terça-feira, 23 de outubro de 2018

Limitar o aquecimento a 1,5°C aos níveis pré-industriais exige mudanças imediatas

IPCC faz alerta para medidas imediatas e sem precedentes de redução do ritmo das mudanças climáticas.
Limitar o aquecimento global a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais exige mudanças imediatas e sem precedentes na economia mundial. Essa é a avaliação do novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas (ONU), publicado em 07/10/18.
Este gráfico, baseado na comparação de amostras atmosféricas contidas em núcleos de gelo e medições diretas mais recentes, fornece evidências de que o CO2 atmosférico aumentou desde a Revolução Industrial.
Produzido por 91 cientistas e revisores de 40 países para guiar líderes globais, o relatório detalha – com base em 6 mil estudos científicos – a diferença que o impacto do aumento de 1,5°C ou 2°C nas temperaturas teria para o planeta. Atualmente, a ação do homem já provocou o aumento médio de 1,1°C na temperatura global.
Diplomatas de vários países do mundo se reuniram na semana passada em Incheon, na Coreia do Sul, para negociar o relatório preparado por cientistas do IPCC. De acordo com Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e membro do IPCC, houve uma forte reação dos Estados Unidos e dos Emirados Árabes em defesa dos combustíveis fósseis, até que finalmente se chegasse a um consenso.
“O relatório diz com todas as letras que se quisermos limitar o aumento da temperatura em 2°C, não tem jeito, vai ter que ser emissão zero de carbono até 2050 e emissões negativas, ou seja, além de não emitir carbono, também sequestrar [retirar] carbono da atmosfera ao longo dos últimos 50 anos deste século. Essa seria hoje a única maneira de conseguirmos isso, uma tarefa praticamente impossível”, disse Artaxo à Agência FAPESP.
Outro ponto destacado no relatório é que muitos dos efeitos do aquecimento global já são percebidos e serão intensificados antes mesmo de atingir o limite de 1,5°C. Caso o aquecimento global continue no mesmo ritmo de hoje, a temperatura global deve aumentar 1,5°C (em comparação com os níveis pré-industriais) até 2040.
Entre as determinações para limitar o aquecimento global estão banir os combustíveis fósseis e o desmatamento.
Isso acarretaria piora da escassez de alimentos, secas, enchentes, na redução da biodiversidade e a mortalidade em massa de recifes de corais. Outros impactos em destaque são o aumento do nível do mar, dos casos de doenças transmitidas por vetores, de ondas de calor e de ciclones tropicais.
Porém, a diferença de 0,5°C, além de diminuir o impacto das mudanças climáticas, impediria, por exemplo, que os corais fossem completamente erradicados e também aliviaria a pressão sobre o Ártico, reduzindo o aumento do nível do mar.
De acordo com o relatório, o que acontecer entre 2018 e 2030 será determinante, especialmente para as emissões de CO2. Entre as determinações para limitar o aquecimento global em 1,5°C estão banir os combustíveis fósseis e o desmatamento.
“Estamos em uma encruzilhada. Aquilo que for feito nos próximos cinco e 10 anos será determinante para o clima no planeta neste e nos próximos séculos. Se não agirmos agora e conseguirmos obter reduções substanciais nas emissões ao longo da próxima década, será muito difícil manter o aquecimento global em apenas 1,5°C”, disse.
Desmatamento na Amazônia
Intensificação do Acordo de Paris
A necessidade de emissões negativas aumenta automaticamente a importância do combate ao desmatamento da Amazônia e a promoção de iniciativas de reflorestamento em larga escala visando aumentar o armazenamento de carbono. As florestas são capazes de armazenar carbono da atmosfera, questão fundamental para as mudanças climáticas.
“Com a necessidade de estocar carbono, aumenta a preocupação com a Amazônia e outras áreas de florestas tropicais que estão em risco. Temos que parar 100% com o desmatamento de áreas tropicais. Parar de destruir floresta é a maneira mais barata e eficiente para reduzir emissões e que só traz benefícios. É mais fácil e barato, por exemplo, que mudar a estrutura energética de um país e, além disso, é o que traz retorno imediato”, disse.
Artaxo ressalta que a necessidade de desmatamento zero deixa o Brasil em posição delicada. “Desmatamento é basicamente uma questão de legislação e de fazer cumprir essa legislação. Isso deixa o Brasil em situação delicada, já que nos últimos quatro anos o desmatamento aumentou de 5 mil km² para 8 mil km². É um valor absurdamente alto”, disse.
O relatório do IPCC será peça-chave para a 24ª Conferência das Partes (COP-24) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) que será realizada em Katowice, na Polônia, em dezembro. Na conferência, os governos vão revisar o Acordo de Paris (2015) para combater as mudanças climáticas.
“Lá será discutida a intensificação do Acordo de Paris, com metas mais altas de redução das emissões de gases do efeito estufa. Mas a Alemanha, por exemplo, já falou que não vai conseguir atingir as metas voluntárias do Acordo de Paris. Os Estados Unidos não querem que a opinião pública da indústria do carvão se vire contra eles. Países como a Polônia, por exemplo, com 70% da energia gerada por carvão, afirmam também que não vão conseguir atingir as metas”, disse Artaxo.
O Acordo de Paris adotado por 195 nações na 21ª Conferência das Partes (COP-21) da UNFCCC, em dezembro de 2015, incluiu o objetivo de fortalecer a resposta global à ameaça das mudanças climáticas “mantendo o aumento na temperatura média global menor que o aumento de 2°C do nível pré-industrial (1750) e esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C”.
Como parte da decisão de adotar o Acordo de Paris na COP-21, o IPCC foi convidado para produzir, em 2018, o Relatório Especial Global Warming of 1.5°C, sobre o aquecimento global de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais e vias de emissão de gases de efeito estufa. O relatório tem como objetivo examinar a questão para o fortalecimento da resposta global às mudanças climáticas, desenvolvimento sustentável e esforços para erradicar a pobreza. (ecodebate)

Nível global do mar pode subir 15 metros em 2300

Nível global do mar pode subir 15 metros em 2300, diz estudo.Caracterizar o que é conhecido e o que é incerto é fundamental para o gerenciamento do risco costeiro.
Partes de Nova Jersey e Nova York com 2,5 metros* (8 pés) de aumento do nível do mar. Um aumento de quase 2,5 metros é possível até 2100, no pior dos casos, de acordo com projeções. As áreas azul-claras mostram a extensão da inundação permanente. As áreas verdes brilhantes estão baixas.
A média global do nível do mar pode subir cerca de 2,5 metros até 2100 e 15 metros até 2300 se as emissões de gases do efeito estufa continuarem altas e a humanidade se mostrar inerte, de acordo com uma revisão das projeções feitas por cientistas da Rutgers.
Desde o início do século, o nível médio do mar global subiu cerca de 6 cm. Sob emissões moderadas, as estimativas centrais da média global do nível do mar de diferentes análises variam de 42 a 85 cm em 2100, 85 cm a 1,6 m em 2150 e 6 a 14 m em 2300, de acordo com o estudo, publicado na Annual Review of Environment and Resources.
Aumento do mar pode prejudicar populações costeiras, meio ambiente e estruturas.
E com 11% dos 7,6 bilhões de habitantes do mundo vivendo em áreas com menos de 10 metros acima do nível do mar, a elevação dos mares representa um grande risco para populações costeiras, economias, infraestrutura e ecossistemas em todo o mundo, diz o estudo.
O aumento do nível do mar varia com a localização e o tempo, e os cientistas desenvolveram uma série de métodos para reconstruir as mudanças passadas e projetar as futuras. Mas, apesar das abordagens diferentes, uma história clara está surgindo com relação às próximas décadas: de 2000 a 2050, o nível do mar global médio provavelmente subirá de 16 a 25 cm, mas é extremamente improvável que suba mais de 45 cm. Além de 2050, as projeções são mais sensíveis às mudanças nas emissões de gases de efeito estufa e às abordagens para projetar mudanças no nível do mar.
“Há muito que se sabe sobre mudanças no nível do mar no passado e no futuro, e muito é incerto. Mas a incerteza não é uma razão para ignorar o desafio”, disse o coautor Robert E. Kopp, professor do Departamento da Terra e Ciências Planetárias na Rutgers University-New Brunswick e diretor do Instituto Rutgers de Ciências da Terra, do Oceano e Atmosféricas . “Caracterizar cuidadosamente o que é conhecido e o que é incerto é crucial para gerenciar os riscos que o aumento do nível do mar representa para as costas ao redor do mundo”.
Os cientistas usaram estudos de caso de Atlantic City, Nova Jersey, e de Cingapura para discutir como os métodos atuais para a reconstrução de mudanças no nível do mar podem restringir futuras projeções globais e locais. Eles também discutiram abordagens para o uso de projeções científicas no nível do mar e como projeções precisas podem levar a novas questões de pesquisa no nível do mar.
Uma grande parte do aumento do nível do mar no século 20, incluindo a maior parte do aumento global desde 1975, está ligada ao aquecimento global causado pelo homem, segundo o estudo. (ecodebate)

Humanidade tem pouco tempo para mitigar o aquecimento global

O mais recente relatório divulgado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), divulgado no dia em que o Brasil ia às urnas no primeiro turno das eleições de 2018, considera que os esforços para limitar o aumento médio da temperatura global a 1,5ºC (como estabelece o limite inferior do Acordo de Paris) exigirá “mudanças sem precedentes” em nível global.
O relatório, apresentado em Incheon, na Coreia do Sul, foi aprovado por consenso e elaborado com base em cerca de 6.000 estudos, mostrando a grande diferença entre um aumento de temperaturas de +1,5ºC e de +2ºC. Ele foi compilado por mais de 80 dos principais cientistas do clima do mundo, de quase 40 países, e reúne 40.000 comentários de artigos com revisão por pares. Com clareza e sem tergiversação, o relatório diz que cada fração de um grau no aumento da temperatura realmente importa e deve ser levado em consideração imediatamente.
O documento considera que uma temperatura global acima de 1,5ºC, em relação ao período pré-industrial, poderá ter efeitos catastróficos para os ecossistemas, a biodiversidade, a produção de alimentos e para o modo de vida rural e urbano de toda a população mundial.
Manter a temperatura global abaixo de 1,5ºC, reduziria significativamente o risco de eventos climáticos extremos e severos, particularmente ondas de calor e as mortalidades decorrentes, diminuiria a escassez de água potável, evitaria a elevação do nível do mar a patamares catastróficos, impediria o naufrágio do delta dos rios, diminuiria o processo de acidificação dos oceanos e o branqueamento dos recifes de corais, etc.
Os efeitos das mudanças climáticas já se fazem presente na atualidade. No mês passado os Furacões e Tufões – potencializados pela elevação da temperatura das águas oceânicas – provocaram grandes prejuízos. A passagem do tufão Jebi deixou mortos e muitos prejuízos no Japão. O furacão Florence abalou a costa leste dos Estados Unidos, especialmente as duas Carolinas (do Sul e do Norte). O tufão Mangkhu casou mortes e muita destruição nas Filipinas, Hong Kong e China. Nessa semana (09 a 13 de outubro de 2018), o furacão Michel ameaça várias ilhas do Caribe e a costa americana do golfo do México.
A crise é séria, já traz danos irreparáveis e o tempo é curto para evitar o pior. Segundo o IPCC o mundo tem apenas 12 anos para evitar um colapso ecológico, pois para que a meta mais ambiciosa de 1,5°C seja atingida, as emissões de gases de efeito estufa pelas atividades antrópicas teriam que ser reduzidas, em relação aos níveis de 2010, em cerca de 45% até 2030, chegando a zero por volta de 2050.
O grande problema é que as emissões apresentam uma trajetória de aumento, sendo que em 2017 o acréscimo foi de 2%. Assim, as emissões globais de CO2 de todas as atividades humanas foram de 41 bilhões de toneladas métricas para 2017, estreitando os limites do “orçamento carbono”. Portanto, reduzir estas emissões quase pela metade até 2030 e zerar até 2050 é uma tarefa hercúlea.
Para aumentar a complexidade da questão, há pesquisadores que consideram que o lapso de tempo necessário para reverter o quadro do aquecimento global é ainda mais estreito. Artigo de Christiana Figueres e outros importantes cientistas, publicado na prestigiosa revista científica Nature, em 2017, mostra que o tempo para evitar uma catástrofe climática é mais curto e precisa ser revertido, no máximo, em três anos.
Isto quer dizer que quanto mais o mundo procrastinar as soluções, mais radicais serão as medidas a serem adotadas no futuro. Hipostasiar o crescimento econômico exponencial e menosprezar o meio ambiente é como dar um tiro no pé hoje, que vai se transformar em uma gangrena amanhã. Como disse o professor e pesquisador Clóvis Cavalcanti, presidente do ISEE (The International Society for Ecological Economics): “Na natureza, todo crescimento contínuo termina em desastre: este é o princípio da célula cancerosa”.
Ou seja, é impossível manter o crescimento demoeconômico exponencial com base no modelo “Extrai-Produz-Descarta” que causa tantos danos ao meio ambiente. É urgente o decrescimento dos impactos antrópicos do sistema global de produção e consumo. O relatório do IPCC traz um alerta fundamental, mas o perigo é que a situação seja ainda mais grave. Até o Nobel de economia reconheceu a importância da sustentabilidade e, em 2018, escolheu dois economistas que estudam o meio ambiente.
Os candidatos à presidência que estão disputando o segundo turno das eleições presidenciais, neste mês de outubro de 2018, precisam se posicionar sobre esta premente e candente questão climática e apresentar medidas para que o Brasil possa diminuir suas emissões e garantir a saúde dos ecossistemas. O Brasil não pode se dar ao luxo de eleger um presidente contra o meio ambiente.
Sem as mais simples formas de existência e a mais ampla rede ecológica não há vida evoluída no Planeta. Sem estabilidade climática o céu pode se tornar um inferno. Não existe futuro para as atuais e as próximas gerações humanas e não-humanas se o planeta se tornar uma “Terra estufa”. (ecodebate)

domingo, 21 de outubro de 2018

Emissão de carbono por incêndios florestais na Amazônia é pior

Emissões de carbono de incêndios florestais na Amazônia são até 4 vezes piores do que se estimava.
As perdas de carbono causadas pelos incêndios florestais de El Niño de 2015 e 2016 poderiam ser até quatro vezes maiores do que se pensava, de acordo com um estudo de 6,5 milhões de hectares de floresta na Amazônia brasileira.
Nova pesquisa, publicada em uma edição especial da revista Philosophical Transactions da Royal Society B, revelou que as consequências dos incêndios florestais de 2015 e 2016 na Amazônia resultaram em emissões de CO2 três a quatro vezes maiores do que as estimativas comparativas das bases de dados de atuais emissões globais de incêndios.
A descoberta é parte de uma série de resultados publicados esta semana, por pesquisadores da Universidade de Lancaster, que estavam trabalhando no coração do local de um dos piores incêndios florestais que a Amazônia viu em uma geração.
Pesquisadores afirmam que incêndios florestais descontrolados no sub-bosque – ou no nível do solo – de florestas tropicais úmidas durante secas extremas são uma fonte grande e mal quantificada de emissões de CO2.
O estudo “Quantifying immediate carbon emissions from El Niño-mediated wildfires in humid tropical forests” analisou uma região de 6,5 milhões de hectares, dos quais quase 1 milhão de hectares de florestas primárias e secundárias queimadas durante o El Niño 2015-2016, área equivalente a metade do País de Gales.
Embora a área analisada cubra menos de 0,2% da Amazônia brasileira, esses incêndios resultaram em emissões imediatas de CO2 de mais de 30 milhões de toneladas, três a quatro vezes maiores do que estimativas comparáveis de bancos de dados globais de emissões de fogo.
A área de São Félix do Xingu se equipara à da Áustria. A região conta apenas com 8 bombeiros.
O autor principal, Kieran Withey, da Universidade de Lancaster, disse: “Incêndios descontrolados de sub-bosque em florestas tropicais úmidas durante secas extremas são uma fonte grande e mal quantificada de emissões de CO2. Esses incêndios consumiram completamente resíduos lenhosos e detritos lenhosos finos, enquanto parcialmente queimando árvores lenhosas, resultando em altas emissões imediatas de CO2. Esta análise cobre uma área de apenas 0,7% do Brasil, mas a quantidade de carbono perdido corresponde a 6% das emissões anuais de todo o Brasil em 2014”.
No final de 2015, Santarém, no estado brasileiro do Pará, foi um dos epicentros do El Niño daquele ano. A região sofreu uma seca severa e extensos incêndios florestais e os pesquisadores estavam trabalhando bem no meio dela. Cientistas do ‘ECOFOR’, o projeto de pesquisa internacional liderado pelo professor Jos Barlow, da Universidade de Lancaster, instalaram 20 áreas de estudo em Santarém, oito das quais queimadas.
A equipe de pesquisa rapidamente percebeu que eles tinham a oportunidade de documentar em detalhes como uma floresta responde ao fogo nessa escala.
A Dra. Erika Berenguer, da Universidade de Oxford e Lancaster, e seus colegas descobriram que após os incêndios, as árvores sobreviventes cresceram significativamente mais do que aquelas localizadas em florestas não queimadas, independentemente de sua história de perturbação humana anterior. Em média, as árvores nas áreas queimadas da floresta cresceram 249% mais do que as árvores nas florestas afetadas pela seca, mas não pelo fogo. Embora a taxa de crescimento seja uma boa notícia, esse grande aumento no crescimento parece ser uma resposta relativamente de curto prazo.
Um mapa de pontos de calor monitorados por satélite no bioma amazônico entre 31 de julho de 2016 e 1 de agosto de 2017. Pontos de calor não indicam o tamanho de um incêndio, mas apenas sua localização. 2017 está caminhando para bater um recorde de incêndios, embora, por enquanto, não para bater recorde de seca.
O professor Jos Barlow, da Lancaster University, disse: “Apenas algumas árvores podem sobreviver a esses incêndios florestais, já que as florestas da Amazônia não co-evoluem com essa ameaça. Assim, embora as árvores sobreviventes cresçam mais rapidamente nas florestas queimadas, isso não compensa a grande perda de carbono”, resulta da mortalidade das árvores “.
Enquanto isso, Camila VJ Silva da Universidade de Lancaster liderou pesquisas incluindo 31 outras áreas queimadas em toda a Amazônia brasileira, que mostraram que mesmo 30 anos depois de um incêndio, florestas aparentemente “recuperadas” ainda possuem 25% menos carbono do que florestas primárias não perturbadas próximas.
Ela disse: “incêndios florestais em florestas tropicais úmidas podem reduzir significativamente a biomassa florestal por décadas, aumentando as taxas de mortalidade de árvores de grande e alta densidade de madeira (como castanha-do-brasil ou mogno), que armazenam a maior quantidade de biomassa em florestas antigas, demonstrando que os incêndios florestais diminuem ou retardam significativamente a recuperação pós-fogo das florestas amazônicas.
Focos de incêndio no Brasil, de junho de 1998 a setembro de 2017.
Berenguer disse: “No geral, nossos resultados combinados destacam a importância de considerar os incêndios florestais nas políticas de conservação florestal e mudanças climáticas. Com os modelos climáticos projetando um futuro mais quente e seco para a bacia amazônica, os incêndios florestais provavelmente se tornarão mais generalizados. Considerar os incêndios florestais nas políticas públicas levará a intervalos mais curtos de retorno ao fogo, com as florestas sendo incapazes de recuperar seus estoques de carbono”. (ecodebate)

Emissões crescem mais nos países emergentes

Países ricos emitem mais CO2, mas as emissões crescem mais nos países emergentes.
As emissões globais de dióxido de carbono (CO2) procedentes, principalmente, da queima de combustíveis fósseis aumentaram de 9,4 bilhões de toneladas em 1960 para 36,2 bilhões de toneladas em 2016. Foi um aumento de 3,8 vezes em 56 anos. Neste mesmo período a população mundial aumentou de 3 bilhões de habitantes para 7,5 bilhões, um aumento de 2,5 vezes. Portanto, houve aumento das emissões per capita, pois a poluição cresceu mais rápido do que a população.
Mas as emissões são muito desiguais em termos regionais e possuem ritmos diferentes de crescimento entre os países e os grupos de países. Os países ricos que fazem parte do G7 (EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá) emitiram 5,1 bilhões de toneladas de CO2 em 1960, representando 54% das emissões globais e passaram a emitir 10,3 bilhões de toneladas de CO2, em 2007. Porém, a partir da crise de 2008, as emissões no G7 diminuíram e chegaram a 8,97 bilhões de toneladas em 2016, representando 24,8% das emissões globais. Ou seja, o peso das emissões do G7 caiu mais da metade em termos relativos nos 56 anos em consideração.
Por outro lado, a China que emitia 780 milhões de toneladas de CO2 em 1960, deu um grande salto em 2016, quando emitiu 10,1 bilhões de toneladas de CO2. Isto quer dizer que a China emitia 8,3% das emissões globais em 1960 e passou a emitir 28,1% em 2016 (mais do que todos os países do G7 agrupados).
A Índia que emitia 120 milhões de toneladas de CO2 em 1960 (representando apenas 1,3% do total global) passou a emitir 2,4 bilhões de toneladas (representado 6,7% das emissões globais), em 2016. Os três países mais populosos do mundo, também são os que mais emitem CO2. Em 2016, os três gigantes demográficos juntos emitiram 17,9 bilhões de toneladas, representando 49,5% das emissões globais de CO2.
O gráfico abaixo mostra as emissões dos países do G7 (EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá) e da China, Índia e Rússia. Nota-se que nos últimos 10 a 12 anos, as emissões de CO2 diminuíram em todos os países do G7 e na Rússia e só aumentaram na China e na Índia, sendo que na China as emissões ficaram estagnadas entre 2013 e 2016. Entre os grandes emissores do mundo, somente a Índia continua aumentando consistentemente suas emissões de CO2. Como é um país em desenvolvimento com um nível muito elevado de pobreza, o crescimento econômico da Índia pode contribuir para reduzir a pobreza, mas vai elevar ainda mais as emissões de CO2. A Índia dobrou suas emissões entre 2005 e 2016 e neste ritmo pode ultrapassar a União Europeia antes de 2025 e os EUA antes de 2030.
O gráfico abaixo mostra as emissões de CO2 de alguns países em desenvolvimento selecionados. Embora as emissões destes 10 países representem um volume muito menor do que dos 10 países do gráfico anterior, a diferença é que todos eles apresentam crescimento significativo das emissões nos 56 anos em questão. Em 1960, estes 10 países emitiam 46,2 milhões de toneladas de CO2 (representando apenas 0,5% do total) e, em 2016, passaram a emitir 2,3 bilhões de toneladas (representando 6,3% das emissões totais). Os países que mais aumentaram as emissões entre 1960 e 2016 foram Qatar (699 vezes) Arábia Saudita (237 vezes), Tailândia (88 vezes) e Angola (65 vezes).
O Brasil emitia 46,9 milhões de toneladas em 1960 (representando 0,5% do total) e passou a emitir 487,4 milhões de toneladas de CO2 em 2016 (representando 1,3% do total). O aumento foi de 10,4 vezes em 56 anos. As emissões per capitas do Brasil estão aumentando.
A generalização do modelo “Extrai-Produz-Descarta” (modelo metabólico entrópico) faz com que os países em desenvolvimento sejam aqueles que, no século XXI, mais aumentam as suas emissões de gases de efeito estufa. Mais da metade das emissões globais já são provenientes dos países em desenvolvimento, sendo que a China e a Índia respondem por 35% das emissões totais em 2016.
Segundo o Global Carbon Project (GCP) as emissões de CO2 aumentaram de 36,2 bilhões de toneladas em 2016 para 36,8 bilhões de toneladas em 2017, com aumento, tanto na China quanto na Índia. A Índia se aproxima muito do nível da União Europeia e mantém o ritmo de crescimento acelerado das emissões.

Nota-se que as emissões da China são maiores do que a soma das emissões dos EUA e da União Europeia (EU), em conjunto. Segundo análise do site Unearthed (30/05/2018) as emissões de CO2 da China subiram cerca de 4% nos primeiros três meses de 2018 e podem subir 5% em 2018, interrompendo o período de estagnação das emissões e acendendo um sinal de alerta para o mundo e para o agravamento da liberação de gases de efeito estufa.
O quadro acima é preocupante, pois a redução das emissões dos países desenvolvidos está se dando em um ritmo lento e os países emergentes ou em desenvolvimento estão aumentando as emissões de CO2 em ritmo rápido, o que só agrava o efeito estufa e torna distante o sonho de atingir as metas do Acordo de Paris. Os países ricos precisam reduzir drasticamente suas emissões (ou de preferência zerar as emissões) num prazo curto e os países pobres não podem aumentar as suas emissões. Caso contrário, as consequências podem ser catastróficas.
Pesquisa publicada na revista European Geosciences Union Earth System Dynamics, mostra que nos níveis atuais de emissões de CO2, o prazo para limitar o aquecimento até 1,5° C já foi ultrapassado e resta muito pouco tempo antes que as metas de Paris, de limitar o aquecimento global a 2°C, se tornem inviáveis, mesmo com estratégias drásticas de redução global de emissões. O prazo é curto para reverter o quadro de degradação ambiental global.
O estudo considera que se não forem tomadas ações decisivas até 2035 para combater a mudança climática, a humanidade poderá cruzar um ponto de não retorno, e a liberação de CO2 e metano aprisionado no permafrost, nas geleiras e outros sítios ecológicos elevaria a temperatura do Planeta e levaria o mundo a um colapso ambiental, que, também, poderá significar um colapso civilizacional. (ecodebate)

Degelo aumenta emissões de gases estufa em rios da Sibéria

Degelo do permafrost aumenta as emissões de gases estufa dos rios da Sibéria.
Solos de permafrost armazenam grandes quantidades de carbono congelado e desempenham um papel importante na regulação do clima da Terra.
Em um estudo publicado na Nature Geoscience, pesquisadores da Umeå University, Suécia, em colaboração com uma equipe internacional, agora mostram que as emissões de gases do efeito estufa do rio estão aumentando em áreas onde o permafrost siberiano está ativamente descongelando.
À medida que o permafrost se degrada, o carbono previamente congelado pode acabar em córregos e rios, onde será processado e emitido como gases de efeito estufa da superfície da água diretamente para a atmosfera. A quantificação dessas emissões de gases de efeito estufa no rio é particularmente importante na Sibéria Ocidental – uma área que armazena vastas quantidades de carbono do permafrost e abriga a maior bacia hidrográfica do Ártico, o rio Ob ‘.
Agora, pesquisadores da Umeå University (e colaboradores da SLU, Rússia, França e Reino Unido) demonstraram que o pico de emissões de gases do efeito estufa nas áreas onde o permafrost siberiano ocidental tem degradado ativamente e diminuem em áreas onde o clima é mais frio e o permafrost não começou a descongelar ainda. A equipe de pesquisa também descobriu que as emissões de gases de efeito estufa dos rios excedem a quantidade de carbono que os rios transportam para o Oceano Ártico.
A cientista Katey Anthony observa bolhas de metano que escapam do gelo do Alasca por causa da decomposição de detritos vegetais antes congelados, isto acontece inclusive na Sibéria.
“Esta foi uma descoberta inesperada, pois significa que os rios da Sibéria Ocidental processam e liberam ativamente grande parte do carbono que recebem do permafrost degradado e que a magnitude dessas emissões pode aumentar à medida que o clima continua aquecido”, afirma Svetlana Serikova, aluna de doutorado na região. Departamento de Ecologia e Ciências Ambientais, Universidade Umeå e um dos pesquisadores da equipe.
A quantificação das emissões de gases de efeito estufa das áreas afetadas pelo permafrost em geral e na Sibéria Ocidental em particular é importante, pois melhora nossa compreensão do papel que tais áreas desempenham no ciclo global de carbono e aumenta nossa capacidade de prever os impactos de mudanças climáticas.
Degelo do Ártico já atingiu até as regiões mais frias.
“As mudanças em grande escala que ocorrem no Ártico, devido ao aquecimento, exercem uma forte influência sobre o sistema climático e têm consequências de longo alcance para o resto do mundo. É por isso que é importante nos concentrarmos em compreender como o aquecimento climático afeta o Ártico agora, antes que essas mudanças dramáticas ocorram”, diz Svetlana Serikova. (ecodebate)

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Poluição do ar e poeira são responsáveis por 4 milhões de mortes/ano

Poluição do ar e poeira fina são responsáveis por mais de quatro milhões de mortes a cada ano.
Poluição do ar leva a doenças cardiovasculares.
Poeira fina da indústria, tráfego rodoviário e aéreo e agricultura polui o ar e leva a doenças cardiovasculares.
Quase 60% das mortes ocorrem como resultado de doenças cardiovasculares. Cientistas ao redor do professor Thomas Münzel, diretor de cardiologia I do Departamento de Cardiologia do Centro Médico de Johannes Gutenberg University Mainz (JGU), revisaram os mecanismos responsáveis pelos danos vasculares causados pela poluição do ar junto com cientistas do Reino Unido e dos Estados Unidos. Suas descobertas foram publicadas na última edição do European Heart Journal, o periódico de cardiologia mais reconhecido do mundo.
A grande porcentagem de mortes por doenças cardiovasculares levou um grupo internacional de especialistas da Alemanha, Inglaterra e EUA a analisar os efeitos negativos da poluição do ar na função vascular em um artigo de revisão. Questões-chave de pesquisa concentraram-se em componentes da poluição do ar (material particulado, ozônio, dióxido de nitrogênio, monóxido de carbono e dióxido de enxofre) que são particularmente prejudiciais ao sistema cardiovascular e aos mecanismos que danificam os vasos.
“Este relatório na última edição do European Heart Journal é outra importante contribuição do nosso Grupo de Trabalho sobre Meio Ambiente e Doenças Cardiovasculares. Em resumo, pode-se dizer que, em relação ao efeito danoso vascular da poluição do ar, o material particulado desempenha um papel proeminente”, comentou o professor Thomas Münzel.
“Estamos especialmente preocupados com a poeira ultrafina. Essas partículas têm o tamanho de um vírus. Quando a matéria ultrafina é inalada, ela entra imediatamente na corrente sanguínea através dos pulmões, é absorvida pelos vasos e causa inflamação local. Em última análise, isso causa mais aterosclerose (calcificação vascular) e, portanto, leva a mais doenças cardiovasculares, como infarto do miocárdio, infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca e arritmias cardíacas. De particular interesse é o fato de que, com relação às emissões de diesel”
Outros participantes do grupo de especialistas incluem o mundialmente renomado pesquisador de partículas Professor Sanjay Rajagopalan do Centro Médico UH Cleveland, o pesquisador vascular e cardiologista Professor John Deanfield do Instituto de Ciências Cardiovasculares da University College London, Professor Andreas Daiber, Chefe de Molecular Cardiologia no Centro Médico da Universidade de Mainz e Professor Jos Lelieveld do Instituto Max Planck de Química (MPIC) em Mainz.
“As partículas finas de poeira são quimicamente formadas principalmente na atmosfera pelas emissões do tráfego, indústria e agricultura. Para alcançar concentrações baixas e inofensivas, as emissões de todas essas fontes precisam ser reduzidas”, comentou o professor Jos Lelieveld.
No mundo, a poluição atmosférica e dentro de residências provocou 7 milhões de mortes em 2016.
“No futuro, trabalharemos intensivamente com o Instituto Max Planck de Química para investigar as causas das doenças cardiovasculares causadas pela poluição do ar, especialmente em combinação com o ruído (de vôo)”, acrescentou o professor Thomas Münzel. (ecodebate)

Pontos de inflexão climática não são problemas para um futuro distante

Pontos de inflexão climática não são problemas para um futuro distante. O planeta já está cruzando limiares críticos, como o colapso general...