sexta-feira, 9 de outubro de 2026

NASA mostra que calor extremo não tem mais estação para acontecer

Estudo da NASA mostra que calor extremo não tem mais estação certa para acontecer.
Estudo recente indica que os dias quentes poderão ter até 4 horas adicionais de calor extremo entre 2070 e 2099 em cenários de altas emissões.

O que diz a pesquisa

• Aumento da duração: A análise vai além das médias diárias e avalia as 24 horas do dia. Atualmente, um dia quente apresenta em média 16,4 horas de calor extremo, período que pode subir para 21 horas no fim do século.

• Foco noturno: Cerca de 70% dessas novas horas de calor intenso devem ocorrer durante a noite, o que reduz a capacidade de recuperação térmica do organismo humano.

• Impacto global: Países de baixa e média renda concentram mais de ¾ da exposição projetada a essas condições severas.

Mais detalhes sobre a pesquisa e o monitoramento climático global podem ser acompanhados na cobertura da G1 Meio Ambiente.

Pesquisa publicada na AGU Advances analisou 45 anos de dados e descobriu que estações de calor extremo cresceram até 50% em área global, fenômeno que já não pode ser explicado apenas pelo aquecimento médio do planeta

Phoenix teve calor recorde em outubro; Rio de Janeiro viveu onda letal na primavera de 2023. Cientistas da NASA explicam por que o risco térmico está escapando do calendário tradicional do verão e o que isso muda para saúde pública, agricultura e prevenção de incêndios.

Por que o calor extremo está “vazando” para outras estações?

Em 2024, a cidade de Phoenix, no Arizona, enfrentou um cenário que desafiou a lógica dos calendários climáticos: após 113 dias consecutivos de temperaturas acima de 38°C (100°F) durante o verão, o calor simplesmente se recusou a ir embora. Foram 21 dias recordes em pleno mês de outubro.

Pouco tempo depois, em março/2026, uma onda de calor prematura voltou a quebrar recordes na região, com nove dias superando os 38°C, algo que só havia ocorrido uma única vez em março em todo o registro histórico.

Essa expansão não é apenas uma curiosidade estatística; ela tem um custo humano palpável. No condado de Maricopa, onde fica Phoenix, os dados de mortalidade revelam a gravidade desse “vazamento” sazonal: em 2024, apenas 46% das mortes relacionadas ao calor ocorreram em julho (o mês historicamente mais quente), contra 64% no ano anterior. O perigo está se diluindo ao longo dos meses, tornando o calor extremo no verão uma ameaça que transborda seus limites.

A ideia de que o calor extremo é um risco restrito ao verão meteorológico tornou-se obsoleta. Uma nova pesquisa, “Extreme dry and humid heat seasons are changing asymmetrically”, conduzida por especialistas da NASA e publicada na AGU Advances mapeou esse fenômeno, revelando como as “estações de calor” estão se expandindo de forma agressiva e, crucialmente, assimétrica ao redor do globo.

O “vazamento” das estações

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O estudo analisou dados dos últimos 45 anos e confirmou que as janelas de calor extremo, tanto seco quanto úmido, estão invadindo o que os climatologistas chamam de shoulder seasons (estações de transição), que compreendem os 2 meses imediatamente anteriores e posteriores ao pico histórico de calor.

Os dados revelam uma transformação de escala global:

Expansão Territorial: As estações de calor seco expandiram-se sobre aproximadamente 50% da área terrestre global, enquanto as de calor úmido cresceram em 48%.

Janela de Perigo: Atualmente, 94% das terras globais experimentam mais de 95% dos seus eventos de calor extremo dentro dessa nova janela expandida (verão tradicional somado às estações de transição).

Fim da Trégua: Onde antes havia meses de temperaturas amenas (primavera e outono), agora encontramos extensões do verão que pegam populações e infraestruturas desprevenidas.

Calor seco X Calor úmido

Para o gestor público e para o cidadão, é vital diferenciar os dois tipos de calor abordados no estudo, pois cada um impõe um desafio distinto à sobrevivência:

Calor Seco (Bulbo Seco): É o principal motor de estresse em ecossistemas e na agricultura. Ele desseca o solo, compromete safras e prepara o terreno para incêndios florestais devastadores.

Calor Úmido (WBGT): Medido pela Temperatura de Globo de Bulbo Úmido (Wet Bulb Globe Temperature). Este é o índice crítico para a saúde humana, pois a alta umidade limita a capacidade do corpo de se resfriar através do suor. Quando o WBGT sobe, protocolos de trabalho ao ar livre e segurança esportiva tornam-se inválidos, exigindo a interrupção de atividades para evitar mortes.

“Diferenciar entre esses 2 tipos de calor é essencial porque eles exigem estratégias de adaptação distintas para reduzir a exposição e porque seu tempo e sazonalidade são frequentemente diferentes”.

A geografia da assimetria

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Um dos pontos mais reveladores da pesquisa da NASA é que o calor não está aumentando de forma uniforme nos dois lados do verão. Existe uma assimetria regional marcante que redesenha o mapa de riscos:

Aumento no Pós-Temporada (Outono): O calor está “esticando” o verão em regiões como o Oeste dos EUA, o Leste da China, o Norte da África e o Leste Europeu.

Aumento no Pré-Temporada (Primavera): O calor está chegando muito mais cedo na Europa Ocidental, na África do Sul e no Noroeste da Índia.

Essa desordem sazonal é perigosa porque o corpo humano e a infraestrutura urbana, como centros de resfriamento e hidratação, não estão em “alerta máximo” fora dos meses tradicionais. Mesmo em locais onde a tendência aponta para um outono mais quente, eventos isolados e letais podem ocorrer no sentido oposto. O Brasil sentiu isso na pele em novembro/2023, quando o Rio de Janeiro enfrentou uma onda de calor histórica e mortal em plena primavera, ilustrando que a “nova normalidade” não exclui picos extremos fora de época.

A falha dos modelos simplistas

Bolha de ar quente ganharão força no Brasil: Temperaturas poderão passar dos 40°C.

O Brasil enfrentará calor intenso, ar seco e umidade em níveis críticos. A bolha de ar quente ganhará força primeiro sobre o Centro-Norte do país e podendo elevar as temperaturas para acima dos 40°C em várias áreas.

Poderia se supor que as estações mudaram simplesmente porque a temperatura média global subiu, “subindo a régua” para todos os meses. No entanto, os pesquisadores da NASA aplicaram um teste de “série temporal sintética” para isolar o aquecimento médio anual. O resultado foi surpreendente: para 80% das terras globais, o aquecimento médio não explica a assimetria observada.

Isso significa que o clima não está apenas ficando mais quente; ele está mudando sua dinâmica interna. O “vazamento” para as estações de transição é impulsionado por tendências de circulação atmosférica e variações na umidade do solo. No outono, por exemplo, solos mais secos intensificam a transferência de calor para a atmosfera, criando um ciclo de retroalimentação que prolonga as temperaturas extremas de forma independente do aquecimento global médio.

Riscos compostos

A expansão das estações térmicas cria o que os analistas de risco chamam de “eventos compostos”, onde o calor extremo começa a sobrepor-se cronologicamente a outros desastres sazonais, multiplicando os danos:

Conflito de Estações - Impacto Observado

Calor + Incêndios Florestais - O prolongamento do calor seco no outono estende a temporada de fogo, dificultando o controle de incêndios florestais (comum no Oeste dos EUA).

Calor + Furacões - No Sudeste dos EUA, o calor prolongado coincide com o pico da temporada de furacões. Em casos de queda de energia após tempestades, a população fica presa em casas sem climatização sob calor letal.

O impacto social também invade as instituições. Escolas, que antes podiam gerenciar o conforto térmico apenas com ventilação natural fora do verão, agora enfrentam o desafio de resfriar salas de aula durante o ano letivo completo, pressionando orçamentos de energia e infraestrutura.

O desafio da adaptação

O estudo da NASA e da AGU deixa um alerta claro: entender quando o calor ocorre é tão vital para a sobrevivência quanto saber quão quente ficará. Os sistemas de alerta de calor, as políticas de saúde pública e a gestão de desastres precisam ser estendidos para além dos limites convencionais do verão meteorológico.

A gestão de riscos moderna não pode mais ser balizada por calendários da década de 80, do século passado. O cronômetro do clima mudou e as estações de transição foram invadidas por extremos que desafiam nossa resiliência.

Se o calendário térmico já não é o mesmo, por que nossas cidades e políticas públicas ainda agem como se estivéssemos vivendo no século passado? (ecodebate)

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