domingo, 23 de janeiro de 2022

Territórios indígenas são eficazes barreiras contra o desmatamento

Territórios indígenas funcionam como a barreira mais eficaz contra o desmatamento.
Garantir direitos aos indígenas também protege a floresta.

Na Amazônia, os territórios indígenas funcionam como a barreira mais eficaz contra o desmatamento, caso suas comunidades tenham seus direitos sobre os territórios garantidos.

Um estudo publicado em Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS, 10 de agosto), que pesquisou a relação entre o direito dos povos indígenas à terra e o desmatamento, cruzou informações de satélite sobre a cobertura vegetal da floresta amazônica brasileira, entre 1982 e 2016, com registros do governo brasileiro sobre os direitos de propriedade das comunidades indígenas locais.

Assim, os pesquisadores descobriram que ter direitos de propriedade permite que os indígenas protejam a terra de ameaças externas, o que se traduz em uma redução de 66% no desmatamento. Esse efeito não se evidenciou nos territórios onde os direitos indígenas não são reconhecidos ou são parcialmente reconhecidos.

A Amazônia representa metade da floresta tropical do planeta, com grande influência no clima e nos ciclos hidrológicos do mundo. Nos últimos anos, tem sofrido um desmatamento sem precedentes, principalmente por causa de incêndios florestais, extração ilegal de madeira e aumento da mineração, de acordo com o estudo baseado em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais/INPE brasileiro.

De janeiro a agosto/2019, esse instituto registrou mais de 40.000 incêndios, com um aumento de 278% no desmatamento na Amazônia Legal, onde 60% da floresta amazônica está localizada. A queima de florestas, a principal causa desses incêndios, é usada para limpar rapidamente a terra para fins agrícolas.

Terra Indígena Waimiri-Atroari.

 “Acreditamos que o pleno reconhecimento dos direitos de propriedade dos povos indígenas permite que sejam eficazes na contenção do desmatamento na Amazônia brasileira”, disse Kathryn Baragwanath, coautora do trabalho e membro do Departamento de Ciência Política da Universidade da Califórnia, em San Diego, nos Estados Unidos.

De acordo com o estudo, em 1985, a maioria dos territórios indígenas não tinha direitos plenos de propriedade, mas em 1995 cerca de metade desses locais haviam sidos homologados. Essa homologação é obtida por decreto presidencial e é a última etapa de um processo que envolve diferentes instâncias jurídicas.

“O território constitui o bem social e cultural mais importante para os povos indígenas. Nessa perspectiva, assegurar seu espaço de vida, constitui a base sobre a qual se apoiam o conjunto dos direitos indígenas”, explicou Mariela Flores Llampa, advogada diaguita da Comunidade Indígena Quilmes-União, dos Povos da Nação Diaguita, em Tucumán, Argentina.

Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), disse que a pesquisa confirma, por meio de análises estatísticas, o que se pode pensar intuitivamente: “Mostra que garantir os direitos territoriais é fundamental para combater o desmatamento e os incêndios”, afirmou.

Alejandra Ahmad, autora de uma tese sobre políticas públicas em relação à propriedade das terras dos povos originários da Argentina, disse que o primeiro antecedente na América Latina e no Caribe sobre o reconhecimento coletivo da propriedade da terra das comunidades indígenas ocorreu na Nicarágua.

Foi em 1988, com uma decisão a favor da comunidade Awas Tigni, que havia processado o governo da Nicarágua por permitir a extração de madeira em seu território, sem o seu consentimento. “A corte reconheceu a propriedade coletiva dos povos indígenas e ordenou a demarcação e titulação das terras em nome dessa comunidade”, ressaltou Ahmad.

Na Argentina, uma decisão da Corte Interamericana de Justiça, de 6 de fevereiro de 2020, reconheceu a propriedade comunitária de 400.000 hectares a 132 comunidades indígenas da província de Salta, reunidas na associação civil Lhaka Honhat, após um processo iniciado em fins de 1980.

A decisão não apenas corroborou o direito à propriedade comunitária, como também ressaltou o direito a um ambiente saudável, alimentação adequada, acesso à água e participação da comunidade na vida cultural, destacou Ahmad.

No entanto, a advogada Flores afirma que na Argentina pouco se avançou no sentido de garantir aos povos indígenas a posse e a propriedade comunitária das terras que tradicionalmente ocupam, apesar de contar com o quadro jurídico mais completo e abrangente, com adesão aos tratados internacionais e leis estaduais.

“De pouco valem, se não são dotados com um orçamento adequado, capital humano comprometido e, sobretudo, vontade política para realizar um verdadeiro reconhecimento dos Povos Originários”, opinou.

“Proporcionar plenos direitos de propriedade e o ambiente institucional para fazer cumprir esses direitos é uma forma importante e rentável de os países protegerem suas florestas e alcançarem seus objetivos climáticos”, acrescentou Baragwanath.

No Brasil, “as políticas públicas, a mobilização internacional e as ONGs devem agora concentrar seus esforços em pressionar o governo brasileiro a registrar territórios indígenas que ainda aguardam seus plenos direitos de propriedade”, concluiu a coautora do estudo publicado em PNAS. (ecodebate)

Desmatamento impulsiona malária na Amazônia

Dois artigos recentes mostraram que a intervenção humana na floresta favorece a dominância do mosquito “Anopheles darlingi” e em quais momentos há picos de infecção pela doença.
Dois estudos liderados pela Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP ajudam a entender como as ações antrópicas interferem no comportamento e na distribuição de mosquitos transmissores de malária na região amazônica.

O primeiro é o doutorado do biólogo Leonardo Suveges Moreira Chaves. Em um dos resultados, Chaves mostrou que as mudanças causadas pelo homem na vegetação da Floresta Amazônica diminuíram a biodiversidade de mosquitos e levaram o anopheles (Nyssorhynchus) darlingi a se tornar o principal vetor da malária na Amazônia, aumentando o risco de transmissão da doença.

Outro achado importante foi que ambientes florestais fragmentados, habitados por pessoas vulneráveis em casas precárias, são as fontes dessa espécie, enquanto habitats de florestas contínuas ou completamente desmatados, sumidouro.

“Fomos a assentamentos rurais em que havia ocorrência de malária e vimos essa relação: conforme o homem muda a paisagem, a comunidade de mosquitos também sofre alterações, favorecendo a dominância do Ny. darlingi”, explica Chaves. O trabalho deu origem a um artigo publicado em 2021 na revista Plos One.

O segundo estudo faz parte do também biólogo Gabriel Laporta, pesquisador do Centro Universitário FMABC. Para o trabalho, que foi publicado também no início de 2021 na Scientific Reports, Laporta analisou dados de mosquitos anophelinos capturados anteriormente e os utilizou para investigar o quanto o desmatamento impulsiona a ocorrência de malária em paisagens rurais.

O maior risco da doença ocorre em locais onde o desmatamento acumulado atingiu cerca 50% da cobertura vegetal fragmentada. O primeiro pico ocorre após dez anos do início do assentamento, e o segundo, 35 anos depois.

“Decidimos partir de uma teoria já descrita anteriormente – a malária de fronteira – e colhemos dados in loco das comunidades”, ressalta Laporta. Esse é um conceito que diz que a ocorrência de malária é consequência não só da presença do vetor, mas também das condições socioeconômicas de uma comunidade.

As investigações de Chaves e Laporta fazem parte de um projeto maior, coordenado por Maria Anice Sallum, bióloga e professora do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. Uma equipe de cientistas viajou, entre janeiro de 2015 a novembro de 2017, para 12 municípios da Amazônia brasileira, e conseguiram capturar mais de 25 mil espécimes de mosquitos, de 173 espécies em 17 gêneros diferentes.

Com esse grande número de insetos em mãos, foi possível montar um banco de dados, atualmente disponível para outros cientistas.

“A gente não consegue entender a doença, o que acontece, quais são os determinantes da malária se você não vai a campo”, descreve Maria Anice. “É importante, também, observar a situação do ambiente físico, biológico e social”.

As principais causas do aumento do risco de malária em países endêmicos, incluindo o Brasil, são o desmatamento, mudanças nas comunidades de mosquitos, perdas de biodiversidade ligadas à agricultura, projetos de desenvolvimento de infraestruturas como usinas hidrelétricas, piscicultura, atividades de mineração, além da urbanização e invasão de terras indígenas para extração ilegal de madeira e mineração.

“O Brasil já foi modelo no controle de vetores e da própria malária”, afirma Maria Anice. De fato, para proteger e promover a conservação da floresta amazônica, o Brasil desenvolveu um sistema avançado de vigilância ambiental para monitorar incêndios e o desmatamento, por meio de mapas baseados em imagens de satélite.

As políticas de expansão de terras indígenas em áreas protegidas e áreas desabitadas foram bem-sucedidas ao longo dos anos. “Mas, desde 2019, o garimpo ilegal e o desmatamento cresceram muito na região”, relata Chaves.

Desenhando o estudo

Para desenvolver sua pesquisa, Chaves selecionou os mosquitos capturados em 79 unidades de coleta – assentamentos rurais que compreendiam, principalmente, fazendas de subsistência – em 12 municípios nos Estados da Amazônia brasileira do Acre (Acrelândia, Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Rodrigues Alves), Amazonas (Itacoatiara, Guajará, Humaitá, Lábrea, São Gabriel do Pará), ( Pacajá), e Rondônia (Machadinho D’Oeste).

Cada unidade correspondia a uma residência com um habitat chamado de peridomicílio (área externa, distante cerca de 5 metros da entrada da residência), que se separavam umas das outras por aproximadamente 2,25 km (correspondente ao raio de voo do anopheles darlingi).

O círculo maior (vermelho) representa a área de amostra, e o círculo menor (azul), os pontos de coleta. A: habitat peridoméstico; B: habitat na orla da floresta.

“Em cada ponto amostral, escolhemos três tipos de paisagem: uma muito preservada, outra com certo grau de desmatamento (que variava entre 40% a 60% de cobertura florestal remanescente) e por último, uma área em que a porcentagem de floresta era inferior a 40%”, explica Maria Anice. “Além disso, era primordial ter presença de malária no local.”

Foram utilizadas três técnicas para prender os insetos. A primeira, chamada de humano protegido, foi feita próxima da residência. Os cientistas, devidamente paramentados, aguardavam os mosquitos que se aproximavam para se alimentar deles.

A segunda foi feita com armadilha de Shannon, usando luz e atração humana, e instalada na borda da mata. Os pesquisadores simulavam barracas muito simples – um quadrado de pano branco com um telhadinho, de acordo com Maria Anice – e penduravam uma lâmpada que atraía os insetos.

Por último, para observar o comportamento alimentar dos mosquitos, foi colocada uma rede entre o criadouro (margem da floresta) e a casa. A tela, que tocava o chão, foi dimensionada para que mais insetos caíssem na armadilha.

De acordo com Maria Anice, a quantidade de mosquitos com sangue e infectados com plasmódio surpreendeu a todos. “Se eles estavam contaminados, significa que se alimentaram de alguém antes. Conseguimos capturá-los antes que transmitissem a malária”, explica a professora.

De hora em hora, os lotes de mosquitos eram fechados. Todo o material coletado (25.323 mosquitos) veio para São Paulo para ser devidamente identificado.

Depois das análise e tabulação dos dados, as espécies mais abundantes encontradas foram aquelas da subfamília Anophelinae (56%), com Ny. darlingi representando 83% do total de coleções de Anophelinae no peridomicílio.  Outros, como a tribo Mansoniini (19%), Culicini 19% e Aedini 4%, também foram identificados. Mosquitos das tribos Aedeomyiini, Uranotaeniini e Sabethini representaram 1% do total coletado.

“No campo presenciamos várias ações relacionadas ao desmatamento, como forno de carvão, caminhões com toras de madeira circulando madrugada adentro, áreas recém-desflorestadas etc.”, comenta Chaves.

Malária de fronteira

A principal pergunta que Laporta queria responder era em quais configurações uma floresta tropical apresentaria um maior risco de transmissão da malária.

Para iniciar as investigações, Laporta partiu de uma teoria conhecida como “Malária de Fronteira”, descrita nas zonas de divisa com a Amazônia. Esse padrão está principalmente associado à ocupação de terras para expansão do agronegócio e da pecuária. Num primeiro estágio, as áreas recém-desmatadas são fortemente impactadas pela rápida intensificação da transmissão da doença, seguida de uma estabilização. Após vários anos, essa incidência diminui.

Os mecanismos subjacentes associados a esse estágio de transmissão são fatores ecológicos (desmatamento e perda de biodiversidade), que favorecem o aumento na abundância do vetor da malária e na taxa de infecção por Plasmodium. Fatores sociais, como habitações humanas melhoradas e melhor acesso a produtos para tratar malária levam a uma diminuição das taxas de infecção humana e de mosquito.

Gráfico de associação entre cobertura florestal (ou desmatamento acumulado) e incidência de malária.

A grande novidade da tese de Laporta é que ele se baseou na coleta de dados realizada em assentamentos rurais. Esse desenho fornece informações detalhadas da escala da paisagem local e da incidência da malária. Dados de 21.242 espécimes de anofelinos pertencentes a 37 espécimes, coletados em 80 locais de 5 km2, em 12 municípios e quatro Estados da Amazônia entre 2015 e 2017, foram analisados.

Laporta também usou imagens de satélite, importantes para dar uma “visão geral” do que vem acontecendo na Amazônia ao longo dos anos.

A Malária de Fronteira diz que há dois picos de transmissão da malária – dez e 35 anos após o início de um assentamento, seguida de uma desaceleração da incidência da doença depois do décimo ano, possivelmente devido à diminuição dos níveis de desmatamento, à melhoria do ambiente socioeconômico e melhor acesso a diagnóstico e tratamento. Por outro lado, a patogenicidade do local em termos de vulnerabilidade e receptividade à transmissão do Plasmodium permanece.

Um segundo pico de malária é observado 35 anos após o início de um assentamento e está associado a uma segunda onda de colonização, expansão das fronteiras locais de desmatamento, aumento da população humana resultante do crescimento das famílias e migração de colonos de outras áreas endêmicas de malária para uma área recém-colonizada.

Diferentemente do preconizado pela teoria anterior, os resultados das investigações de Laporta estimaram dois picos para a ocorrência de vetores. O primeiro ocorreu entre dez e 12 anos depois do início da organização de um assentamento por P. vivax, N. darlingi ou por vetores locais de malária. O segundo ocorreu entre 36 e 38 anos depois do início do assentamento por P. vivax – Ny. darlingi, quando os vetores secundários estavam ausentes.

Duas amostras de 5 km² são ilustradas como exemplos. Estão no assentamento agrícola de Pentecostes, no município de Mâncio Lima, Estado do Acre. Dentro de cada unidade, os pontos geográficos exatos de coleta do mosquito no peridomicílio ambiente e na orla da floresta.

“O que queremos dizer é que as duas dimensões – temporal e espacial- são essenciais para entender a dinâmica da doença na Amazônia”, diz Laporta.

Problema grave de saúde pública

A malária é considerada uma das doenças de maior impacto na mortalidade e morbidade em populações de países tropicais e subtropicais. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que, em 2019, 229 milhões de novos casos da doença foram notificados no mundo, além do registro de mais de 409 mil óbitos.

Já o Ministério da Saúde relata que em 2020 foram registrados 145 mil casos da doença em todo o País – mais de 99% deles somente na região Amazônica brasileira.

A malária, também conhecida como sezão, paludismo, maleita, febre terçã e febre quartã, é uma doença infecciosa febril aguda, transmitida pela picada da fêmea do mosquito anopheles infectada por protozoários do gênero Plasmodium. No Brasil, três espécies estão associadas à malária em seres humanos: P. vivax, P. falciparum e P. malariae.

Os sintomas mais comuns são calafrios, febre alta, taquicardia, dores de cabeça e musculares, entre outros. Geralmente, a infecção por P. falciparum costuma ser mais grave – há um risco maior de se desenvolver a malária cerebral, responsável por cerca de 80% das mortes pela doença.

Ocorre, na grande maioria das vezes, em populações pobres e marginalizadas. “Quando viajamos para as regiões de estudo, presenciamos todos os processos de degradação acontecendo ali, na nossa frente”, relata Chaves. “Percebemos que as pessoas estão, na verdade, em busca de uma renda para sobreviver”.

Arte por Rebeca Alencar com imagens de Flaticon

Como prevenção, são aplicadas medidas individuais e coletivas. Cada pessoa pode usar mosquiteiros impregnados com inseticidas, roupas que protegem pernas e braços, telas em portas de janelas, além do uso de repelentes.

Já a prevenção coletiva inclui a eliminação dos criadouros do vetor, limpeza das margens dos criadouros, melhoria das moradias, uso racional da terra, entre outras.

Legado

Como Maria Anice contou ao Jornal da USP, as análises também conseguiram identificar o horário de pico da infecção dos mosquitos. “Acontece durante toda a madrugada, mas se acentua entre meia-noite e 3 da manhã”, relata. “Esse é um fato importante e nos mostra que o uso de mosquiteiro impregnado com inseticida tem um efeito positivo”.

A transmissão fora do domicílio também merece atenção, pois as medidas de controle devem ser diferentes. “Tem um grande número de insetos voando fora da casa e, por isso, a população precisa se proteger enquanto cozinha ou toma banho, por exemplo”, alerta a professora.

Maria Anice relata, ainda, que alguns locais da Amazônia apresentaram índices de transmissão tão altos que podem ser comparados aos da África subsaariana. “Em Machadinho D’Oeste (RO), por exemplo, uma pessoa infectada gera 58 novos casos de malária”, conta. “Claro que nem todos os locais são assim, mas Lábrea (AM), Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima (AC) também tiveram o mesmo comportamento. A novidade do nosso trabalho é que conseguimos quantificar esse índice, conhecido como R0”.

Novos projetos continuam em desenvolvimento no grupo de pesquisa de Maria Anice. Um deles está sendo feito em parceria com o Instituto Nacional de Saúde (NIH) dos Estados Unidos. “Trabalharemos com técnicas de sequenciamento do genoma para ver se há mutações na população de Anopheles Darlingi que indiquem adaptação deles a novas condições ambientais”, conta Maria Anice. (ecodebate)

Região do Matopiba bate recorde histórico de desmatamento no Cerrado

Região do Matopiba foi responsável por 61% da maior supressão desde 2015: em um ano, a área total derrubada no bioma equivale a quase seis cidades de São Paulo.

O Matopiba – que compreende os Estados da Bahia, do Maranhão, do Piauí e de Tocantins – bateu recorde de concentração do desmatamento no Cerrado. Do total de vegetação suprimida no bioma entre agosto de 2020 e julho de 2021, 61,3% (5227,32 km²) esteve concentrado na região. Trata-se de um registro histórico para a série Prodes (2002–2021), superando o ano de 2017, quando a região foi responsável por 61,1% da derrubada no Cerrado.

A análise é de pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e vem à tona na sequência da consolidação dos dados do Prodes, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), para o mapeamento de supressão da vegetação nativa do Cerrado no período. A área total desmatada no bioma é a maior desde 2015 e equivale a quase seis cidades de São Paulo: foram 8.523,44 km² de corte raso, um aumento de 8% em relação aos 7.905,16 km² suprimidos nos 12 meses anteriores.

“O Matopiba tem estado há anos entre as regiões do país onde a vegetação nativa tem sido mais convertida em agropecuária”, diz a diretora de Ciência no IPAM, Ane Alencar. “Essa região precisa de um olhar especial para os conflitos que têm se acirrado por conta dessa conversão. O aumento do desmatamento no Cerrado mostra que a falta de governança ambiental e os conflitos socioambientais decorrentes dela não são prerrogativas somente da Amazônia”.

Análise do IPAM com dados do PRODES mostra maior desmatamento no Cerrado no Matopiba desde 2017.

Maranhão foi o estado que teve a maior área de vegetação nativa desmatada com 2.281,72 km², seguido por Tocantins 1.710,55 km² e Bahia 925,11 km². Piauí teve 583,73 km² derrubados. Na comparação, a soma da área de Cerrado desmatada no Matopiba corresponde a pouco mais de 3 vezes o território da capital paulista.

Maior parte em propriedades rurais

A análise do IPAM com dados do Prodes mostra ainda que grande parte da área desmatada no Cerrado ocorreu dentro de propriedades rurais privadas: foram 6.498 km² derrubados, ou 76,2% do total suprimido no bioma.

“O desmatamento no Cerrado está se concentrando em áreas privadas. Como temos apenas 8% do bioma em áreas protegidas, a conservação da savana mais biodiversa do mundo e da caixa d’água do Brasil dependerá de ações em áreas privadas e do setor agropecuário”, avalia a pesquisadora no IPAM Julia Shimbo.

Do desmatamento em FNPDs (Florestas Públicas Não Destinadas), 71% se deu em áreas de sobreposição com CAR (Cadastro Ambiental Rural). Em Terras Indígenas, aproximadamente metade ocorreu em áreas de sobreposição com CAR; e em Unidades de Conservação, quase 80% foi em áreas com sobreposição de CAR.

“A natureza auto declaratória do CAR permite que uma série de inconsistências surjam, como as sobreposições entre cadastros”, explica a também pesquisadora na instituição, Andrea Garcia. “Essas sobreposições podem servir como indicador a ser usado com cautela em áreas com insegurança fundiária, podendo também refletir, mas não necessariamente, a existência de conflitos.”

Terras sem informação fundiária, ou seja, terras não cadastradas em nenhuma base de dados, respondem por 724 km² desmatados, ou 8,5% do total, enquanto APAs (Áreas de Proteção Ambiental) tiveram 538 km² derrubados (6,3%), e assentamentos 434 km² (5,1%) – sendo que pelo menos 87% do desmatamento em APAs e em assentamentos ocorreu dentro de terras federais.

Destinação agropecuária

Segundo o MapBiomas, Tocantins e Maranhão, nesta ordem, são os Estados que mais perderam vegetação nativa de Cerrado na última década. A iniciativa revelou que a região do Matopiba mais que dobrou a área destinada à agropecuária nos últimos 36 anos.

De 1985 a 2020 o Cerrado perdeu 19,8% de sua vegetação nativa, ou 265 mil km², que equivalem a uma área maior que a do Piauí. A expansão da agropecuária no bioma no mesmo período é quase complementar: foram 262 mil km² destinados à atividade.

Atualmente, a agropecuária ocupa 44,2% do bioma.

O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil, com 198 milhões de hectares, e apresenta diferentes tipos de vegetação nativa. Como hotspot de biodiversidade, é a savana mais biodiversa do mundo e está sob elevado grau de ameaça. Quase metade já foi desmatada: 54,5% de seu território ainda é coberto por vegetação nativa, sendo que 44% encontra-se justamente no Matopiba. (ecodebate)

Mudar alimentação para origem vegetal pode compensar anos de emissões de CO2

Mudar o que comemos para alimentos de origem vegetal pode compensar anos de emissões de CO2.
Mudar drasticamente a produção agrícola de animais para alimentos de origem vegetal poderia remover mais de uma década de nossas emissões de dióxido de carbono da atmosfera.

Alimentos com proteínas vegetais – como lentilhas, feijões e nozes – podem fornecer nutrientes vitais usando uma pequena fração da terra necessária para produzir carne e laticínios. Ao mudar para esses alimentos, grande parte da terra restante poderia sustentar ecossistemas que absorvem CO2, de acordo com um novo estudo publicado na revista Nature Sustainability.

Em seu estudo, os pesquisadores analisaram e mapearam áreas onde a produção extensiva de alimentos de origem animal, que requer 83 por cento das terras agrícolas da Terra, suprime a vegetação nativa, incluindo florestas.

O estudo destaca lugares onde mudar o que as pessoas crescem e comem poderia liberar espaço para o crescimento dos ecossistemas, compensando nossas emissões de CO2 no processo.

“O maior potencial de regeneração florestal e os benefícios climáticos que isso acarreta existem em países de renda alta e média alta, lugares onde reduzir a fome de carne e laticínios teria impactos relativamente menores na segurança alimentar”, diz Matthew Hayek , o principal autor do estudo e professor assistente do Departamento de Estudos Ambientais da New York University.

A queima de combustíveis fósseis para obter energia emite CO2, aquecendo o planeta. Quando o aquecimento atinge 1,5°C (2,7°F) acima dos níveis pré-industriais, são esperados impactos mais graves, como secas e aumento do nível do mar. Os cientistas descrevem quanto combustível fóssil podemos queimar antes de atingir esse limite, usando o “orçamento de carbono” global.

De acordo com as descobertas dos autores, o recrescimento da vegetação poderia remover até nove a 16 anos das emissões globais de CO2 dos combustíveis fósseis, se a demanda por carne despencasse drasticamente nas próximas décadas junto com suas enormes necessidades de terra. Essa quantidade de remoção de CO2 efetivamente dobraria o orçamento de carbono em rápida redução da Terra.

“Podemos pensar em mudar nossos hábitos alimentares em direção a dietas amigáveis à terra como um suplemento para a mudança de energia, em vez de um substituto”, diz Hayek. “A restauração de florestas nativas poderia ganhar o tempo necessário para os países fazerem a transição de suas redes de energia para uma infraestrutura renovável e livre de fósseis.”

Em seu relatório, os autores enfatizam que suas descobertas foram elaboradas para auxiliar em estratégias adaptadas localmente para mitigar as mudanças climáticas. Embora o consumo de carne em muitos países hoje seja excessivo e continue a aumentar, a criação de animais continua crítica em alguns lugares.

Essas considerações serão importantes à medida que os países tentam desenvolver suas economias de forma sustentável, de acordo com Nathan Mueller da Colorado State University, um dos coautores do estudo.

“O uso da terra tem tudo a ver com compensações”, explica Mueller, professor assistente do Departamento de Ciência do Ecossistema e Sustentabilidade e do Departamento de Ciências do Solo e Culturas. “Embora o potencial para restaurar ecossistemas seja substancial, a pecuária extensiva é cultural e economicamente importante em muitas regiões ao redor do mundo. Em última análise, nossas descobertas podem ajudar a visar lugares onde a restauração de ecossistemas e a interrupção do desmatamento em curso teriam os maiores benefícios de carbono.”

Propostas recentes para cobrir grande parte da superfície da Terra em florestas geraram polêmica como uma solução climática. Plantar fisicamente mais de um trilhão de árvores exigiria um esforço físico substancial. Além disso, o planejamento inadequado pode encorajar plantações de árvores uniformes, limitar a biodiversidade ou esgotar a água cada vez menor em áreas secas. Por último, os desafios consistem em encontrar terra suficiente para manter as árvores protegidas de corte ou queima no futuro, liberando o carbono armazenado de volta na atmosfera como CO2.

No entanto, os pesquisadores mantiveram esses problemas potenciais em mente ao elaborar seu estudo.

“Nós mapeamos apenas áreas onde as sementes poderiam se dispersar naturalmente, crescendo e se multiplicando em florestas densas e biodiversas e outros ecossistemas que trabalham para remover CO2 ¬ para nós”, diz Hayek. “Nossos resultados revelaram mais de 7 milhões de quilômetros quadrados onde as florestas seriam úmidas o suficiente para crescer novamente e prosperar naturalmente, coletivamente uma área do tamanho da Rússia.”

Em breve, soluções tecnológicas para as mudanças climáticas podem estar no horizonte, como máquinas que removem CO2 diretamente da atmosfera ou canos de exaustão de usinas. Colocar muita confiança nessas tecnologias pode ser perigoso, no entanto, de acordo com a coautora do estudo Helen Harwatt, uma bolsista da Harvard Law School.

“Restaurar a vegetação nativa em grandes extensões de terras agrícolas de baixo rendimento é atualmente nossa opção mais segura para remover o CO2”, diz Harwatt. “Não há necessidade de apostar nosso futuro apenas em tecnologias que ainda não foram comprovadas em escalas maiores”.

Mas os benefícios de reduzir o consumo de carne e laticínios vão muito além da abordagem da mudança climática.

“A redução da produção de carne também seria benéfica para a qualidade e quantidade da água, habitat da vida selvagem e biodiversidade”, observa William Ripple, coautor do estudo e professor de ecologia da Universidade Estadual de Oregon.

Eventos recentes também destacaram a importância de ecossistemas saudáveis na prevenção de doenças pandêmicas de origem animal, como a COVID-19.

“Agora sabemos que ecossistemas intactos e funcionais e áreas adequadas de habitat da vida selvagem ajudam a reduzir o risco de pandemias”, acrescenta Harwatt. “Nossa pesquisa mostra que há potencial para devolver grandes áreas de terra à vida selvagem. A restauração de ecossistemas nativos não só ajuda o clima; quando combinada com a redução das populações de gado, a restauração reduz a transmissão de doenças da vida selvagem para porcos, galinhas e vacas e, finalmente, para os humanos”. (ecodebate)

Desmatamento na Amazônia cria nova ameaça ao Brasil

Desmatamento em 2021 na Amazônia foi recorde dos últimos dez anos.
O desmatamento em 2021 na Amazônia, recorde dos últimos dez anos, e o enfraquecimento de agências como o ICMBio e o Ibama no governo de Jair Bolsonaro submetem o Brasil a um novo risco de ser alvo de medidas que afetem seu comércio exterior. Isso por causa da construção em fóruns internacionais da ideia de que o País falha em sua responsabilidade de proteger o meio ambiente.

Analistas civis e militares ouvidos pelo Estadão reconhecem a tendência que pode atingir em cheio o Brasil: a chamada securitização das mudanças climáticas quer o deslocamento do tema dos fóruns ambientais e econômicos para aqueles que tratam da segurança e defesa das populações e da manutenção da paz entre as nações.

A retórica, que no passado consolidou a guerra ao terror, pode levar à criação de um eixo do mal ambiental. Em breve, ela poderia ser usada contra grupos ou países apontados como responsáveis pelos danos causados por eventos extremos, como secas, inundações e ciclones, que afetem as grandes potências. As mudanças climáticas vão ocupar na primeira metade do século um papel central na diplomacia mundial. E o Brasil, com a Amazônia e o pré-sal, está no olho do furacão.

Exemplo de como a securitização do meio ambiente aumenta ano a ano é o documento Nato 2030 - United for a New Era, publicado pela Otan em 2020. O coronel do Exército e especialista em geopolítica Paulo Roberto da Silva Gomes Filho contou nele 19 vezes a expressão "mudança climática". "Ela é apresentada como um dos 'desafios definidores' dos tempos atuais, representando sérias implicações à segurança e aos interesses econômicos dos 30 países que integram a aliança".

Gestão Biden

Nos Estados Unidos, a gestão Joe Biden classificou as mudanças climáticas como questão de segurança nacional, levando o país a apoiar a sua securitização no Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU). A proposta de que o clima passasse a ser tratado no órgão contou com o apoio do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. Um projeto de resolução apresentado pela Irlanda e pelo Níger foi debatido. Ele previa a designação de um relator especial sobre o tema e a produção de relatórios.

A resolução abriria espaço para que, no futuro, o combate às mudanças climáticas pudesse servir de base a sanções e até para ações militares baseadas no princípio de responsabilidade de proteger, o chamado R2P, que fundamentou a intervenção na Líbia, em 2011. Mas, em 13 de dezembro, a resolução foi rejeitada em razão do veto da Rússia - houve ainda o voto contrário da Índia e a abstenção da China e 12 manifestações favoráveis, entre as quais a dos EUA, Reino Unido e França.

Nos debates, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, enfatizou que o apoio à resolução não significava abandono da cooperação internacional. "Devemos parar de debater se o caso das mudanças climáticas é ou não um tema para o Conselho de Segurança. Em vez disso, devemos perguntar como o conselho pode usar seu poderes exclusivos para enfrentar os impactos negativos do clima sobre a paz e a segurança."

A securitização está de acordo com o conceito de dissuasão integrada, defendido pelo secretário de Defesa, Lloyd Austin. Além de integração multidomínio nos campos de batalha - terra, mar, ar, espacial e cibernético -, ele quer o mesmo nas alianças e parcerias com países. "É lógico que o Brasil, o maior país da América do Sul, seja cortejado pelos EUA, pois eles estão em disputa hegemônica com a China", disse o coronel.

Mas essa situação pode mudar, caso o Brasil seja percebido como uma ameaça. No conselho, os EUA enfrentaram a oposição da China. O embaixador Zhang Jun afirmou: "Os princípios da responsabilidade comum, mas diferenciada, respectiva capacidade e equidade são os pilares da governança climática global. Não seria apropriado o Conselho de Segurança como fórum para substituir a tomada de decisão coletiva pela comunidade internacional."

Para o coronel Paulo Filho, em um mundo em que a hegemonia é disputada, ações da ONU serão cada vez mais difíceis. Ele contou que o texto da Estratégia Nacional de Segurança russa já anunciava o veto ao dizer: "A crescente atenção da comunidade internacional às mudanças climáticas e à manutenção do meio ambiente é usada como pretexto para limitar o acesso de empresas russas ao mercado exportador, restringir o desenvolvimento da indústria russa, estabelecer o controle sobre rotas de transporte e impedir o desenvolvimento da Rússia no Ártico".

Cenário

A discussão na ONU pode afetar o Brasil. Já em 2019, o blog do Exército publicou artigo do coronel Raul Kleber de Souza Boeno no qual alertava que "uma eventual securitização da questão climática teria implicações para a soberania brasileira, com significativas consequências para suas Forças Armadas". Foi atrás de como isso pode acontecer que o pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP Gustavo Macedo produziu cenários em que o conceito de responsabilidade de proteger seria usado contra o Brasil. Dentre eles, estão os crimes contra povos indígenas e o meio ambiente.

Em 2018, Macedo foi o redator do documento Making Atrocity Prevention Effective (Tornar Eficaz a Prevenção de Atrocidades), quando trabalhava como assistente de Ivan Simonovic, o diretor do Departamento de Prevenção a Genocídio e Responsabilidade de Proteger, da ONU. Ele acredita que a ação de Bolsonaro diante de crimes ambientais e humanitários "tornou urgente falar sobre o tema no Brasil". "Pessoas de fora, como o Stephen Walt, (professor) de Harvard, já trataram da possibilidade de se aplicar ao Brasil o R2P, por causa da Amazônia."

Walt publicou em 2019 um artigo na revista Foreign Policy no qual perguntava se os países têm o direito ou a obrigação de intervir em outro país para impedi-lo de causar dano irreversível e catastrófico ao meio ambiente. Depois, o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a ideia de um "status internacional à Amazônia".

"É preciso alertar o público brasileiro", disse Macedo. Para ele, essa linguagem diplomática pode ser mobilizada contra o Brasil. "A intervenção não necessariamente é militar; ela pode ser política e econômica. Na história da aplicação do conceito de responsabilidade de proteger, na imensa maioria das vezes, ele foi usado para ação política e econômica, não militar."

Vulnerabilidade

Para o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Juliano Cortinhas, o governo brasileiro pode reduzir a vulnerabilidade do País se voltar a fazer o dever de casa, fortalecendo as agências ambientais e a matriz energética limpa para ter dados positivos na proteção do meio ambiente.

"Associar segurança e meio ambiente em relações internacionais é inevitável. Com as mudanças climáticas, a segurança de todos será afetada. E quem define os temas a serem securitizados são as grandes potências." Para ele, nossas Forças Armadas não têm como impedir a ação de grandes potências. E a solução não é aumentar o orçamento da Defesa, mas reequilibrá-lo, crescendo a conta de investimento e diminuindo a de pessoal. "A Marinha britânica tem 35 mil militares e a nossa tem 80 mil com menos da metade de navios e submarinos."

Cortinhas sublinha o efeito da adoção de padrões internacionais de proteção do meio ambiente. "Quem vai pressionar um país que tem resultados a mostrar?" Segundo ele, com Bolsonaro a vulnerabilidade do País cresceu. "Quando se começa a esconder dados, mascarar a realidade e dizer que a responsabilidade é de países que mais poluem, fica-se mais vulnerável às pressões internacionais."

Para o coronel Paulo Filho, o Brasil será pressionado se não mostrar que fez sua parte à comunidade internacional. "Precisamos ter posição madura. Não podemos negar as mudanças climáticas. Elas podem ser instrumentalizadas contra nossos interesses e servir ao protecionismo agrícola? Podem. É uma realidade. Mas elas também têm efeitos que devem ser combatidos".

Desconfiança

O governo brasileiro trata com desconfiança o interesse de potências estrangeiras na preservação da Amazônia. Para o especialista em geopolítica, coronel Paulo Filho, isso acontece em razão do protecionismo. Ou seja, a defesa do ambiente seria instrumentalizada para atacar as exportações do agronegócio do País.

"O Exército vê com desconfiança o interesse em relação à Amazônia, região com a qual tem uma relação afetiva e uma longa tradição de defesa." Na última década, a questão ambiental entrou na formação dos comandantes. "Quando fui comandar, em 2014 - a gente faz um curso -, não me falaram sobre meio ambiente. Agora, os comandantes recebem uma carga horária de 60 horas sobre meio ambiente".

No Reino Unido, o Ministério da Defesa criou um cargo, ocupado pelo general Richard Nugee, para lidar com mudanças climáticas. Após a COP-26, ele escreveu: "Devemos ser claros, nossa liberdade de manobra, da estratégia à tática, será constantemente erodida e diminuída. Portanto, para permanecer na vanguarda da capacidade operacional, é imperativo que entendamos o futuro e nos adaptemos a ele, da melhor maneira possível".

Sahel

Os exércitos estudam como as mudanças afetarão seu trabalho. Nos debates no Conselho de Segurança sobre a securitização do clima foram citados países que estão sofrendo ameaças à segurança em razão das mudanças climáticas, como os do Sahel, na África. Com a desertificação da área, populações inteiras seriam forçadas a migrar para o sul ou para o norte e para Europa.

Para Paulo Filho, o clima já é entendido como ameaça à segurança humana. "Faz parte das atribuições das Forças Armadas de todo o mundo a defesa dos seus cidadãos. Se vou ter catástrofe climática, subir o nível dos mares e provocar migrações em massa, isso se torna problema de segurança." A securitização do clima, disse ele, está ligada ainda ao fato de o Ocidente, após a Guerra Fria, ter dado mais ênfase a temas ligados à segurança humana.

(OESP)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Reservatórios vão encerrar o ano em nível maior que 2020 por aumento de chuvas

Segundo ONS, o cenário deve se manter em 2022 e risco de apagão é descartado.

Assista ao vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=msTsyhKNDTQ

O nível dos reservatórios do Sistema Integrado Nacional (SIN), que abrange o complexo de armazenamento energético do país, encerrará este ano com um panorama melhor do que em dezembro do ano passado.

De acordo com dados disponibilizados no site do Operador Nacional do Sistema elétrico (ONS), os subsistemas Nordeste, Norte, Sudeste/Centro-Oeste e Sul terminaram o ano de 2020, respectivamente, com 46,1%, 28,1%, 18,67% e 27,5%, de energia armazenada nas usinas. Este ano, segundo o operador, eles terminarão com 47,15%, 41%, 23,53% e 44%.

Durante 2021, o armazenamento energético do SIN oscilou, devido à crise hídrica que assolou país, classificada como a pior dos últimos 91 anos. Dessa forma, as hidrelétricas deixaram de produzir muito e as termelétricas precisaram ser acionadas. Uma das consequências foi o encarecimento da energia elétrica, que aumentou 20,09% no último ano.

Segundo o ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mauricio Tolmasquim, para o ano de 2022, as previsões apontam que o país terá mais chuvas do que em 2021, e as precipitações nos meses de outubro, novembro e dezembro contribuíram para o cenário atual, de mais conforto.

“Houve uma melhora muito grande nesses meses, porque choveu razoavelmente bem. O problema era justamente chegar em novembro com a probabilidade de não atender a demanda dessa época do ano, que é mais alta. Então a chuva acima que do esperado ajudou, mas ainda estamos despachando mais térmica que o normal nessa época ano.”, explica.

O diretor-geral do ONS, Luiz Carlos Ciocchi, afirmou na semana passada que o nível dos reservatórios não será motivo para ocorrer racionamento de energia elétrica ou apagão em 2022. Ciocchi disse que os reservatórios devem chegar ao período seco de 2022 mais cheios do que estavam nesta fase de 2021, abastecidos entre 58% e 62% ao fim do período úmido. Ele também destacou a expansão da infraestrutura do sistema.

“Devemos ter a entrada de mais 10 mil megawatts de energia nova no sistema ao longo de 2020, e mais linhas de transmissão, favorecendo trazer mais energia do Norte e do Nordeste para o Sudeste. Uma situação bastante boa que devemos ter para rodar em 2022”, explica.

A previsão do professor Tolmasquin converge com a previsão anunciada pelo órgão. Segundo ele, o aumento das chuvas no ano que vem ajudará a desativar algumas térmicas, o que pode baratear a conta de luz.

“Se as chuvas continuarem abundantes, tem que continuar desligando as térmicas, principalmente por conta do preço desse tipo de energia. Por mais que não tenha tido racionamento, tivemos um choque de preços que atingiu a economia e vai durar nos próximos anos. Ou seja, o racionamento foi evitado, mas isso não é de graça, e vai deixar uma conta muito salgada para os consumidores nos próximos anos.”, afirma o engenheiro.

O especialista pontua ainda a importância de se agilizar a transição das matrizes energéticas no Brasil. Segundo o ONS, hoje, 63,2% da matriz energética do Brasil vem das hidrelétricas, enquanto 21,69% vêm das usinas termelétricas. As energias eólica e solar correspondem, respectivamente, a 11,39% e 2,62% do sistema. (cnnbrasil)

"Brasil precisa tratar a água como uma prioridade de segurança nacional"

"Brasil precisa tratar a água como uma prioridade de segurança nacional", dizem cientistas.

Na "Nature", pesquisadores afirmam que país precisa ter plano de seca para evitar alta da energia e perda de safras.
Dois terços do Rio Amazonas, no Norte brasileiro, por exemplo, já seriam capazes de suprir a demanda mundial de água.

O Brasil tem a maior quantidade de água doce do mundo. ⅔ do Rio Amazonas, no Norte brasileiro, por exemplo, já seriam capazes de suprir a demanda mundial de água. Apesar disso, o país enfrenta a terceira crise hídrica em 20 anos e a maior já registrada em 91 anos, por causa, principalmente, da má gestão do recurso natural.

Um alerta para o problema foi publicado em um artigo de opinião na revista Nature, assinado por 3 pesquisadores e endossado por outros 95 cientistas de diversas instituições nacionais e internacionais, entre eles Carlos Nobre e Paulo Artaxo.

Intitulado O Brasil está em crise hídrica - é necessário um plano de seca, o texto alerta que, se o país não investir em pesquisa, monitoramento do solo e em novas fontes de energia renováveis, futuras crises hídricas encarecerão ainda mais o valor da energia e poderão comprometer a segurança alimentar do país e do mundo.

"Crise hídrica no Brasil é uma crise mundial", diz trecho do documento, lembrando que o país produz quase 15% da carne bovina do mundo, cultiva mais de um terço das safras de açúcar e é responsável por ⅓ das exportações de café, além de outros produtos globalmente importantes, como soja. "Brasil precisa tratar a água como uma prioridade de segurança nacional", afirmam os cientistas.

"Vivemos uma grave crise hídrica causada, por um lado, pela seca e pelas mudanças climáticas, mas, por outro, pela falta de gestão da água no país", afirma Augusto Getirana, pesquisador do Laboratório de Ciências Hidrológicas do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, um dos autores do artigo de opinião.

Segundo os cientistas, o país não faz monitoramento da umidade do solo, não tem um plano de gestão da água e não tem dados para prever a ocorrência de futuras secas e crises hídricas.

"O Brasil precisa mudar a forma como trata a água. Ela é um bem abundante aqui, mas usada de forma pouco produtiva", diz a pesquisadora Renata Libonati dos Santos, do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ, que também assina o artigo.

A pior crise hídrica em 91 anos ameaça a produção de energia e de alimentos e reflete os impactos ambientais do agronegócio.

O texto publicado na Nature sugere quatro pontos:

1.    Otimizar o uso da água para que atividades essenciais não fiquem à mercê de chuvas

2.    Diversificar fontes de energia

3.    Criar um plano de secas

4.    Acabar com desmatamento na Amazônia

A seguir, detalhes sobre cada um dos pontos.

Otimizar o uso da água

O artigo aponta que, apesar da produção agrícola ser responsável por um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, nem metade da agricultura é irrigada.

"Apenas 13% da nossa agricultura é irrigada. Isso quer dizer que todo o resto da produção nacional depende das chuvas. Esse é só um dos exemplos que demonstra como o país precisa otimizar o uso da água", explica Getirana.

O documento destaca que o Brasil encontra-se sobre grandes aquíferos - recursos valiosos, e subutilizados. "O setor agrícola deve construir resiliência climática usando essas águas subterrâneas, especialmente durante secas hidrológicas extremas", diz o texto.

Porém, a exploração das águas subterrâneas pela agricultura precisa ser feita de forma sustentável, para evitar o esgotamento do recurso natural. Para isso, o governo precisa investir em monitoramento do solo e pesquisas.

Por isso, além de otimizar o seu uso, os cientistas também afirmam que é preciso gerir melhor os recursos que o país tem.

Um estudo sobre a perda de água potável durante a distribuição à população, publicado neste ano pelo Instituto Trata Brasil, revelou que são desperdiçadas diariamente 7,5 mil piscinas olímpicas de água tratada, ou sete vezes o volume do Sistema Cantareira – maior conjunto de reservatórios para abastecimento do estado de São Paulo. Essa quantidade de água potável desperdiçada seria suficiente para abastecer mais de 63 milhões de brasileiros em um ano.

"O Brasil tem água, mas ela precisa ser bem gerida por meio de políticas públicas", diz Getirana.

Reservatório da Usina Hidrelétrica Paraibuna é um dos reguladores das vazões do Rio Paraíba do Sul, responsável pelo fornecimento de água para cidades do Vale do Paraíba e do Estado do Rio de Janeiro.

Diversificar a fonte de geração de energia

Este ano, muitas cidades enfrentam um racionamento de água iminente e reservatórios importantes atingiram menos de 20% da capacidade, lembra o artigo.

Diante da seca e sem investir em outras fontes renováveis de energia, o Brasil teve que voltar a queimar combustíveis fósseis - um dos principais vilões do efeito estufa.

Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico/ONS mostram que o país produziu 13,2% da eletricidade do país em julho/2021 a partir de termelétricas, o maior volume de sua história. Além de poluente, este tipo de energia também é mais cara e elevou em 130% a conta de luz do brasileiro.

"Em um cenário de mudanças climáticas e aumento das secas, não podemos basear a economia de um país inteiro em apenas uma matriz energética, no caso, a água", afirma Getirana.

No artigo publicado na Nature, os cientistas sugerem como alternativa às hidrelétricas que o país amplie a capacidade de energia eólica e solar.

Plano de secas e investimento em monitoramento

Nos últimos 20 anos, o Brasil passou por 3 grandes secas: apagão de 2001, crise hídrica de 2014 e atual crise de 2021. O artigo afirma que, apesar do passado recente, pouco mudou na gestão da seca no país, mostrando que o problema vai além de um governo ou outro.

"A falta de gestão da água é um problema de Estado", diz Getirana.

"Durante décadas, houve uma falha governamental em reconhecer a seca como uma questão de segurança nacional e internacional", diz trecho do documento.

Porém, para que um plano nacional de secas seja elaborado, o Brasil precisa monitorar a umidade dos solos, ser capaz de rastrear a variabilidade e a disponibilidade da água subterrânea em todo o país e investir em pesquisa científica.

"O Brasil monitora água subterrânea em 409 locais em todo o país; para colocar isso em perspectiva, as redes norte-americana e indiana têm mais de 16 mil e 22 mil pontos de monitoramento, respectivamente. Não há sistemas nacionais para rastrear a umidade do solo no Brasil, e o monitoramento do uso da água é irregular", diz outro trecho do artigo.

Após a crise hídrica de 2014, a Agência Nacional de Águas (ANA) criou o Monitor das Secas, mas a plataforma online não faz previsão das secas, apenas mostra a situação atual, e com defasagem de um mês.

Assista ao vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=SZDP5bWNQ6Y

Enchentes, secas, neve e calor: "já não falamos em mudança, mas em colapso climático".

Acabar com o desmatamento

Libonati dos Santos explica que a Amazônia está ligada a todo o fluxo de água no Brasil. "O desmatamento da floresta tem alterado esse fluxo, deixando as regiões Sudeste e Centro-Oeste mais secas", diz a pesquisadora da UFRJ.

Isso acontece por causa de um fenômeno chamado de rios voadores, em que a umidade proveniente da transpiração das árvores da Amazônia é carregada pelas nuvens para outras regiões do país e até para algumas cidades da América do Sul – como uma bomba de água que abastece o Centro-oeste e o Sudeste do Brasil, região mais afetada pela atual crise hídrica.

Uma pesquisa da FAPESP mostrou que uma única árvore grande na Amazônia, com copa de 20 metros de diâmetro, pode bombear do solo mil litros de água por dia. Por isso, o desmatamento da floresta está relacionado com as secas em todo o país.

Um dos efeitos do acumulado de desmatamento nos últimos anos pode ser a atual seca que afeta parte do Brasil. Mapas do Monitor das Secas mostram como a atual seca migrou do Nordeste, em 2014, para o Centro-Oeste e Sudeste este ano.

Desde 2019, a Amazônia vem registrando recordes de desmatamento mês após mês. Dados do Imazon mostraram que entre agosto de 2020 e julho de 2021, o desmatamento na Amazônia foi o maior em dez anos: foram devastados 10.476 km² no período, taxa 57% maior que no período anterior, que já havia sido recorde.

Secas mais frequentes

Getirana ressalta que as crises hídricas estão ocorrendo em um menor intervalo de tempo: enquanto que 13 anos separaram o apagão de 2001 e a crise hídrica de 2014 e 2015, na crise atual bastaram apenas seis anos.

"Além de já estar muito mais frequente, o relatório da ONU sobre as mudanças climáticas alertou este ano que as secas ocorrerão com mais frequência na América do Sul devido às mudanças climáticas. Precisamos nos preparar hoje com políticas públicas", diz o cientista. (brasildefato)

4.