sábado, 27 de outubro de 2018

O que você pode fazer para realmente reduzir a mudança climática

Não há dúvida de que se quisermos diminuir ou até mesmo parar a mudança climática, temos que fazer isso juntos. Mas a ação coletiva começa com escolhas individuais, e, para todos aqueles que tomam decisões com base em dados, o caminho para se seguir ficou um pouco mais claro. Um novo estudo na Environmental Research Letters determinou exatamente quais escolhas de vida reduzem mais o impacto do carbono.
Muitas pessoas preocupadas com o clima defendem políticas nacionais e internacionais para reduzir a emissão de carbono pelos humanos. Mas dois pesquisadores da Universidade de Lund, na Suécia, sentiam que esse foco nas políticas de alto nível despreza uma oportunidade crítica para a redução de emissão dos gases do efeito estufa: indivíduos em países desenvolvidos. Então, os pesquisadores se encarregaram de classificar uma série de ações – desde ter menos filhos até adotar uma dieta vegetariana – que poderiam empoderar pessoas comuns e torná-las Capitães Planetas em suas narrativas pessoais.
“A ciência nos diz basicamente que o futuro de uma boa vida no planeta Terra depende da redução da poluição climática em cerca de 90% até 2050”, disse a professora de sustentabilidade e coautora do estudo Kimberly Nicholas ao Gizmodo. “Muitas pessoas reconhecem isso e estão prontas para agir, mas a maioria não sabe o que fazer.”
Para identificar os fatores de estilo de vida que mais afetam nossas emissões de carbono, os pesquisadores analisaram dezenas de artigos revisados por especialistas, calculadores de carbono e relatórios de governos, com foco em países desenvolvidos, onde as emissões do gás são maiores. Os pesquisadores tiveram uma abordagem de “ciclo de vida”, onde, por exemplo, o custo de carbono de uma propriedade de um carro inclui os gases de efeito estufa produzidos durante a fabricação do veículo. No final, eles identificaram uma dúzia de ações individuais que podem cortar a emissão de carbono, incluindo quatro recomendadas “que são de magnitude substancial no mundo desenvolvido”.
Essas ações são: ter uma dieta baseada em vegetais (economia média de 0,8 tonelada métrica de CO2 por ano), um voo transatlântico a menos (economia média de 1,6 tonelada métrica de CO2 por ano), viver sem carro (economia média de 2,4 toneladas métricas de CO2 por ano) e ter menos filhos (60 toneladas métricas de CO2 por ano). Duas ações adicionais que os pesquisadores pensaram em colocar na lista – não ter um cachorro e comprar energia renovável – foram consideradas de “mérito questionável”, na média de todos os países incluídos no estudo, embora em Canadá, Austrália e Estados Unidos comprar energia renovável resultou em pesadas economias de carbono.
Um estudo publicado em 2013 estima que, para limitar o aquecimento global a 2°C, a emissão média individual de carbono precisaria ser reduzida para 2,1 toneladas métricas de CO2 por ano até 2050. A emissão média de um cidadão americano atualmente está estimada em 16,4 toneladas métricas por ano. A do Brasil está em nove toneladas métricas por habitante por ano. O novo estudo descobriu que poderíamos estar fazendo muito mais para comunicar sobre escolhas de estilo de vida impactantes nesse sentido.
Analisando 216 ações individuais recomendadas nos livros didáticos das escolas canadenses, os pesquisadores descobriram que as melhores ações para reduzir a poluição de carbono eram, “em sua maioria, apresentadas de uma forma menos efetiva, ou nada efetiva”, enquanto escolhas de menor impacto, como reciclagem, estavam destacadas. Uma ênfase em escolhas de baixo impacto também foi encontrada nos guias governamentais de Estados Unidos, Austrália, Canadá e União Europeia.
“A surpresa foi que essas duas fontes de informação”, livros didáticos e recomendações governamentais, “focavam em ações de impacto baixo ou moderado”, disse Nicholas. “São coisas boas a se fazer, mas elas não atingem a escala suficiente do desafio.”
É óbvio que uma vida sem filhos, sem carros, sem viagens e sem carne não é para todos. Eu, por exemplo, amo comer uma costela de vez em quando. Mas achei bem fácil deixar de dirigir em uma grande cidade e, agora que eu sei exatamente o quão ruim é viajar de avião, vou me sentir uma pontada incômoda de culpa todas as vezes que comprar passagens. E se você estiver mais preocupado em pagar as contas do que salvar o planeta, está tudo bem. Mas Nicholas aponta que muitas das escolhas destacadas no artigo podem ter benefícios pessoais, também.
“Eu descobri por experiência própria que fazer essas mudanças para reduzir as emissões tem sido muito positivo”, disse ela, explicando como abriu mão de viagens de avião e passou a privilegiar os trens ao viajar dentro da Europa e acabou experimentando muitas aventuras inesperadas com isso. “Acho que nós, indivíduos com grandes emissões de carbono, realmente precisamos tentar parar a poluição”, adicionou. “Mas não precisamos deixar de ter qualidade de vida.” (uol)

Mudanças climáticas afetarão produção da cevada e deixarão a cerveja mais cara

Mudanças climáticas vão afetar produção da cevada e devem deixar sua cerveja mais cara.
O apocalipse climático quer tirar de nós tudo o que é sagrado neste mundo. Há preocupações sobre o chocolate (embora ele não esteja em extinção), o futuro do vinho e até a perda potencial do nosso querido molho Tabasco!
Um estudo publicado na Nature está lançando notícias mais deprimentes em cima de nós: a cerveja é a próxima. Sim, a cerveja. Sua melhor amiga das noites de sexta-feira. Seu motivo principal para gostar do calor.
O estudo prevê que a produção futura de cevada, ingrediente-chave da cerveja, caia entre 3% a 17% em todo o mundo devido a eventos de calor e seca extremos até 2099. Dependendo de onde você mora, os preços da cerveja podem aumentar nesses anos de 52% a mais de 600%. Isso significa que uma cerveja de R$ 4 pode custar algo como R$ 6 ou, em um mundo distópico, R$ 24.
Os autores do estudo, vindos da China, do México, do Reino Unido e da Califórnia, nos EUA, não levaram em consideração os efeitos do aumento gradual da temperatura causado pela mudança climática, presumindo, “talvez heroicamente”, como disse o coautor Steven Davis, que os agricultores de cevada consigam acompanhar as mudanças. Em vez disso, a equipe usou dados históricos dos anos de 1981 a 2010 para se concentrar em ondas de calor e secas globais extremas entre 2010 e 2099.
“Quanto mais aquecimento climático temos, mais frequentes são esses anos extremos”, disse Davis, professor associado da Universidade da Califórnia em Irvine, em entrevista ao Earther.
Ele e o resto de sua equipe concluíram isso depois de observar quatro modelos climáticos diferentes, incluindo um em que a humanidade evita o aquecimento de dois graus e um cenário pior, em que superamos essa previsão de longe e nosso futuro é dominado por calor extremo. A cevada sofreu em todos esses modelos em 34 regiões do mundo que produzem a colheita, incluindo Irlanda, Brasil e Rússia. A situação só piora à medida que os modelos veem mais aquecimento.
Cervejas para a Oktoberfest de Las Palmas, na Grande Canária.
“Mesmo em anos extremos, algumas partes do mundo terão uma produção normal ou acima da média de cevada, então não é em todos os lugares do mundo ou o tempo todo.”
Todos os país deverão sentir esses impactos diferentemente. Bélgica e Japão, que produzem muita cerveja, terão mais dificuldade de importar cevada. E a cerveja se tornará um luxo que nem todos poderão bancar. A Argentina, por exemplo, pode ver o consumo cair em 32% nos cenários mais drásticos.
Mas não vamos nos desesperar ainda. Lembre-se: estamos falando de cerveja, um produto supérfluo. Ninguém vai morrer de fome ou de sede sem cerveja (assim esperamos!). O estudo até aponta que consumir menos cerveja pode ter benefícios à saúde. Ao mesmo tempo, as pessoas amam cerveja, e ela desempenha um papel importante em situações sociais. É por isso que Davis e seus colegas buscaram essa pesquisa em primeiro lugar.
Também vale apontar que esse estudo observou as regiões em que a cevada atualmente é cultivada. É importante ter isso em mente porque a mudança climática pode alterar os locais em que a cevada cresce melhor. Enquanto partes do Brasil possam começar a produzir menos cevada, talvez ainda exista esperança para outros países. E, em algumas regiões, certas áreas mostram, sim, maiores rendimentos futuros de cevada nos modelos dos autores.
“Mesmo em anos extremos, algumas partes do mundo terão uma produção normal ou acima da média de cevada, então não é em todos os lugares do mundo ou o tempo todo”, disse Davis.
No pior dos cenários, o preço da cerveja deve dobrar, deixando milhões de pessoas sem acesso à bebida.
Mas também temos más notícias. Esse estudo não leva em consideração outros possíveis riscos para a cevada além de ondas de calor — coisas como pragas ou outros desastres naturais (como inundações). Portanto, as coisas podem ser diferentes do que esses modelos preveem. (uol)

⅓ do lixo de AL e Caribe acaba em lixões ou na natureza

do lixo da América Latina e Caribe acaba em lixões ou na natureza
Um terço do lixo da América Latina e Caribe acaba em lixões ou na natureza, diz relatório da ONU.
Todos os dias, 145 mil toneladas de lixo são descartadas de maneira incorreta — a quantidade equivale ao que é gerado por 27% da população latino-americana e caribenha ou 170 milhões de pessoas.
Os números são de pesquisa da ONU Meio Ambiente, dia 09/10/18 em Buenos Aires, durante um fórum regional de ministros.
ONU
Aterro sanitário em Jardim Gramacho, RJ.
Um terço de todos os resíduos urbanos gerados na América Latina e no Caribe ainda acaba em lixões ou no meio ambiente, uma prática que contamina o solo, a água e o ar da região e afeta a saúde de seus habitantes. O alerta é de um relatório da ONU Meio Ambiente, publicado dia 09/10/18 em Buenos Aires, durante o XXI Fórum regional de Ministros do Meio Ambiente. Evento teve início nesta terça-feira e segue até 12 de outubro na capital argentina.
Todos os dias, 145 mil toneladas de lixo são descartadas de maneira incorreta — a quantidade equivale ao que é gerado por 27% da população latino-americana e caribenha ou 170 milhões de pessoas. Os números foram divulgados na pesquisa Perspectiva sobre a Gestão de Resíduos na América Latina e no Caribe.
A análise da ONU Meio Ambiente estimula os países a fechar os lixões. Segundo a agência internacional, esses locais apresentam alto risco para a saúde das pessoas que moram no seu entorno, bem como para quem coleta materiais recicláveis descartados. As áreas também são uma fonte de emissão de gases do efeito estufa, afetam negativamente o turismo e a agricultura e ameaçam a biodiversidade.
As nações da América Latina e Caribe avançaram na coleta de resíduos, que já cobre cerca de 90% da população. Porém, diariamente, 35 mil toneladas de lixo não são coletadas, um problema que afeta especialmente as áreas pobres e comunidades rurais, com impactos na vida de mais de 40 milhões de pessoas.
A região enfrenta ainda o desafio de chegar a uma economia circular: apenas 10% dos resíduos são reaproveitados por meio da reciclagem ou de outras técnicas de recuperação de materiais, segundo o relatório.
“Os países da América Latina e do Caribe devem dar prioridade política máxima para a gestão adequada dos resíduos. Isso é uma forma de reforçar a ação climática e de proteger a saúde de seus habitantes”, afirmou o diretor regional da ONU Meio Ambiente, Leo Heileman.
Pessoas observam um caminhão despejar lixo nos arredores de Porto Príncipe, no Haiti.
A pesquisa do organismo mostra que a geração de resíduos na região cresce continuamente e irá aumentar em pelo menos 25% até 2050. Entre as causas desse fenômeno, estão tendências verificadas em outras partes do mundo — o crescimento populacional; a urbanização; o crescimento econômico; a saída de uma quantidade significativa de pessoas da pobreza para uma classe média emergente; e padrões claramente insustentáveis de produção e consumo. Atualmente, 80% dos habitantes da América Latina e Caribe vivem em cidades.
Segundo o documento da ONU Meio Ambiente, melhorar a gestão do lixo é uma medida fundamental para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), acordados pelos líderes mundiais em 2015.
“Uma verdadeira agenda de desenvolvimento sustentável deve incluir a gestão adequada de resíduos. Os benefícios ambientais, sociais e econômicos associados a este setor são substanciais e vão desde a redução de gases de efeito estufa e economia de matérias-primas até a melhoria da matriz energética dos países, criação de empregos e aumento do investimento”, acrescentou Heileman.
Ainda de acordo com o estudo, uma fonte de poluição que precisa de atenção especial e urgente é a de resíduos perigosos, que inclui dispositivos eletrônicos, resíduos hospitalares ou associados à construção. Frequentemente, esse tipo de lixo não é nem mesmo inventariado e caracterizado, embora alguns países tenham conquistado avanços legislativos na área.
Oportunidades de transição
A publicação detalha oportunidades de melhoria para a região, como a gestão especial de resíduos orgânicos ou a aplicação de princípios da economia circular.
Os resíduos orgânicos representam, em média, 50% do lixo gerado pelos países latino-americanos e caribenhos. A falta de tratamento específico para esses resíduos leva à liberação injustificada de gases do efeito estufa na atmosfera, como o metano, e à produção de chorume. O problema também diminui a qualidade de materiais recicláveis ​​que estão no lixo. O relatório das Nações Unidas recomenda promover a separação dos resíduos orgânicos na fonte e incentivar seu uso por meio de práticas sustentáveis, como a compostagem.
A pesquisa aponta ainda que cerca de 90% dos resíduos coletados são destinados a locais de descarte, sejam aterros ou lixões, ou seja, não são reaproveitados nem reciclados. A ONU Meio Ambiente pede que a região abandone esse esquema insustentável. O organismo defende que os resíduos sejam tratados como recursos valiosos — segundo a agência, com o design, é possível desenvolver produtos que permitem a reutilização do lixo após um primeiro uso do material descartado.
O lixo pode, assim, tornar-se matéria-prima secundária ou fonte alternativa de energia para substituir os combustíveis fósseis.
O relatório também alerta para a fragilidade institucional da gestão do lixo em nível regional. Isso se deve parcialmente à sobreposição de normas, que concedem competências concorrentes a diferentes áreas do mesmo governo. É importante que as leis e políticas estabeleçam estruturas comuns, promovam o investimento público e privado, a educação e a participação do cidadão, além de incluir indicadores de gestão.
Segundo o documento, países devem considerar como prioridade a formalização e profissionalização dos trabalhadores que lidam com a coleta e reciclagem de resíduos. Embora essa mão de obra tenha sido integrada em várias nações ao serviço público de saneamento urbano, a falta de reconhecimento formal é uma constante na maioria dos países da América Latina e do Caribe.
1/3 dos resíduos da América Latina não recebe a destinação correta.
Para orientar governos em suas políticas de gestão, a publicação lembra experiências bem-sucedidas na região, como um programa no México que promove a reciclagem de telefones celulares; a coleta seletiva no município de Alvarado, na Costa Rica; a proibição de sacolas plásticas em Antígua e Barbuda; e o sistema de troca de lixo reciclável por alimentos, desenvolvido em Curitiba, no Brasil, há mais de duas décadas. (ecodebate)

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Comunicando a mudança climática na era da negação

Comunicando a mudança climática na era da negação: uma coleção especial lançada no PLOS Biology.
As pessoas são programadas para responder a histórias, mas as narrativas de negação do clima podem ser tão convincentes quanto as que transmitem os fatos sobre o aquecimento global. 
Uma nova coleção, “Confronting Climate Change in the Age of Denial”, publicada em 9 de outubro na revista PLOS Biology , explora os desafios e as armadilhas de usar histórias para comunicar evidências científicas sobre a mudança climática, oferecendo ressalvas e possíveis soluções para contar histórias de mudanças climáticas baseadas em evidências que podem ressoar com o público.
Comunicadores de ciência e educadores lutaram por muito tempo com os desafios de comunicar evidências que contradizem as crenças pessoais, religiosas ou políticas das pessoas, particularmente em relação à evolução, segurança de vacinas e mudança climática.
Um estudo de caso perfeito da tendência das pessoas de criar suas próprias narrativas para explicar o aparentemente inexplicável é a recente resposta viral a uma foto de um urso polar faminto. Os fotógrafos esperavam que o urso faminto pudesse ajudar as pessoas a entender o que o futuro pode significar para os animais que não podem mais depender do gelo marinho para caçar e se abrigar, pois o aquecimento global continua a derreter os lençóis de gelo polar. Mas negadores da mudança climática contra-atacaram circulando fotos de ursos saudáveis ​​para afirmar que o aquecimento global é uma farsa.
U.S. National Parks Service – O aumento da emissão de gases de efeito estufa, principalmente o CO2, pode ter um impacto maciço no clima da Terra em apenas algumas centenas de anos. Estamos testemunhando que isso aconteça hoje.
A coleção apresenta dois artigos de cientistas sociais que oferecem diferentes perspectivas sobre o alistamento de narrativas para transmitir a ciência das mudanças climáticas e uma de especialistas em mamíferos marinhos que definiram o registro direto dos prováveis ​​impactos da mudança climática na vida selvagem do Ártico.
“Mamíferos marinhos são sentinelas do ecossistema, capazes de refletir a variabilidade oceânica através de mudanças em sua ecologia e condição corporal”, argumentam Sue Moore, oceanógrafa biológica, e Randall Reeves, biólogo de mamíferos marinhos, em “Tracking Arctic Marine Mammal Resilience in the Era of Alteração rápida do ecossistema”.
Eles propõem uma estrutura que adiciona indicadores ecológicos (por exemplo, alcance geográfico e comportamento) e fisiológicos à demografia tradicional para fornecer uma visão mais abrangente da saúde das populações. Os autores esperam que sua estrutura, que pode alimentar pesquisas de oceano globais existentes, ofereça “um caminho para a sustentabilidade por meio de melhores previsões, mais precauções e políticas mais sensatas nesta era de mudança ambiental global”.
Em “Comunicação climática para biólogos: quando uma imagem pode contar mil palavras”, os psicólogos Stephan Lewandowsky e Lorraine Whitmarsh examinam estratégias para usar as anedotas e imagens que satisfazem nossa necessidade de narrativa sem sacrificar a precisão científica.
Os especialistas em comunicação científica Michael Dahlstrom e Dietram Scheufele exploram outra dimensão do perigo e prometem usar histórias para comunicar a ciência em “(escapar do paradoxo da narrativa científica”). Em vez de contar histórias para simplesmente transmitir conhecimento – o que pode não ser bem-sucedido, dizem eles, já que o aumento da alfabetização científica não leva a uma maior aceitação da ciência – pode ser melhor contar histórias sobre como o conhecimento científico é produzido. “No final, usar a narração de histórias para construir principalmente apoio científico através de objetivos de conhecimento, atitude ou comportamento sem também envolver o raciocínio científico pode não ajudar a ciência em longo prazo.”
NOAA Centros Nacionais de Informação Ambiental, Panorama Climático: Global Time Series – A uma taxa média de aquecimento de 0,07ºC por década, enquanto os registros de temperatura existiram, a temperatura da Terra não só aumentou, mas continua a aumentar sem qualquer relevo à vista.
Ao publicar esta coleção, os editores da PLOS Biology esperam que todos que valorizam evidências científicas imparciais pensem em maneiras de aproveitar a narrativa para ajudar as pessoas a entender essa ameaça complexa, mas muito real, para o nosso planeta. Precisamos recuperar o enredo antes que seja tarde demais. (ecodebate)

Florestas ricas em espécies armazenam 2 vezes mais carbono

Florestas ricas em espécies armazenam duas vezes mais carbono que monoculturas.
O nível total de sequestro de carbono e a consequente mitigação do aquecimento global só poderão ser alcançados com uma combinação de espécies.
Em 2009, o projeto BEF-China iniciou um experimento de biodiversidade em uma floresta, com a colaboração de instituições da China, Alemanha e Suíça. O amplo projeto investigou quão importante é a diversidade de espécies de árvores para o bom funcionamento dos ecossistemas florestais. Foram plantados grupos de árvores com diferentes números de espécies, desde monoculturas até terrenos altamente diversificados, com 16 tipos diferentes de árvores em uma área de 670 metros quadrados.
Após oito anos, tais terrenos armazenavam uma média de 32 toneladas de carbono por hectare em biomassa acima do solo. Em contrapartida, as monoculturas acumularam menos da metade disso: uma média de apenas 12 toneladas de carbono por hectare. Durante a fotossíntese, as plantas absorvem dióxido de carbono da atmosfera e convertem o carbono em biomassa. Quando uma floresta armazena mais carbono, isso auxilia na redução dos gases de efeito estufa e ao mesmo tempo também indica uma alta produtividade florestal.
Florestas biodiversificadas são mais produtivas
O fato de a biodiversidade aumentar a produtividade já havia sido anteriormente demonstrado através de experimentos em prados na Europa e nos Estados Unidos. Mas como partiram do principio de que todas as espécies de árvores ocupam nichos ecológicos semelhantes, concluíram que a biodiversidade florestal traria um efeito mínimo. Evidentemente, no entanto, esta suposição estava errada. “No experimento de biodiversidade florestal, a biomassa aumentou tão rapidamente quanto nas pradarias. Consequentemente, mesmo após apenas quatro anos, se via claras diferenças entre as monoculturas e as florestas ricas em espécies,” explica o Professor Helge Bruelheide da Universidade Martinho Lutero de Halle-Wittenberg, codiretor do Centro Alemão para Pesquisa Integrativa em Biodiversidade (iDiv), o qual supervisionou os experimentos de campo junto com o Instituto de Botânica da Academia Chinesa de Ciências. Tais diferenças continuaram a se intensificar nos quatro anos seguintes.
Florestas com maior diversidade sequestram mais carbono.
“Estas descobertas têm grande relevância ecológica e econômica,” afirma o Professor Bernhard Schmid, da Universidade de Zurique, autor sênior na equipe de redação, composta de 60 pessoas, da presente publicação na Science. Um estudo anterior já havia encontrado uma correlação positiva entre a biodiversidade e o armazenamento de carbono. Contudo, ele foi baseado apenas na comparação entre a variação de diversidade de espécies em terrenos naturais. “Portanto, era impossível concluir se a maior biodiversidade era a causa da maior produtividade. Mas agora nós chegamos à mesma conclusão com um experimento sob condições controladas: uma floresta com um grande número de espécies de árvores é mais produtiva que uma monocultura,” acrescenta o Professor Dr. Keping Ma, da Academia Chinesa de Ciências e cogestão do projeto.
Maior produtividade, melhor proteção climática
Em todo o mundo, há planos para grandes programas de reflorestamento, com o objetivo de proteger o clima através do plantio de novas florestas. Somente na China, entre 2010 e 2015, foram plantadas anualmente 1.5 milhão de hectares de novas florestas, ainda que a maior parte constituída de monoculturas de rápido crescimento. “Nosso novo estudo mostra que as florestas não são todas iguais no quesito proteção climática: as monoculturas não fornecem nem metade dos serviços ambientais desejados. O nível total de sequestro de carbono e a consequente mitigação do aquecimento global só poderão ser alcançados com uma combinação de espécies.
Além disso, florestas ricas em espécies também contribuem para proteger a ameaçada biodiversidade do planeta,” explica Bernhard Schmid. “Infelizmente, o conceito errôneo de que produtividade e biodiversidade se excluem mutuamente ainda é muito difundido. Mas o oposto é verdadeiro.” As florestas ricas em espécies também são menos vulneráveis à doenças ou fenômenos meteorológicos extremos, que estão se tornando cada vez mais frequentes devido à mudança climática.
Reflorestamentos ricos em espécies arbóreas absorvem mais CO.
Se os efeitos observados no experimento forem extrapolados para as florestas existentes no mundo, pode-se concluir que uma redução de 10% das espécies de árvores levaria à perdas de produção mundiais no valor de 20 bilhões de dólares, por ano. Tal resultado mostra que, de acordo com os pesquisadores, o reflorestamento com uma combinação de diferentes espécies é economicamente vantajoso. (ecodebate)

O que está acontecendo com nossos mares?

Em 2011, as temperaturas submersas subiram dois graus Celsius nas águas do oeste australiano – e assim permaneceram, bem acima do normal, por surpreendentes 10 semanas.
Essa onda de calor punitiva mudou o ecossistema para sempre.
Voltando cinco anos depois, os cientistas descobriram que 100 quilômetros de florestas de algas tinham sido destruídas – substituídas por peixes tropicais, subtropicais, algas e corais.
Eles não esperam que as algas retornem.
Ameaça profunda
Agora está claro: a mudança climática está acontecendo tanto abaixo das ondas como acima.
Um novo estudo na Nature Communications descobriu que as ondas de calor marítimas têm aumentado acentuadamente no último século.
Comparando dados de dois períodos – 1925-1954 e 1987-2016 – o estudo descobriu que as ondas de calor aumentaram em 34% na frequência.
E a duração das ondas de calor (número de dias por ano em que as temperaturas submersas atingiram extremos altos) mais do que duplicou.
Finalmente, o estudo mostrou que o aquecimento intenso se espalhou geograficamente, estendendo-se por 65% da superfície do oceano.
Novo normal?
Menos de cem anos atrás, era comum que as regiões do mar passassem um ano inteiro sem experimentar uma onda de calor.
Agora, o oposto é verdadeiro: em qualquer lugar específico, ondas de calor marinhas acontecem a cada ano com mais frequência do que não.
Isso não é apenas uma má notícia para as florestas de kelp, mas também para muitos outros ecossistemas e espécies, e para as pessoas que dependem dos oceanos para sua subsistência.
Talvez de maior preocupação sejam os recifes de coral do mundo – bastiões da biodiversidade, as florestas tropicais do oceano.
Recifes evoluíram para sobreviver dentro de certas faixas de temperatura. Mas agora, a melhor evidência disponível – baseada em conjuntos de dados massivos e análises publicadas nos mais rigorosos periódicos científicos do mundo – sugere que estamos passando por esses limites térmicos.
Branqueamento de coral
Quando as águas ao redor dos recifes de coral se tornam muito quentes, os corais expelem suas algas simbióticas (chamadas de “zooxantelas”), que normalmente alimentam o coral através da fotossíntese.
Com suas algas desaparecidas, o coral se torna branco fantasmagórico – um fenômeno conhecido como “branqueamento de corais”.
Se a onda de calor persistir por semanas ou meses, os corais e suas algas não podem se recuperar, e os corais e os recifes perecem.
Com uma dose dupla de temperaturas quentes em 2016 e 2017, a Grande Barreira de Corais da Austrália experimentou seu pior branqueamento de corais até hoje.
Essas ondas de calor foram ligadas diretamente ao aquecimento global, com base em uma bateria exaustiva de análises estatísticas.
Conclusão: Quase um terço (29%) da Grande Barreira de Corais foi dizimada por superaquecimento apenas nos últimos dois anos.
Grande falha por conservativos políticos
Embora a calamidade na icônica Grande Barreira de Corais tenha sido notícia global, o governo australiano está deixando de proteger seus mares a cada passo.
A Austrália é, em uma base per capita, entre os piores poluidores do carbono no mundo – e também vende grandes quantidades de carvão para a China, Índia e outras grandes nações poluidoras.
Portanto, quando se trata do aquecimento global, a Austrália é parte do problema, não parte da solução.
Os conservadores políticos que atualmente dirigem a Austrália recebem suas ordens de marcha e a maior parte de suas doações das grandes indústrias de carvão, gás e mineração do país.
E se ser um dos piores poluidores do mundo não é ruim o suficiente, o governo australiano também recomendou cortar seus santuários marinhos pela metade.
De fato, se o atual governo de direita conseguir o que quer, 76% do Mar de Coral, lar da Grande Barreira de Corais, será aberto à pesca comercial e de arrasto, práticas que são notoriamente prejudiciais à vida marinha.
Quanto mais erradas as coisas podem ser?
Uma mensagem para lembrar
Muitas pessoas no mundo, incluindo cientistas da ALERT, veem coisas como esta:
A próxima vez que eles forem ao estande de votação, os australianos precisam lembrar as tendências chocantes e as terríveis advertências reveladas pelos estudos científicos de longo prazo de seus mares e do ambiente global.
Entre muitas coisas, os australianos são famosos por seus sinceros dizeres: “Faça a coisa certa”.
O mundo está assistindo, Austrália.
É hora de fazer a coisa certa. (ecodebate)

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Limitar o aquecimento a 1,5°C aos níveis pré-industriais exige mudanças imediatas

IPCC faz alerta para medidas imediatas e sem precedentes de redução do ritmo das mudanças climáticas.
Limitar o aquecimento global a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais exige mudanças imediatas e sem precedentes na economia mundial. Essa é a avaliação do novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas (ONU), publicado em 07/10/18.
Este gráfico, baseado na comparação de amostras atmosféricas contidas em núcleos de gelo e medições diretas mais recentes, fornece evidências de que o CO2 atmosférico aumentou desde a Revolução Industrial.
Produzido por 91 cientistas e revisores de 40 países para guiar líderes globais, o relatório detalha – com base em 6 mil estudos científicos – a diferença que o impacto do aumento de 1,5°C ou 2°C nas temperaturas teria para o planeta. Atualmente, a ação do homem já provocou o aumento médio de 1,1°C na temperatura global.
Diplomatas de vários países do mundo se reuniram na semana passada em Incheon, na Coreia do Sul, para negociar o relatório preparado por cientistas do IPCC. De acordo com Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e membro do IPCC, houve uma forte reação dos Estados Unidos e dos Emirados Árabes em defesa dos combustíveis fósseis, até que finalmente se chegasse a um consenso.
“O relatório diz com todas as letras que se quisermos limitar o aumento da temperatura em 2°C, não tem jeito, vai ter que ser emissão zero de carbono até 2050 e emissões negativas, ou seja, além de não emitir carbono, também sequestrar [retirar] carbono da atmosfera ao longo dos últimos 50 anos deste século. Essa seria hoje a única maneira de conseguirmos isso, uma tarefa praticamente impossível”, disse Artaxo à Agência FAPESP.
Outro ponto destacado no relatório é que muitos dos efeitos do aquecimento global já são percebidos e serão intensificados antes mesmo de atingir o limite de 1,5°C. Caso o aquecimento global continue no mesmo ritmo de hoje, a temperatura global deve aumentar 1,5°C (em comparação com os níveis pré-industriais) até 2040.
Entre as determinações para limitar o aquecimento global estão banir os combustíveis fósseis e o desmatamento.
Isso acarretaria piora da escassez de alimentos, secas, enchentes, na redução da biodiversidade e a mortalidade em massa de recifes de corais. Outros impactos em destaque são o aumento do nível do mar, dos casos de doenças transmitidas por vetores, de ondas de calor e de ciclones tropicais.
Porém, a diferença de 0,5°C, além de diminuir o impacto das mudanças climáticas, impediria, por exemplo, que os corais fossem completamente erradicados e também aliviaria a pressão sobre o Ártico, reduzindo o aumento do nível do mar.
De acordo com o relatório, o que acontecer entre 2018 e 2030 será determinante, especialmente para as emissões de CO2. Entre as determinações para limitar o aquecimento global em 1,5°C estão banir os combustíveis fósseis e o desmatamento.
“Estamos em uma encruzilhada. Aquilo que for feito nos próximos cinco e 10 anos será determinante para o clima no planeta neste e nos próximos séculos. Se não agirmos agora e conseguirmos obter reduções substanciais nas emissões ao longo da próxima década, será muito difícil manter o aquecimento global em apenas 1,5°C”, disse.
Desmatamento na Amazônia
Intensificação do Acordo de Paris
A necessidade de emissões negativas aumenta automaticamente a importância do combate ao desmatamento da Amazônia e a promoção de iniciativas de reflorestamento em larga escala visando aumentar o armazenamento de carbono. As florestas são capazes de armazenar carbono da atmosfera, questão fundamental para as mudanças climáticas.
“Com a necessidade de estocar carbono, aumenta a preocupação com a Amazônia e outras áreas de florestas tropicais que estão em risco. Temos que parar 100% com o desmatamento de áreas tropicais. Parar de destruir floresta é a maneira mais barata e eficiente para reduzir emissões e que só traz benefícios. É mais fácil e barato, por exemplo, que mudar a estrutura energética de um país e, além disso, é o que traz retorno imediato”, disse.
Artaxo ressalta que a necessidade de desmatamento zero deixa o Brasil em posição delicada. “Desmatamento é basicamente uma questão de legislação e de fazer cumprir essa legislação. Isso deixa o Brasil em situação delicada, já que nos últimos quatro anos o desmatamento aumentou de 5 mil km² para 8 mil km². É um valor absurdamente alto”, disse.
O relatório do IPCC será peça-chave para a 24ª Conferência das Partes (COP-24) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) que será realizada em Katowice, na Polônia, em dezembro. Na conferência, os governos vão revisar o Acordo de Paris (2015) para combater as mudanças climáticas.
“Lá será discutida a intensificação do Acordo de Paris, com metas mais altas de redução das emissões de gases do efeito estufa. Mas a Alemanha, por exemplo, já falou que não vai conseguir atingir as metas voluntárias do Acordo de Paris. Os Estados Unidos não querem que a opinião pública da indústria do carvão se vire contra eles. Países como a Polônia, por exemplo, com 70% da energia gerada por carvão, afirmam também que não vão conseguir atingir as metas”, disse Artaxo.
O Acordo de Paris adotado por 195 nações na 21ª Conferência das Partes (COP-21) da UNFCCC, em dezembro de 2015, incluiu o objetivo de fortalecer a resposta global à ameaça das mudanças climáticas “mantendo o aumento na temperatura média global menor que o aumento de 2°C do nível pré-industrial (1750) e esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C”.
Como parte da decisão de adotar o Acordo de Paris na COP-21, o IPCC foi convidado para produzir, em 2018, o Relatório Especial Global Warming of 1.5°C, sobre o aquecimento global de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais e vias de emissão de gases de efeito estufa. O relatório tem como objetivo examinar a questão para o fortalecimento da resposta global às mudanças climáticas, desenvolvimento sustentável e esforços para erradicar a pobreza. (ecodebate)

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