quinta-feira, 19 de julho de 2012

Limitar aquecimento a 2ºC?

Limitar aquecimento a 2ºC está fora de alcance, diz Yvo de Boer, ex-chefe climático da ONU
O ex-chefe climático da ONU disse em 27/03/12 que o compromisso de restringir o aquecimento do planeta a 2ºC, que ele ajudou a costurar na Cúpula de Copenhague pouco mais de dois anos atrás, hoje é inatingível.
“Penso que [a meta de] dois graus está fora de alcance”, disse Yvo de Boer, ex-secretário-executivo da Convenção-quadro sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês), durante uma conferência realizada em Londres sobre a saúde do planeta, a poucos meses da cúpula Rio+20, que será celebrada em junho no Rio de Janeiro.
As 195 partes da Convenção-quadro se comprometeram a limitar a elevação das temperaturas globais em dois graus Celsius.
A meta foi estabelecida por um grupo central de países nas horas finais da turbulenta Conferência de Copenhague, em dezembro de 2009, e foi formalizada na cúpula de Cancun, um ano depois.
Mas um número cada vez maior de cientistas alerta que o objetivo está se esvaindo sem a realização de cortes radicais nas emissões de gases causadores do efeito estufa, responsáveis pelas mudanças climáticas. Alguns consideram que a meta é uma ilusão política perigosa, uma vez que a Terra se encaminha para uma elevação da temperatura de 3ºC ou mais.
“A meta de dois graus está perdida, mas não significa para mim que devamos esquecê-la”, disse de Boer em entrevista à AFP.
“É uma meta muito significativa, não se trata de um simples alvo que foi tirado do nada, tem a ver com tentar limitar a quantidade de impactos”, acrescentou.
“Não se deve esquecer disso, no sentido de que está se ignorando o fato de que se passou pela dificuldade de formular uma meta que não é alcançada por falta de ação política”, continuou.
“Consequentemente, o processo deveria se tratar de como conseguir aproximar o máximo possível dos 2ºC e não dizer ‘comecem tudo de novo e formulem uma nova meta’, esquecendo que passamos por isto muito recentemente”, alertou.
Copenhague representou um limite nas discussões globais sobre o clima. Suas frustrações, juntamente com as crises financeira e fiscal que atingiram em cheio os países ocidentais, fizeram muitos governos marcar passo e até restringir seus planos de ação contra as emissões de carbono.
Enquanto isso, o alto preço do petróleo e do gás levaram os grandes emergentes a queimar cada vez mais carvão, a mais suja das fontes de energia fósseis, aumentando as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono (CO2).
No ano passado, durante a reunião anual da UNFCCC em Durban, na África do Sul, os países concordaram em estabelecer um novo acordo climático em 2015 com entrada em vigor em 2020, colocando tanto os países ricos quanto os pobres pela primeira vez sob restrições legais comuns.
De Boer disse esperar que o quinto relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) sirva de incentivo para uma retomada do ‘deadline’ de 2015.
“Felizmente, teremos outro grande relatório do IPCC em 2014 e então, quando os governos se reunirem em 2015 para negociar algo significativo, a ciência disponibilizará as informações para este processo político”, afirmou. (EcoDebate)

terça-feira, 17 de julho de 2012

Cisterna vai para a favela

Cisterna sai do sertão nordestino e vai para a favela
Modelo da cisterna de placa
A sertaneja Lindinalva Martins e o pedreiro Eduardo Cavalcanti: oito dias para cavar o buraco e mais cinco para construir artesanalmente a cisterna
A sertaneja Lindinalva Martins, 27 anos, aprendeu a conviver com a seca que neste ano mais uma vez castiga a zona rural de Mossoró (RN). Em junho, viajou 277 km até a capital potiguar e de lá voou para o Rio de Janeiro, quando percebeu que a resiliência da vida severina tem valor inclusive para quem mora no frescor da Mata Atlântica bem longe do semiárido. No alto de um dos morros próximos ao Complexo do Alemão, no bairro Engenho da Rainha, ela encontrou o pedreiro Eduardo Cavalcanti, 28 anos. A missão: ensiná-lo a construir cisternas que acumulam água da chuva, transferindo para as favelas cariocas a tecnologia
A diferença é que, nas encostas densamente povoadas do Rio de Janeiro, a nova água servirá para irrigar hortas comunitárias e projetos de reflorestamento para conter deslizamentos – e não para matar a sede, como no assentamento Barreira Vermelha, onde mora Lindinalva. “Antes das cisternas, caminhávamos horas diariamente para encher tonéis nos açudes e trazê-los no lombo do jumento”, recorda. Hoje cada família tem nos quintais uma reserva de 16 mil litros, provenientes das chuvas irregulares na região. Não se sabe até quando os estoques durarão na estiagem atual, que só tem previsão de amainar a partir de outubro. “A solução é ir cada vez mais longe para conseguir abastecimento no chafariz de adutoras”, diz.
No Rio de Janeiro, foram oito dias para cavar o buraco e mais cinco para construir artesanalmente a cisterna, na comunidade Sérgio Silva, onde há um projeto agroflorestal de 1,5 mil metros quadrados para produção de alimento e ervas medicinais, além do plantio de mudas nativas. “É uma dificuldade para a água encanada da companhia de abastecimento chegar no alto da favela, principalmente nas épocas de calor, quando o consumo na cidade é maior”, justifica Eduardo. Ele conta que muitas vezes a saída é a ligação clandestina para a distribuição através de bombeamento feito pelos moradores, sem vazão suficiente para irrigar plantios – apenas abastecer torneiras.
Uma segunda cisterna começou a ser construída na vizinhança, também na Serra da Misericórdia, onde existem mais de cem comunidades. “A região é a última área verde da Zona Norte da capital e apresenta quadro avançado de degradação, sendo necessário um processo de resiliência para a adaptação mais rápida às mudanças no clima”, adverte Edson Gomes, diretor da ONG Verdejar. “A ideia é fazer a comunidade se apropriar e replicar a tecnologia das cisternas”, diz Claiton Mello, diretor da Fundação Banco do Brasil, que apoia o projeto. No Nordeste, a entidade auxiliou a construção de 60 mil cisternas, ao custo de R$ 2.080 cada.
“Mais que a obra propriamente dita, o importante é o modelo que envolve qualificação, participação social e mobilização das comunidades”, ressalva Naidson Baptista, da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA). Desde 2004, a organização construiu 410 mil cisternas com apoio do Ministério do Desenvolvimento Social e patrocínio de entidades privadas, como a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e a Fundação Pepsico. No total, foram investidos até o momento R$ 750 milhões, com meta de atingir 750 mil cisternas até 2014, reduzindo a dependência da população em relação aos carros-pipa e à manipulação política da chamada “indústria da seca”. O desafio, segundo Baptista, não é combater a seca, mas “permitir a convivência com ela”.
“A estratégia é desenvolver sistema produtivo de referência que torna o agricultor familiar mais resiliente às mudanças climáticas”, acrescenta Daniele Cesano, da Rede de Desenvolvimento Humano. “O modelo não pode ser paliativo, mas estruturante, capaz de inspirar planos de contingência para o enfrentamento de secas”, ressalta. No projeto Adapta Sertão, a entidade mobilizou 60 produtores no município de Pintadas (BA), no vale do rio Jacuípe, para a produção de ração animal armazenada em silos como reserva, cultivos de subsistência em sistemas agroflorestais e organização em cooperativas para garantia de assistência técnica e microcrédito. Foi instalada uma fábrica de polpa de frutas nativas da caatinga e estão em testes sistemas para dessalinização de água subterrânea, que é salobra em grande parte do semiárido. “O projeto piloto, previsto para terminar neste ano, está se transformando em política pública e será replicado na região na forma de planos de contingência”, revela Cesano.
Estudo da Coppe/UFRJ indica que as chuvas no Nordeste tendem a diminuir entre 2 e 2,5 mm/dia até 2100, causando perdas agrícolas em todos os Estados da região. O déficit hídrico reduziria em 25% a capacidade de pastoreio de bovinos de corte, o que poderá forçar o retrocesso à pecuária de baixo rendimento. A vazão dos rios, diz a pesquisa, diminuiria em média até 90% entre 2070 e 2100. “É preciso correr, ir mais rápido que os impactos do clima”, conclui Cesano. (EcoDebate)

Brasileiros desperdiçam muita água

Brasileiros reconhecem que desperdiçam água e estimam problemas de abastecimento no futuro
Pesquisa divulgada em 26/06/12 pela organização não governamental WWF-Brasil revela que é grande o desperdício de água entre os brasileiros. “Mais de 80% dos brasileiros consultados em 26 estados da Federação reconheceram que vão ter problemas de abastecimento de água no futuro e, desses, 68% reconheceram que o desperdício de água é a principal causa desse problema”, disse o coordenador do Programa Água para a Vida da WWF-Brasil, Glauco Kimura de Freitas.
A sondagem chama a atenção para o desconhecimento da maioria da população sobre o real consumo de água no Brasil. Na pesquisa, 81% dos entrevistados apontaram a indústria e o setor residencial como os vilões do gasto de água quando, na verdade, o setor agrícola, em especial a irrigação, é o maior consumidor do insumo (69%). A pecuária consome 11% de água; as residências urbanas, também 11%; e a indústria, 7%.
“Como 80% da população brasileira vivem nas cidades, a percepção do cidadão é muito voltada aos problemas da água que ele enfrenta nas metrópoles. Somente 1% das pessoas reconheceu que o problema de água está na zona rural também. Ou seja, que aquela água que sai da torneira dele vem de uma nascente que está, às vezes, a quilômetros da sua casa”, disse Freitas.
De acordo com a pesquisa, só 1% dos consultados admitiu que o desmatamento e a degradação dos sistemas naturais causam problemas de água. “Isso mostra que o cidadão tem uma visão bastante limitada da torneira para frente. Da torneira para trás, há um desconhecimento muito grande”.
O desperdício é elevado nas residências. Cerca de 48% dos entrevistados reconheceram que desperdiçam água em suas casas, o que revela crescimento em relação aos cinco anos anteriores, quando essa parcela atingia 37%. “Mais de 45% reconheceram que não adotam nenhuma medida de economia de água nas suas casas”.
Segundo Freitas, falta coerência entre o discurso e a atitude. Do total de consultados, 30% disseram tomar banhos demorados, de mais de dez minutos. Em 2006, essa parcela era 18%.
Freitas atribuiu costumes como não fechar a torneira enquanto se escova os dentes ou lavar a calçada com mangueira à cultura de abundância que existe, de forma geral, no Brasil, devido à sua dimensão continental e à abundância de florestas e rios. Com isso, a cultura da abundância acaba levando ao desperdício. “Infelizmente, o brasileiro começa a sentir o problema quando ele já está instalado. Ou seja, quando tem racionamento, escassez”.
A sondagem revelou ainda que 67% dos lares pesquisados enfrentam escassez de água. No Nordeste brasileiro, 29% dos domicílios sofrem esse problema. O consumo médio diário de água por brasileiro, da ordem de 185 litros, está próximo ao da União Europeia (200 litros per capita). Segundo Freitas, “a média mascara uma desigualdade”, uma vez que o Semiárido do Brasil apresenta consumo médio de água diário inferior a 100 litros, aproximando-se, portanto, de regiões da África Subsaariana, onde o consumo é abaixo de 50 litros/dia por pessoa.
“O problema no Brasil não é questão de falta d’água. É a má distribuição. Existe um descompasso entre a demanda e a oferta”. Freitas destacou que, no Nordeste, que concentra um grande contingente da população brasileira, já existe escassez de água, enquanto em regiões como o Centro-Oeste e o Norte, que concentram menos de 10% da população, há mais abundância do recurso.
A pesquisa servirá de base para a elaboração de novas campanhas de educação e conscientização dos cidadãos sobre a necessidade de preservação dos mananciais de água na zona rural. (EcoDebate)

domingo, 15 de julho de 2012

Loucuras hídricas

Irrigação em todo o semiárido é ilusão. Só 5% do solo é apto para irrigação. Só há água para 2%. Sempre haverá semiárido, é preciso conviver com isso.
A severa diminuição no regime das chuvas que assola o semiárido brasileiro estava prevista pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Grandes secas no Nordeste são cíclicas: a última foi há 26 anos, em 1982, e daqui um período semelhante teremos outra diminuição drástica e progressiva no volume da pluviosidade.
Esses momentos são férteis para o cometimento de loucuras e demagogias hídricas. Por isso, são necessárias algumas reflexões.
O regime das chuvas, em média, começou a diminuir desde 2006, tendo seu pico em 2012, mas a seca pode adentrar 2013. A região mais atingida é o semiárido baiano. Na verdade, 40% do semiárido brasileiro está na Bahia. Cerca de 250 municípios decretaram situação de emergência. Mas a diminuição das chuvas já se estende ao chamado polígono das secas, atingindo os nove estados do Nordeste.
Encontros para debater o problema, incluindo os moradores da região, mostram que hoje é mais fácil enfrentar a situação que há 30 anos.
Agora, há pelo menos uma cisternas para depositar a água dos pipas, há o salário dos aposentados para fazer uma feira, há mais facilidade nos transportes, a energia elétrica ajuda e há o próprio Bolsa Família. Entretanto, essa infraestrutura ainda é insuficiente para que o período seja atravessado sem maiores sofrimentos.
Não se pode comparar o semiárido de hoje com o de dom Pedro 2º. No século passado, o Denocs (Departamento Nacional de Obras contra a Seca) construiu cerca de 70 mil açudes para armazenar a água da chuva, com uma capacidade de 36 bilhões de metros cúbicos. Grande parte desses açudes, assim como rio São Francisco, está com água. Onde reside o problema?
Hoje, a maioria dos técnicos insiste que a questão chave está na capilaridade da distribuição dessa água. Não foi realizada a distribuição horizontal, por adutoras.
Pior, alguns açudes, como o de Mirorós, na Bahia, tiveram suas águas intensamente utilizadas para irrigação, quando de forma planejada deveriam ter sido poupadas para o uso humano e para a dessedentação dos animais, já que a seca estava prevista. Nesse caso, o fato novo pode ser o colapso hídrico do meio urbano, não apenas das famílias dispersas no meio rural.
Por isso, o diagnóstico da Agência Nacional de Águas (ANA) é que 1.794 municípios nos nove estados do Nordeste precisam de novos ou complementares serviços de água para não entrarem em colapso hídrico até 2025.
Outra questão é vender a ilusão da irrigação para todo o semiárido.
O projeto Áridas, realizado ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, concluiu que apenas 5% dos solos do semiárido são aptos para a irrigação -e, mesmo assim, temos água para irrigar apenas 2% deles.
Portanto, 95% do semiárido sempre serão semiárido.
É inevitável desenvolver um olhar sistêmico sobre a região, algo que chamamos de convivência com o semiárido. São necessárias propostas de atividades econômicas adequadas a esse ambiente específico.
O semiárido tem solução. O pouco que foi feito contribuiu decididamente com a diminuição da mortalidade infantil na região, fato que surpreendeu inclusive os técnicos do IBGE. Temos apenas 400 mil cisternas -projetadas para períodos de seis meses sem chuva- e poucas adutoras, insuficientes para suportar períodos de longa estiagem.
Quem sabe a geração nordestina que vai viver a seca em 2042, agravada pelas mudanças climáticas, possa estar melhor infraestruturada do que a geração atual. (EcoDebate)

Conflitos provocados pelos recursos hídricos

Falta de estratégia de gestão da água ameaça agravar conflitos provocados pela escassez de recursos hídricos
Vicente Andreu Guillo, presidente da ANA: “Com R$ 100 milhões por ano dá para proteger 100 mil quilômetros de margens de rios”
Disputa pela água tende a aumentar – A falta de uma estratégia de gestão da água ameaça agravar os conflitos provocados pela escassez de recursos hídricos no país. O alerta foi feito no seminário “A Governança da Água”, no primeiro dia do fórum Humanidade 2012, evento paralelo da Rio+20 promovido pelas federações das indústrias de São Paulo (Fiesp) e do Rio de Janeiro (Firjan) no Forte de Copacabana, na Zona Sul do Rio. O encontro reuniu empresários, ambientalistas, acadêmicos e administradores de empresas de abastecimento e saneamento.
 “Embora o Brasil ainda não tenha grandes conflitos de disputa pela água, os atritos já começam a aparecer. A tendência é que se agravem se a gestão dos recursos hídricos não for adequada”, disse Vicente Andreu Guillo, presidente da Agência Nacional de Águas (ANA).
O Brasil tem hoje pelo menos três áreas sensíveis de escassez de água. A mais grave é a do semiárido do Nordeste, atingido pela pior seca em quatro décadas. Parte do Rio Grande do Sul também sofre com a estiagem. O terceiro foco é o rio São Marcos, localizado entre Minas Gerais e Goiás, porque a irrigação está desviando para a lavoura a água que deveria chegar às usinas para a geração de energia.
“A fragmentação atrapalha a gestão dos recursos para abastecimento e saneamento. A falta de estratégia faz com que se leve mais tempo para resolver os conflitos em torno da água”, afirmou João Gilberto Lotufo Conejo, diretor da agência, que também participou do seminário.
Além da falta de visão estratégica, a governança dos recursos hídricos precisa enfrentar um desafio urgente: a necessidade de investimentos de R$ 22,2 bilhões até 2025 na modernização dos sistemas de captação, tratamento e distribuição.
De acordo com dados do “Atlas do Abastecimento Urbano”, da agência nacional, mais da metade dos municípios brasileiros terá dificuldade em manter o abastecimento de água à população daqui a treze anos. Nove por cento terão que construir novas barragens e estações de tratamento.
A maior fatia dos investimentos, R$ 9,1 bilhões, deverá ser direcionada à região Nordeste porque barragens e açudes não dão mais conta das necessidades de abastecimento da população e da irrigação das áreas agrícolas.
O Sudeste precisa de R$ 7,4 bilhões de investimentos para fazer frente ao crescimento populacional. As regiões Sul e Norte necessitam de R$ 2 bilhões cada uma e o Centro-Oeste do país, de mais R$ 1,7 bilhão.
É preciso aprimorar ainda os mecanismos de proteção aos recursos hídricos. O presidente da Agência Nacional da Água defendeu que a economia que poderá ser feita com a renegociação dos contratos de concessão de energia, que estão para vencer, não seja direcionada apenas para a redução das tarifas ao consumidor. Parte poderia ser convertida para um fundo visando projetos de reflorestamento das margens de rios e programas de proteção das bacias hidrográficas brasileiras.
Entre as concessões que terão de ser renovadas em breve estão as da Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco (Chesf), no Nordeste, da Companhia Energética de São Paulo (Cesp) e de Furnas Centrais Elétricas, que atende as regiões Sudeste, Sul, Centro-Oeste e Norte. As concessionárias, de acordo com o presidente da ANA, movimentam R$ 6 bilhões por ano.
“Com R$ 100 milhões por ano, que é uma parte pequena em relação aos valores das concessões, dá para proteger 100 mil quilômetros de margens de rios”, afirmou Vicente Andreu Guillo.
O debate no fórum Humanidade 2012 serviu para a apresentação de propostas que convergem para um ponto em comum: a necessidade de se fortalecer a importância da água nas discussões ambientais.
Até agora, concordam ambientalistas, gestores públicos e representantes de entidades empresariais, ela foi relegada a um papel acessório. Uma das ideias é a de se criar um organismo na Organização das Nações Unidas (ONU) para tratar do tema de forma global.
“O grande desafio do Brasil é saneamento, saneamento e saneamento”, disse Marilene Ramos, presidente do Instituto Estadual de Ambiente do Rio de Janeiro (Inea). Depois de pôr em dúvida os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontam que 90% dos brasileiros têm acesso à água potável e 70% são atendidos pela rede de esgoto, Marilene atacou a timidez dos avanços na gestão da água em termos de investimentos, agilidade e regulação. E citou o caso do Rio de Janeiro, um dos poucos estados brasileiros que cobram taxa de água, arrecadando cerca de R$ 40 milhões por ano com o tributo, mas ainda enfrenta muitas dificuldades na hora de aplicar os recursos. “O país precisa de um programa nos moldes do Minha Casa Minha Vida para o setor de saneamento.”
Já a representante nacional da The Nature Conservancy (TNC), Ana Cristina Barros, propôs no seminário a criação de um fundo de incentivo aos produtores agrícolas para que eles preservem ou recuperem as florestas nas margens dos mananciais hídricos como forma de garantir a produção de água.
O modelo mais bem-sucedido da proposta foi implantado em Quito, no Equador, mas o sucesso poderia ser ainda maior no Brasil porque o país é mais avançado em termos de legislação sobre os recursos hídricos.
“O cenário no Brasil está pronto. Só aqui existe este arcabouço legal, com agências e comitês de água estaduais e municipais”, disse Ana. (EcoDebate)

Pegada hídrica: pela gestão eficiente da água

“A pegada hídrica também funciona como um instrumento educativo, pois faz com que as pessoas prestem atenção na maneira como consomem a água”, aponta a engenheira agrônoma.
Para garantir a gestão eficiente da água e avançar nas estratégias de conservação e melhor utilização dos recursos hídricos, ambientalistas do mundo todo apostam na pegada hídrica, uma metodologia “desenvolvida com o objetivo de quantificar a quantidade de água que é alocada durante o processo produtivo”, explica Vanessa Empinotti à IHU On-Line, em entrevista concedida por telefone. Para ela, o cálculo da pegada hídrica é fundamental e contribui para garantir a governança da água, pois além de calcular a quantidade de água gasta na produção de bens de consumo, funciona como uma “ferramenta de gestão, que nos mostra como se está utilizando a água e como indicativos de quais ações devem ser tomadas para aumentar a eficiência de uso dos recursos hídricos”.
Na entrevista a seguir, a pesquisadora informa que, embora a pegada hídrica já seja reconhecida como um indicador eficiente para garantir o uso eficiente da água, os chefes de Estado ainda estão “muito cautelosos” em relação ao tema, pois consideram que o uso correto da água “impacta na geração de riquezas e na economia”.
Vanessa é engenheira agrônoma, graduada pela Universidade Federal do Paraná, mestre pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, e doutora em Ciência Ambiental e Geografia pela Universidade do Colorado, EUA. Atualmente cursa o pós-doutorado na Universidade de São Paulo – USP.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O que é a pegada hídrica?
Vanessa Empinotti – É uma metodologia desenvolvida com o objetivo de quantificar a quantidade de água que é alocada durante o processo produtivo. Portanto, a pegada hídrica considera três tipos de água: a azul, a verde e a cinza. A água azul corresponde à àgua retirada de rios, reservatórios e água subterrânea, que são os corpos d’água, e é utilizada para a produção de um bem. A água verde representa a água que vem da chuva e se acumula no solo; essa tem uma relação principalmente com as plantas e é retirada via evaporação e transpiração. A água cinza está relacionada à quantidade de água necessária para diluir o poluente, que é retornado para o sistema na forma de efluentes.
Então, o diferencial dessa metodologia é o fato de não considerar somente a água que é retirada do rio ou do reservatório para o processo produtivo, mas também a água verde e a água cinza. O objetivo da pegada hídrica é mostrar o quanto de água é alocada no processo produtivo e chamar a atenção para o fato de que ela vem de diferentes fontes.
IHU On-Line – Todas essas cores de água são utilizadas nos processos produtivos?
Vanessa Empinotti– Isso depende. Então, no setor agrícola consideramos normalmente os três tipos de pegada hídrica. Quando a cultura agrícola é irrigada são consideradas as pegadas azul e verde. A pegada cinza é calculada em função da lixiviação de componentes presentes nos fertilizantes e agrotóxicos, e o quanto de água que será necessário para diluir esses poluentes para que o corpo de água receptor atinja novamente a qualidade de água exigida por lei. Já no processo industrial, normalmente se consideram somente as águas azul e cinza, porque não se utiliza a água armazenada no solo proveniente da chuva.
IHU On-Line – No caso da agricultura, qual o desafio em relação à pegada hídrica? É possível utilizar mais a água verde do que a azul?
Vanessa Empinotti – Os criadores da pegada hídrica sugerem que se utilizem diferentes fontes de água, principalmente a água verde, que vem da chuva, porque ela está armazenada no solo, diminuindo a necessidade de retirar água de reservatórios e dos rios.
Entretanto, nem sempre é possível optar pela água da chuva, especialmente quando a plantação é oriunda de uma região onde é necessária a irrigação. Nesses casos, o ideal seria utilizar tecnologias que sejam altamente eficientes no uso da água para a irrigação. A recomendação é que se utilize a irrigação, ou seja, a água azul nos processos produtivos que geram produtos de valor agregado, que geram empregos e riqueza para a região. Nesse sentido, a pegada hídrica vem adicionar mais uma informação para auxiliar na tomada de decisões.
IHU On-Line – Ainda no caso da agricultura, há bastante adesão da água verde no processo produtivo?
Vanessa Empinotti– No Brasil, por exemplo, a produção de soja não depende de irrigação. O país é um dos principais produtores de alimentos que dependem da pegada verde, ou seja, da água da chuva. O Brasil tem uma vantagem enorme em relação a outros países, porque utiliza a melhor fonte de água para produzir alimentos: a chuva.
IHU On-Line – Como a pegada hídrica é calculada no caso das empresas de celulose? Como essas empresas têm feito esse cálculo ou se preocupado com essa questão, considerando que a produção de silvicultura consome bastante água?
Vanessa Empinotti – A silvicultura é como qualquer outra atividade agrícola. Algumas empresas no mundo estão desenvolvendo cálculos dessa pegada hídrica, que consiste em calcular a pegada da área florestal e depois da área industrial. Quer dizer, tanto no viveiro como na área florestal e industrial, consideram-se os três tipos de pegada hídrica para ter a pegada hídrica total. Então, por exemplo, predominam nos viveiros a pegada azul e a pegada cinza, porque o viveiro é coberto e irrigado. Já na floresta, as pegadas predominantes são a verde e a cinza e, na indústria, a azul e a cinza. Considerando esses componentes, é realizado o cálculo da pegada de um produto específico, do papel ou da celulose, dependendo do interesse da empresa.
IHU On-Line – Qual é aproximadamente o cálculo da pegada hídrica das empresas de celulose no Brasil?
Vanessa Empinotti– Não podemos divulgar o valor da pegada hídrica, pois trata-se de estudos ainda preliminares. Todavia, no site do Water Footprint Network tem um artigo que faz uma estimativa do valor da pegada hídrica do papel. Mas é uma estimativa bem geral, global, e que não leva em consideração as especificidades regionais e do país em que está sendo feita. Ali é possível ter uma ideia da quantidade alocada de água para produzir uma folha de papel.
IHU On-Line – Que setores têm preocupação em calcular a pegada hídrica atualmente?
Vanessa Empinotti – No Brasil, a pioneira nessa área é a Natura. Eles não consideram apenas a produção do produto, mas também como ele é utilizado pelo consumidor. Ao produzir um óleo para banho, por exemplo, eles mapeiam a quantidade de água que foi alocada na produção dentro da indústria, e fazem uma avaliação da quantidade de água que o consumidor irá gastar para utilizar o produto. Se o óleo for muito pegajoso, a pessoa ficará mais tempo no banho para retirar o óleo da pele. Essa metodologia proporciona repensar a fórmula do produto para que o consumidor não precise gastar tanta água no momento em que for utilizá-lo.
Internacionalmente, empresas do setor alimentício estão desenvolvendo muitos trabalhos na área da pegada hídrica. No setor de bebidas, o cálculo também é muito forte.
IHU On-Line – Além das diferentes cores de água, que outros aspectos são considerados ao se analisar a pegada hídrica de um produto?
Vanessa Empinotti –Depois de quantificar a quantidade de água, a segunda fase de metodologia é fazer uma avaliação de sustentabilidade, ou seja, contextualizar as informações. Quer dizer, se a água utilizada para a produção de um produto é oriunda de uma bacia hidrográfica que tem problemas de disponibilidade hídrica, mesmo o número da pegada hídrica sendo baixo, deve-se considerar que os recursos saem de uma área de escassez de água, e isso tem um impacto muito maior. Sozinho, o número da pegada hídrica não nos diz quase nada. Por isso é preciso contextualizar esse número para ver o seu impacto dentro da região onde está sendo produzido determinado produto.
IHU On-Line – Qual a utilidade desse indicador para a governança da água? De que maneira é possível reduzir os riscos de escassez de água, calculando a pegada hídrica?
Vanessa Empinotti – Em relação à governança da água, a pegada hídrica abre um espaço para o diálogo. Internamente, para o usuário que utiliza a água, a pegada hídrica funciona como uma ferramenta de gestão, que nos mostra como se está utilizando a água e como indicativos de quais ações devem ser tomadas para aumentar a eficiência de seu uso. Também é gerado um espaço de discussão interno nas empresas, o qual é muito positivo, porque expande para o resto da sociedade.
Assim, a pegada hídrica também funciona como um instrumento educativo, pois faz com que as pessoas prestem atenção na maneira como consomem a água.
IHU On-Line – Qual é o interesse dos Estados na pecada hídrica? Há um incentivo nesse sentido?
Vanessa Empinotti– Os Estados, no mundo inteiro, estão muito cautelosos em relação à pegada hídrica, porque de certa forma ela impacta na geração de riquezas e na economia. Por isso os Estados não utilizam essa metodologia como referência.
Quem divulga a metodologia da pegada hídrica é o meio acadêmico, organizações da sociedade civil e empresas multinacionais que entendem a questão da água como um aspecto de risco para a produção. Então, para esse setor a pegada hídrica é estratégica, porque sem água as empresas não produzem e têm prejuízos.
Os Estados, nesse momento, atuam mais como observadores no sentido de ver quais são as discussões em pauta, os posicionamentos dos diferentes grupos, as possibilidades. Eles buscam ver como a metodologia pode auxiliar na gestão da água, suas limitações etc.
IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?
Vanessa Empinotti – Temos uma tendência muito grande de, ao falar em pegada hídrica, considerar apenas o número da pegada, desconsiderando o cenário em que o produto é produzido. Gostaria de ressaltar que, ao calcular a pegada hídrica, é preciso avaliar o contexto em que uma maçã, por exemplo, é produzida, para saber se a produção é ou não eficiente. Às vezes o valor da pegada hídrica menor não indica alta eficiência na sua produção, pois ela pode estar sendo produzida em uma região de escassez hídrica. O objetivo da pegada hídrica é sempre o mesmo: buscar o uso eficiente da água. (EcoDebate)

Prefeituras e o uso racional de água

Prefeituras que promoverem uso racional de água em prédios públicos vão receber recursos
Os municípios podem receber R$ 3 milhões em recursos para transformar prédios públicos comuns em edifícios sustentáveis em relação ao uso da água. Para conseguir o investimento, que será feito pela Agência Nacional de Águas (ANA), os governos locais têm que apresentar projetos de boas práticas na conservação do recurso, até o dia 17 de setembro.
Cada projeto tem que prever formas de eliminar vazamentos em sistemas de reservação e distribuição de água, reparo e modernização de equipamentos hidráulico-sanitários, medição setorizada em banheiros e cozinhas, além de medição independente para as diferentes fontes de abastecimento, como a concessionária, a água de chuva e a água de reuso.
As prefeituras também terão que definir cursos de capacitação dos servidores que trabalham na edificação e ações educacionais sobre a importância da conservação e uso racional da água.
“Na nossa casa, temos mais facilidade de identificar problemas básicos, como vazamento ou a necessidade de trocar uma descarga. Então, definimos um hall de intervenções mínimas, mais com caráter de manutenção. Além disso, os projetos têm que prever a capacitação de quem frequenta essas edificações”, explicou Cláudio Itaborahy, especialista em recursos hídricos da ANA, responsável pelo edital.
Um exemplo de reuso e aproveitamento de água de chuva é o uso dessa água não potável, nas edificações, para lavagem de pisos, descarga de vasos sanitários e irrigação de jardins. Os municípios também ganham pontos se apresentarem outras propostas ou ainda se estiverem incluídos no Atlas Brasil – Abastecimento Urbano de Água, documento produzido pela ANA, como uma das cidades com potenciais problemas de manancial e de sistema de abastecimento.
Os municípios que tiveram problemas de abastecimento de água entre 2007 e 2011 também terão prioridade na seleção dos projetos. As propostas ainda ganham mais pontos caso a prefeitura tenha legislação que regule o uso racional de recursos hídricos ou, pelo menos, comece a elaborar essas normas.
A ANA vai escolher cinco propostas, sendo um em cada região do país. No dia 17 de julho, sai a divulgação da primeira lista de selecionados. “As propostas vão ser analisadas a cada mês. Os demais projetos que não forem selecionados vão ficar um banco de projetos e, assim que tivermos disponibilidade orçamentária, vamos contemplando outras iniciativas”, disse Itaborahy.
“A ideia é que o Poder Público comece dando exemplo. Muitos municípios têm leis, mas quando você entra em um prédio, como uma escola do governo, vê que, na prática, as normas não são cumpridas”, acrescentou.
As propostas devem ser enviadas para o portal do Sistema de Convênios do Governo Federal (Siconv) na página https://www.convenios.gov.br/siconv/. (EcoDebate)

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