domingo, 21 de setembro de 2025

Recuperação de boa parte da Amazônia ainda é possível

A recuperação de boa parte da Amazónia ainda é possível, mas requer ação imediata e coordenada para evitar um colapso ecológico. Estudos recentes indicam que a floresta ainda tem capacidade de regeneração, especialmente se houver redução do desmatamento, restauração de áreas degradadas, manejo de incêndios, e apoio às comunidades indígenas e tradicionais.

Por que a recuperação é possível?

Resiliência da Floresta: A Amazónia possui resiliência e capacidade de regeneração, especialmente em áreas com continuidade de cobertura vegetal, diversidade de espécies e apoio comunitário.

Vegetação Secundária: Existem milhões de hectares com vegetação secundária em processo natural de regeneração que podem voltar a ser floresta madura se for mantida.

O que é preciso para evitar o colapso?

Medidas Urgentes e Coordenadas: É fundamental adotar ações conjuntas e rápidas para reverter a degradação.

Redução do Desmatamento: A diminuição do desmatamento é vista como a principal linha de defesa para proteger a floresta.

Restauração de Áreas: A recuperação de paisagens degradadas e a restauração da vegetação nativa são essenciais.

Manejo de Incêndios: Medidas eficazes para controlar e combater incêndios florestais são cruciais.

Apoio a Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais: A cooperação com esses grupos é fundamental para a conservação.

Fortalecimento de Políticas Públicas: Políticas públicas bem implementadas e fiscalização são necessárias para combater o desmatamento ilegal e promover a sustentabilidade.

Os riscos do não-agir:

Múltiplos Colapsos: A Amazónia enfrenta diversos riscos de colapsos ecológicos, causados por desmatamento, mudanças climáticas e incêndios, que podem ocorrer em diferentes regiões da floresta.

"Efeito Martelo": Para além de um "ponto de não retorno", existe o "efeito martelo", que é a pressão intensa sobre os ecossistemas que resulta na perda de biodiversidade e serviços ambientais sem a necessidade de atingir um único ponto de colapso.

Ação imediata é necessária, pois a resiliência da floresta, embora existente, está em declínio em algumas áreas, e os riscos de um colapso ecológico são significativos.
Pesquisadores dizem que ainda não há evidência de um único ponto de não retorno climático para o sistema amazônico e que ação imediata e coordenada pode evitar colapso total da floresta

Estudo elaborado por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e de instituições nacionais e internacionais mostra que a recuperação de boa parte da Amazônia ainda é possível — desde que sejam adotadas medidas urgentes e coordenadas de conservação. A informação consta no artigo “Pontos de não retorno das florestas amazônicas: para além dos mitos e em direção a soluções”, publicado na revista científica Annual Review of Environment and Resources.

No documento, os pesquisadores argumentam que ainda há grandes incertezas sobre o entendimento de um tipping point (ponto de não retorno, em português) único para todo o sistema amazônico. Segundo o estudo, há, na realidade, múltiplos riscos para colapsos ecológicos com diferentes características para diferentes regiões da Amazônia, que resultam de combinações de desmatamento, mudanças climáticas, perda de fauna e incêndios florestais. No entanto, a boa notícia é que vários desses riscos podem ser evitados com ações ambiciosas e imediatas.

“Embora as mudanças climáticas e os distúrbios locais já estejam provocando grandes transformações negativas na Amazônia, a falta de evidências de um colapso florestal iminente causado exclusivamente pelo clima (sem o fator fogo) também representa uma janela crucial de oportunidade. O destino da Amazônia não está predeterminado por um único ponto de não retorno — as escolhas, políticas e ações tomadas hoje podem direcionar a região para um futuro mais sustentável”, diz o artigo.

Segundo Paulo Brando, pesquisador do IPAM que liderou o estudo, a hipótese de um tipping point que pode levar a Amazônia a entrar em uma “espiral da morte” é importante para as políticas públicas e para a percepção do público. Porém, de acordo com o artigo, “enfatizar demais” a iminência do ponto de não retorno sem levar em consideração algumas das suas incertezas pode resultar em um sentimento de fatalismo, reduzindo possíveis respostas proativas.

“Se o conceito de ponto de não retorno – associado aos efeitos amplificadores entre a floresta e o clima – pretende realmente orientar políticas e ações de conservação, ele precisa ser comunicado de forma a destacar os riscos e deixar claros os caminhos viáveis para a intervenção. As mensagens mais eficazes são as que equilibram a urgência das ameaças com a ênfase nas possibilidades de agir e implementar soluções”, afirma o documento.
“Efeito martelo”

Para além do conceito de tipping point climático, Brando afirma que há um outro tipo de hipótese relacionada ao potencial colapso da floresta que é ainda mais urgente: o chamado “efeito martelo”.

“O ‘efeito martelo’ é como se a gente colocasse uma pressão tão grande nos ecossistemas que acaba resultando na perda de grande parte da biodiversidade e dos serviços dessas regiões mesmo sem um tipping point climático evidente. É uma pressão direta que está acontecendo agora, e não daqui décadas devido a um potencial colapso climático”, afirma.

Doutor em Ecologia Interdisciplinar e professor da Universidade Yale, nos Estados Unidos, Brando defende que o “efeito martelo” seja interrompido imediatamente para mantermos os serviços ecossistêmicos da Amazônia. O fenômeno é citado pelo artigo como sendo um dos principais motores para as perdas de ecossistema e fauna na floresta, sendo que os seus efeitos estão sendo sentidos agora em quase toda a Amazônia.

Para Brando, o artigo trouxe a mensagem positiva de que as florestas que estão sob a pressão do “efeito martelo” têm uma alta resiliência. “Se a gente remover essa imensa pressão causada pela fragmentação, defaunação, fogo, exploração madeireira, dentre outras, as florestas têm uma chance de sobreviver, principalmente, nas regiões mais conectadas e com o esforço de restauração”, declara.

Resiliência e medidas para reverter a perda da Amazônia

O artigo afirma que a resiliência da Amazônia ainda existe, embora esteja em declínio em algumas áreas. O estudo explica que a floresta segue tendo capacidade de regeneração, especialmente onde há continuidade de cobertura vegetal, diversidade de espécies e apoio das comunidades locais.

“Florestas inseridas em uma matriz com alta cobertura florestal podem recuperar rapidamente a biomassa e a riqueza de espécies arbóreas”, diz o texto.

Na avaliação de Joice Ferreira, bióloga e pesquisadora da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), a principal mensagem deixada pelo artigo é que eventuais tipping points não são o “ponto principal” no qual a sociedade e a comunidade científica deveriam focar. Ferreira afirma que, enquanto há incertezas sobre quando e onde pode ocorrer um ponto de não-retorno para a Amazônia, o estudo mostra que a atenção deve estar no que pode ser efeito para evitar essas alterações no clima, sejam elas abruptas ou graduais.

“Só existe uma certeza: temos que agir agora”, diz a pesquisadora. Ela acredita que, se a sociedade estiver mais bem informada sobre o que os riscos ambientais envolvendo a Amazônia podem representar para o futuro e para atividades essenciais para a economia brasileira, como a agricultura, a população se engajaria mais em pautas envolvendo as mudanças climáticas.

Restauração florestal em larga escala na Amazônia: o potencial da vegetação secundária

Aproveitando a resiliência da floresta e a sua capacidade de regeneração, o artigo propõe um conjunto de estratégias imediatas para evitar danos irreversíveis para a região. Dentre eles, estão:

- Redução do desmatamento — a medida é citada pelo artigo como a “primeira linha de defesa” para evitar o colapso das florestas amazônicas;

- Restauração de paisagens;

- Manejo de incêndios florestais;

- Fortalecimento de políticas públicas; e

- Cooperação com povos indígenas e comunidades tradicionais para a conservação do bioma.

Ferreira explica que as medidas citadas são interligadas. Por exemplo, ao conservar as florestas e tornar as paisagens mais sustentáveis, através da restauração, a presença do fogo é naturalmente reduzida. Ela defende a criação de uma “cultura de proteção” por meio do aumento de governança e de melhorias no cenário das leis de proteção nacional como uma forma de incentivar uma sociobioeconomia, ou, como ela define, “uma economia que mantém a floresta de pé”.

Para Liana Anderson, pesquisadora do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) que também assina o estudo, a mensagem que fica é que é possível “remover” a pressão causada pelos seres humanos. Ela defende que essa ideia sugere um caminho seguro, que permitiria um desenvolvimento sustentável e uma melhora na qualidade de vida da floresta e, consequentemente, para a população mundial e para o setor produtivo do Brasil — que depende da existência da floresta.

“Independentemente de as mudanças ocorrerem de forma gradual ou abrupta, as soluções ambientais permanecem as mesmas: exigem intervenções que estabilizem o clima global, fortaleçam a governança ambiental, reduzam o aquecimento local por meio do controle do desmatamento e da restauração, e promovam o manejo do fogo. Essas estratégias já são bem conhecidas, mas implementá-las e mantê-las em larga escala continua sendo um grande desafio”, concluíram os autores, que destacaram a necessidade de um “compromisso político duradouro”, envolvendo os tomadores de decisão da Amazônia, a transformação da economia regional e liderança das comunidades locais. (ecodebate)

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Amazônia perto do colapso hídrico

Amazônia perto do colapso hídrico: desmatamento explica 75% da perda de chuvas.

Pesquisadores brasileiros apontam impacto direto da perda de árvores no regime de chuvas e no aumento das temperaturas na floresta.
SECURA - Terra esturricada em volta do que era uma casa flutuante: estiagem na Amazônia sem prazo para acabar.

A Amazônia enfrenta uma estação seca cada vez mais rigorosa. Segundo estudo publicado em 02/09/25 na revista Nature Communications, 75% da redução das chuvas na floresta está diretamente ligada ao desmatamento.

A pesquisa também aponta que a perda de árvores contribuiu para o aumento do calor. Desde 1985, os dias mais quentes da região aqueceram cerca de 2°C, e 16% desse avanço se deve ao desmatamento.

Amazônia deixa de ser sumidouro de carbono

Conhecida como pulmão do planeta, a floresta amazônica absorve dióxido de carbono e ajuda a regular o clima global.

Mas décadas de derrubada de árvores e queimadas vêm revertendo esse papel: partes da floresta já emitem mais gases de efeito estufa do que absorvem.

Além disso, a Amazônia influencia os padrões de chuva regionais. Suas árvores funcionam como bombas d’água, puxando água do solo e liberando-a na atmosfera por transpiração. Essa umidade responde por mais de 40% de toda a precipitação da região.

Efeito maior na estação seca

O levantamento analisou 29 áreas da Bacia Amazônica no Brasil, separando fatores como mudanças na paisagem, no clima e no regime meteorológico entre 1985 e 2020.

A conclusão foi que o desmatamento causou 74% da redução das chuvas, com impacto maior nas regiões mais desmatadas.

A queda de precipitação ocorre em todas as estações, mas é mais intensa no período seco (junho a novembro).

Ciclo de fogo e destruição

A redução da chuva aumenta o risco de queimadas, prática comum na agricultura de corte e queima. Muitas vezes, esses incêndios saem do controle e destroem grandes áreas de floresta.

Em 2024, mais de 16 milhões de hectares foram devastados pelo fogo. Já no primeiro semestre de 2025, o desmatamento estava 27% maior que no mesmo período de 2024, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (INPE)

Esse processo gera um ciclo de retroalimentação: menos floresta significa menos chuva, o que aumenta a ocorrência de incêndios, que por sua vez reduzem ainda mais a cobertura vegetal.

Agricultura brasileira já sente impacto

Os efeitos não se restringem ao meio ambiente. Os maiores polos agrícolas do país ficam próximos à Amazônia e dependem das chuvas geradas pela floresta.

Em Mato Grosso, agricultores já enfrentam perdas por falta de precipitação. Em 2024, o estado passou 150 dias seguidos sem chuva.

COP30: a Amazônia no centro das negociações globais

A realização da COP30 em Belém, em 2025, coloca a Amazônia no epicentro da política climática internacional. O encontro reunirá quase 200 países para discutir como acelerar a redução das emissões e ampliar o financiamento climático.

O novo estudo reforça a centralidade da floresta nesse debate. A perda de chuvas e o risco de colapso do ciclo hidrológico amazônico não são apenas questões regionais, mas ameaçam a estabilidade agrícola, energética e climática de todo o planeta.

O Brasil chega à conferência sob pressão para mostrar resultados concretos no combate ao desmatamento.

Embora os índices tenham caído em alguns anos recentes, o avanço registrado em 2025 acende alertas. O país precisa provar que pode conciliar produção agrícola e preservação ambiental, algo que será cobrado pelos parceiros internacionais.

COP30 também é uma oportunidade de reposicionar o Brasil como líder na proteção das florestas tropicais, em parceria com países da Bacia do Congo e do Sudeste Asiático.

Essas nações controlam os maiores blocos de vegetação nativa do mundo e têm reivindicado mais financiamento internacional para manter suas florestas de pé.

No centro das negociações estarão 2 questões:

Financiamento climático — quanto os países ricos estão dispostos a transferir para apoiar a preservação da Amazônia e a transição econômica na região.

Novas metas de descarbonização — que precisarão incorporar o papel das florestas, não apenas da redução de combustíveis fósseis.

Ao sediar a conferência, o Brasil tem a chance de transformar a Amazônia em ativo estratégico, mostrando que proteger a floresta é também proteger a economia global contra crises de alimentos, energia e clima.

Mas a distância entre o discurso e a prática será testada diante do mundo em Belém.
Mapa revela vulnerabilidade de áreas críticas na Amazônia legal.

A Amazônia enfrenta a ameaça de um colapso ecológico cada vez muito mais pujante.

O futuro da maior floresta tropical de todo o planeta TERRA está cada vez muito mais incerto. (veja)

Desmatamento reduz chuvas e aumenta temperaturas na Amazônia

Pela primeira vez, pesquisa liderada por cientistas da Universidade de São Paulo quantifica o impacto da perda de florestas e das mudanças climáticas globais no bioma.
O desmatamento na Amazônia brasileira é responsável por aproximadamente 74,5% da redução de chuvas e 16,5% do aumento de temperatura no bioma durante o período de seca.

Pela primeira vez, pesquisadores quantificaram o impacto da perda de vegetação e das mudanças climáticas globais na floresta.

Um estudo liderado por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), no Brasil, fornece resultados fundamentais para orientar estratégias eficazes de mitigação e adaptação. Esses são os temas-alvo da Conferência do Clima das Nações Unidas (COP30), programada para novembro na metrópole amazônica de Belém, no estado do Pará, Brasil. Os resultados do estudo foram publicados na última edição da Nature Communications e estampados na capa.

Pesquisadores analisaram dados ambientais, de mudanças atmosféricas e de cobertura do solo coletados ao longo de um período de 35 anos (1985-2020) em uma área de aproximadamente 2,6 milhões de quilômetros quadrados na Amazônia Legal, uma zona criada pelo governo brasileiro para fins de desenvolvimento regional que abrange todos os nove estados onde o bioma Amazônia ocorre. Utilizando modelos estatísticos paramétricos, eles desvendaram os efeitos da perda florestal e das mudanças na temperatura, precipitação e taxas de mistura de gases de efeito estufa.

A precipitação diminuiu aproximadamente 21 mm por ano durante a estação seca, com o desmatamento contribuindo para uma redução de 15,8 mm. A temperatura máxima aumentou cerca de 2°C, dos quais 16,5% foram atribuídos à perda de florestas e o restante às mudanças climáticas globais.

“Vários artigos científicos sobre a Amazônia já mostraram que a temperatura está mais alta, que as chuvas diminuíram e que o período de seca aumentou, mas ainda não havia uma separação entre o efeito das mudanças climáticas, causadas principalmente pela poluição de países do Hemisfério Norte, e o desmatamento causado pelo próprio Brasil. Por meio deste estudo, conseguimos separar e ponderar cada um desses componentes, praticamente mostrando uma espécie de ‘conta a pagar’”, resume o professor Luiz Augusto Toledo Machado.

Machado, pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e colaborador do Departamento de Química do Instituto Max Planck, na Alemanha, diz à Agência FAPESP que os resultados reforçam a importância da preservação das florestas em pé para manter a resiliência climática.

Pesquisas mostram que o impacto do desmatamento é mais intenso nos estágios iniciais. As maiores mudanças no clima local ocorrem quando 10% a 40% da floresta é perdida.

“Os efeitos das mudanças, principalmente de temperatura e precipitação, são muito mais significativos nos primeiros percentuais de desmatamento. Ou seja, temos que preservar a floresta; isso é muito claro. Não podemos transformá-la em outra coisa, como pastagem. Se houver algum tipo de exploração, ela precisa ser sustentável”, acrescenta o professor Marco Aurélio Franco, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP.

Franco é o primeiro autor do artigo e recebeu bolsa de pós-doutorado da FAPESP, que também apoiou o trabalho por meio de outro auxílio (21/12954-5) do Centro de Pesquisa em Inovação em Gases de Efeito Estufa (20/15230-5) e do Programa de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais – RPGCC (22/07974-0).

O projeto apoiado pelo RPGCC está sendo desenvolvido em parceria com a Academia Chinesa de Ciências. Um dos líderes e autores estrangeiros do trabalho é o pesquisador Xiyan Xu.
Equilíbrio sensível do ecossistema

Sendo a maior e mais biodiversas floresta tropical do mundo, a Amazônia desempenha um papel importante na regulação do clima global. Por exemplo, ela é responsável pelos chamados “rios voadores” – cursos d’água invisíveis que circulam pela atmosfera e abastecem outros biomas, como o Cerrado, bioma semelhante ao Cerrado brasileiro. As árvores extraem água do solo por meio de suas raízes, transportam-na para suas folhas e a liberam na atmosfera na forma de vapor.

No final do ano passado, um grupo internacional de pesquisadores, incluindo Machado e o professor Paulo Artaxo, também do Instituto de Física da USP, publicou um estudo na Nature. O estudo mostrou pela primeira vez o mecanismo físico-químico que explica o complexo sistema de formação de chuvas no bioma. Esse mecanismo envolve a produção de nanopartículas de aerossóis, descargas elétricas e reações químicas em grandes altitudes, entre a noite e o dia. O resultado é uma espécie de “máquina” de aerossóis que produz nuvens (agencia.fapesp.br/54089).

No entanto, o desmatamento e a degradação florestal contribuem para alterar esse ciclo de chuvas, intensificando a estação seca localmente e aumentando os períodos de incêndios florestais. Segundo dados do MapBiomas, rede colaborativa formada por organizações não governamentais, universidades e startups de tecnologia que mapeia a cobertura e o uso da terra no Brasil, a Amazônia brasileira perdeu 14% de sua vegetação nativa entre 1985 e 2023, atingindo uma área de 553.000 km² – equivalente ao território da França. A conversão de pastagens foi a principal causa durante esse período. Apesar do desmatamento ter atingido seu segundo menor nível entre agosto/2024 e julho/2025 – uma área de 4.495 km² – conter a degradação, especialmente aquela causada pelo fogo, continua desafiador.

A estação seca, que ocorre entre junho e novembro, é quando os efeitos do desmatamento são mais perceptíveis, principalmente nas chuvas. Os efeitos cumulativos intensificam ainda mais a sazonalidade.

Desvendando os dados

Para chegar às suas conclusões, os cientistas utilizaram equações de superfície paramétricas que consideraram tanto as variações anuais quanto o desmatamento. Essas equações permitiram distinguir as contribuições únicas das mudanças climáticas globais e da perda de vegetação. Eles também utilizaram conjuntos de dados de sensoriamento remoto e reanálises de longo prazo, incluindo classificações de uso do solo produzidas pelo MapBiomas.

Além de analisar dados relacionados à precipitação e à temperatura, o grupo examinou dados de gases de efeito estufa. Concluíram que o aumento nos níveis de dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4) ao longo do período de 35 anos foi impulsionado quase inteiramente pelas emissões globais (mais de 99%). Observaram um aumento de aproximadamente 87 partes por milhão (ppm) para o CO2 e de cerca de 167 partes por bilhão (ppb) para o CH4.

O estudo analisou dados ambientais, de mudanças atmosféricas e de cobertura do solo de aproximadamente 2,6 milhões de quilômetros quadrados na Amazônia Legal brasileira ao longo de um período de 35 anos (1985-2020); imagem: Marco Aurélio Franco et al./ Nature Communications

“A princípio, esse resultado parecia contradizer outros artigos que mostram o impacto do desmatamento na redução da capacidade da floresta de remover CO2 da atmosfera. Mas isso não ocorre porque a concentração de CO2 seja algo em larga escala. Essas foram medições locais do fluxo de CO2. Em termos de concentração, o aumento se deve predominantemente às emissões globais”, acrescenta Machado.

Os pesquisadores alertam no artigo que, se o desmatamento continuar descontrolado, a extrapolação dos resultados sugere um declínio ainda maior na precipitação total durante a estação seca e um aumento ainda maior na temperatura.

Estudos recentes indicam que o desmatamento na Amazônia está alterando os padrões das monções na América do Sul, que trazem chuvas abundantes para o centro e sudeste do Brasil durante o verão. Essas alterações resultam em condições mais secas que podem comprometer a resiliência da floresta a longo prazo. Eventos extremos, como as secas de 2023 e 2024, apenas agravam a situação.

Tanto o desmatamento como a degradação da Amazônia têm impacto no clima, reduzindo a evapotranspiração das plantas, alterando os padrões de precipitação, aumentando a incidência de secas e de chuvas muito intensas. Cientistas têm alertado sobre os efeitos da destruição do bioma no clima regional, nacional e global há décadas. (ecodebate)

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Riscos à saúde ocupacional dos trabalhadores que coletam resíduos no Brasil

Os trabalhadores coletores de resíduos no Brasil enfrentam riscos à saúde que incluem exposição a agentes biológicos, químicos, físicos (atropelamentos, quedas, ruídos), e ergonômicos (esforço excessivo, manipulação de carga). Doenças respiratórias, dermatológicas, lesões musculoesqueléticas e infecções são algumas das consequências, agravadas pelo descarte inadequado de lixo, falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e condições precárias de trabalho, o que exige maior conscientização da população e investimento em segurança e saúde no trabalho.

Riscos Biológicos

Contaminação por perfurocortantes: Acidentes com cacos de vidro e outros materiais perfurocortantes são frequentes, podendo causar cortes e transmitindo doenças.

Exposição a patógenos: Contato com microrganismos presentes no lixo que podem causar doenças como hepatites, tuberculose e leptospirose.

Riscos Químicos

Exposição a substâncias tóxicas: Contato com resíduos químicos, incluindo aqueles de serviços de saúde (RSS), pode causar problemas de saúde.

Riscos Físicos

Atropelamentos e quedas: O ambiente de trabalho, com tráfego de veículos e lixos em condições inadequadas, aumenta o risco de acidentes graves.

Exposição a condições climáticas: Calor e frio extremos, além de chuva, afetam diretamente a saúde dos trabalhadores.

Ruído: Exposição a níveis de ruído elevados nas atividades de coleta também pode ser um risco.

Riscos Ergonômicos

Esforço excessivo e manipulação de carga: Carregar sacos de lixo pesados e realizar movimentos repetitivos ou em posturas inadequadas levam a problemas musculoesqueléticos e lesões.

Outros Riscos

Falta de EPIs e treinamento: O uso inadequado ou a ausência de EPIs como luvas e calçados adequados, e a falta de treinamento para o manuseio correto do lixo, aumentam a exposição aos riscos.

Condições precárias de trabalho: A precariedade das instalações e a falta de gestão adequada dos resíduos contribuem para o aumento dos acidentes e doenças.

Vulnerabilidade social: Trabalhadores informais podem ter descontos na remuneração por faltas, o que os leva a trabalhar doentes e aumenta sua vulnerabilidade.

Como os riscos podem ser minimizados

Conscientização da população: É crucial que a população se conscientize sobre a importância do descarte correto e seguro dos resíduos.

Acesso a EPIs e treinamento: Garantir o fornecimento de EPIs de qualidade, o uso adequado e o treinamento para os trabalhadores sobre os riscos e medidas de segurança.

Melhora das condições de trabalho: Investir em equipamentos ergonômicos e melhorar as condições de higiene e segurança nas instalações de coleta é fundamental.

Acesso a programas de saúde: Programas de vacinação e acesso à saúde e seguridade social para proteger os trabalhadores.

Riscos ambientais e de acidentes de trabalho: uma proposta multidisciplinar para a coleta de resíduos sólidos urbanos

Os trabalhadores envolvidos na gestão de resíduos enfrentam diversos problemas ocupacionais, como riscos de acidente, exposição a doenças, contato com agentes químicos e biológicos, sobrecarga física, estresse ocupacional, entre outros.

De acordo com o Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho – AEAT de 2023, gerado pelo Ministério da Previdência Social, os acidentes nas empresas que atuam na coleta de resíduos não perigosos (CNAE 3811) e perigosos (CNAE 3812) aumentaram entre 2021 e 2023. Conforme demonstrado nas Figuras 1 e 2, tanto os acidentes típicos, ou seja, aqueles ocorridos durante o exercício da atividade profissional, quanto o total de acidentes, tiveram aumento em ambas as atividades.

Desse modo, fica evidente a necessidade dar visibilidade aos trabalhadores que coletam resíduos, considerando suas experiências e desafios enfrentados na rotina de trabalho, a fim de compreender melhor os riscos ocupacionais associados à função.

Figura 3: Total de acidentes e acidentes típicos para o setor de coleta de resíduos não perigosos – CNAE 3811, entre os anos de 2021 e 2023.

Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho – AEAT de 2023 – Quantidade de acidentes do trabalho, por situação do registro e motivo, segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), no Brasil – 2021/2023.

Figura 4: Total de acidentes e acidentes típicos para o setor de coleta de resíduos perigosos – CNAE 3812, entre os anos de 2021 e 2023.

Fonte: Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho – AEAT de 2023 – Quantidade de acidentes do trabalho, por situação do registro e motivo, segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), no Brasil – 2021/2023.

Diante deste desafio ocupacional dos trabalhadores que coletam resíduos, o estudo Urban Waste Collectors in Belo Horizonte, Brazil: Their Perceptions of Occupational Health Risk (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30196766/) de 2018, apresenta uma pesquisa sobre os coletores de resíduos em Belo Horizonte, com o intuito de entender suas percepções em relação aos riscos ocupacionais associados à função exercida. Mesmo os autores se deparando com limitações como o baixo número de interessados em participar das entrevistas, foi possível extrair informações importantes para entender o cenário e propor ações de melhoria para o setor e para o gerenciamento dos resíduos em geral.

A pesquisa contou com seis grupos focais compostos por trabalhadores que atuam na coleta de resíduos em Belo Horizonte, sendo três grupos incluindo coletores de resíduos domiciliares e três grupos incluindo profissionais que coletam resíduos de serviços de saúde. O objetivo foi ouvir diretamente desses trabalhadores como eles percebem sua profissão, os riscos envolvidos, os cuidados adotados e o impacto de acidentes no cotidiano. As conversas seguiram um roteiro semiestruturado e aconteceram entre 2014 e 2015. Todos os encontros foram gravados com autorização dos participantes e depois transcritos para análise. Cada grupo contou com até 10 pessoas e, para garantir anonimato, cada participante recebeu um código numérico. A análise dos relatos seguiu critérios qualitativos e buscou identificar temas recorrentes, como o uso de equipamentos de proteção, as condições de trabalho, o preconceito enfrentado pela profissão e o impacto dos acidentes na saúde física e emocional (MOL et al., 2018).

A dinâmica escolhida pelos autores possibilitou que os participantes se sentissem mais à vontade em debater e apresentar seus relatos e opiniões. Em alguns momentos, os entrevistados demonstraram satisfação por estarem participando e por perceberem que havia pessoas interessadas em ouvi-los, além de compartilharem esse momento com outros colegas de profissão.

No estudo, ficou evidente alguns pontos de atenção, como a falta de fiscalização das empresas de coleta de resíduos à época. Nas entrevistas, houve relatos de que as empresas ao contratar os funcionários, nem sempre exigiam que as vacinas estivessem em dia, como a vacina contra Hepatite B, descumprindo assim a Norma Regulamentadora – NR 32, que trata da segurança e saúde do trabalhador em serviços de saúde e inclui uma disposição específica sobre a vacinação dos trabalhadores (Brasil, 2005). Além disso, foi destacado no estudo a falta de orientações para os casos de acidentes, sendo comentado que os cuidados dos ferimentos de menor gravidade ocorriam apenas ao chegarem em casa, após finalizarem o expediente de trabalho. Percebeu-se também a falta de entendimento sobre a definição de acidentes, sendo considerados pela maioria, acidentes apenas aqueles eventos em que havia o afastamento das funções laborais, seja por tempo determinado ou indeterminado. Com isso, os acidentes, de modo geral, não eram devidamente notificados segundo os relatos, tanto dos trabalhadores para a empresa quanto da empresa aos órgãos competentes.

Por isso, muitas vezes os trabalhadores investigados no estudo de Mol et al. (2018) relataram que a ocorrência de alguns tipos de acidentes era algo normal na rotina de trabalho, principalmente aqueles envolvendo perfurocortantes como agulhas, relacionados ao descarte inadequado em sacos plásticos. Além disso, houve relatos de embalagens com sobrecarga de peso, sendo dificultado o manuseio pelos trabalhadores, aumentando assim os riscos de acidentes devido a ergonomia inadequada ou ao rompimento dessas embalagens. Isso demonstra que há falhas na gestão e no gerenciamento de resíduos, tanto os domésticos quanto os de serviços de saúde, reforçando a falta de conhecimento dos riscos associados à função por parte dos trabalhadores e a invisibilidade dos mesmos perante a sociedade.

O estudo de Mol et al. (2018) ressaltou a importância de incentivar conversas com os trabalhadores com o intuito de entender seu dia a dia e a realidade da função exercida. Dessa forma, seria possível propor ações efetivas visando a melhoria das condições de trabalho. Notou-se também a insegurança dos entrevistados durante a pesquisa, por receio de sofrerem assédio moral ou retaliação por parte dos gestores, o que demonstra o porquê deles não falarem abertamente sobre os desafios da rotina na função. Além disso, é preciso haver uma sensibilização da população para o descarte correto e seguro dos resíduos, pensando não apenas no meio ambiente, mas também na saúde dos trabalhadores. A falta de gestão adequada nos estabelecimentos geradores de resíduos de serviços de saúde também foi destacada.

Diante desse cenário apresentado pelo estudo de Mol et al. (2018) e considerando que, mesmo após sete anos de sua publicação, muitos dos desafios apontados persistem, é preciso reconhecer os trabalhadores coletores de resíduos como agentes fundamentais para a preservação da saúde pública e do meio ambiente. Garantir o acesso a EPIs de qualidade, vacinações obrigatórias, treinamentos adequados e canais seguros de denúncia são medidas mínimas para a proteção desses profissionais. Torna-se necessário transformar a cultura institucional e social para que a saúde e a dignidade de quem lida diariamente com os resíduos sejam preservadas.
Brasil gera muito mais de 80 milhões de toneladas de lixo todos os anos, sendo que menos de 5% de todo esse montante é reciclado.

Este artigo surge como uma iniciativa para dar visibilidade a esses trabalhadores e reforçar a urgência de medidas que garantam sua valorização e proteção. Valorizar esses profissionais é, também, valorizar a vida urbana e coletiva. (ecodebate)

População e renda per capita no Afeganistão, Brasil e Tailândia

Países ou territórios por PIB (nominal) per capita em 2023.

  >$60,000

  $50,000 - $60,000

  $40,000 - $50,000

  $30,000 - $40,000

  $20,000 - $30,000

  $10,000 - $20,000

  $5,000 - $10,000

  $2,500 - $5,000

  $1,000 - $2,500

  $500 - $1,000

  <$500

  Sem dados

Em 2022, a renda per capita estava em US$ 1,3 mil no Afeganistão, US$ 14,6 mil no Brasil e US$ 16,4 mil na Tailândia.

A dinâmica demográfica e econômica do Afeganistão, Brasil e Tailândia são bastante diferentes, com resultados diversos sobre a erradicação da pobreza e o bem-estar da população.

O gráfico abaixo mostra que a população brasileira era de 53 milhões de habitantes em 1950, deve atingir o pico populacional com cerca de 220 milhões em 2042 e deve diminuir para 163 milhões de habitantes em 2100. A população da Tailândia era de 20 milhões de habitantes em 1950, já atingiu o pico populacional de 72 milhões em 2022 e deve decrescer para 46 milhões em 2100.

Já a população do Afeganistão era de 8 milhões de habitantes em 1950, ultrapassou 40 milhões atualmente e deve continuar crescendo até 130 milhões de habitantes em 2100. Nos 150 anos em questão, a população do Afeganistão deve crescer 16,7 vezes, o Brasil 3,1 vezes e a Tailândia 2,2 vezes. No final do atual século o Afeganistão deve ter uma população cerca de 3 vezes maior do que a Tailândia.

O gráfico abaixo mostra a densidade demográfica nos 3 países. O Brasil sempre teve a menor densidade demográfica, seguida do Afeganistão e da Tailândia, mas o Afeganistão assumirá a maior densidade nas últimas décadas do atual século. O Brasil tinha uma densidade demográfica de 6,4 hab/km² em 1950 e deve atingir 20 hab/km² em 2100. A Tailândia tinha uma densidade demográfica de 40 hab/km² em 1950 e deve atingir 90 hab/km² em 2100. Já o Afeganistão tinha uma densidade demográfica de 12 hab/km² em 1950 e deve atingir 200 hab/km² em 2100. No final do atual século o Afeganistão terá uma densidade demográfica 10 vezes maior do que no Brasil e mais do dobro da Tailândia.

A principal variável que determina a dinâmica da população é a taxa de fecundidade total (TFT). O gráfico abaixo mostra que, em 1950, a TFT estava acima de 6 filhos por mulher no Brasil (6,2 filhos) e na Tailândia (6,4 filhos) e acima de 7 filhos no Afeganistão (7,3 filhos). No Brasil e na Tailândia, a taxa de fecundidade começou a diminuir na década de 1970, mas no Afeganistão a TFT aumentou para quase 8 filhos por mulher na década de 1990 e só começou a cair nos anos 2000. Na Tailândia a transição foi mais rápida e a TFT chegou abaixo do nível de reposição (2,1 filhos por mulher) em 1992, enquanto o Brasil chegou em 2003 e o Afeganistão só chegará no final do século.

O gráfico abaixo mostra a renda per capita, em poder de paridade de compra, dos três países de 1950 a 2022, segundo dados do Projeto Maddison (2023). Nota-se que a Tailândia e o Afeganistão tinham uma renda per capita semelhante, em torno de US$ 1,2 mil em 1950 e o Brasil tinha uma renda per capita de quase o dobro, US$ 2,3 mil. Em 1980, a renda per capita do Afeganistão era de US$ 1 mil, da Tailândia de US$ 4 mil e do Brasil de cerca de US$ 8 mil. Portanto, a renda per capita brasileira era 8 vezes maior de que a afegã e 2 vezes maior do que a renda tailandesa.

No ano 2000 a renda per capita do Afeganistão caiu para US$ 502 e a renda per capita do Brasil e da Tailândia ficou em torno de US$ 9,7 mil. O Brasil manteve uma renda maior do que a da Tailândia até 2014. Em 2022, a renda per capita estava em US$ 1,3 mil no Afeganistão, US$ 14,6 mil no Brasil e US$ 16,4 mil na Tailândia. Portanto, o Brasil tinha uma renda per capita 11 vezes maior do que a do Afeganistão e a Tailândia 12 vezes maior.

Não houve avanço na renda per capita do Afeganistão nos últimos 70 anos. A renda per capita do Brasil quase quadruplicou entre 1950 e 1980, mas menos do que dobrou entre 1980 e 2022. Entre 1950 e 2022 a renda per capita brasileira aumentou 6,5 vezes e a da Tailândia 12,6 vezes.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), em 2023, foi de 0,798 na Tailândia, 76º lugar no ranking global, de 0,786 no Brasil, 84º lugar no ranking global e de 0,496 no Afeganistão, 181º lugar no ranking global.

O sucesso da Tailândia em relação ao Brasil e, principalmente, em relação ao Afeganistão tem várias explicações, mas um dos fatores de destaque foi a rápida transição demográfica. A queda das taxas de mortalidade e natalidade contribuíram para a mudança da estrutura etária e para o surgimento do 1º bônus demográfico.

O bônus demográfico ocorre quando a proporção da população em idade ativa (geralmente entre 15 e 64 anos) é maior do que a proporção de dependentes (crianças e idosos). Essa janela de oportunidade pode impulsionar o crescimento econômico e a renda per capita se o país investir em educação, saúde e criar um ambiente favorável ao emprego. A Tailândia aproveitou melhor sua janela de oportunidade demográfica em relação ao Brasil.

Já a transição demográfica do Afeganistão não tem avançado suficientemente e não tem contribuído positivamente para o aumento da renda per capita, pelo contrário, tem sido um fator de estagnação. Isto ocorre devido ao fardo da dependência, pois uma grande proporção de crianças significa uma enorme pressão sobre os recursos públicos (educação, saúde) e familiares. Há menos pessoas em idade de trabalhar para sustentar um grande número de dependentes.

Brasil se aproxima da metade mais pobre do planeta

Sem a queda mais profunda da taxa de fecundidade, o Afeganistão não consegue colher o dividendo demográfico porque a grande coorte de jovens que poderia se tornar uma força de trabalho produtiva enfrenta: a) conflitos prolongados e instabilidade política; b) baixo capital humano; c) falta de oportunidades econômicas e d) restrições à participação feminina no mercado de trabalho e na sociedade.

Em vez de impulsionar o crescimento, a estrutura demográfica do Afeganistão, combinada com fatores socioeconômicos e políticos adversos, resulta em uma “armadilha da pobreza”, onde o rápido crescimento populacional sem as condições adequadas para absorver essa força de trabalho mantém a renda per capita estagnada ou em declínio.

A Tailândia é um exemplo de país do Sudeste Asiático que passou por uma transição demográfica muito rápida e bem-sucedida, estando agora na Fase 4 (sociedade envelhecida). Agora a Tailândia busca aproveita o 2º bônus demográfico (bônus da produtividade) e o 3º bônus demográfico (bônus da longevidade). Desta forma, a Tailândia caminha para ter uma renda per capita próxima daquelas dos países

O Brasil chegou a apresentar um dos maiores desempenhos econômicos do mundo entre 1950 e 1980. Mas depois de 1981 o país perdeu o ritmo e tem convivido com uma produtividade estagnada. A economia cresce pouco no ritmo do avanço populacional. Mas com o fim do 1º bônus demográfico, existe a possibilidade de o país ficar preso na “armadilha da renda média”, se não conseguir capitalizar o 2º e o 3º bônus demográfico.

Em resumo, a transição demográfica oferece uma janela de oportunidade (os bônus demográficos), mas seu aproveitamento depende crucialmente de políticas adequadas em áreas como educação, saúde, criação de empregos e governança eficaz.

O alto crescimento demográfico, como no Afeganistão, costuma ser mais um obstáculo do que um estímulo ao desenvolvimento humano.

Mapa-múndi representando faixas do Índice de Desenvolvimento Humano em incrementos de 0,05, baseado no relatório publicado em 2025, com dados referentes a 2023.

  ≥ 0,950

  0,900 – 0,950

  0,850 – 0,899

  0,800 – 0,849

  0,750 – 0,799

  0,700 – 0,749

  0,650 – 0,699

  0,600 – 0,649

  0,550 – 0,599

  0,500 – 0,549

  0,450 – 0,499

  0,400 – 0,449

  ≤ 0,399

  ≤ 0,399 (ecodebate)

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Antártida mais verde acelera o derretimento

Antártica está ficando cada vez mais verde, e rápido

Estudo aponta aceleração no processo de "esverdeamento" da Antártica, graças ao aquecimento global; consequências afetarão o clima do planeta.

Um novo estudo revelou que minúsculos organismos chamados algas da neve estão contribuindo significativamente para o derretimento da superfície das plataformas de gelo da Antártida.

A descoberta pode ter implicações de longo alcance para a elevação global do nível do mar.

O estudo publicado na Scientific Reports, usa dados de satélite Sentinel-1 e Sentinel-2 de alta resolução e análises avançadas para explorar como o crescimento de algas da neve, a temperatura e o derretimento da neve interagem nas plataformas de gelo Brunt e Riiser-Larsen de 2019 a 2022.

As algas da neve são plantas microscópicas que crescem na neve e no gelo, muitas vezes conferindo-lhes uma tonalidade verde ou avermelhada. Essas florações escurecem a superfície da neve, reduzem suas refletividades e fazem com que ela absorva mais luz solar e calor, levando ao derretimento mais rápido do gelo.

Antártica “verde”: Cientistas alertam sobre aceleração do aquecimento global

Uma descoberta fundamental é que a proliferação de algas surge no início da estação de degelo, antes dos picos de temperatura. Utilizando a correlação de Pearson ajustada por defasagem temporal e a análise de causalidade de Granger, o estudo encontrou uma forte ligação entre algas da neve, aumento das temperaturas e degelo da superfície.

Esses fatores formam um ciclo de retroalimentação: o crescimento de algas leva a mais degelo, e cada elemento reforça os outros em um ciclo autossustentável.

Além disso, o estudo constatou que o crescimento de algas diminui no final da estação, apesar dos aumentos contínuos de temperatura. Isso sugere uma relação mais complexa entre algas e derretimento, que depende de um delicado equilíbrio de condições ambientais.

O estudo destaca como processos biológicos — como o crescimento de algas — contribuem para a dinâmica do clima polar.

Os resultados sugerem que modelos climáticos futuros devem incorporar fatores biológicos para prever melhor a elevação do nível do mar, observaram os pesquisadores.

Mapa de distribuição de algas da área de estudo (de 2019-10 a 2022-03). (ecodebate)

Os impactos de longo prazo de eventos climáticos extremos

As mudanças climáticas afetam a disponibilidade de água, tornando-a mais escassa em mais regiões. O aquecimento global agrava os períodos de seca em regiões onde a falta de água já é comum e leva a um risco maior de secas agrícolas, afetando plantações, e secas ecológicas, aumentando a vulnerabilidade dos ecossistemas.
Sustentarea – Núcleo de Extensão da USP sobre alimentação sustentável

Como eventos climáticos extremos e desastres afetam as comunidades a longo prazo?

Os efeitos imediatos de furacões e tempestades severas são devastadores e evidentes: estradas alagadas, casas destruídas, pessoas desabrigadas, entes queridos perdidos e famílias enlutadas. Durante as ondas de calor, os pronto-socorros atendem mais pacientes com doenças causadas pelo calor e lesões renais.

Novas pesquisas mostram que esses impactos iniciais de eventos climáticos extremos são apenas o começo de uma cascata de consequências para a saúde humana e a economia.

Solomon Hsiang, professor de ciências sociais ambientais na Escola de Sustentabilidade Stanford Doerr, tem aplicado métodos de ciência de dados para revelar esses efeitos cascata de longo prazo e embasar decisões sobre como mitigá-los. Ao analisar centenas ou milhares de eventos extremos e comparar sua cronologia com mudanças nas medidas de saúde pública e atividade econômica, ele e seus colegas conseguem ver quais impactos ocorrem repetidamente após um ciclone tropical ou uma onda de calor.

Aqui estão quatro fatos essenciais de sua pesquisa sobre condições climáticas extremas e assistência em desastres.

Tempestades extremas podem retardar o crescimento econômico por décadas.

Alguns economistas especulam que, após o choque inicial de uma forte tempestade, a economia da região afetada se recuperará rapidamente. Alguns até sugeriram que os furacões causam “destruição criativa”, levando a um aumento repentino na produtividade.

As evidências sugerem uma realidade mais sombria. Em 2014, Hsiang e colegas relataram que, após os países sofrerem ciclones tropicais, levam, em média, 20 anos para recuperar a taxa de crescimento econômico anterior à tempestade. A análise baseou-se em registros de 6.712 tempestades entre 1950 e 2008, comparando dados econômicos nacionais antes e depois da tempestade. Um ciclone médio reduz a renda per capita em 3,6%, semelhante a uma crise cambial, e as tempestades mais extremas fazem a renda per capita “cair vertiginosamente”, disse Hsiang.

“Continuar apoiando e investindo nas comunidades por um longo tempo após o desastre ser ocorrido é provavelmente necessário para que elas voltem a ser como eram antes”, disse ele.
Eventos climáticos extremos na América do Sul

“Furacão”, “ciclone” e “tufão” são nomes regionais para tempestades tropicais com ventos de pelo menos 119 quilômetros (74 milhas) por hora. “Ciclone tropical” é o termo genérico para essas poderosas tempestades rotativas.

Outros impactos climáticos também desaceleram o crescimento econômico. Em outra análise, Hsiang descobriu que cada dia da semana com temperaturas acima de 30°C, em média, US$ 20 por pessoa em perda de produtividade para um condado americano.

Os efeitos mortais de furacões e ondas de calor perduram por anos.

Em média, cada furacão ou tempestade tropical que atinge os EUA mata cerca de 24 pessoas diretamente, por afogamento em águas de enchentes, por exemplo. Em 2024, um estudo de Hsiang e da pesquisadora de pós-doutorado Rachel Young mostrou que essas mortes eram apenas o começo de uma longa sequência de mortes precoces desencadeadas por tempestades.

Os dois cientistas analisaram dados de ciclones tropicais e taxas de mortalidade entre 1930 e 2015, estudando os picos de mortalidade ocorridos após 501 tempestades. A tempestade média aumentou o número de mortes por 15 anos após sua ocorrência, levando à morte prematura de mais de 7.000 a 11.000 pessoas. Crianças e a população negra apresentaram taxas de mortalidade especialmente altas após os ciclones.

O calor extremo também causa mortes precoces indiretas. Em um estudo de 2018, Hsiang e colegas, incluindo Marshall Burke e Sam Heft-Neal, de Stanford, relataram que as taxas de suicídio nos EUA e no México aumentaram após períodos de calor acima da média. Eles estimaram que o aquecimento climático não mitigado poderia levar a até 40.000 suicídios adicionais até 2050. “Observamos padrões muito semelhantes em todo o mundo”, acrescentou Hsiang.

A pressão financeira causada por desastres pode contribuir para impactos de longo prazo na saúde.

Os pesquisadores ainda não conseguem identificar a série precisa de eventos que podem levar alguém à morte prematura após um furacão. É possível que um furacão cause danos onerosos à casa devido à água, levando o proprietário a recorrer às suas economias para a aposentadoria. Essa perda de economias tem um efeito cascata, que pode, em última análise, afetar o acesso à assistência médica.

A equipe está trabalhando para testar hipóteses como essa, que podem levar a políticas destinadas a ajudar. Dados de pontuação de crédito e poupança, por exemplo, podem indicar como as pessoas estão lidando financeiramente nos meses e anos após uma tempestade. Se essa análise revelar que as pessoas estão gastando suas economias de aposentadoria para reconstruir suas casas, os pesquisadores poderão então testar se os pagamentos de auxílio aos aposentados reduzem a incidência de mortes prematuras.

“Quando tivermos uma ideia bem clara do que está acontecendo”, disse ele, “podemos fazer um grande experimento para ver se damos a eles algum dinheiro ou ajuda médica gratuita e começamos a ver as pessoas vivendo mais”.
Secas, cheias e queimadas estão cada vez mais frequentes no país

Eventos climáticos extremos aumentam quase 1.000% em 20 anos

Diagnóstico vem de painel nacional que também monitora impactos ambientais na saúde

Programas públicos de assistência a desastres podem salvar vidas e dinheiro.

Fundos públicos destinados ao auxílio em desastres podem ajudar a reduzir os danos econômicos causados por eventos climáticos extremos, disse Hsiang. Por exemplo, um estudo de 2024 constatou que empréstimos para desastres concedidos pela Administração de Pequenas Empresas dos EUA reduziram a falência e aumentaram o emprego após desastres naturais. Ele acrescentou que a cobertura de seguros apoiada pelo estado, como o programa de seguro contra incêndios florestais da Califórnia, também pode fornecer fundos de auxílio para eventos extremos. Esses recursos se tornarão ainda mais importantes à medida que as mudanças climáticas aumentam a intensidade de tempestades, ondas de calor e secas. “Temos várias ferramentas que as pessoas demonstraram funcionar”, disse ele.

Programas públicos que ajudam pessoas em áreas propensas a inundações a se protegerem antes da próxima tempestade severa também podem ser economicamente viáveis a longo prazo. Descobertas preliminares de Young sugerem que o programa de aquisição de imóveis da FEMA, no qual a agência compra casas que foram danificadas repetidamente por tempestades, não custa aos contribuintes mais dinheiro do que o auxílio tradicional em caso de desastre.

Por que eventos climáticos extremos são cada vez mais parte da realidade?

Da mesma forma, enterrar fios elétricos na Califórnia pode reduzir os custos dos incêndios florestais ao longo do tempo. “Esse é o tipo de coisa que você gostaria de ampliar”, disse Hsiang. “Devemos encontrar uma maneira de simplificar, tornar mais eficiente, reduzir esses custos e aumentar os benefícios”. (ecodebate)

Dissociação coletiva é barreira invisível na crise climática

A dissociação coletiva é um mecanismo subconsciente de defesa que paralisa a ação humana frente à gravidade da crise climática. De acordo ...