A Engrenagem Oculta da
Reciclagem
• Protagonismo prático: Na
ausência de redes de coleta seletiva estruturadas em centenas de municípios, a
catação informal e organizada via cooperativas impede que toneladas de
plásticos, papéis e metais terminem em lixões ou ecossistemas naturais.
• Perfil de vulnerabilidade:
A base da cadeia é composta majoritariamente por mulheres, muitas vezes chefes
de família, que lidam diretamente com insalubridade e riscos ocupacionais
diários.
• Serviço ambiental não
remunerado: O ganho dos catadores cinge-se estritamente ao peso comercializado
do material triado, sem remuneração governamental ou privada pelo serviço
público de saneamento e mitigação climática que entregam à coletividade.
Desafios para uma Transição
Justa
• Falta de formalização:
Apenas uma parcela minoritária da categoria integra associações ou cooperativas
formalizadas, limitando o acesso a suporte técnico, de infraestrutura e de
segurança jurídica.
• Responsabilidade
corporativa: O modelo circular atual depende da precarização do elo mais fraco
para compensar falhas estruturais na logística reversa das grandes empresas.
• Demanda por políticas
públicas: Especialistas e acadêmicos — a exemplo de debates recentes
repercutidos no EcoDebate e em estudos da USP — reforçam que a verdadeira
sustentabilidade só existirá mediante o pagamento por serviços ambientais prestados
por esses agentes.
Trabalhadores da cadeia de
reciclagem seguem, em grande parte, na informalidade, sem remuneração pelos
serviços ambientais que prestam e expostos a condições degradantes de trabalho.
O Brasil gerou mais de 81
milhões de toneladas de resíduos sólidos em 2025, segundo o Panorama dos Resíduos
Sólidos no Brasil, publicado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio
Ambiente (Abrema). Desse total, a taxa de reciclagem efetiva calculada pelo
Ministério das Cidades ficou em 4,5%, muito distante da meta de 20% que a
Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) havia fixado para o ano
de 2025. Quando se inclui a coleta informal realizada por catadores autônomos,
o índice sobe para 8,7%. A diferença entre os dois números expõe um dado
central e pouco debatido. Mais da metade do que é efetivamente reciclado no
país resulta do trabalho de catadoras e catadores, e não de sistemas públicos
estruturados de coleta seletiva.
Esse trabalho, no entanto,
permanece em larga medida invisível. O discurso da economia circular ganhou
espaço nas estratégias empresariais e nas políticas públicas brasileiras,
consolidado no Plano Nacional de Economia Circular 2025-2034, elaborado pelo
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A indústria da
reciclagem processa mais de 15 milhões de toneladas de materiais por ano,
movimentando cerca de R$ 80,7 bilhões, conforme levantamento da Mastersenso
Consultoria Industrial divulgado pela FecomercioSP. O contraste entre a
dimensão econômica do setor e a condição de quem o sustenta na base é evidente.
Enquanto a cadeia gera bilhões, os trabalhadores que alimentam sua
matéria-prima seguem, em grande parte, na informalidade, sem remuneração pelos
serviços ambientais que prestam e expostos a condições degradantes de trabalho.
Os números da nova edição são
contundentes. Cada catador perde, em média, 15,59 horas de trabalho por mês na
triagem de plásticos que não têm valor de mercado, o equivalente a 9,38% do
tempo mensal de trabalho, ou aproximadamente dois dias completos dedicados a
resíduos que não geram qualquer retorno financeiro. Considerando a jornada
média observada, de sete horas e meia diárias ao longo de 22 dias por mês,
trata-se de uma perda recorrente e estrutural. Em termos econômicos, as
cooperativas incluídas no cálculo deixam de arrecadar, mensalmente, entre R$
1.179,03 e R$ 3.771,72, valores expressivos para organizações que já operam no
limite da viabilidade. O plástico segue como principal categoria entre os
rejeitos, representando cerca de 45% de todo o material descartado pelas
cooperativas por falta de viabilidade de reciclagem, seja pela mistura de
materiais, pela pigmentação inadequada ou pela ausência de comprador.
O perfil social desses
trabalhadores acrescenta uma camada de injustiça ao problema. A pesquisa do IDC
e da UFF identificou que 68,56% dos catadores nas organizações estudadas são
mulheres e que quase 90% se declaram pardos ou pretos, sendo 58,75% pardos e
30,82% pretos. O trabalho invisível que sustenta a reciclagem brasileira é,
portanto, majoritariamente feminino e negro, o que insere a questão no campo da
justiça ambiental e do racismo ambiental. As externalidades negativas de um
sistema de embalagens concebido sem compromisso com a reciclabilidade real são
absorvidas precisamente pelos grupos sociais historicamente mais penalizados
pela desigualdade brasileira.
Há, contudo, movimentos
institucionais relevantes em curso. Os resultados da pesquisa fluminense
embasaram o Projeto de Lei 5.392/2025, apresentado pelo deputado estadual
Carlos Minc e em tramitação na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de
Janeiro. A proposta estabelece que embalagens comercializadas no estado sejam
100% recicláveis e adequadamente rotuladas, garante remuneração direta às
cooperativas pelos serviços ambientais prestados, como triagem, coleta seletiva
e educação ambiental, e fixa prazo de cinco anos para o banimento de plásticos
não recicláveis do mercado estadual. No plano federal, a Lei 15.088/2025
proibiu a importação de resíduos sólidos e rejeitos, medida que protege o
mercado interno de materiais recicláveis e beneficia diretamente os catadores.
Quando o Decreto 12.438/2025 flexibilizou essa proibição, a reação do movimento
de catadores levou o governo federal a revogá-lo poucas semanas depois,
substituindo-o por regulamentação com limites e cotas. Em outubro de 2025, o
Decreto 12.688 instituiu o Sistema de Logística Reversa para embalagens
plásticas, com previsão expressa de inclusão socioprodutiva de catadoras e
catadores.
A reivindicação central do
movimento de catadores aponta o caminho mais consistente. Como argumenta
Tatiana Bastos, esses trabalhadores precisam ser pagos pelo serviço ambiental
que prestam, e não apenas pelo peso do material vendido. Cada tonelada de PET
triada é plástico que deixa de chegar aos rios, e cada fardo de papelão recuperado é árvore que deixa de ser
derrubada. Trata-se de serviço público ambiental prestado à sociedade, com
benefícios climáticos, sanitários e econômicos mensuráveis, executado hoje de
forma gratuita por quem menos pode subsidiar o sistema. A economia circular
brasileira só será efetiva, e só será justa, quando reconhecer
institucionalmente essa contribuição, remunerar quem a realiza e
responsabilizar o empresariado pela reciclabilidade real daquilo que coloca no
mercado. Enquanto isso não ocorrer, a circularidade seguirá sendo sustentada
pelo trabalho invisível e mal pago de mulheres e homens que o país insiste em
não enxergar. (ecodebate)





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