terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Compostagem gera alimentos mais saudáveis e economia para produtores

Composteira permite reaproveitar resíduos de alimentos que contêm nutrientes para as plantas.

Compostagem gera alimentos mais saudáveis e economia para produtores.

Cerca de 50% dos resíduos gerados em São Paulo poderiam ser transformados em adubo para agricultura familiar da cidade;

A reciclagem diminui custos para os produtores e promove a oferta de alimentos mais saudáveis;

Cerca de 10 mil toneladas de resíduos são recolhidas na capital paulista diariamente.

O investimento em compostagem, que é a reciclagem de resíduos orgânicos, pode ser uma das respostas para melhorar o acesso da população à alimentos mais saudáveis e a diminuir custos de produção de agricultores.

É o que defendem especialistas da Campanha São Paulo Composta, Cultiva, iniciativa do Instituto Pólis, apoiada por mais de 54 organizações, que tem como intuito melhorar as políticas que envolvem a gestão desses resíduos na cidade.

Durante a pandemia, o número de pessoas que não podem pagar por alimentos de uma dieta mais saudável chegou a três bilhões mundialmente, de acordo com a ONU. No Brasil, um estudo recente da Embrapa Hortaliças e do Instituto Brasileiro de Horticultura (IBRAHORT) acompanhou o consumo domiciliar de hortaliças durante a pandemia e revelou que 36% dos consumidores brasileiros sentiram a diminuição da quantidade e qualidade dos produtos disponíveis.

O composto resultante da reciclagem dos resíduos orgânicos, quando utilizado como adubo, devolve os nutrientes e melhora a saúde do solo. Esse material beneficia a produção agrícola, pois aumenta a capacidade de infiltração de água e faz com que cresça o número de microrganismos e outros pequenos animais, importantes para manter a fertilidade da terra.

O composto também contribui com a redução de erosões e mantém a temperatura e os níveis de acidez do solo, o que diminui a incidência de doenças nas plantas.

“Ao estimular a vida no solo, o composto favorece os agricultores que optam pelo sistema orgânico de produção”, explica o especialista em gestão ambiental urbana André Biazoti, assessor técnico da campanha São Paulo Composta, Cultiva. “A utilização do composto substitui o uso de fertilizantes químicos e fortalece as plantas, reduzindo sua suscetibilidade a pragas e fazendo reduzir o uso de agrotóxicos para controle biológico”, completa.

Relatório do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), que analisou 12 mil amostras de alimentos entre 2017 e 2018, mostra que, no geral, 23% dos alimentos testados tinham agrotóxicos proibidos ou acima do volume permitido. Das variedades de verduras, legumes e frutas testadas, o pimentão apresentou um dos índices mais preocupantes: oito em cada 10 tiveram resquícios de fertilizantes proibidos ou acima do limite.

Agrotóxicos e insumos químicos podem estar associados a efeitos crônicos no corpo – como cânceres, más-formações congênitas, distúrbios endócrinos ou neurológicos – cujo diagnóstico pode ocorrer em meses ou até décadas após a exposição. A constatação é do Dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde, divulgado em 2014.

Economia

A compostagem também pode significar economia aos produtores, o que impactaria no preço final dos alimentos, amentando o acesso da população a produtos saudáveis. “No Brasil, 70% dos alimentos consumidos pela população são produzidos pela agricultura familiar e pequenos produtores”, enfatiza Biazoti. “A ampla distribuição do composto feito a partir da reciclagem de resíduos orgânicos não só reduziria os custos com menos uso de fertilizantes como poderia aumentar a qualidade da safra”, defende.

Na cidade de São Paulo, cerca de 80% das unidades de produção agropecuária são propriedades de pequeno porte, com forte presença da agricultura familiar segundo levantamento da Prefeitura. Avaliação da Campanha São Paulo Composta, Cultiva indica que mais de 50% dos resíduos urbanos gerados na capital paulista, que produz cerca de 10 mil toneladas diárias, poderiam ser destinados à compostagem.

Campanha São Paulo Composta, Cultiva | A Campanha São Paulo Composta Cultiva é uma iniciativa do Instituto Pólis, em parceria com mais 54 organizações da sociedade civil, que busca aumentar o nível de comprometimento do governo municipal de São Paulo com as políticas públicas que envolvem a reciclagem dos resíduos orgânicos na cidade, como sobras de alimentos e poda. A ação preparou cartas-compromisso, destinada aos candidatos aos cargos nos poderes legislativo e executivo da capital paulista. Saiba mais em: www.polis.org.br/projeto/sp-composta-cultiva/.

Brasil joga fora 30% da sua produção de alimentos.

Desperdício no Brasil está relacionado ao que se perde de alimentos, água, energia elétrica e não aproveitamento do lixo.

Sobre o Instituto Pólis | Organização da sociedade civil (OSC) de atuação nacional, constituída como associação civil sem fins lucrativos, apartidária e pluralista. (ecodebate)

O ciclo das águas e as enchentes urbanas

O ciclo das águas começa com as chuvas, a partir da evaporação dos oceanos. No Brasil e em parte do continente latino-americano, engrossado pela evapotranspiração da floresta Amazônica. Então, os rios voadores espalham chuvas por quase todo território nacional, que serão armazenadas em aquíferos como Guarani, Urucuia e Bambuí no Planalto Central. Depois, eles distribuem essas águas para todas as grandes bacias brasileiras.

Outra parte corre nos mananciais de superfície e volta ao mar, ou fica armazenada em mananciais de superfícies, como lagoas e lagos. Outra parte evapora e retorna para a atmosfera.

Assim, o ciclo das águas é fundamental para o ciclo da vida. Aqui na Caatinga, quando chove, a caatinga que parecia morta (estava hibernada) como que ressuscita, a vegetação fica verde em uma semana, reaparecem várias espécies de pássaros, insetos e outros animais que a gente não sabe dizer de onde vieram. Como diz um amigo criador de cabras, “até as cabras entram no cio”.

Entretanto, vêm também as enchentes. Não é culpa da natureza. As pessoas foram morar em lugares onde o espaço era das águas. Aqui na cidade de Juazeiro da Bahia, as enchentes ocorrem onde antes eram as lagoas marginais do Velho Chico e às margens dos riachos que ligavam essas lagoas à calha central do grande rio. Os riachos continuam como canais de esgoto a céu aberto. Todos os anos, quando a chuva é intensa como agora, vêm as tragédias socioambientais sobre a população que habita essas áreas de risco, muitas vezes transformando-se em tragédias humanitárias.
Existe solução para as enchentes urbanas e inundações?

A criação de um zoneamento urbano com análise técnica e crítica das áreas de inundações é crucial para elaboração de um Plano de Gerenciamento de Águas Urbanas.

O saneamento básico da cidade – abastecimento de água potável, coleta e tratamento do esgoto, manejo dos resíduos sólidos e drenagem das águas pluviais – avançou muito em termos de abastecimento de água e coleta de esgoto. Diz o SAAE que a 95% da cidade. Mas, avançou pouco em termos de manejo dos resíduos sólidos e, menos ainda, na drenagem das águas de chuva. Um prato cheio para os adversários políticos em época de eleições municipais.

Um trabalho sério de avanço na drenagem das águas de chuva precisaria localizar todas as áreas alagáveis, fazer obras de drenagem que garantam o escoamento em tempos de chuva.

Se não for possível, é preciso a relocação da população das áreas de risco, o que implica também numa política habitacional para a população relocada. Que a área das águas seja das águas. Essas ações implicam em planejamento técnico, humanitário, recursos financeiros e vontade política.

Por que ocorrem as enchentes nas grandes cidades?

Será que algum candidato nessas eleições tem mesmo interesse em resolver esse desafio socioambiental da cidade? (ecodebate)

Rios derretem gelo ártico, aquecendo o ar e o oceano

Aumento do calor dos rios árticos está derretendo o gelo marinho e aquecendo a atmosfera.

Um novo estudo mostra que o aumento do calor dos rios árticos está derretendo o gelo marinho no Oceano Ártico e aquecendo a atmosfera.
Degelo do Ártico já atingiu até as regiões mais frias.

Aquecimento global já atinge até as regiões mais frias do planeta.

Derretimento de algumas das geleiras mais fortes e estáveis do Oceano Ártico são prenúncio de uma "catástrofe prática para a humanidade", alerta pesquisador.

O estudo publicado esta semana na Science Advances foi liderado pela Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinho-Terrestre, com autores contribuintes nos Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, Finlândia e Canadá.

De acordo com a pesquisa, os principais rios árticos contribuem significativamente com mais calor para o Oceano Ártico do que em 1980. O calor do rio é responsável por até 10% da perda total de gelo do mar que ocorreu de 1980 a 2015 na região da plataforma ártica Oceano. Esse derretimento é equivalente a cerca de 120.000 milhas quadradas de gelo de 1 metro de espessura.

“Se o Alasca fosse coberto por gelo espesso de 1 metro, 20% do Alasca teriam desaparecido”, explicou Igor Polyakov, coautor e oceanógrafo do Centro Internacional de Pesquisa Ártica e do Instituto de Meteorologia Finlandês da Fairbanks da Universidade do Alasca.

Os rios têm o maior impacto durante o rompimento da primavera. A água quente despeja no Oceano Ártico coberto de gelo e se espalha abaixo do gelo, decompondo-o. Assim que o gelo marinho derrete, a água quente começa a aquecer a atmosfera.

A pesquisa descobriu que muito mais energia térmica do rio entra na atmosfera do que derrete o gelo ou aquece o oceano. Como o ar é móvel, isso significa que o calor do rio pode afetar áreas do Ártico distantes dos deltas dos rios.

A água do rio Mackenzie, no Canadá, em 14/06/2012, começa a quebrar a geleira no litoral.

A água do rio Mackenzie, do Canadá, entra no oceano Ártico azul em julho/2012. As áreas brancas na metade superior da foto são em grande parte gelo marinho, enquanto as abaixo são nuvens sobre a terra. Em 2020 a situação piorou.

Em 05/07/2012, a geleira já está transformada em bloquinhos flutuantes no Ártico.

Os impactos foram mais pronunciados no Ártico Siberiano, onde vários grandes rios fluem para a região da plataforma relativamente rasa que se estende por quase 1.600 quilômetros da costa. O rio Mackenzie, do Canadá, é o único rio grande o suficiente para contribuir substancialmente para o derretimento do gelo marinho perto do Alasca, mas os rios menores do estado também são uma fonte de calor.

Polyakov espera que o aumento da temperatura global do ar continue a aquecer os rios árticos no futuro. À medida que os rios esquentam, mais calor flui para o Oceano Ártico, derretendo mais o gelo marinho e acelerando o aquecimento do Ártico.

Os rios são apenas uma das muitas fontes de calor que agora aquecem o Oceano Ártico. Todo o sistema ártico está em um estado extremamente anômalo à medida que as temperaturas globais do ar aumentam e as águas quentes do Atlântico e do Pacífico entram na região, decaindo o gelo do mar mesmo no meio do inverno. Todos esses componentes trabalham juntos, causando ciclos de feedback positivo que aceleram o aquecimento no Ártico.

“É muito alarmante porque todas essas mudanças estão se acelerando”, disse Polyakov. “As mudanças rápidas são simplesmente incríveis na última década.”

Os autores do artigo incluem Hotaek Park, Eiji Watanabe, Youngwook Kim, Igor Polyakov, Kazuhiro Oshima, Xiangdong Zhang, John S. Kimball e Daqing Yang.

O financiamento para o componente de pesquisa de Polyakov foi fornecido pela National Science Foundation.

Este diagrama mostra a quantidade relativa de aquecimento causado pelos rios árticos, com as fontes de calor em laranja e os dissipadores de calor em turquesa. Na primavera, os rios deságuam no Oceano Ártico, aquecendo a água e derretendo o gelo marinho, que por sua vez aquece a atmosfera. Um feedback ocorre quando o gelo reflexivo desaparece, permitindo que a água escura do oceano absorva mais calor e derreta mais gelo marinho.

Gráfico adaptado do artigo da Science Advances. (ecodebate)

Emissões de gases estufa no Brasil sobem 10%

No primeiro ano de Bolsonaro, emissões de gases estufa no Brasil sobem 10%.

Puxado por alta do desmatamento na Amazônia, país lançou 2,175 bilhões de toneladas de CO2 no ar em 2019 e não deve cumprir meta da lei nacional para 2020, mostra SEEG.

As emissões brasileiras de gases de efeito estufa subiram 9,6% em 2019, o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro. O dado é do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa) e foi divulgado em 06/11/20 pelo Observatório do Clima. No ano passado, o país lançou na atmosfera 2,17 bilhões de toneladas brutas de dióxido de carbono equivalente (tCO2e), contra 1,98 bilhão em 2018.

O dado consolida a reversão da tendência de redução das emissões no Brasil, verificada entre 2004 e 2010, e sugere que o país não deverá cumprir a meta da PNMC (Política Nacional sobre Mudança do Clima) em 2020. “Estamos numa contramão perigosa. Desde 2010, ano de regulamentação da lei nacional de clima, o país elevou em 28% a quantidade de gases de efeito estufa que despeja no ar todos os anos, em vez de reduzi-la”, disse Tasso Azevedo, coordenador do SEEG. “No ritmo em que está e com os indicativos de que dispomos, o país não consegue cumprir a meta de 2020 e se afasta da de 2025”.

O crescimento das emissões no último ano foi puxado pelo desmatamento na Amazônia, que disparou no ano passado. A quantidade de gases de efeito estufa do setor de mudança de uso da terra subiu 23% em 2019, atingindo 968 milhões de tCO2e — contra 788 milhões em 2018. O desmatamento respondeu por 44% do total das emissões do país no ano passado. Desde a PNMC, as emissões por mudança de uso da terra cresceram 64% no Brasil, em que pese a meta da lei de reduzir o desmatamento na Amazônia em 80% em 2020 comparado à média entre 1996 e 2005.

Contribuição crescente da agropecuária

“O aumento significativo nas emissões brasileiras foi capitaneado pelas elevadas taxas de devastação na Amazônia e pelo descaso com a política ambiental demonstrada no primeiro ano da administração Bolsonaro”, disse Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). “O aumento das emissões não somente impacta nossos compromissos internacionais como ameaça a reputação do nosso agronegócio.”

A agropecuária vem em segundo lugar, com 598,7 milhões de toneladas de CO2e em 2019, um aumento de 1% em relação às 592,3 milhões de toneladas emitidas em 2018. Somando-se as emissões de uso da terra e agropecuária, o SEEG conclui que a atividade rural — seja direta ou indiretamente, por meio do desmatamento, que é quase todo destinado à agropecuária — respondeu por 72% das emissões do Brasil no ano passado.

Isso significa que, após dez anos de política de clima, o Brasil ainda tem o mesmo tipo de curva de emissões de antes da adoção da política, e que as emissões no país seguem descoladas do PIB: elas cresceram quase dez vezes mais que o “pibinho” de 1,1% no ano passado. Isso se deve ao fato de o desmatamento ser uma atividade que não gera riqueza.

“Os resultados do SEEG agro mostram a crescente contribuição da agropecuária para as emissões nacionais. Esse cenário precisa ser revertido e, para isso, os sistemas de produção devem adotar as boas práticas de manejo e cuidar do solo, onde está concentrada a maior parte dos estoques de carbono. Um solo conservado produz mais e ainda estoca carbono, sendo, portanto, um dos recursos naturais mais importantes do Brasil”, afirma Renata Potenza, Coordenadora de Clima e Cadeias Agropecuárias do Imaflora.

O setor de energia respondeu por 19% do total de emissões do Brasil. Elas tiveram um aumento discreto de 1% no ano passado, indo de 409,3 milhões para 413,6 milhões de tCO2e. Isso se deveu a um aumento no consumo de energia elétrica, que levou ao acionamento de termelétricas a gás mesmo num cenário de chuvas dentro da média para as hidrelétricas, e de um aumento no uso de diesel devido à recuperação do transporte de cargas, principal consumidor de combustíveis fósseis no país. A recuperação do etanol, cujo consumo retornou a níveis de antes da crise do setor em 2012, e o aumento paulatino do uso de biodiesel impediram um maior aumento das emissões de energia no ano passado.

“Na geração de eletricidade também houve aumento da demanda, o que causou uma elevação da geração por termelétricas fósseis, mas a geração hidrelétrica, eólica e solar teve um aumento ainda mais expressivo”, disse Felipe Barcellos, analista de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente. “Isso acabou por barrar o aumento das emissões do setor, que poderia ter sido maior.”

As emissões da indústria, que acompanham mais de perto o PIB e as dificuldades do setor, caíram 2% — de 101 milhões de tCO2e em 2018 para 99 milhões em 2019, e representaram no ano passado 5% das emissões do Brasil.

Por fim, o setor de resíduos teme um crescimento também discreto, de 1,3%, indo de 94,8 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2018 para 96,1 milhões em 2019. Apesar de responder por apenas 4% das emissões nacionais, o setor tem recebido enorme atenção do Ministério do Meio Ambiente, cujo ministro o considera “o principal problema ambiental brasileiro”. Foi o único setor beneficiado em 2020 com a retomada do Fundo Nacional de Mudança do Clima, sendo carimbado como destino dos R$ 580 milhões depositados no fundo em 2020, após sua paralisia completa por um ano e meio. “Historicamente o setor apresenta um crescimento significativo. No entanto, nos últimos anos é possível uma certa estabilidade das emissões. Isso indica um cenário de manutenção da situação atual, sem grandes avanços na gestão de resíduos e no cumprimento das metas climáticas setoriais”, disse Iris Coluna, assessora de Projetos do ICLEI — Governos Locais pela Sustentabilidade.

As emissões em 2019 colocam o Brasil na sexta posição entre os maiores poluidores climáticos do mundo – subindo para quinto lugar quando se exclui a União Europeia. As emissões per capita do Brasil também são maiores que a média mundial. Em 2019 cada cidadão brasileiro emitiu 10,4 toneladas brutas de CO2e, contra 7,1 da média mundial.

Além do corte no desmatamento, em 2020, a lei nacional de clima comprometia o Brasil a reduzir suas emissões em 36,8% a 38,9% ao final deste ano em relação à trajetória que se imaginava que elas fossem seguir quando a política foi aprovada. O cálculo da meta tem uma série de particularidades, mas já em 2019 o país perdeu seu limite mais ambicioso e tinha emissões exatamente coincidentes com o limite menos ambicioso. Estimativas do SEEG indicam que, mantida em 2020 a variação média das emissões dos últimos dez anos, o país ultrapassará em cerca de 9% o limite menos ambicioso da meta.

“O país já chega devendo em 2021, ano em que deveria ter início o cumprimento da NDC, nossa meta nacional no Acordo de Paris”, diz Marcio Astrini, secretário-executivo do OC. “Com um governo negacionista da mudança climática e que nem sequer entregou um plano de implementação da NDC até agora, nossa participação no Acordo de Paris se resume a uma assinatura num pedaço de papel. Isso terá consequências sérias para a inserção internacional do Brasil e para nosso comércio exterior nos próximos anos”.

Sobre o Observatório do Clima: rede formada em 2002, composta por 56 organizações não governamentais e movimentos sociais. Atua para o progresso do diálogo, das políticas públicas e processos de tomada de decisão sobre mudanças climáticas no país e globalmente. Site: www.observatoriodoclima.eco.br.

Sobre o SEEG: O Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa foi criado em 2012 para atender a uma determinação da PNMC (Política Nacional de Mudanças Climáticas). O decreto que regulamenta a PNMC estabeleceu que o país deveria produzir estimativas anuais de emissão, de forma a acompanhar a execução da política. O governo, porém, não as produziu. Os inventários nacionais, instrumentos fundamentais para conhecer em detalhe o perfil de emissões do país, são publicados apenas de cinco em cinco anos.

O SEEG (www.seeg.eco.br) foi a primeira iniciativa nacional de produção de estimativas anuais para toda a economia. Ele foi lançado em 2012 e incorporado ao Observatório do Clima em 2013. Hoje, em sua oitava edição, é uma das maiores bases de dados nacionais sobre emissões de gases estufa do mundo, compreendendo as emissões brasileiras de cinco setores (Agropecuária, Energia, Mudança de Uso da Terra, Processos Industriais e Resíduos).

As estimativas são geradas segundo as diretrizes do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), com base nos Inventários Brasileiros de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases do Efeito Estufa, do MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações).

Atuaram no SEEG 8 pesquisadores das ONGs: Ipam (Mudança de Uso da Terra), Imaflora (Agropecuária), Iema (Energia e Processos Industriais) e ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade (Resíduos). (ecodebate)

Mudanças climáticas e demanda por alimentos reduzirá habitats naturais em ¼

Mudanças climáticas e a demanda por alimentos podem reduzir os habitats naturais em quase um quarto.
Mamíferos, pássaros e anfíbios em todo o mundo perderam em média 18% de sua área de habitat natural como resultado de mudanças no uso da terra e mudanças climáticas, concluiu um novo estudo. Na pior das hipóteses, essa perda poderia aumentar para 23% nos próximos 80 anos.

O estudo, publicado hoje na revista Nature Communications, analisou mudanças na distribuição geográfica de 16.919 espécies de 1700 até os dias atuais. Os dados também foram usados para prever mudanças futuras até o ano 2100 em 16 cenários climáticos e socioeconômicos diferentes.

Uma abundância diversificada de espécies sustenta as funções essenciais do ecossistema, desde a regulação de pragas até o armazenamento de carbono. A vulnerabilidade das espécies à extinção é fortemente impactada pelo tamanho de sua distribuição geográfica, e o desenvolvimento de estratégias eficazes de conservação requer uma melhor compreensão de como as áreas de distribuição mudaram no passado e como irão mudar em cenários futuros alternativos.

“O tamanho do habitat de quase todas as aves, mamíferos e anfíbios conhecidos está diminuindo, principalmente por causa da conversão de terras pelos humanos à medida que continuamos a expandir nossas áreas agrícolas e urbanas”, disse o Dr. Robert Beyer, do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge, primeiro autor do relatório.

Algumas espécies são mais impactadas do que outras. Preocupantes 16% das espécies perderam mais da metade de sua distribuição histórica natural estimada, um número que pode aumentar para 26% até o final do século.

A distribuição geográfica das espécies diminuiu recentemente de forma mais significativa nas áreas tropicais. Até cerca de 50 anos atrás, a maior parte do desenvolvimento agrícola estava na Europa e na América do Norte. Desde então, grandes áreas de terra foram convertidas para a agricultura nos trópicos: desmatamento de floresta tropical para plantações de dendezeiros no Sudeste Asiático e para pastagens na América do Sul, por exemplo.

À medida que os humanos movem suas atividades para os trópicos, o efeito nas áreas de distribuição de espécies está se tornando desproporcionalmente maior por causa de uma maior riqueza de espécies nessas áreas e porque as áreas naturais dessas espécies são menores para começar.

“Os trópicos são hotspots de biodiversidade com muitas espécies de pequeno porte. Se um hectare de floresta tropical é convertido em terras agrícolas, muito mais espécies perdem grandes proporções de suas casas do que em lugares como a Europa”, disse Beyer.

Os resultados preveem que as mudanças climáticas terão um impacto crescente na distribuição geográfica das espécies. O aumento das temperaturas e a mudança nos padrões de chuva irão alterar os habitats significativamente, por exemplo: outros estudos previram que, sem ação climática, grandes partes da Amazônia podem mudar de floresta tropical de dossel para uma mistura de floresta e pastagem aberta como a savana nos próximos 100 anos.

“As espécies na Amazônia se adaptaram para viver em uma floresta tropical. Se a mudança climática fizer com que este ecossistema mude, muitas dessas espécies não serão capazes de sobreviver – ou pelo menos serão empurradas para áreas menores de floresta tropical remanescente”, disse Beyer.

Ele acrescentou: “Descobrimos que quanto mais altas as emissões de carbono, pior fica para a maioria das espécies em termos de perda de habitat”.

Os resultados fornecem suporte quantitativo para medidas políticas que visam limitar a área global de terras agrícolas – por exemplo, intensificando a produção de alimentos de forma sustentável, encorajando mudanças na dieta para comer menos carne e estabilizando o crescimento populacional.

A conversão de vegetação natural em terras agrícolas e urbanas e a transformação de habitat adequado causada pelas mudanças climáticas são as principais causas do declínio nos tamanhos de alcance e duas das ameaças mais importantes para a biodiversidade terrestre global.

“Se essas tendências passadas nas perdas de habitat vão reverter, continuar ou acelerar, dependerá das futuras emissões de carbono globais e das escolhas sociais nos próximos anos e décadas”, professora Andrea Manica, do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge, que liderou o estudo.

Bancos de areia surgem no leito do Rio Paraguai em Porto Murtinho.

Mais preocupante no lado de MS, seca do Rio Paraguai ainda deve piorar.

Ele acrescentou: “Embora nosso estudo quantifique as consequências drásticas para a distribuição das espécies se o uso global da terra e as mudanças climáticas não forem controlados, eles também demonstram o enorme potencial de ação política oportuna e concertada para interromper – e de fato reverter parcialmente – tendências anteriores em intervalo de contrações. Tudo depende do que fizermos a seguir”. (ecodebate)

domingo, 29 de novembro de 2020

Chuvas irregulares recuperação dos rios no Pantanal será mais lenta

Com chuvas irregulares, recuperação dos níveis dos rios no Pantanal pode ser mais lenta.

Com chuvas irregulares, recuperação dos níveis dos rios no Pantanal pode ser mais lenta, segundo prognóstico do Serviço Geológico do Brasil.
Boletim semanal atualizado em 05/11/20 mantém tendência de recuperação dos níveis dos rios no MT e MS mesmo com o atraso do período chuvoso na região.

O Serviço Geológico do Brasil publicou em 05/11/20 novo boletim semanal de monitoramento da vazante no Pantanal. Na última semana, a tendência geral foi de recuperação de níveis na calha principal do rio Paraguai. Acesse aqui último boletim: http://www.cprm.gov.br/sace/paraguai/ultimo_boletim.php

De acordo com o pesquisador em Geociências, Marcus Suassuna, as chuvas observadas neste mês foram muito irregulares e ainda não caracterizam o início do da estação chuvosa. Nos últimos 7 dias, estimativas de chuvas por satélite, sugerem acumulados de 10 mm. “Ainda que a estação chuvosa se inicie, porém, os rios na calha do rio Paraguai levarão tempo para se recuperarem, haja vista serem rios de resposta lenta, principalmente sobre o MS. Além disso, a previsão das chuvas nos próximos 15 dias é de chuva pouco abaixo do normal para este período do ano, o que deve fazer com que essa recuperação dos rios seja lenta”, alertou. “Em Ladário, o rio Paraguai tem mostrado uma tendência de recuperação de níveis e, de acordo com os dados históricos, é improvável que o rio retorne ao regime de recessão neste local, após retomada a recuperação de níveis”, acrescentou.

No entanto, os níveis das estações ainda se encontram abaixo do normal para este período e dentro da zona de atenção para mínimas. No Mato Grosso, nos municípios de Cáceres, Cuiabá e Santo Antônio do Leverger, os rios estão na mínima histórica do registro de dados para este período do ano. À exceção das estações do rio Piquiri, no município Barão do Melgaço (MT). No total, o monitoramento abrange 21 estações distribuídas ao longo da bacia em oito municípios.

Prognóstico de níveis – Nas estações na calha do rio Paraguai, à exceção de Cáceres, as previsões com horizonte de 28 dias são mantidas pelo Serviço Geológico do Brasil. Para Ladário (MS), a previsão é que o rio Paraguai no próximo mês suba até 18 centímetros. Em Porto Murtinho (MS), em quatro semanas o rio deve alcançar a cota de 1,85 metros.

Panorama da bacia – Em Cuiabá (MT), o rio Cuiabá registrou em 05/11/20, o nível de 30 cm continuando entre as mínimas históricas do registro de dados. Em anos normais, a cota registrada seria 77 cm (mediana).

Em Cáceres (MT), o rio Paraguai que atingiu a mínima histórica entre todas as cotas já registradas nos dias 10 e 11 de outubro (50 cm). Hoje registra 88 cm. Esse valor ainda representa uma mínima, pois nunca o rio esteve tão baixo nessa época. O normal para a estação nesse período do ano seria o registro no dia de hoje de uma cota de 1,59 m (mediana).

Em Ladário (MS), município vizinho a Corumbá (MS), a cota do rio Paraguai registra hoje -12 cm, ainda bem abaixo da mediana para o período, que é 2,27 metros. A régua de Ladário é a referência para a definição pela Marinha do Brasil de restrições à navegação no rio Paraguai, que exige cotas acima de 1,5 metros.

Porto Murtinho (MS), mais ao Sul, o nível do rio Paraguai também subiu. Na semana passada, estava com 1,04 m e subiu mais 34 cm, chegando a cota atual de 1,38 m, no entanto, a mediana é 4,10 m, ou seja, ainda precisa subir mais de 2 m

 para atingir os níveis considerados normais.

SALA DE CRISE – Os dados atualizados do monitoramento e as previsões do Sistema de Alerta Hidrológico da Bacia do rio Paraguai foram apresentados pelo pesquisador em Geociências, Marcus Suassuna, em 05/11/20 na Sala de Crise do Pantanal da Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA), criada para identificar medidas de resposta aos impactos da seca na Região Hidrográfica do Paraguai.

PREVISÃO DE CHUVAS – Estimativas de chuvas por satélite, sugerem acumulados de 10 mm nos últimos 7 dias na bacia do Paraguai como um todo, considerando a estação Porto Murtinho e utilizando o modelo MERGE/INPE. Maiores volumes de precipitação foram observados no trecho delimitado pela estação São José do Boriréu, onde são estimadas chuvas de aproximadamente 24 mm. No bioma Pantanal, foram estimados acumulados de chuvas de 14 mm em 7 dias. As chuvas observadas neste mês são prenúncio do início da estação chuvosa.

A estiagem deste ano é semelhante a seca registrada entre 1968 a 1973. A vazante extrema foi prevista pelo Serviço Geológico do Brasil a partir do mês de julho, com a divulgação do primeiro prognóstico. Saiba mais aqui: http://bit.ly/38hHvlA

De acordo com o Cemaden, a seca deste ano é a mais severa dos 22 anos de monitoramento do Índice Padronizado de Precipitação (SPI) na sub-bacia do alto Paraguai e do bioma Pantanal.

Os dados hidrológicos utilizados nos boletins são provenientes da Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN) de responsabilidade da Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA), operada pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e demais parceiros. Os dados de monitoramento de chuvas foram obtidos por meio de imagens de satélite do produto MERGE/GPM, disponibilizados pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Os dados de previsão de chuva apresentados são do modelo CFS, gerados pelo NOAA. As previsões apresentadas neste boletim são baseadas em modelos hidrológicos e estão sujeitas às incertezas inerentes aos mesmos. (ecodebate)

Bacia do Rio Doce sofre desmatamento de 1.857 hectares entre 2018/2019

Bacia do Rio Doce sofre desmatamento de 1.857 hectares de Mata Atlântica entre 2018 e 2019.
Desmatamento em importantes áreas de proteção da água, pode agravar ainda mais a situação de rio que luta há cinco anos por recuperação após desastre em Mariana (MG).

Monitoramento inédito da Fundação SOS Mata Atlântica verificou a situação do desmatamento nas Bacias Hidrográficas do bioma. Essas regiões são conhecidas por desempenharem importante função ambiental e ecossistêmica para segurança hídrica e proteção da água. Somente entre 2018 e 2019, na bacia do rio Doce, por exemplo, foram desmatados 1.857 hectares de Mata Atlântica.

As informações são do Atlas da Mata Atlântica, iniciativa que conta com a parceria do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O estudo teve execução técnica da Arcplan e patrocínio de Bradesco Cartões. O Atlas traz informações de todos os remanescentes de vegetação nativa do bioma acima de três hectares.

O desmatamento ocorreu em seis sub-bacias do rio Doce. A que sofreu maior desmatamento foi a bacia do rio Suaçuí Grande, em Minas Gerais. Na região, foram desmatados 969 hectares de Mata Atlântica. Essa bacia abrange 48 municípios, com uma população de aproximadamente 500 mil pessoas, tendo como um dos principais municípios Governador Valadares. É uma das sub-bacias mais problemáticas da Bacia do Rio Doce em termos de erosão do solo, por falta de cobertura florestal da Mata Atlântica, o que acarreta impacto direto à qualidade da água, por carreamento de sedimentos e poluentes.

O desmatamento também aconteceu nas áreas de drenagem dos rios: Santo Antônio (343 hectares), Piracicaba (206 hectares), Piranga (146 hectares), Manhuaçu (138 hectares) e Caratinga (55 hectares), tributários importantes da bacia do rio Doce.

Para Marcia Hirota, diretora executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, assim como o ocorrido no desastre de Mariana, quando os rejeitos da barragem de Fundão atingiram essa região de cabeceira da bacia e percorreram quilômetros ao longo do rio Doce, os impactos para a qualidade ambiental não se limitaram apenas na água. “A sociedade precisa olhar para um rio pensando em sua bacia, pois tudo que acontece no entorno dele, impacta a qualidade de vida da população, dos ecossistemas e todas as atividades humanas. A bacia do rio Doce ainda está lutando por sua recuperação. Se o desmatamento continuar na região, pode ser que os esforços para sua recuperação não sejam eficazes. É urgente coibir essas ações”, afirma ela.

Desmatamento e crise hídrica

Os especialistas da Fundação SOS Mata Atlântica ainda destacam a ocorrência de desmatamento entre 2018 e 2019 em regiões do sul e sudeste do país que vêm sofrendo com crise hídrica. Entre elas, a Região Metropolitana de Curitiba, por exemplo, que tem enfrentado escassez e racionamento de água.

No Paraná a bacia do rio Iguaçu teve mais de 1.000 hectares de Mata Atlântica desmatados nesse período de monitoramento dos remanescentes florestais. Destaque para a região do Baixo Iguaçu, na sub-bacia Iguaçu 6, entre os municípios de Cascavel e Guarapuava, a quarta bacia hidrográfica que mais desmatou o bioma no último período analisado.

Vale destacar que o Paraná está entre os estados que mais desmatam a Mata Atlântica, revezando as primeiras colocações com Minas Gerais e Bahia. Entre 2018 e 2019, por exemplo, o estado foi o terceiro que mais desmatou o bioma com 2.767 hectares.

Tragédia: rompimento da barragem da Samarco respondeu por 65% do desmatamento na cidade de Mariana/MG entre 2014 e 2015.

Segundo Malu Ribeiro, gerente da Fundação SOS Mata Atlântica, assim como o impacto para a qualidade das águas, a floresta também influencia para a quantidade de água disponível para a população. “As florestas são reguladoras do clima nas suas regiões e funcionam como esponjas. Ou seja, quando chove, elas armazenam água no solo para, aos poucos, abastecerem os aquíferos, as nascentes e os rios. Se falta floresta, falta água”, destaca ela. (ecodebate)

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