sábado, 23 de maio de 2026

Taiwan: alto crescimento econômico com decrescimento populacional

O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de Taiwan, em 2025, foi muito acima da média mundial, enquanto a população apresentou declínio, ao contrário do ritmo médio global que apresenta aumento.

O gráfico abaixo, com dados do relatório WEO do FMI de abril de 2026 mostra que, em 2025, o crescimento do PIB taiwanês foi de 8,7% e a variação populacional foi negativa em 0,5%. Ou seja, Taiwan apresentou alto crescimento econômico com decrescimento demográfico. O contraste com o Brasil é marcante. Em terras tupiniquins, em 2025, o crescimento do PIB foi de 2,3% e o crescimento populacional foi de 0,5%.
Estas características econômicas e demográficas de Taiwan, em 2025, não foram um ponto fora da curva, mas refletem uma realidade que tem se materializado ao longo de cinco décadas.

Em 1980, a população brasileira era 120 milhões de habitantes e deve chegar a 216 milhões em 2030, um crescimento de 82% em 50 anos. A população taiwanesa passou de 17,9 milhões de habitantes em 1980 para 23,7 milhões em 2019 (atingindo o pico populacional) e deve cair para 23,3 milhões. Em 50 anos o crescimento foi de 30%.

Portanto, o Brasil é um país muito mais populoso e que apresentou um crescimento demográfico significativo em cinco décadas. Na teoria dos economistas populacionistas era para o maior país latino-americano ter apresentado melhores resultados de progresso e bem-estar. Mas aconteceu o contrário.

O gráfico abaixo, também com dados do WEO/IMF, mostra a renda per capita, em preços constantes e em poder de paridade de compra (ppp), para o Brasil e Taiwan. Nota-se que o Brasil tinha uma renda per capita maior no início da década de 1980, mas apresentou desempenho pífio perto de Taiwan nas décadas seguintes.

Em 1980, a renda per capita brasileira era de US$ 13,7 mil e deve chegar a US$ 22 mil em 2030, um crescimento de 60% em 50 anos. No mesmo período, a renda per capita de Taiwan passou de US$ 9,1 mil para US$ 81 mil, um crescimento de 9 vezes em 50 anos.

O crescimento da renda per capita taiwanesa foi acompanhado pela melhoria da qualidade de vida e a redução da pobreza e da mortalidade infantil. Em 1950, a expectativa de vida ao nascer era de 56 anos e deve chegar a 82 anos em 2030 em Taiwan. No Brasil, a expectativa de vida ao nascer era de 49 anos em 1950 e deve atingir 77 anos em 2030. Taiwan já superou os EUA e foi além da barreira de 80 anos na conquista da longevidade da população.

Desta forma, a ideia de que “mais gente gera mais riqueza” não se sustenta quando olhamos para a experiência comparada. O caso de Taiwan mostra justamente o oposto: o fator decisivo não foi o crescimento demográfico, mas a qualidade das instituições, das políticas públicas e da estrutura social e produtiva. Cabe destacar alguns mecanismos centrais:

1) Capital humano e educação de alta qualidade

Taiwan investiu pesadamente em educação básica universal e, sobretudo, em ensino técnico e superior voltado à indústria. O país formou uma força de trabalho altamente qualificada, especialmente em engenharia e tecnologia. O Brasil ampliou o acesso educacional, mas com problemas persistentes de qualidade e forte desigualdade.

2) Estratégia de industrialização e inserção externa

Desde os anos 1960–70, Taiwan adotou uma estratégia clara de industrialização voltada à exportação, com foco crescente em setores de alta tecnologia (como semicondutores). Empresas como a TSMC são hoje centrais na economia global. Já o Brasil teve uma industrialização mais voltada ao mercado interno, perdeu dinamismo a partir dos anos 1980 e passou por um processo de desindustrialização precoce.

3) Estado desenvolvimentista eficiente

O Estado taiwanês atuou de forma coordenada, com políticas industriais, tecnológicas e financeiras consistentes ao longo do tempo. Houve continuidade estratégica. No Brasil, a política econômica foi mais volátil, com ciclos de expansão e crise, inflação elevada até os anos 1990 e menor coordenação de longo prazo.

4) Demografia: bônus vs. armadilha da renda média

O crescimento populacional só gera benefícios quando há emprego produtivo e aumento de produtividade. Taiwan aproveitou bem seu “bônus demográfico” no passado e, mesmo com o envelhecimento atual, já atingiu alta renda. O Brasil também teve bônus demográfico, mas o aproveitou parcialmente — com baixa produtividade e grande informalidade. Resultado: mais população não se traduziu automaticamente em mais renda per capita.

5) Produtividade como variável-chave

O crescimento de longo prazo depende fundamentalmente da produtividade (quanto cada trabalhador produz), não do número de trabalhadores. Taiwan conseguiu elevar rapidamente sua produtividade ao migrar para setores intensivos em tecnologia. O Brasil ficou preso a setores de menor valor agregado e com ganhos de produtividade limitados.

6) Instituições, desigualdade e ambiente de negócios

Taiwan combinou reformas agrárias, redução de desigualdades iniciais e forte apoio à pequena e média empresa exportadora. O Brasil manteve níveis elevados de desigualdade, o que limita o potencial de crescimento sustentado e a difusão de oportunidades.

A divergência no ritmo de progresso entre Brasil e Taiwan demonstra que o tamanho e o crescimento populacional, por si só, não determinam o sucesso econômico. O caso taiwanês evidencia que o crescimento sustentado depende fundamentalmente de ganhos de produtividade, impulsionados por educação de qualidade, políticas industriais consistentes e inserção competitiva no comércio internacional.
Enquanto Taiwan transformou sua estrutura produtiva e consolidou um modelo exportador de alta tecnologia, o Brasil apresentou trajetória mais instável, com baixa produtividade e perda de dinamismo industrial e perda de competitividade internacional. Assim, mais do que um “gigante demográfico”, o desenvolvimento requer um projeto nacional capaz de converter população em capital humano e inovação. (ecodebate)

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