quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Catadores, economia circular e o trabalho invisível que sustenta a reciclagem no Brasil

No Brasil, cerca de 800 mil catadores e catadoras de materiais recicláveis são responsáveis por manipular até 90% de todo o material que efetivamente retorna ao ciclo produtivo. Esse enorme contingente opera predominantemente na informalidade, sustentando o conceito corporativo de economia circular sem o devido reconhecimento financeiro, institucional ou previdenciário.

A Engrenagem Oculta da Reciclagem

• Protagonismo prático: Na ausência de redes de coleta seletiva estruturadas em centenas de municípios, a catação informal e organizada via cooperativas impede que toneladas de plásticos, papéis e metais terminem em lixões ou ecossistemas naturais.

• Perfil de vulnerabilidade: A base da cadeia é composta majoritariamente por mulheres, muitas vezes chefes de família, que lidam diretamente com insalubridade e riscos ocupacionais diários.

• Serviço ambiental não remunerado: O ganho dos catadores cinge-se estritamente ao peso comercializado do material triado, sem remuneração governamental ou privada pelo serviço público de saneamento e mitigação climática que entregam à coletividade.

Desafios para uma Transição Justa

• Falta de formalização: Apenas uma parcela minoritária da categoria integra associações ou cooperativas formalizadas, limitando o acesso a suporte técnico, de infraestrutura e de segurança jurídica.

• Responsabilidade corporativa: O modelo circular atual depende da precarização do elo mais fraco para compensar falhas estruturais na logística reversa das grandes empresas.

• Demanda por políticas públicas: Especialistas e acadêmicos — a exemplo de debates recentes repercutidos no EcoDebate e em estudos da USP — reforçam que a verdadeira sustentabilidade só existirá mediante o pagamento por serviços ambientais prestados por esses agentes.

Trabalhadores da cadeia de reciclagem seguem, em grande parte, na informalidade, sem remuneração pelos serviços ambientais que prestam e expostos a condições degradantes de trabalho.

Reinaldo Dias - Articulista do EcoDebate, é Doutor em Ciências Sociais –Unicamp; Especialista em Ciências Ambientais – USF; Pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK; http://lattes.cnpq.br/5937396816014363; reinaldias@gmail.com.
Mulheres da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis da Ilha de Vitória (Amariv).

O Brasil gerou mais de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos em 2025, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, publicado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Desse total, a taxa de reciclagem efetiva calculada pelo Ministério das Cidades ficou em 4,5%, muito distante da meta de 20% que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) havia fixado para o ano de 2025. Quando se inclui a coleta informal realizada por catadores autônomos, o índice sobe para 8,7%. A diferença entre os dois números expõe um dado central e pouco debatido. Mais da metade do que é efetivamente reciclado no país resulta do trabalho de catadoras e catadores, e não de sistemas públicos estruturados de coleta seletiva.

Esse trabalho, no entanto, permanece em larga medida invisível. O discurso da economia circular ganhou espaço nas estratégias empresariais e nas políticas públicas brasileiras, consolidado no Plano Nacional de Economia Circular 2025-2034, elaborado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A indústria da reciclagem processa mais de 15 milhões de toneladas de materiais por ano, movimentando cerca de R$ 80,7 bilhões, conforme levantamento da Mastersenso Consultoria Industrial divulgado pela FecomercioSP. O contraste entre a dimensão econômica do setor e a condição de quem o sustenta na base é evidente. Enquanto a cadeia gera bilhões, os trabalhadores que alimentam sua matéria-prima seguem, em grande parte, na informalidade, sem remuneração pelos serviços ambientais que prestam e expostos a condições degradantes de trabalho.

O cenário internacional agrava a urgência do debate. O Circularity Gap Report 2026, produzido pela Circle Economy em parceria com a Deloitte, estima que o modelo linear de produção, baseado em extrair, produzir, usar e descartar, gera perdas anuais de 25,4 trilhões, o equivalente a 31% do PIB global. A taxa de circularidade mundial, em vez de avançar, recuou de 7,2% em 2023 para 6,9% em 2024. O Brasil apresenta um caso emblemático dessa contradição. O país é referência mundial na reciclagem de latas de alumínio, com índice de 97,3% em 2024 segundo a associação Recicla Latas, mas esse desempenho excepcional depende fortemente da coleta informal realizada por catadores de rua, que dominam historicamente esse mercado. A excelência estatística de um material específico convive com a precariedade estrutural de quem a produz.
A dimensão mais concreta dessa precariedade foi revelada pela segunda edição da pesquisa Catadores por Menos Plástico, conduzida pelo Instituto de Direito Coletivo (IDC) em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), por meio da Incubadora Tecnológica de Empreendimentos de Economia Solidária do Médio Paraíba (InTECSOL). O levantamento, realizado entre julho e dezembro/2025, acompanhou 20 associações e cooperativas de catadores na capital e no interior do estado do Rio de Janeiro, mantendo o mesmo recorte territorial da primeira edição para permitir a comparação dos dados. Os resultados confirmam e aprofundam o quadro identificado em 2024, quando a pesquisa apontou que 64% dos resíduos plásticos que chegavam às cooperativas eram, na prática, não recicláveis.

Os números da nova edição são contundentes. Cada catador perde, em média, 15,59 horas de trabalho por mês na triagem de plásticos que não têm valor de mercado, o equivalente a 9,38% do tempo mensal de trabalho, ou aproximadamente dois dias completos dedicados a resíduos que não geram qualquer retorno financeiro. Considerando a jornada média observada, de sete horas e meia diárias ao longo de 22 dias por mês, trata-se de uma perda recorrente e estrutural. Em termos econômicos, as cooperativas incluídas no cálculo deixam de arrecadar, mensalmente, entre R$ 1.179,03 e R$ 3.771,72, valores expressivos para organizações que já operam no limite da viabilidade. O plástico segue como principal categoria entre os rejeitos, representando cerca de 45% de todo o material descartado pelas cooperativas por falta de viabilidade de reciclagem, seja pela mistura de materiais, pela pigmentação inadequada ou pela ausência de comprador.

A origem desses materiais tem endereço conhecido. Segundo o estudo, quase 82% dos plásticos não recicláveis provêm da indústria alimentícia, com destaque para embalagens do tipo BOPP, o plástico metalizado que envolve biscoitos e salgadinhos, e para o chamado PET bandeja, plástico transparente usado em embalagens de bolos e ovos que, embora tecnicamente reciclável, raramente encontra canal de comercialização. A pesquisa realizou ainda uma auditoria de marcas e identificou quase 200 empresas entre os resíduos analisados, com um grupo reduzido de grandes companhias aparecendo com frequência desproporcional nas embalagens descartadas. O estudo aponta também práticas de greenwashing, em que produtos são comercializados como sustentáveis ou recicláveis sem qualquer possibilidade real de reaproveitamento. Como sintetiza Tatiana Bastos, presidente do IDC, o sistema atual transfere custo, tempo e desgaste físico para os catadores, que trabalham mais para ganhar menos, enquanto o empresariado continua colocando no mercado embalagens inviáveis do ponto de vista técnico ou econômico.
A pesquisa evidencia uma distorção que o vocabulário corrente da sustentabilidade tende a encobrir. O selo de reciclável estampado nas embalagens sugere ao consumidor que o descarte correto garante o retorno do material ao ciclo produtivo. Na realidade das cooperativas, boa parte desse material nasce como rejeito, pois não há viabilidade econômica ou tecnológica para seu reaproveitamento. O custo dessa ficção não é distribuído de forma equitativa. Ele recai sobre os elos mais vulneráveis da cadeia, que arcam com o tempo de triagem não remunerado, com a exposição a resíduos orgânicos contaminantes misturados aos recicláveis e com a redução da renda ao final do mês. A responsabilidade pela concepção das embalagens, que caberia ao capital industrial, é convertida em prejuízo cotidiano de trabalhadores que já operam em condições de vulnerabilidade.

O perfil social desses trabalhadores acrescenta uma camada de injustiça ao problema. A pesquisa do IDC e da UFF identificou que 68,56% dos catadores nas organizações estudadas são mulheres e que quase 90% se declaram pardos ou pretos, sendo 58,75% pardos e 30,82% pretos. O trabalho invisível que sustenta a reciclagem brasileira é, portanto, majoritariamente feminino e negro, o que insere a questão no campo da justiça ambiental e do racismo ambiental. As externalidades negativas de um sistema de embalagens concebido sem compromisso com a reciclabilidade real são absorvidas precisamente pelos grupos sociais historicamente mais penalizados pela desigualdade brasileira.

Há, contudo, movimentos institucionais relevantes em curso. Os resultados da pesquisa fluminense embasaram o Projeto de Lei 5.392/2025, apresentado pelo deputado estadual Carlos Minc e em tramitação na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. A proposta estabelece que embalagens comercializadas no estado sejam 100% recicláveis e adequadamente rotuladas, garante remuneração direta às cooperativas pelos serviços ambientais prestados, como triagem, coleta seletiva e educação ambiental, e fixa prazo de cinco anos para o banimento de plásticos não recicláveis do mercado estadual. No plano federal, a Lei 15.088/2025 proibiu a importação de resíduos sólidos e rejeitos, medida que protege o mercado interno de materiais recicláveis e beneficia diretamente os catadores. Quando o Decreto 12.438/2025 flexibilizou essa proibição, a reação do movimento de catadores levou o governo federal a revogá-lo poucas semanas depois, substituindo-o por regulamentação com limites e cotas. Em outubro de 2025, o Decreto 12.688 instituiu o Sistema de Logística Reversa para embalagens plásticas, com previsão expressa de inclusão socioprodutiva de catadoras e catadores.

O governo federal também assumiu meta ambiciosa de elevar a taxa de reciclagem para 34,5% até 2035, no âmbito do plano para cidades sustentáveis, apostando na ampliação da coleta seletiva e no fortalecimento das cooperativas. A distância entre os 4,5% atuais e esse horizonte indica o tamanho do esforço necessário. A experiência acumulada desde 2010 mostra que metas legais sem instrumentos de financiamento, fiscalização e remuneração dos trabalhadores tendem a permanecer no papel. A meta de 20% prevista para 2025 não foi cumprida, e os lixões que a lei mandou encerrar seguem recebendo 40% dos resíduos com destinação incorreta no país.
Um salto para os catadores e a economia circular no Brasil

A reivindicação central do movimento de catadores aponta o caminho mais consistente. Como argumenta Tatiana Bastos, esses trabalhadores precisam ser pagos pelo serviço ambiental que prestam, e não apenas pelo peso do material vendido. Cada tonelada de PET triada é plástico que deixa de chegar aos rios, e cada fardo de papelão recuperado é árvore que deixa de ser derrubada. Trata-se de serviço público ambiental prestado à sociedade, com benefícios climáticos, sanitários e econômicos mensuráveis, executado hoje de forma gratuita por quem menos pode subsidiar o sistema. A economia circular brasileira só será efetiva, e só será justa, quando reconhecer institucionalmente essa contribuição, remunerar quem a realiza e responsabilizar o empresariado pela reciclabilidade real daquilo que coloca no mercado. Enquanto isso não ocorrer, a circularidade seguirá sendo sustentada pelo trabalho invisível e mal pago de mulheres e homens que o país insiste em não enxergar. (ecodebate)

Nenhum comentário:

El Niño: cidades não estão preparadas para o que está por vir

O governo do Rio Grande do Sul lançou, no mês de junho, o Programa Estadual de Preparação para Eventos Extremos (Prepara RS – El Niño), a fi...