formação geológica que abriga o aquífero Urucuia, responsável por quase 80% das águas que alimentam o São Francisco.
O rio Paracatu é o responsável pela junção das águas dos aquíferos Bambuí e Urucuia. E tem suas nascentes situadas numa mancha isolada da formação Urucuia. Ainda pela margem direita, o rio das Velhas contribui com o São Francisco, no seu curso superior, com águas oriundas, quase em sua totalidade, do aquífero Bambuí.
A última grande nascente ao norte se constitui no nascedouro do rio Preto, afluente do rio Grande. As nascentes do rio Preto estão em áreas aflorantes do arenito Urucuia, na região do Jalapão, um pouco ao sul da nascente do Parnaíba, com água quase emendada com o rio do Sono, afluente do Tocantins.
O Cerrado e as Águas do Paraná
A Bacia hidrográfica do Paraná é outra formada e alimentada pelas águas do Cerrado. Apenas em sua porção inferior, após receber o rio Uruguai, esse fenômeno não é tão evidente.
As águas nascentes da bacia do Paraná se espalham como um leque a partir do coração do Cerrado, correndo em direção ao sul do continente. Das escarpas sul da Chapada dos Parecis e das escarpas oeste da Serra do Roncador fluem as águas formadoras da sub-bacia do Paraguai. O rio Paraná é formado pela junção dos rios Paranaíba e Grande. As águas iniciais do Paranaíba são originárias das águas emendadas que viajam desde o norte do Distrito Federal, e se juntam às que vertem da Serra das Divisões do Centro-Sul de Goiás, até as que vêm das bordas leste e sul da Serra do Caiapó. As águas do rio Grande se precipitam da borda oeste da Serra da Mantiqueira, numa área de Mata Atlântica, mas seu curso maior percorre de leste a oeste o estado de Minas Gerais, e são as águas do Cerrado Mineiro que lhes dão corpo.
Assim, representada por uma complexa teia, as águas que brotam do Cerrado são as responsáveis pela alimentação e configuração das grandes bacias hidrográficas da América do Sul.
IHU On-Line – O senhor associa a recente crise de abastecimento de água em São Paulo à condição ambiental do Cerrado?
Altair Sales Barbosa - Para entender este assunto, é necessário compreender que um aquífero possui sua área de descarga e de recarga. A área de recarga de um aquífero se situa nos chapadões ou em suas áreas mais planas. Quem exerce a função de alimentar os lençóis profundos é a vegetação, especialmente a vegetação nativa.
No caso específico das plantas do cerrado, estas possuem um sistema radicular extremamente profundo e complexo. Estas plantas existiam até bem pouco tempo, nas áreas de recargas do aquífero Guarani, responsáveis pelas águas da bacia do Paraná.
Com a introdução da monocultura, essas plantas foram substituídas por vegetais com raízes subsuperficiais que não sugam as águas como as plantas nativas. A consequência é que com o passar dos tempos as águas dos aquíferos vão diminuindo. Num primeiro momento ocorre o fenômeno denominado migração de nascentes das partes mais elevadas para as partes mais baixas. Num segundo momento os cursos d’águas menores iniciam um processo de desaparecimento e assim por diante, são veias menores que deixam de irrigar as maiores.
No caso específico das crises de abastecimento de água que afetam o Estado de São Paulo, por exemplo, o problema jamais será solucionado em sua totalidade. Isto porque a situação está intimamente ligada a dois problemas: o primeiro é a estiagem prolongada provocada por fatores que independem da ação humana, como el Niño, por exemplo. O segundo é a vazão dos rios alimentadores das represas, que não ostentam mais a quantidade de água de tempos atrás. Consequência: com a normalização da precipitação pluviométrica depois de certo tempo (uns quatro anos), os níveis das represas podem atingir a plenitude. Entretanto, com o advento de outra estiagem cíclica, a situação voltará a se repetir. O Sistema Cantareira é abastecido principalmente pelo rio Piracicaba, afluente do rio Doce, que aparentemente nada tem a ver com a bacia do Paraná. Entretanto, se penetrarmos além das aparências, iremos constatar que além das águas que fluem da Serra do Mar, as águas do aquífero Guarani são as responsáveis pela alimentação das nascentes da represa, basta ver a geotecnia das nascentes do rio Piracicaba, bacia do rio Doce, e suas relações com as nascentes do ribeirão Baguaçu, proveniente do aquífero Guarani e pertencente à Bacia do Paraná.
IHU On-Line – Qual é a atual situação dos rios que nascem no Cerrado? É possível constatar alguma mudança no fluxo da água deles ao longo dos últimos anos? O senhor mencionou recentemente que dez pequenos rios do Cerrado desaparecem a cada ano. É possível estimar quantos pequenos rios já desapareceram e o que isso significa num quadro geral acerca dos recursos hídricos do cerrado?
Altair Sales Barbosa - A partir de 1970, uma nova matriz territorial foi implantada na área do Cerrado. Essa matriz tem raízes e consequências predatórias. A partir desse momento foi só uma questão de tempo para que os problemas ambientais viessem a aparecer e se agravarem com o tempo.
A questão atual do desaparecimento dos pequenos cursos d’água, alimentadores dos maiores, é apenas a ponta de um “iceberg” que tende a se tornar cada vez mais evidente.
IHU On-Line – É possível avaliar qual a situação ambiental do Aquífero Guarani?
Altair Sales Barbosa - É muito difícil precisar esta situação em função da ausência de pesquisas. Entretanto, se projetarmos as consequências advindas da degradação, podemos afirmar que se não houver uma solução científica e tecnológica capaz de aumentar a recarga deste aquífero, num tempo muito mais curto que possamos imaginar, suas reservas desaparecerão quase que por completo. Veja o que já está acontecendo com o rio São Francisco, alimentado pelos aquíferos Urucuia e Bambuí, que estão passando pelo mesmo processo de degradação.
IHU On-Line – Com a crise de abastecimento em São Paulo, fala-se em possíveis riscos de desertificação, como de extermínio das reservas hídricas existentes no subsolo. Esse risco existe de fato? Em que proporção no atual momento? Se o Cerrado já está extinto, como reverter a crise hídrica? Por quais razões não se trata e não se menciona a importância do Cerrado nas discussões acerca da crise de abastecimento da água?
Altair Sales Barbosa - O potencial agrícola que o cerrado tem demonstrado o transformou em uma das últimas reservas da terra capazes de suportar, de modo imediato, a produção de cereais e a formação de pastagens. E o desenvolvimento das técnicas modernas de cultivo tem atraído, recentemente, grandes investimentos e criado modificações significativas do ponto de vista da infraestrutura de suporte. O fato da não existência de uma política global para agricultura tem provocado o êxodo rural e o crescimento desordenado dos núcleos urbanos. Todos esses fatores, no seu conjunto, têm provocado situações nocivas ao meio ambiente, com perspectivas preocupantes.
De todos os grandes Domínios Morfoclimáticos e Fitogeográficos Brasileiros, para usar a linguagem do Prof. Ab’Saber, ou Sistemas Biogeográficos, o Cerrado tem sido o que mais transformações vem sofrendo nos últimos anos. Porém, não só transformações das técnicas de produção, mas outras muito mais profundas, isto é, transformações culturais, que têm afetado o próprio modo de vida das populações, desestruturando os valores e, muitas vezes, provocando um vazio, não repondo algo que venha a preencher o espaço deixado pelos elementos que foram ou estão sendo subtraídos.
Os antigos núcleos urbanos, quase todos originados em torno de atividades mineradoras, principalmente os do início do século XVIII, veem-se de repente transformados em polos regionais de inovações e agenciadores de “mudanças radicais” nos sistemas de relações, com seus inúmeros serviços, quase todos voltados para atividades agroindustriais e com preocupações imediatistas.
A criação de Goiânia, posteriormente Brasília, juntamente com o desenvolvimento do sistema viário e o processo de modernização da agricultura, veio contribuir com certa radicalização nas modificações dos fatores até então estruturados, rompendo em estilhaços seus traços mais tradicionais.
Até bem pouco tempo, as áreas do Sistema Biogeográfico do Cerrado não eram muito valorizadas, nem procuradas para implantação de grandes atividades agropastoris. As suas partes mais intensamente ocupadas eram restritas ao Subsistema de Matas, ou seja, áreas florestadas que existem dentro do Sistema e que estão sempre associadas a solos de boa fertilidade natural. Por isso essas áreas, também denominadas de “terras de cultura”, foram as primeiras a receber o impacto de uma degradação maior. Ao seu lado, em escala menor, podem ser citadas as áreas que compõem o Subsistema Cerradão e as Matasa-Galerias.
“Não se mede a degradação ambiental apenas pela ocorrência de uma ou outra planta. Há de se considerar comunidades, tanto vegetais como animais, incluindo insetos polinizadores, água, etc., tudo isto já não existe no cerrado de forma contínua. O que há são fragmentos que não representam 10% da área total”
As demais áreas, que constituem as maiores superfícies do Sistema, como os Subsistemas do Cerrado, do Campo, das Veredas e Ambientes Alagadiços, em virtude das características dos seus solos, não favorecem de imediato uma ocupação intensiva, não tiveram tanto impacto no início maciço da ocupação humana. Essas áreas, outrora ocupadas pelo criatório extensivo, tinham como suporte uma pastagem nativa, cujo teor alimentício estava condicionado à sazonalidade climática, fato que obrigava os rebanhos a migrações longas. E durante a estação seca eram conduzidos para as “veredas”, onde a umidade mantinha o capim verdejante, mesmo no auge da seca. Entretanto, essas áreas de veredas não ocupam grande extensão e, na época da estação chuvosa, em função de muitos fatores, não é propícia a sua ocupação por rebanhos. Nessa época chuvosa, o rebanho pode ser transportado para as áreas mais elevadas (campos e cerrado). Esse fator das migrações sazonárias é responsável por um sistema pastoril que exige grandes extensões de terras, que poderiam ser compradas, arrendadas ou simplesmente ocupadas na forma de posse ou “fechos”.
A utilização do calcário para a correção da acidez do solo e do adubo para aumento da sua fertilidade, a introdução do arado e de sistemas mecânicos de desmatamento e a facilidade de irrigação transformaram essas áreas, anteriormente impróprias para atividades agrícolas, em terras produtivas. Outrossim, a substituição das pastagens nativas por espécies estrangeiras modificou radicalmente o quadro pastoril.
Os impactos causados sobre o ambiente por esse novo modelo de ocupação são visíveis e podem ser caracterizados pelos itens seguintes:
·  empobrecimento genético;
·  empobrecimento dos ecossistemas;
· destruição da vegetação nativa;
· propagação de ervas exóticas;
· extinção da fauna nativa;
· diminuição e poluição dos mananciais hídricos;
· compactação e erosão dos solos;
· contaminação química das águas e da biota;
· proliferação de doenças desconhecidas, etc.
Exploração do cerrado
Esses fatores em conjunto geram inúmeros outros que, por sua vez, funcionam como agentes de atração populacional e de modificações significativas do ambiente. Como exemplo, podemos citar a demanda de energia que exige a formação de grandes reservatórios e usinas geradoras que criam inúmeras frentes de trabalho, diretas e indiretas, acarretando entropias de grande alcance natural e social.
Assim é que, no início do séc. XXI, encontra-se em suspenso o destino do Cerrado. Se as próximas décadas trarão sua ruína ou salvação, ainda não se pode dizer. Embora sejam grandes as lacunas no nosso conhecimento, dispomos de informações suficientes para impedirmos que ocorra uma degradação irreversível.
O que se pode afirmar é que enquanto o desejo de explorar o Cerrado tiver raízes estrangeiras, a possibilidade de um programa racional de desenvolvimento será nula.
O cerrado está incluído no Planejamento Político Brasileiro como região de expansão da fronteira agrícola, orientada por práticas predatórias, causando um cenário estarrecedor.
A retirada total da cobertura vegetal afetará, de forma decisiva, a já reduzida recarga dos aquíferos, cujas reservas chegarão a um nível crítico, pois as águas pluviais que conseguirem penetrar através do solo serão de imediato absorvidas por estes, dado seus estados de aridez em função da insolação. A pouca umidade retida se evaporará de forma rápida pelas mesmas causas. No início, os problemas oriundos dessa situação tentarão ser contornados com a construção de barramentos, através de curvas de níveis e pequenos açudes, para reter as águas das chuvas. Entretanto, os ambientes que surgem desse processo têm caráter bêntico, fato que origina a argilicificação e a consequente impermeabilização do fundo dos poços, que, associada à forte insolação, resultará numa ação de nula eficácia.
Aquíferos
O primeiro aquífero a ter suas reservas diminuídas será o Urucuia, até o quase total desaparecimento, seguido do aquífero Bambuí e do aquífero Guarani.
Com o desaparecimento do lençol freático, seguido da diminuição drástica da reserva dos aquíferos, os rios iniciarão um processo de diminuição da perenidade, oscilando sempre para menos, entre uma estação chuvosa e outra, e desaparecendo quase por completo na estação seca. Esse fato afetará primeiro os pequenos cursos d’água, depois os de médio porte e, em seguida, os grandes rios.
Os fenômenos ocorridos nos chapadões centrais do Brasil, em função do desaparecimento do cerrado, afetarão, de forma direta, várias partes do continente.
A parte sul da calha do rio Amazonas, representada pelos baixos chapadões, terá uma rede de drenagem insignificante no que diz respeito ao volume d’água, uma vez que os grandes afluentes da margem direita, que têm suas nascentes e seus alimentadores situados no cerrado, deixarão de existir ou terão seus volumes diminuídos de forma significativa nos cursos superiores e médios. Os grandes afluentes do rio Amazonas, pela sua margem direita, serão alimentados apenas nos seus cursos inferiores, fato que reduzirá em mais de 80% suas vazões.
A floresta equatorial deixará de existir na sua configuração original, sendo paulatinamente substituída por uma vegetação rala do tipo caatinga, salpicada em alguns locais por espécies de plantas adaptadas a um ambiente mais seco.
O vale do Parnaíba, englobando a bacia geológica Parnaíba-Maranhão, será invadido na direção sul/norte por dunas arenosas secas provenientes da Formação Urucuia, existentes no Jalapão e na Chapada das Mangabeiras. E, na direção norte/sul, será invadido por sedimentos arenosos litorâneos que caracterizam os Lençóis Maranhenses e Piauienses, que, em virtude de condições favoráveis, terão facilidade de transporte eólico em direção ao interior. Os atuais poços jorrantes do vale do Gurgueia deixarão de ser fluentes.
Com o desaparecimento dos principais afluentes do rio São Francisco, pela sua margem esquerda, que cortam o arenito Urucuia, a ausência de alimentação constante e o assoreamento contribuirão para o desaparecimento do grande rio, nos seus aspectos originais. Permanecerão algumas lagoas e cacimbas, onde o terreno tiver característica argilosa, ou outra rocha impermeabilizante originária da metamorfose do calcário Bambuí.
A Caatinga, que já caracteriza parte do curso inferior do rio São Francisco, avançará um pouco mais em direção ao norte, transicionando paulatinamente para a formação de uma grande área desértica que certamente abrangerá o centro, o oeste, o sul da Bahia e norte e centro de Minas Gerais.
A região da Serra da Canastra permanecerá com alguns elementos originais, como uma espécie de enclave geoecológico, com clima subúmido.
Nas áreas correspondentes aos formadores e às bordas da Bacia Hidrográfica do Paraná, as desintegrações intensas dos arenitos Botucatu e Bauru – que já formaram na região, durante os períodos Triássico e Cretáceo, grandes desertos, acordarão de um sono profundo, expandindo seus grãos de areia em várias direções, provocando erosões colossais, assoreamento e acúmulos de sedimentos na configuração de dunas. Do curso médio da Bacia do Paraná até a parte superior de seus afluentes, haverá muitas áreas desérticas separadas por formações rochosas ostentando vegetação de características áridas e semiáridas.
A sub-bacia do rio Paraguai, alimentada pelo aquífero Guarani, sofrerá as mesmas consequências das demais regiões hidrográficas do Cerrado, transformando o atual Pantanal Mato-Grossense numa área de desertos arenosos, tal como já ocorreu na região durante o Pleistoceno Superior, onde ali existia o deserto do Grande Pantanal.
Logo após o desaparecimento por completo das comunidades vegetais nativas, a agroindústria terá seus dias de grande apogeu em termos de produtividade.
Grave processo de modificação
Os núcleos urbanos criados ou dinamizados como suportes dessas atividades atingirão também seu apogeu em termos de aumento demográfico e em termos de ofertas e oportunidades de serviços de natureza diversa.
Passado certo tempo, contado em alguns poucos anos, essa realidade experimentará um grave processo de modificação. A produtividade agrícola começará a diminuir assustadoramente, causando ondas de demissões nas empresas estabelecidas. Isso acontecerá porque a água dos lençóis subterrâneos não será mais suficiente para sustentar a produção no sistema de rotatividade de antes. Não haverá água para fazer funcionarem os pivôs centrais. A atividade agrícola sobrevivente se restringirá à época da estação chuvosa, que já se manifestará com instabilidades sazonais.
Os solos, outrora preparados intensivamente para os cultivos, serão ocupados em pequenas parcelas, deixando exposta uma grande superfície desnudada. Da mesma forma as pastagens que sustentavam a pecuária serão afetadas, provocando a redução paulatina dos rebanhos.
Essa situação começará a refletir de forma visível nos polos urbanos. Haverá racionamento de água, em função da diminuição da vazão dos rios, que, por sua vez, provocará a redução do nível dos reservatórios. O racionamento de energia elétrica também será imposto pelas mesmas causas. O desemprego e os serviços, antes fartos e variados, afundarão numa crise sem precedentes.
“O cerrado está incluído no Planejamento Político Brasileiro como região de expansão da fronteira agrícola, orientada por práticas predatórias, causando um cenário estarrecedor”
Isso provocará o aumento de pessoas ociosas e vadias nas cidades, situação que criará enormes embaraços sociais desagradáveis. Haverá a intensificação da criminalidade de todas as espécies, desde pequenos furtos, saques, assaltos e assassinatos. A prostituição se generalizará, trazendo consequências consideráveis para a saúde pública, que se apresenta cada vez mais decadente. Os serviços públicos, incluindo a educação, por falta de arrecadação e manutenção, começarão a beirar o caos.
Depois de certo tempo a ausência de água nos rios criará uma paisagem desoladora. Áreas outrora ocupadas pelas lavouras serão caracterizadas por formas vegetacionais rasteiras e exóticas, típicas de formações desérticas, com um ciclo vegetativo muito curto.
Grande parte dos campos agrícolas abandonados, sem a cobertura vegetal necessária para fixar o solo, passará, durante algumas épocas do ano, a ser assolada por ventos e tempestades fortes, que criarão uma atmosfera escura carregada de grãos finos de poeira em extensões quilométricas.
Os polos urbanos serão assolados por diversas epidemias, que provocarão índices alarmantes de mortalidade. A maioria da população sucumbirá diante da miséria crescente. (ecodebate)

NASA publica fotos de seca nas represas do Cantareira

NASA publica fotos em que mostram seca em represas do Sistema Cantareira
NASA publica imagem que mostra efeito da seca no Sistema Cantareira.
Imagens de 2013 e 2014 mostram redução do volume da represa Jaguari.
Sistema Cantareira chegou ao volume de 3% em 23/10/14.
Imagem de cima mostra represa Jaguari em 16/08/13 e imagem de baixo mostra a mesma represa em 03/08/14 (NASA Earth Observatoty image by Jesse Allen, using Landsat data from the U.S. Geological Survey)
A agência espacial americana (NASA) publicou duas imagens que mostram os efeitos na seca na represa Jaguari, no Sistema Cantareira, no estado de São Paulo. As imagens foram feitas pelo satélite Landsat 8, em 16/08/13 e em 03/08/14.
Na imagem mais recente, a área coberta por água aparece bem menor do que na imagem do ano passado. Segundo a agência, a água aparece com uma cor azul-esverdeada mais clara em 2014 por estar mais rasa e com mais sedimentos, de modo que a cor do fundo da represa altera a cor da água da superfície.
Desde que a imagem foi tirada, no início de agosto, o volume do Sistema Cantareira continua diminuindo, chegando a 3% em 23/10/14. Quando a imagem foi feita, o volume do sistema ainda era de 15%. (g1)

Seca em SP fez o tratamento d'água ficar 20% mais caro

Seca em São Paulo já fez o tratamento da água ficar 20% mais caro este ano
A segunda reportagem da série Caminhos da Seca percorreu a área dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, onde a poluição exige que empresas arquem com custos adicionais não apenas para garantir a oferta, mas também a qualidade.
Em São Paulo, a seca criou uma situação peculiar para centros urbanos no interior do Estado, como Americana, Campinas e Piracicaba. Além do desafio de garantir o abastecimento num dos períodos mais secos da história, eles precisam se preocupar com a qualidade da água.
Os rios das Bacias PCJ, que reúnem o Piracicaba, o Capivari e o Jundiaí, seus afluentes e formadores, estão entre os mais poluídos do País. Segundo especialistas, à medida que as águas baixam, a concentração de poluentes aumenta, o que encarece a limpeza. “Quanto mais sujo um rio, mais dinheiro se gasta para limpar a água”, diz o professor Pedro Mancuso, da Universidade de São Paulo (USP), especialista no tema.
A Sabesp, maior empresa de saneamento do Estado, afirma que “não houve impacto no custo de tratamento nos últimos 18 meses”. Essa, porém, não é a percepção de outras empresas. Apenas os custos com produtos químicos já aumentaram em cerca de 20%, pelas estimativas de Carlos César Záppia, diretor da seção de Tratamento de Água do Departamento de Água e Esgoto de Americana. A alta ocorre porque é preciso elevar a quantidade de produtos para manter a qualidade da água. Záppia estima que, para as empresas privadas, a conta pode ser de até o dobro, dependendo do setor em que atuam.
A conta não inclui o custo com energia elétrica que, de acordo com o nível de poluição, representa de 50% a 70% dos gastos no tratamento da água, nem com a situação atípica dos rios. A concentração de algas e outros materiais orgânicos faz com que a água, mesmo limpa, chegue às torneiras com cheiro e cor. “As características da água mudam de minuto a minuto: a gente manda amostras para o laboratório, faz testes e, quando aplica um químico, que seria a solução, a água no rio já mudou”, diz. “Em 32 anos de empresa, nunca vi nada assim.”
Carro-pipa
Além do custo extra para limpar as águas, as empresas privadas precisam se preocupar em complementar o abastecimento, que vem sendo racionado em vários municípios. Há cerca de três semanas, a Bosch, uma das maiores fabricantes de autopeças do País, precisou comprar água de caminhões-tanque para ser utilizada no sistema produtivo da fábrica de Campinas. Foi a primeira vez que o grupo recorreu a esse expediente. Segundo Theophilo Arruda Neto, gerente de Engenharia de Segurança e Meio Ambiente, sempre que a empresa identificar necessidade vai buscar esse tipo de alternativa.
A situação das indústrias só não é pior porque, com o baixo crescimento da economia, a produção está em ritmo mais lento. “Se a economia estivesse mais pujante, essa crise hídrica seria mais extensiva, mais danosa”, diz o vice-diretor do Centro das Indústrias (Ciesp) de Americana, Leandro Zanini. (OESP)

Aquífero Guarani pode aliviar crise do Cantareira

Projeto da USP feito para comitê de Alckmin mostra que 24 poços teriam capacidade de abastecer até 300 mil na região de Piracicaba.
Cantareira fornece água ainda hoje para 6,5 milhões de pessoas na Grande SP.
Geólogos da Universidade de São Paulo (USP) elaboraram um projeto que propõe captar mil litros por segundo do Aquífero Guarani em Itirapina, a cerca de 190 km da capital, para abastecer até 300 mil pessoas que são atendidas hoje pelo Sistema Cantareira na região de Piracicaba. A proposta serviria para reduzir o estresse sobre o manancial, de onde a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) já capta água da segunda cota do volume morto.
O estudo, que ainda não foi concluído, mas será apresentado ao grupo especial de ações estratégicas em recursos hídricos criado em julho pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), prevê a construção de um campo com 24 poços artesianos na região de afloramento – parte mais rasa – da reserva subterrânea. Eles ficariam distantes 500 metros entre si, para que um não “roube” água do outro, e teriam entre 150 e 300 metros de profundidade.
Segundos os cálculos dos especialistas, cada poço poderia bombear até 150 mil litros por hora até uma grande caixa d’água na superfície.
Desse reservatório externo, a água seria transportada por meio de uma adutora até uma estação de tratamento na região de Piracicaba, que fica a cerca de 55 km do campo de poços. Como Itirapina fica em uma área montanhosa, cem metros acima do nível de Piracicaba, essa transposição ocorreria por gravidade, como funciona nas cinco represas que formam o Sistema Cantareira, o que reduz os custos.
Só com os poços e as bombas, o investimento previsto seria de R$ 40 milhões – o orçamento total, contudo, ainda não foi calculado pelos especialistas. As obras poderiam ser concluídas em um ano.
Em 2004, um estudo feito pela Sabesp para retirar até 5 mil litros por segundo do Aquífero Guarani para atender a região de Campinas, que também é abastecida pelo Cantareira, previa um investimento de até R$ 745 milhões. De acordo com o levantamento feito, seria necessário construir 270 poços para atingir a oferta de água pretendida, cinco vezes maior do que a prevista no estudo da USP.
Para levar o mesmo volume de água do Guarani até a Grande São Paulo, a Sabesp previu um custo de até R$ 1,2 bilhão. As duas alternativas foram descartadas à época, quando a outorga do Cantareira foi renovada.
Segundo o diretor do Centro de Pesquisa de Águas Subterrâneas (Cepas) do Instituto de Geologia da USP, Reginaldo Bertolo, o Aquífero Guarani deve ser visto como uma alternativa para reduzir o estresse hídrico da região de cobertura do Cantareira. “Para a Grande São Paulo é difícil pensar, mas para a Bacia do PCJ Piracicaba, Capivari e Jundiaí, que fica mais próxima, não só é viável como diminuiria o estresse hídrico da região e sobraria mais água no Cantareira para atender a região metropolitana”, disse. Os mil litros por segundo retirados da reserva subterrânea poderiam abastecer, por exemplo, toda a população de Americana e Nova Odessa juntas.
Economia
Atualmente, o Cantareira fornece 19 mil litros por segundo para a Grande São Paulo, onde 6,5 milhões de pessoas ainda dependem do manancial, e mais 4,5 mil litros por segundo para as regiões de Campinas e Piracicaba, onde vivem 5,5 milhões de pessoas. Em tempos de seca, cada litro poupado tem sido comemorado pelo governo. Há duas semanas, por exemplo, os órgãos reguladores aprovaram um aumento de mil litros por segundo para socorrer Campinas, que adotou rodízio no abastecimento, mas Alckmin liberou metade.
Coordenador do projeto de Itirapina e integrante do grupo estratégico criado pelo governador, o hidrogeólogo Ricardo Hirata destaca a necessidade de se planejar o uso das reservas superficiais e subterrâneas de forma integrada.
“Há potencialidade para muitas cidades operarem conjuntamente os dois mananciais, tirando proveito do melhor momento de um ou outro recurso. Durante o excesso de água superficial, por exemplo, usar o excedente tratado para recarregar o aquífero, se necessário, e extrair água de poços na estiagem. O segredo é operar de forma inteligente”, afirma.
13,6% era a capacidade do Sistema Cantareira em 24/10/14, quando a Sabesp incluiu a segunda cota do volume morto para captação. Antes, estava em 3%. (OESP)

Falta de água inédita para a maioria das empresas de SP

Indústrias como a Cummins, em Guarulhos, e a Rhodia, em Paulínia, têm recorrido à compra de água de carros-pipa.
Sem água suficiente para manter a produção, a Cummins, fabricante de motores e geradores em Guarulhos, na Grande São Paulo, apelou para a compra de água que chega duas vezes por dia em caminhão-pipa. O complexo da Rhodia em Paulínia, na região de Campinas, tem feito um rodízio, suspendendo a produção em fábricas alternadas para evitar a escassez.
Os custos extras com essas ações não são revelados. A falta de água que se arrasta há vários meses é um fenômeno inédito para a maioria das empresas. “Em mais de 70 anos, nunca havíamos enfrentado um problema desses”, diz um porta-voz da Rhodia. A crise hídrica afeta principalmente o sistema Cantareira, que abastece mais de 70 municípios de São Paulo e cuja água segue para rios do interior, como Atibaia e Piracicaba.
Logo no início da estiagem, em fevereiro, a Rhodia parou sua produção de matéria-prima para a indústria química em Paulínia por duas semanas. Desde então, adota medidas para evitar situações mais graves. O grupo tem paralisado unidades de produção de acordo com a disponibilidade de água captada no rio Atibaia.
No momento, um grupo de 100 funcionários - de um total de 850 do conjunto industrial que reúne 22 unidades produtivas - não está na linha de produção. Eles foram deslocados para atividades de manutenção e treinamento.
Para evitar falta de produto para os clientes, a Rhodia está importando matéria-prima de outras unidades do grupo no mundo em substituição ao que deixa de produzir. Também tem feito estoques ao longo do ano com o aumento da produção em determinados períodos.
Caminhão pipa. Na Cummins, há três meses um caminhão pipa descarrega diariamente 20 m³ de água pela manhã e 20 m³ à tarde para complementar o fornecimento da rede pública.
“Também desenvolvemos ações internas, como a substituição de válvulas de torneiras, inspeções semanais para verificar se há vazamentos e processos para reutilização da água”, diz Cintia Silva, supervisora de Segurança e Meio da Cummins.
Segundo Cintia, por enquanto a entrega de dois caminhões-pipa por dia é suficiente para manter o funcionamento da fábrica, mas, por precaução, a empresa já tem um contrato para o fornecimento de até dez caminhões por dia, se necessário.
Característico do Nordeste, que sempre sofreu com a seca, o caminhão-pipa começa a ganhar espaço em São Paulo, abastecendo condomínios, restaurantes e empresas. Em Campinas, a demanda por carros-pipa explodiu. “É uma loucura, não conseguimos atender nem metade dos pedidos”, diz Francenir de Souza, 63 anos, funcionário da Água Jato Transportes.
A montadora Hyundai reduziu o consumo em sua unidade em Piracicaba e adota um sistema de reúso. O grupo deixou de captar água do Rio Piracicaba em razão da crise e passou a comprá-la de outras fontes.
A Mercedes-Benz tem registrado problemas de abastecimento na unidade em Campinas, onde mantém sua área de pós-venda. Segundo a empresa, a lavagem de veículos está suspensa e a frequência da lavagem de pisos, antes diária, agora é de uma vez por semana. (OESP)

sábado, 25 de outubro de 2014

Seca leva condomínios a vetar uso de áreas de lazer

Seca leva condomínios a vetar uso de piscina, salão de festas e churrasqueira
A crise hídrica que afeta o Cantareira faz com que moradores tomem medidas restritivas de consumo; obras para perfuração de poços artesianos, captação da chuva e reuso de água de máquina de lavar são alternativas debatidas entre paulistanos.
Crise hídrica que afeta o Cantareira faz com que moradores tomem medidas restritivas de consumo
A crise hídrica de São Paulo já leva condomínios a adotar medidas restritivas no uso das áreas comuns como forma de amenizar ou postergar a falta d’água. Piscinas fechadas durante a semana, churrasqueiras e salões de festas vetados por tempo indeterminado e até racionamento interno implementado pelo síndico são práticas hoje aceitas por moradores que temem um mal ainda maior: a torneira seca.
Obras para possibilitar a captação da água da chuva, da máquina de lavar ou mesmo de poços artesianos também fazem parte da lista de medidas cogitadas para assegurar o abastecimento dos prédios da capital. Segundo levantamento recente feito pela administradora de condomínios Lello, 37% dos paulistanos vivem em apartamentos – cerca de 4 milhões de pessoas.
As ações têm sido discutidas em reuniões extras de condomínio agendadas geralmente após ao menos um dia de interrupção no fornecimento de água pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Mas mesmo quem ainda não sofreu com a falta d’água começa a se planejar para evitar que isso aconteça.
Com 400 apartamentos, espalhados em quatro torres, o Condomínio Cores da Barra, que fica na Barra Funda, zona oeste da capital, já vetou o uso da piscina de segunda a sexta-feira. De acordo com o síndico, Fabio Arra, o processo de limpeza e manutenção da piscina, que tem 300 mil litros de água, consome, em média, 20 mil litros.
“Ao permitir a utilização somente nos fins de semana, vamos reduzir isso pela metade ou até menos. É uma questão de bom senso e também de segurança, já que não estamos repondo o nível. Com a piscina mais baixa, há risco para os usuários e para os equipamentos”, diz. 
Na próxima reunião de condomínio, marcada para amanhã, Arra também pretende propor a possibilidade de perfurar um poço no terreno para buscar água do lençol freático. Essa medida, no entanto, vai depender de autorização do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), órgão estadual responsável pelas licenças. O procedimento dura, em média, três meses e pode custar R$ 10 mil.
Para a gerente de produtos da Lello, Raquel Tomasini, as medidas ajudam os condomínios a economizar. Mas, segundo a especialista, o principal desafio é conscientizar o morador da necessidade de consumir água com critério. “Quem mora em prédio costuma sentir menos a falta d’água porque, geralmente, os reservatórios são grandes”, afirma.
Os cerca de 1,5 mil moradores do Condomínio Chácara das Flores, na zona leste, resolveram agir por conta própria. Sem outras opções de economia, eles adotaram um racionamento interno. Os registros dos 363 apartamentos são desligados diariamente, das 13 às 17 horas. O rodízio foi iniciado há pouco mais de uma semana, e a expectativa é de que o resultado venha na conta do próximo mês.
Festa
Em tempos de seca, o uso das áreas comuns do Condomínio Platinum, que fica na região do Jardim Guedala, zona sul, também ficou restrito. A síndica Maria Flora Fernandez vetou o aluguel do salão de festas e da churrasqueira. Com 60 apartamentos, o prédio de alto padrão também deve “perder” a piscina em pouco tempo. É que desde o agravamento da seca, o condomínio não tem reposto a água. “Quem usa já percebe a diferença. A piscina está mais baixa”, diz Flora.
Mas, apesar de impopulares, as medidas adotadas até agora têm o apoio dos condôminos, garante a síndica. “Havia três festas marcadas. Fiquei preocupada, mas todos entenderam os motivos e não reclamaram”, afirma Flora. (OESP)

Microplásticos no ar de casas e carros

Microplásticos no ar de casas e carros: estudo alerta que a exposição é 100 vezes maior que a estimada. Como a presença de microplásticos no...