A Nova Estratégia: Pico e
Declínio
A meta do Acordo de Paris
continua viva, mas agora a humanidade precisa correr para garantir o cenário
mais otimista possível:
• O Pico de 1,8°C: No melhor
cenário projetado pela ONU, as temperaturas mundiais atingiriam um pico de até
1,8°C em meados do século antes de começarem a cair.
• Redução a Longo Prazo: Com
ações drásticas, o planeta conseguiria voltar a ficar abaixo dos 1,5°C até o
ano de 2100.
• Cada Décimo Importa:
Permanecer acima de 1,5°C por muito tempo aumenta drasticamente os riscos de
pontos de não retorno (como o colapso da Amazônia ou das correntes oceânicas).
Por isso, cada fração de grau evitada poupa milhões de vidas e ecossistemas.
O que precisa ser feito
imediatamente?
Para encurtar o tempo que
passaremos nessa zona de perigo e mudar o desfecho do século, três pilares são
urgentes:
• Corte massivo e rápido de
emissões: Reduzir drasticamente o uso de combustíveis fósseis e zerar as
emissões de metano.
• Remoção de Carbono em Larga
Escala: Além de plantar florestas, o mundo precisará investir em tecnologias
seguras de captura direta de CO2 da atmosfera para
"resfriar" o planeta.
• Adaptação e Resiliência:
Preparar as cidades, a agricultura e as populações vulneráveis para enfrentar
os eventos extremos que já se tornaram realidade.
Um relatório recém-publicado
pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) traz um alerta
duro ao afirmar que ultrapassar 1,5°C de aquecimento global, em relação aos
níveis pré-industriais, já é praticamente inevitável. Mas o documento também
aponta um caminho possível de retorno, sustentado por corte de emissões,
remoção de carbono, adaptação e cooperação internacional.
Tem notícia assusta ao ser
lida, mas que precisa ser lida assim mesmo. É o caso do novo relatório do
PNUMA, intitulado “Limiting Overshoot – Navigating exceedance of 1.5°C and
pathways towards return”, que acaba de confirmar algo que cientistas já vinham
gritando há anos: o mundo vai ultrapassar a marca de 1,5°C de aquecimento em
relação à era pré-industrial, e isso deve acontecer em um horizonte de tempo
curto.
Se você ficou seriamente
preocupado com isto, saiba que não está sozinho. Mas o relatório não é só sobre
o problema. Ele também é, em boa parte, sobre o que ainda podemos fazer diante
dele. E é sobre isso que vale a pena conversar.
Por que 1,5°C importa tanto?
O número 1,5°C virou símbolo
desde o Acordo de Paris, assinado em 2015. Ele representa o limite considerado
mais seguro para evitar que o clima do planeta saia de um equilíbrio já
bastante desafiador para um cenário de instabilidade profunda.
Cada fração de grau acima
desse patamar aumenta o risco de eventos extremos, compromete a produção de
alimentos, ameaça o abastecimento de água e pode empurrar sistemas naturais
inteiros, como geleiras, correntes oceânicas e a floresta amazônica, para
pontos de não retorno.
Está no calor fora do normal,
nas chuvas que viram tragédia, na água que falta, no ar pesado e nos impactos
que sempre caem primeiro sobre quem tem menos.
O caminho do “excesso, pico e
declínio”
Aqui entra a parte que
carrega alguma esperança concreta. O relatório descreve uma trajetória chamada
de “excesso, pico e declínio”, ou seja, a ideia de que é possível ultrapassar
1,5°C, atingir um pico de temperatura o mais baixo e o mais curto possível, e
depois trazer o termômetro do planeta de volta para baixo desse limite até o
fim do século.
Essa trajetória depende de
três frentes que já estão em curso em diferentes partes do mundo:
Corte acelerado de emissões.
Reduzir com urgência as emissões de gases de efeito estufa, incluindo o metano,
continua sendo a base de tudo. Isso passa pela expansão da energia solar e
eólica, pela eletrificação do transporte, pela eficiência energética em prédios
e indústrias e pela transição das matrizes energéticas de países que ainda dependem
fortemente de combustíveis fósseis. E, reforçando a ideia central, é urgente a
efetiva redução do uso de combustíveis fósseis, como previsto no Acordo de
Paris.
Remoção de carbono como
complemento, não como desculpa. Tecnologias e práticas de remoção de dióxido de
carbono, como reflorestamento em larga escala, recuperação de solos degradados
e captura direta de carbono do ar, vão ser necessárias para tirar o excesso de
CO2 já lançado na atmosfera. O relatório é claro ao afirmar que
essas soluções só funcionam se vierem somadas a cortes reais de emissão, nunca
no lugar deles.
Adaptação inteligente e permanente. Cidades costeiras, pequenas nações insulares e comunidades vulneráveis já precisam se preparar para impactos que não serão mais evitados. Isso inclui desde infraestrutura capaz de suportar eventos extremos até sistemas de alerta antecipado e realocação planejada da população em áreas de risco.
Soluções que já estão em movimento
O aquecimento global deve
ultrapassar nos próximos anos o limite de 1,5°C acima dos níveis registrados na
era pré-industrial, segundo relatório divulgado pela Organização das Nações
Unidas (ONU). Apesar da projeção, o documento aponta que ainda é possível
reduzir as temperaturas posteriormente e manter os objetivos estabelecidos pelo
Acordo de Paris.
Talvez a parte mais animadora
da conversa sobre clima hoje seja perceber que boa parte da tecnologia e do
conhecimento necessário já existe, e está sendo aplicada em escala crescente.
Alguns exemplos ajudam a tornar isso mais palpável.
O resfriamento passivo em
construções, por meio de telhados reflexivos, ventilação natural e arquitetura
bioclimática, reduz o consumo de energia e ao mesmo tempo protege populações do
calor extremo, unindo mitigação e adaptação em uma única solução.
A restauração de manguezais e
recifes de coral funciona como barreira natural contra tempestades e elevação
do nível do mar, ao mesmo tempo em que armazena carbono e protege a
biodiversidade marinha.
A agricultura regenerativa,
que recupera a saúde do solo e reduz o uso de insumos químicos, ajuda a
proteger a segurança alimentar justamente no cenário em que ela está mais
ameaçada.
Nada disso resolve o problema sozinho. Mas cada uma
dessas frentes, multiplicada por milhares de cidades, empresas e comunidades ao
redor do mundo, começa a formar um caminho real de saída.
Justiça climática não é
detalhe, é condição
Um dos pontos mais fortes do
relatório é lembrar que essa transição só vai funcionar se for justa. Os países
que mais contribuíram historicamente para o aquecimento global têm a
responsabilidade de agir com mais força e mais rapidez.
Ao mesmo tempo, as nações e
comunidades mais afetadas, muitas vezes as que menos contribuíram para o
problema, precisam ter voz ativa nas decisões que vão definir o futuro do
planeta.
Ultrapassar 1,5°C não é o fim
de uma meta, é o início de outra fase dela. O relatório do PNUMA deixa claro
que quanto menor for o pico de aquecimento e quanto mais curto for o período
acima do limite, menores serão os danos, e maiores as chances de reverter o
quadro ao longo das próximas décadas.
Isso depende de vontade
política, de investimento em soluções que já conhecemos e de uma cooperação
internacional que coloque a urgência climática acima de interesses de curto
prazo. Depende também de escolhas cotidianas, de pressão social, de cobrança
sobre governos e empresas.
A ciência já entregou os
diagnósticos possíveis. O que vem a seguir é decisão humana, coletiva e
urgente. (ecodebate)





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