sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

ONU: combate do Brasil às mudanças climáticas é ‘muito ruim’

O país ficou em 49° lugar em um ranking de 61 posições, divulgado na Conferência das Nações Unidas sobre o clima.
Participantes chegam para a COP 20, conferência do clima realizada pela ONU, na cidade de Lima, no Peru.
O Brasil teve seu desempenho classificado como “muito ruim” em um relatório sobre mudanças climáticas divulgado nesta segunda-feira na conferência das Nações Unidas sobre o clima, COP20, realizada em Lima, no Peru. O documento, denominado The Climate Change Performance Index (Índice de performance sobre mudanças climáticas), foi elaborado pela instituição alemã Germanwatch e pela ONG europeia Climate Action Network Europe.
O documento elencou o desempenho dos 58 principais países emissores de gases estufa. O Brasil ficou na 49.ª posição nesse ranking, logo abaixo da Argentina e acima de Japão, Coreia do Sul, Rússia, Canadá e Austrália, por exemplo. Na listagem do ano anterior, o país estava na 35.ª posição. “O desempenho do Brasil nos últimos anos parece ter chegado ao fundo do poço, com a perda de catorze posições e tendência de declínio em quase todos os setores", diz o texto. De acordo com o documento, porém, há indícios de que "o Brasil conseguiu reduzir o desmatamento significativamente” de 2010 para cá, o que deve melhorar o desempenho do país no relatório do próximo ano.
Destaques
Para deixar claro que nenhum país está fazendo tudo o que deveria para frear a mudança climática, as primeiras três posições do ranking foram deixadas em branco. O índice começa de fato na quarta posição, com a Dinamarca no topo, seguida por Suécia, Grã-Bretanha e Portugal.
Uma das surpresas foi o Marrocos, que passou da 15.º para o 9.º lugar, e o México, que ficou entre os vinte primeiros. A Austrália surpreendeu pelo desempenho ruim, o pior entre os países industrializados: ficou na posição número 60, à frente apenas da Arábia Saudita.
O índice avalia os países em cinco categorias: emissões de poluentes, tendência das emissões, eficiência energética, política em relação a energias renováveis e a abordagem das mudanças climáticas em nível nacional e internacional. (abril)

Brasil está no ‘fundo do poço’ em politicas para o clima

Enquanto as discussões da Conferência do Clima em Lima (COP 20) começam a se acalorar, uma ducha de água fria atingiu os delegados reunidos na capital peruana. O banho veio na forma de um novo relatório, divulgado pelas ONGs Germanwatch e Climate Action Network Europe e realizado por 300 especialistas, que concluiu: nenhum país elaborou políticas públicas satisfatórias contra as mudanças climáticas. O Brasil teve um desempenho particularmente vergonhoso.
Caiu 14 posições, entre as 58 nações avaliadas, atingindo o “fundo do poço”, segundo o relatório. Em 2007, chegou a figurar entre os dez melhores.
Os países estudados pelo relatório anual, criado em 2005, são responsáveis por mais de 90% das emissões de CO2 do mundo. Assim como na edição anterior, as três primeiras posições ficaram em branco, um sinal de que nenhuma nação está cumprindo integralmente o seu papel para evitar que a temperatura global suba mais do que 2°C – limite acima do qual, segundo estudos, poderia haver “consequências desastrosas”.
Dinamarca, Suécia e Reino Unido foram os países com maior nota. Austrália e Arábia Saudita terminaram na lanterninha. O Brasil ficou atrás de China e EUA – os maiores poluidores do planeta –, e de diversos emergentes, como México, Índia, África do Sul e Argentina.
“O desempenho do Brasil nos últimos anos parece ter atingido o fundo do poço, perdendo um total de 14 posições com a queda em quase todos os setores”, ressalta o relatório. No último documento, o país era o 35º entre os mais bem-sucedidos no desenvolvimento de políticas públicas contra as mudanças climáticas. Em 2011, o Brasil era o sétimo com maior rendimento em projetos voltados ao clima.
“As emissões cresceram principalmente na geração de eletricidade, aviação e construção civil” ressalta Jan Burck, coautor do relatório. “Esperamos que o país suba mais de 20 posições na próxima avaliação, se um novo documento da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), que será divulgado no ano que vem, indicar um progresso no combate ao desmatamento na Amazônia”.
Posição pode melhorar
Diretor do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, Osvaldo Stella concorda que a atualização dos dados sobre o desflorestamento vai catapultar o país para as melhores posições do ranking. “Os índices desatualizados sobre o desmatamento prejudicam principalmente dois países, a Indonésia e o Brasil”, destaca. “São os dois únicos avaliados em que a grande maioria das emissões vem das florestas. Então, se mostrarmos nossa luta contra a devastação das áreas verdes, vamos melhorar substancialmente nossa performance”.
O ano também foi crítico em outros setores da economia, que chutaram o Brasil para a lista dos países menos empenhados contra as mudanças climáticas.
“Os especialistas atuaram em uma conjuntura muito crítica para o país, em meio à seca e ao esvaziamento dos reservatórios”, lembra. “Houve uma diminuição da geração de energia por hidrelétricas e um consequente aumento na procura por combustíveis fósseis. Também foi um recado de que precisamos investir mais em energia renovável”.
O aumento da frota de veículos também foi problemático, porque a diminuição do preço da gasolina obscureceu o etanol, menos poluente e mais renovável.
“Esta situação conjectural precisa ser melhorada para não enveredarmos por um caminho muito ruim, em que todos esses problemas se tornem estruturais”, alerta. “Por isso precisamos de biocombustíveis, hidrelétricas e um melhoramento na política do transporte”.
Procurado pelo GLOBO, o Ministério do Meio Ambiente afirmou que o levantamento deveria ser comentado pelo Ministério das Relações Exteriores. O Itamaraty não respondeu ao pedido de entrevista.
EUA e china
Origem da liberação de 45% dos gases poluentes do planeta, EUA e China tiveram um desempenho modesto – aparecem, respectivamente, na 44ª e na 45ª posições. No país asiático, as energias renováveis exercem um papel cada vez maior na geração de riquezas, mas novas usinas nucleares ainda estão sendo construídas.
Já na maior superpotência global, o nível de emissões está em queda desde 2008, principalmente no setor de transportes. No entanto, o estabelecimento de metas mais ambiciosas contra as mudanças climáticas esbarra em um Congresso resistente ao temor de que a política contra o carbono afete a economia.
“Ambos os países têm metas pouco ambiciosas” lamenta Burck. “Da forma como se comportam, a temperatura do planeta vai superar os 2 graus Celsius. Faltam estratégias de mitigação à altura do impacto que essas nações causam”.
Na COP 20 Austrália e Arábia Saudita fizeram jus às últimas posições que ocupam no ranking da Germanwatch. O governo do país da Oceania pediu que sua Barreira de Corais, que perdeu metade de seu ecossistema nos últimos 30 anos, deixe de ser considerado “em perigo”. Como compensação, anunciou doação do equivalente a R$ 430 milhões ao Fundo Climático Verde. Já autoridades sauditas sugeriram que petrolíferas sejam recompensadas para aderir a programas contra mudanças climáticas.
O secretário-geral da ONU, Ban ki-Moon, anunciou que a segunda edição da Cúpula do Clima deve ser realizada no ano que vem nos EUA, antes da Conferência de Paris. O primeiro encontro do tipo, promovido pelas Nações Unidas, resultou em uma grande injeção de recursos no Fundo Climático Verde, que agora acumula US$ 10 bilhões em doações.
“Todos os países devem chegar a um entendimento. Este não é um tempo para consertos, e sim para transformações”, reivindicou.
Um dos primeiros presidentes a chegar a Lima, o boliviano Evo Morales afirmou que diversos países são “ladrões” e “roubam carbono de outros”:
“Há um grande grupo de países que historicamente abusou da atmosfera e cometeu ecocídio”, ressaltou. “Após 20 anos ainda não colhemos resultados. Isso é um fracasso. Hoje encaramos o início do desaparecimento da raça humana”. (biodieselbr)

Mudanças Climáticas: O tempo está se esgotando

O céu de Pequim pode ser azul. Isso é o que os habitantes da capital chinesa acabam de descobrir. E tudo graças ao plano que as autoridades locais colocaram em prática para receber no melhor dos ambientes, no começo de novembro, Putin, Obama, Bachelet e outros líderes da Cúpula Ásia-Pacífico (Apec, sigla em inglês). Restringiu-se o tráfego de carros privados, 70% dos veículos públicos saíram de circulação, as obras foram interrompidas, assim como a produção das fábricas mais poluentes da cidade. Resultado? O desaparecimento da eterna neblina que flutua sobre as cabeças dos pequineses e a aparição de um céu limpo que até recebeu um nome: azul Apec.
Foram-se os líderes, o fórum de cooperação econômica terminou com um acordo entre Estados Unidos e China – considerado histórico por alguns; fraco por outros, por não ser vinculante – para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, e a poluição voltou. Mas os pequineses já não são os mesmos de antes: descobriram que basta vontade para ter um céu azul. Questão de adotar medidas firmes. De não se limitar a gestos apenas demagogos.
Algo similar está acontecendo com o planeta. Necessita de medidas firmes e rápidas. A situação já foi remendada demais, e o tempo está se esgotando. A ONU deixou isso bem claro ao se expressar no começo do mês por meio do IPCC, Painel Intergovernamental para a Mudança Climática, formado por 830 cientistas da comunidade internacional. A emissão de gases do efeito estufa tem que ser reduzida entre 40% e 70% até 2050. Ao final do século, as emissões devem ser zeradas. Se não, os efeitos serão graves – e os cientistas analisam todo um arsenal de cenários possíveis – para o meio-ambiente, a segurança alimentícia e a pobreza.
“Ainda há tempo, mesmo que muito pouco tempo”. Assim se expressou na apresentação do relatório, em Copenhague, em 02/11/14 a presidente do IPCC, Rajendra Pachauri. “Estamos a tempo se conseguirmos reduzir as emissões”, acrescenta o vice-presidente do Grupo II do IPCC, José Manuel Moreno, encarregado de avaliar impactos, adaptações e vulnerabilidades. Moreno, professor de Ecologia da Universidade de Castilla-La Mancha, é um dos 13 cientistas espanhóis que formam parte do organismo patrocinado pela ONU.
Temos tempo, dizem os especialistas, e cronômetro começa a correr nesta segunda-feira, quando começa a cúpula climática de Lima, a chamada COP 20, vigésima Conferência das Partes organizada pela ONU. De lá, pode sair um projeto para a cúpula decisiva, a do ano que vem em Paris, a reunião na qual estão depositadas todas as esperanças, da qual devem sair ambiciosos objetivos de redução de emissões, um tratado que substitua Kyoto, uma reunião que deve romper o sabor amargo que o fracasso de Copenhague deixou há cinco anos, que consiga implicar finalmente os principais atores, China e Estados Unidos.
Nós estamos levando a sério a luta contra os efeitos das mudanças climáticas? “Estamos levando muito menos a sério do que é preciso”, afirma, contundente, a ex-secretária de Estado da Mudança Climática no último governo de Rodriguez Zapatero, Teresa Ribera, atualmente conselheira de um think tank francês, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Relações Internacionais (IDDRI, sigla em francês). “Não estamos (levando a sério) nem com a velocidade, nem com a intensidade que a situação exige. Cedo ou tarde, os líderes políticos serão avaliados por essa questão”.
A quantidade de gases de efeito estufa enviados à atmosfera alcançou um novo recorde histórico em 2013. Foi o que revelou, no começo de setembro, a Organização Meteorológica Mundial. O dióxido de carbono aumentou sua concentração em um ritmo que não era observado há trinta anos.
Os níveis de neve e gelo desceram. A temperatura dos oceanos e da atmosfera continuam subindo. O nível do mar se eleva. A mudança climática já é uma realidade e está sendo causado pela mão do homem, afirmam os cientistas da ONU. Altera as estações, os ciclos da natureza; favorece os fenômenos meteorológicos extremos. Um vídeo distribuído pela ONU, para que o mundo tome consciência, mostra uma Islândia com clima similar ao da Toscana; um Alasca como o lugar perfeito para celebrar os Jogos Olímpicos de verão.
O relatório científico do IPCC levanta vários cenários para o futuro em função de como o mundo reagir. Se nada for feito, se as emissões não forem reduzidas, as temperaturas podem subir até 4,8 graus, com as quais as geleiras seriam reduzidas em 85% e o nível do mar subiria 0,82 metros, afetando gravemente o equilíbrio dos ecosistemas. Se as medidas propostas por essa bíblia da mudança climática forem tomadas, e ao final do século as emissões forem reduzidas a zero, o aumento da temperatura pode se limitar a dois graus. Este é o objetivo.
“O princípio da precaução tem que ser aplicado. Dizer que será um catástrofe geral não é correto, as generalizações são perigosas”, afirma Miquel Canals, professor de Geologia Marinha e diretor do departamento de Estratigrafia, Paleontologia e Geociências Marinhas da Universidade de Barcelona. Canals argumenta que uma das chaves do futuro será o papel desempenhado pelos oceanos na absorção do excesso da temperatura atmosférica.
O mundo enfrenta uma mudança no modelo energético. Reduzir as emissões a zero até o final do século significa renunciar ao petróleo, ao gás e ao carvão progressivamente. “É necessário um processo de transformação profundo”, declara a ex-secretária de Estado. “Ou mudamos ou vamos acabar”. Ribera disse que isso não basta para conseguir a redução de emissões necessária. “Devemos mudar o modelo energético, econômico e financeiro”, afirma. “Não sabemos como abordar uma mudança de época porque a inércia é muito forte”.
A mudança para um novo modelo significa apostar em outras fontes. O geólogo Miquel Canals afirma que, nesse contexto, não podemos prescindir da energia nuclear. “O que não é contemplável é um retorno à Idade da Pedra”, diz. Afirma que não há fórmula perfeita, e que as energias renováveis não são uma panaceia porque precisam de subsídios. “O caminho passa por um coquetel de fontes de energia que teria que favorecer as energias menos poluentes”.
Da Suécia, o ex-diretor do Departamento de Meteorologia do Instituto Max Planck, Lennart Bengtsson, que por um tempo pertenceu a uma organização cética sobre as mudanças climáticas, argumenta em uma conversa por telefone que não podemos ter mudanças abruptas para não prejudicar a economia. “Não há uma urgência imediata”, disse. “Temos que desenvolver modelos energéticos robustos”.
Já os ambientalistas apostam em um modelo baseado 100% nas energias renováveis. “Precisamos de uma revolução energética”, manifesta a responsável pela campanha de mudanças climáticas do Greenpeace na Espanha, Tatiana Nuño: “A probabilidade de um acidente é catastrófica em termos humanos e econômicos”. Nuño afirma que o relatório do IPCC mostra que, com o objetivo de limitar o aquecimento a dois graus, os custos de energia nuclear não são muito superiores aos que se geraria com o seu uso. “A opção nuclear não é necessária”.
A questão fundamental é um estilo de vida dos países ricos (que os emergentes estão atingindo progressivamente), com seus elevados níveis de consumo de energia, compatível com um planeta saudável. E se as novas fontes darão conta das necessidades que esse estilo de vida gera. Resolver esse sudoku abre a porta de múltiplos caminhos. Nosso estilo de vida, sustentado no conforto, é um despropósito ou uma conquista? Foi no ano de 2006 que o economista britânico Nicholas Stern modificou o debate. Argumentou que os custos de não combater as mudanças climáticas são muito superiores aos de reduzir as emissões. “Não se trata de uma corrida de cavalos entre o crescimento e a responsabilidade climática; essa é uma dicotomia falsa”, afirmou Stern, de Londres, em uma conversa telefônica, presidente do Instituto Grantham de Investigação da Mudança Climática. O economista que em 2011 ganhou o Prêmio Fundação BBVA Fronteiras do Conhecimento na categoria Mudança Climática alega que a transição para uma economia de baixo consumo de carbono oferece novas oportunidades de crescimento.
O desafio da transformação do modelo energético-produtivo encontra-se com a resistência das grandes empresas de petróleo, gás e carbono, que perderiam grande parte de seu negócio se não se reinventassem. Um estudo publicado ano passado pelo investigador Richard Heede, do Instituto de Responsabilidade Climática do Colorado, afirma que a crise climática foi causada fundamentalmente por 90 empresas que produziram cerca de dois terços das emissões de gases de efeito estufa desde a era industrial. Entre elas, Chevron, Exxon, Shell, Repsol e Gazprom.
Stern diz que algumas dessas companhias, como a Shell, já disseram que estão dispostas a se transformar. “Este é um processo de mudança que precisa acontecer se quisermos um mundo mais seguro. Não podemos nos render e destruir o mundo simplesmente porque no processo de transição alguns poucos vão ter que realizar grandes ajustes; a grande maioria das pessoas sairá ganhando”.
Teresa Ribera arredonda a questão: “Estão privatizando os benefícios de não combater a mudança climática e socializando os custos: os benefícios são para os grandes jogadores e são as populações que têm que lidar com as secas, os furacões, a má qualidade do ar”.
Para alguns, a questão fundamental está nos insustentáveis níveis de consumo que o estilo de vida geral carrega conforme os países se desenvolvem. “É fundamental que os países desenvolvidos reduzam o consumo material”, argumenta o ensaísta francês Hervé Kempf, autor do livro Como os ricos destroem o planeta, que esta semana passou por Madrid para falar em uma palestra sobre a crise ambiental na Casa Escendida. “Os que estão no topo da pirâmide projetam uma imagem de sobre consumo e arrastam os demais: todo mundo quer um carro, viajar de avião, tela plana na televisão. O aumento dos gases de efeito estufa está ligado ao crescimento econômico. Precisamos mudar o sistema econômico”, assegura. Kempf, redator-chefe do site Reporterre, especializado em meio-ambiente, argumenta que “a sociedade deve abraçar uma lógica global de sobriedade”.
Outra frente desse debate é sobre como conduzir essa transição de modo que ela seja equitativa, que não atrapalhe as opções de desenvolvimento dos países mais desfavorecidos ou de economias emergentes. “Não podemos pretender que todos subamos à bordo nas mesmas condições”, admite a diretoria da Oficina Espanhola de Mudança Climática, Susana Magro, – que costumava ter status de Secretaria de Estado -, dependente do Ministério da Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente. Magro estará na cúpula de Lima, que acabará em 12/12/14. “Precisará haver transferência de tecnologia a baixo custo ou sem custo nenhum para que os países menos desenvolvidos possam dar o salto diretamente”, disse. O mundo ocidental desenvolveu-se durante anos queimando combustíveis fósseis e são muitos os que dizem que não seria justo aos mais desfavorecidos, que agora decolam, ficarem com o fardo de um problema do qual não são responsáveis. “O acordo de Paris será muito complexo”, afirma Magro, “as necessidades de 195 países são muito distintas”. Cada nação deve definir nessa reunião sua contribuição para o processo de mudança.
A mudança que o planeta precisa, como se deduz das análises da comunidade científica, pode nos conduzir a um outro mundo. A transformação do mapa energético, a redução da dependência do gás e do petróleo poderiam alterar substancialmente o tabuleiro geopolítico.
Enquanto isso, os pequineses continuam olhando para o céu. Na quarta-feira passada, Xie Zhenhua, vice-presidente da Comissão Reformista de Desenvolvimento Nacional, anunciou que a poluição pode ser combatida até 2030 na China. E acrescentou: “Os dias de azul Apec também são alcançáveis”. (ecodebate)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O balanço hídrico e os solos

Para compreensão e entendimento da formação e equilíbrio dos solos, além da profunda e íntima relação com o clima, é preciso entender as interações com o relevo e a influência dos parâmetros hidrológicos no balanço hídrico.
Por balanço hídrico se compreende o conjunto de fenômenos posteriores às precipitações pluviométricas (chuvas). A água que chove sobre uma bacia hidrográfica tem 3 caminhos básicos: o primeiro é sofrer infiltração nos terrenos, que depende do relevo e das taxas de infiltração dos materiais constituintes dos solos (materiais arenosos tem elevada permeabilidade e materiais com predomínio de argilas tem baixa permeabilidade).
A primeira alternativa do caminho das águas é sofrer “run off”, expressão que significa escoamento superficial. Quanto maior for a declividade dos terrenos, maior é o escoamento superficial, menores as infiltrações, menor a recarga de aquíferos subterrâneos e menor a formação de solos. Aquíferos são depósitos de águas subterrâneas, são o contrário de aquífugos, que são solos ou rochas que permitem a fuga de água.
A infiltração que é o segundo dos caminhos da água, sendo facilitada e ocorrendo em terrenos planos ou com baixas declividades do terreno, que não estimulam o escoamento superficial.
A terceira e última alternativa da água é passar pelo processo de evapotranspiração, ou seja evaporação superficial, elevada nas áreas de climas quentes. O balanço hídrico é a quantidade de água disponível pela ação das chuvas, menos as águas que infiltram nos terrenos, subtraídas também as águas que sofrem evapotranspiração.
A água disponível para os sistemas de drenagem superficial (rios) é o material proveniente da chuva que sofre escoamento superficial. As taxas maiores ou menores de infiltração, dependem da quantidade de chuvas e do relevo local, influenciando a maior ou menor formação de solos. Quanto mais infiltração de água, maior a formação de solos.
O solo é um recurso natural responsável pela sustentação da flora e da fauna e pelas interações com a agricultura e a pecuária. Armazena água, dá suporte para as obras de infraestrutura e edificações. Sem que suas características naturais sejam alteradas, funciona como filtro mecânico para a purificação das águas freáticas (das chuvas) e filtra as águas que vão se depositar em rochas mais profundas.
O manejo agrícola inadequado produz erosão nos solos, processo que é responsável pelo assoreamento dos rios, aumentando as condições para ocorrência de enchentes e alagamentos.
A disposição inadequada de resíduos perigosos ou não-inertes (lixo doméstico) nos solos, propicia uma ampla degradação progressiva dos ecossistemas afetados.
Os solos estão presentes em todas as atividades humanas, dependem fundamentalmente do balanço hídrico em sua formação e equilíbrio. O uso racional dos solos, em condições economicamente viáveis e ambientalmente sustentáveis exige conhecimento prévio de suas características e limitações.
Todo estudo do meio físico necessita detalhamento das características, aptidões e limitações do meio considerado, sua distribuição geográfica e ocorrência. Assim como cada pessoa pode carregar um peso de acordo com sua capacidade, temos que definir os usos e ocupações do meio físico por suas capacidades. Isto é ser ambientalmente sustentável.
No campo, a identificação dos tipos de solos, é feita pela observação dos perfis de solos em um talude ou corte de terreno. O entendimento do perfil é a primeira fase na identificação e interpretação das características dos solos, para fins de recomendação dos usos e manejos adequados. (ecodebate)

Crise hídrica? A Sabesp vai muito bem, obrigado!

O que acontece com o Estado de São Paulo na questão da água é um exemplo do que pode acontecer em outros estados e cidades brasileiras, segundo dados recentes publicados pela ANA (Agência Nacional de Águas). Portanto, aprender e tirar lições deste episódio poderá ajudar gestores públicos e a sociedade a não repetir os erros que foram cometidos, e conviver melhor com uma situação que veio para ficar.
A crise hídrica, como ficou conhecida, não ocorreu por uma única causa, ou por um único erro cometido, nem tampouco pela falta de chuvas – mesmo considerando que esta seca é uma das piores dos últimos 84 anos. Na verdade foi um conjunto de fatores que levou a maior cidade brasileira, sua região metropolitana e várias cidades importantes do interior do Estado a sofrerem o desabastecimento de água.
A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), empresa que administra a coleta, o tratamento, a distribuição de água, e também o tratamento dos esgotos, é uma das maiores empresas de saneamento do mundo, e uma das mais preparadas do Brasil – com um corpo técnico altamente qualificado, e dispondo de uma boa infraestrutura. Assim pode-se afirmar sem dúvida que a causa principal de tamanha incompetência foi a sua administração voltada ao mercado, voltada ao lucro, que trata a água, um bem essencial à vida, como uma mera mercadoria.
Em 1994, a Sabesp se tornou uma empresa de capital misto, com a justificativa de que vendendo parte de suas ações conseguiria mais recursos financeiros para investir nos sistemas de abastecimento de água e de saneamento. Depois de 20 anos, o controle acionário se encontra nas mãos do Estado, que detém 50,3% das ações (metade negociada na BMF/ Bovespa, e a outra metade na Bolsa de NY), ficando os 49,7% restantes com investidores brasileiros (25,5%) e estrangeiros (24,2%).
A Sabesp é a empresa outorgada para utilizar e gerir o Sistema Alto Tietê, Guarapiranga e Cantareira, destinando em tempos normais 33 m³/s para Região Metropolitana de SP. Com a persistência da falta de chuvas e clima adverso, foi obrigada a reduzir pela metade a captação (pouco mais de 16 m³/s), apesar de fazê-lo tardiamente. Assim, o que era considerado um risco remoto tornou-se uma grande incerteza. A situação chegou a um ponto tal de dramaticidade que foi perdido o controle do sistema hídrico e, agora, além da captação do volume morto dos reservatórios, em curto prazo, a população fica na dependência das chuvas.
Em 2012, em documento elaborado pela própria Sabesp para a Comissão de Valores dos EUA, era admitido que pudesse ocorrer diminuição das receitas da empresa, devido a condições climáticas adversas. Assim sendo seria obrigada a captar água de outras fontes para suprir a demanda de seus usuários. Portanto, se conhecia e se antevia uma situação que acabou acontecendo. Porém nada foi feito pela Sabesp para diminuir este risco previsível.
Por outro lado, a gestão da crise não visou resolver os problemas da população, mas sim apenas amenizar a responsabilidade da própria Sabesp, blindando o governo do Estado, cujo mandatário estava em plena campanha eleitoral para sua reeleição. Em nenhum momento a gestão da Sabesp ou o governo do Estado admitiram a gravidade da situação. Muito menos a necessidade do racionamento, da diminuição da vazão, sendo ainda negadas pelas autoridades paulistas as interrupções que se tornaram cada vez mais constantes no fornecimento da água. Por isso, o que mais abalou a credibilidade do governo foi a divulgação pela imprensa de uma gravação onde a presidente da Sabesp admitia que uma “orientação superior” impediu, durante a campanha eleitoral, que a empresa tornasse pública a real situação hídrica do Estado.
Todavia, mesmo com a tragédia anunciada, penalizando a população, a empresa e seus acionistas vão muito bem. Basta acompanhar os lucros extraordinários nos relatórios de administração dos últimos anos, que geraram dividendos generosos para os acionistas da Sabesp, ao passo que o investimento necessário não acompanhou a mesma intensidade dos lucros obtidos pela empresa.
Esta situação por que passa a população paulista e paulistana poderá se estender a outras regiões do país nos próximos anos, caso persistam a má gestão, o desperdício e a devastação de nossas florestas. É um alerta à questão da privatização dos nossos bens naturais, em particular da gestão da água, do seu controle e distribuição. Daí a premente e essencial participação da sociedade nas políticas públicas para que a gestão das águas alcance resultados positivos, e não simplesmente siga a lógica da maximização dos lucros. (ecodebate)

A última gota d'água

Quem acha que tem água sobrando no planeta está por fora. Conheça a história de Chuvisca, uma das últimas gotas do mundo. É emocionante!

Kika voltou da escola preocupada. Ela havia aprendido na escola que a falta de água no mundo era um problema cada vez mais grave. Assustada, a menina fez suas lições e foi visitar Mestre Li, um livro falante muito sábio que te contou a história de uma das últimas gotas de água do planeta, a Chuvisca.
Foi uma briga danada! Exércitos de países diferentes corriam para disputar a gotinha, numa tentativa de pegá-la para inventar uma maneira de torná-la muitas, milhares, milhões, trilhões de outras gotinhas ou até mais. Era preciso ter água o suficiente para abastecer as cidades. As pessoas precisavam matar a sede, tomar banho e realizar várias outras coisas simples que todo mundo deve fazer no dia-a-dia.
Já imaginou como seria sua vida se não houvesse água para cozinhar ou lavar roupa? Chuvisca não precisou imaginar. Ela viu o que aconteceu com as plantas e os bichos após anos de mau uso desse recurso pelos homens e eles ficaram desesperados e entraram em guerra.

Muito tempo antes dessa seca brava, a situação era bem diferente: era criança que escovava os dentes com a torneira aberta o tempo todo e mulheres lavando calçadas com mangueira. Os moços lavavam o carro e deixavam a água jorrando enquanto entravam em casa para pegar um refrigerante. Aliás, quem vai desperdiçar água para fabricar refrigerante quando não se tem nem para lavar o rosto de manhã? Ah, se eles soubessem qual seria o resultado de tanta falta de juízo...
Na verdade, essa história não é toda de fantasia. Nosso planeta está sendo destruído aos pouquinhos porque as pessoas são irresponsáveis e acham que tem água demais por aí. Claro que quem pensa assim é gente bem boba, mas é por causa delas que todos estão sendo prejudicados – inclusive você. Duvida? Leia a história da Chuvisca e se segure porque é muito emocionante. (abril)

A crise da água e as perspectivas futuras

O ano de 2014 no Brasil foi marcado, dentre outras coisas, pela escassez de água. Fenômeno até então pouco conhecido fora dos limites do Norte e do Nordeste do País, a seca chegou ao Sudeste e região.
Fruto da ausência de chuvas, possivelmente associada às mudanças climáticas, outros fatores também contribuíram para a terrível (e ainda não solucionada) situação a que chegamos. A falta de cuidado com a vegetação ciliar onde ela ainda existe é também apontada por especialistas como uma das causas do problema, na medida em que a devastação das áreas circundantes de rios, cursos d’água, lagos, lagoas, reservatórios e similares contribui para o assoreamento e, portanto, para as perdas qualitativas e quantitativas dos elementos hídricos e de suas funções ecológicas.
Por isso, a contundente crítica dirigida ao Novo Código Florestal quando, no particular, reduz os limites de proteção da mata ciliar, já que a faixa de Área de Preservação Permanente (APP) passa a ter a metragem contada a partir da “borda da calha do leito regular” do rio – e não mais do seu “nível mais alto”, como outrora – deixando desguarnecidas áreas alagadiças que exercem importantes funções ambientais.
De todo modo, mesmo no regime florestal anterior, as dificuldades de fazer implementar a legislação ambiental no Brasil sempre foram muitas, a ponto de ter se tornado lugar comum afirmar que o país possui um dos mais bem estruturados sistemas legais de proteção ao meio ambiente do mundo, o qual, contudo, carece de efetividade.
A cultura que se desenvolveu no país nunca foi a da preservação. Por aqui, sempre se preferiu investir na reparação dos danos a propriamente prevenir para que aqueles não acontecessem. No caso dos recursos hídricos, jamais fizemos como os nova-iorquinos: preservar os mananciais para não ter que investir em saneamento. O resultado é conhecido: o povo daquele Estado americano altamente industrializado possui uma das águas de melhor qualidade do planeta.
No Brasil, contudo, a preocupação com a água nunca foi a tônica dos setores público e privado. Exceção feita a poucas iniciativas aqui e acolá, a regra sempre foi a poluição dos elementos hídricos. Desnecessário citar exemplos, infelizmente.
Por outro lado, é incontestável que os instrumentos de comando e controle, tão enaltecidos por muitos, não tiveram o condão de diminuir os efeitos da degradação do meio ambiente. Não fosse assim, o Código Florestal anterior, aliado a uma série de outras normas legais (Sistema Nacional de Unidades de Conservação, Lei da Mata Atlântica, etc.) teria sido responsável pela redução do desmatamento. Não foi, contudo, o que aconteceu.
Logo, torna-se necessário partir-se para uma nova era. Um tempo em que se passe a investir intensamente na valorização e na recompensa daqueles que realizam serviços ambientais.
A lógica é simples: em vez de simplesmente punir aquele que descumpre a legislação – o que, repita-se, revelou-se ineficaz – remunera-se quem preserva. É uma inversão total daquilo que sempre se praticou no Brasil. Em vez de “poluidor-pagador”, passa-se para a tônica do “protetor-recebedor”.
Iniciativas como essas vão desde a remuneração financeira aos pequenos proprietários rurais que preservam a vegetação que protege as águas, passando por incentivos tributários à preservação ecológica (IPTU verde, ICMS ecológico, redução de IPI para produtos ambientalmente sustentáveis, etc.), maior incentivo financeiro à criação de reservas particulares do patrimônio natural (RPPNs), estímulo à comercialização de créditos de logística reversa e de cotas de reserva ambiental, entre outros.
Ganham as pessoas, ganha o meio ambiente e ganha a sustentabilidade.
Já está mais do que na hora de se reconhecer que a proteção do meio ambiente não é apenas uma fonte geradora de despesas, mas pode se tornar uma grande oportunidade para se obter recompensas financeiras efetivas, ao mesmo tempo em que se contribui para a melhoria da qualidade ambiental das presentes e futuras gerações. (ecodebate)

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