domingo, 11 de dezembro de 2016

O mundo está distante da meta de descarbonizar a economia

“Yes, and how many years can a mountain exist,
Before it’s washed to the seas (sea)
Yes, and how many years can some people exist,
Before they’re allowed to be free?
Yes, and how many times can a man turn his head,
And pretend that he just doesn’t see?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind”. - Bob Dylan
O Acordo de Paris está prestes a entrar em vigor, com o cumprimento de duas condições: 1) assinatura e ratificação de pelo menos 55 países dos 197 que participaram da COP-21; 2) estarem representados no mínimo 55% dos países responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa (GEE). O Acordo entrará em vigor antes da COP-22, que vai acontecer em Marrakesh, no Marrocos, de 7 a 18 de novembro de 2016. Porém, o mundo está distante da meta de descarbonizar a economia, enquanto a manutenção do ritmo de degradação ambiental estabelecido nas últimas décadas pode ser desastrosa.
A população mundial cresceu cerca de 3 vezes entre 1950 e 2016, passando de 2,5 bilhões de habitantes para 7,5 bilhões. A economia cresceu muito mais (12,2 vezes) nesse período. Assim, o PIB per capita cresceu cerca de 5 vezes entre 1950 e 2016. Segundo o relatório “Global Material Flows And Resource Productivity” (UNEP, julho de 2016) o crescimento na extração de recursos naturais passou de 7 toneladas per capita em 1970 para 10 toneladas per capita em 2010. Mesmo levando-se em conta as desigualdades sociais, cada nova pessoa (umas mais do que as outras) significa extração adicional de recursos naturais. Assim, o crescimento econômico que produz bem-estar humano ocorre às custas do mal-estar ambiental.
Do ponto de vista climático, para diminuir o impacto do crescimento econômico e da degradação ambiental seria preciso descarbonizar a economia, ou seja, diminuir a emissão per capita de gases de efeito estufa (GEE), pois o dióxido de carbono (CO2) corresponde a quase 80% destes gases. Contudo, o que aconteceu foi um aumento de 60% entre 1960 e 2011, segundo dados do Banco Mundial. Mais gente poluindo cada vez mais.
O gráfico abaixo mostra que a concentração de CO2 na atmosfera variou de 185 a 280 partes por milhão (ppm) nos últimos 800 mil anos, antes da Revolução Industrial e Energética. A variação de CO2 na atmosfera é a principal responsável pela mudança da temperatura entre os períodos mais quentes e os períodos glaciais.
Após o início do uso generalizado dos combustíveis fósseis (carvão mineral, petróleo e gás) a concentração de CO2 na atmosfera subiu para 400 ppm em 2015 e 407,7 ppm em maio de 2016, acelerando o aquecimento da atmosfera. Isto quer dizer que o clima na Terra deve voltar para o nível do período Eemiano que estava pelo menos 2ºC acima da média do século XX e o nível do mar estava entre 5 e 6 metros acima do nível atual.
Com a crescente emissão de gases de efeito estufa (GEE), o clima na Terra caminha para um nível sem precedentes nos últimos 5 milhões de anos. Se as emissões de GEE continuarem a temperatura do Planeta pode chegar a 4,5ºC acima da média do século XX (cerca de 5ºC acima da média do Holoceno) até 2100. Isto levaria à elevação do nível dos oceanos e à inundação de amplas áreas costeiras, inclusive de grandes cidades ao redor do mundo, afetando diretamente a vida de pelo menos 500 milhões de pessoas.
O gráfico mostra que entre 1880 e 1900 a temperatura estava 0,2°C abaixo da média da temperatura do século XX (linhas azuis). Entre 1901 e 1950 a média da temperatura ficou 0,15°C abaixo da média do século passado e entre 1951 a 2000 ficou 0,15°C acima da média. Portanto, houve um aumento de temperatura, mas que alguns céticos consideravam como efeito natural.
Porém, o ano de 1998 foi o mais quente do século XX e ficou 0,63°C acima da média secular. E o que estava ruim, piorou muito no século XXI, pois a temperatura em 2015 ficou 0,9°C acima da média do século XX, um acréscimo de 0,27°C em apenas 17 anos.
Surpreendentemente, os três primeiros meses de 2016 tiveram um aumento climático extremamente elevado, não antecipado por ninguém e nenhum modelo estatístico. O aumento da temperatura em relação à média do século XX foi de 1,04°C em janeiro, de 1,21°C em fevereiro e de 1,22°C em março de 2016, segundo dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).
Ou seja, em relação ao final do século XIX, o aumento da temperatura nos meses de fevereiro e março de 2016 ficou quase 1,5°C mais elevada. Isto é a meta de limite de aumento da temperatura proposta pelo Acordo de Paris para o ano de 2100. No primeiro semestre de 2016 a temperatura ficou 1,05ºC. acima da média do século XX. É a primeira vez que se registra um semestre com temperatura acima de 1ºC. Tudo isto acendeu o alerta e os ambientalistas estão falando em emergência climática.
O gráfico abaixo foi apresentado na abertura da Olimpíada Rio 2016 e serviu para divulgar a gravidade do aumento da temperatura global e chamou a atenção para a luta em defesa do meio ambiente e contra o atual modelo marrom de desenvolvimento.
Em artigo publicado em março de 2016, no periódico Atmospheric Chemistry and Physics Discussion, o cientista James Hansen e colegas (2016) confirmam que o aumento da temperatura em 2ºC pode ser extremamente perigoso, pois pode gerar super-furacões e elevar o nível do mar, no longo prazo, em vários metros, ameaçando as áreas costeiras em geral, especialmente as mais povoadas.
A queima dos combustíveis fósseis é a principal fonte de emissão de gases de efeito estufa (GEE). Mas também a pecuária emite grande quantidade de metano que tem um efeito 34 vezes mais potente do que o dióxido de carbono. Artigo de Dr. David Suzuki (30/09/2016) mostra como as emissões de CO2 estão causando estragos no planeta.
Artigo publicado na revista BioScience, no início de outubro de 2016, mostra que os reservatórios das usinas hidrelétricas são uma enorme fonte de emissão de metano. A produção de metano dos reservatórios é comparável com as plantações de arroz ou queima de biomassa do mundo. Os pesquisadores da Universidade Estadual de Washington dizem os estudos anteriores subestimam os efeitos dos reservatórios do mundo na produção de GEE, eles avaliam a produção equivalente a cerca de 1 gigaton de dióxido de carbono por ano, ou 1,3% de todos os gases de efeito estufa produzidos pelo ser humano. Isso é mais do que a produção de GEE de todo o Canadá.
Os seres humanos já lançaram 1,9 trilhões de toneladas de carbono na atmosfera. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), para evitar o pior cenário, o mundo só pode emitir, entre 2012 e 2100, 1.000 gigatoneladas (Gt) de CO2. Em termos médios, isso significa que o mundo só pode liberar no máximo 11,3 GtCO2 por ano até 2100. O problema é que as emissões estão atualmente em 50 Gt de GEE, o que dá uma ideia do tamanho do desafio para fazer essa redução. O chamado “orçamento de carbono” não está sendo cumprido. As INDCs do Acordo de Paris não são suficientes para resolver o tamanho do desafio.
Ha estudos que mostram que a liberação de 2,9 trilhões de toneladas de carbono para a atmosfera e oceanos pode elevar a temperatura do planeta em mais de 5ºC acima das temperaturas pré-industriais. O risco adicional do aquecimento global e do degelo do Ártico e das regiões próximas é que isso fará com que a liberação da totalidade ou de uma parte dos 5 trilhões de toneladas de carbono preso como metano congelado na tundra e no permafrost, retroalimentando o processo de efeito estufa.
Novo estudo liderado por James Hansen e mais 11 cientistas (04/10/2016) mostra que a temperatura da Terra está em torno de 1,25ºC acima do período pré-industrial e o ritmo de aumento é de 0,18ºC por década. Nesta taxa o Planeta vai repetir a temperatura do período Eemiano, que terminou a 115 mil anos atrás, quando havia muito menos gelo e o mar estava entre 6 e 9 metros acima dos níveis atuais. O estudo lança um alerta e mostra que as metas (INDCs) do Acordo de Paris não são suficientes para evitar a catástrofe climática.
O limite considerado seguro para a concentração de CO2 na atmosfera é 350 ppm, mas já passamos permanentemente de 400 ppm e podemos chegar a 450 ppm até 2030. No ritmo atual será preciso atingir “emissões negativas” para cumprir com o Acordo de Paris. Porém, artigo recente publicado na revista Science por Kevin Anderson e Glen Peters (14/10/2016) mostra que ninguém sabe se a remoção de carbono da atmosfera funcionará, mas esta ideia, tacitamente, dá às pessoas uma licença para poluir. Eles dizem: “As tecnologias de emissões negativas não são uma apólice de seguro, mas sim um jogo injusto e de alto risco”.
Ninguém ignora, pois, o fato de a humanidade usar a biosfera da pior forma possível e aumentando a vulnerabilidade social e ambiental. Existem autores que enxergam neste processo um conflito irremediável entre os interesses egoísticos e o gerenciamento do bem comum. O termo Tragédia dos Comuns, proposto em 1968 por Garrett Hardin, volta à tona. O conceito considera que o uso irrestrito de um recurso finito (como o ar limpo) pode levar à sua degradação por conta de uma superexploração ou manejo inadequado.
A situação assustadora é que além da humanidade não conseguir cortar as emissões de carbono, a Terra assumirá o protagonismo e começar a adicionar ainda mais as emissões por conta própria. Um recente estudo publicado na revista Geophysical Research Letters, uma equipe de pesquisadores liderada por Yi Yin, mostra que no ano passado, em meio a condições de seca induzidas pelo El Niño, as queimadas da Indonésia emitiram mais de 1,5 bilhão de toneladas de equivalentes de dióxido de carbono para a atmosfera. Isso é mais do que as emissões anuais do Japão. A Indonésia é muito parecido com o Ártico, onde ainda maiores quantidades de carbono são armazenadas no permafrost, e também são vulneráveis. Ou seja, há um efeito de retroalimentação com o aumento do aquecimento global que tende a liberar o metano do permafrost e acelerar as queimadas nas áreas tropicais (inclusive a Amazônia, Cerrado, Caatinga, etc.) aumentando a concentração de GEE na atmosfera.
Para evitar a Tragédia dos Comuns seria fundamental o gerenciamento dos bens comuns como mostrou Elinor Ostrom. Um fato positivo foi a assinatura de um acordo que visa à eliminação progressiva dos hidrofluorocarbonos (HFC), por quase 200 países, reunidos em Kigali, capital de Ruanda, no dia 15 de outubro de 2016. Mas o Acordo de Paris precisaria ser colocado em prática rapidamente, possibilitando o desacoplamento das emissões de CO2 da produção de bens e serviços e a menor emissão de metano pela pecuária. A necessidade de mudança de rumo é dramática.
Ou se descarboniza a economia e se reduz as emissões de GEE ou todas as áreas costeiras do mundo vão ficar debaixo d’água, provocando grandes prejuízos materiais e grande sofrimento social. Diversos estudos consideram que a continuidade do aquecimento global pode tornar a Terra inabitável a grandes formas de vida, incluindo os seres humanos. O Planeta pode voltar ao estágio da existência de somente vida bacteriana. Seria a involução das espécies provocada por uma espécie que se julga inteligente e superior. O aquecimento global pode provocar uma tragédia comum a todos os vertebrados. (ecodebate)

Emissões de gases estufa crescem 3,5% no Brasil

Emissões de gases estufa crescem 3,5% no Brasil; desmatamento foi o maior responsável
As emissões brutas de gases do efeito estufa no Brasil cresceram 3,5% em 2015 em relação a 2014, segundo balanço divulgado em 26/10/16 pelo Observatório do Clima – rede que reúne 40 organizações da sociedade civil. De acordo com o Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (Seeg), o país emitiu 1,927 bilhão de tonelada de CO2 no ano passado, contra 1,861 bilhão de toneladas em 2014.
O desmatamento foi, segundo o estudo, o principal responsável pelo aumento, o que contrariou a tendência de queda no lançamento de poluentes, esperada em um ano de recessão, com retração de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB).
As emissões por mudanças no uso da terra cresceram 11,3% em 2015. A transformação de áreas de mata em pasto ou plantações representa 46% das emissões brasileiras. Nesse sentido, o observatório destaca que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais apontou para um aumento de 25% na taxa de desmatamento na Amazônia em 2015 em relação ao ano anterior.
Energia
O setor de energia, responsável por 24% das emissões no país, registrou queda de 5,3% no lançamento de poluentes em 2015. Além da redução do nível da atividade econômica, o estudo aponta para o aumento do uso de energias renováveis como um dos fatores que levaram à redução.
Houve, segundo o levantamento, uma queda de 7,1% no consumo de diesel, devido à diminuição no transporte de cargas ocasionado pela crise. O consumo de etanol e gasolina permaneceu estável. No entanto, o balanço indica uma substituição no uso do fóssil pelo renovável, com aumento de 18,6% do uso de etanol e queda de 9,4% no consumo de gasolina. Com isso, as emissões relacionadas ao uso de combustíveis caíram 7,4%.
A agropecuária, terceira maior responsável pelas emissões no Brasil, com 22% do total de CO2 praticamente não variou em 2015, com um aumento de apenas 0,6% em comparação com o ano anterior.
As emissões industriais (5% do total) tiveram queda de 1,2% no ano passado. A poluição resultante da disposição de resíduos, que representa 3% do CO2 brasileiro, teve ligeira elevação de 0,3%. (ecodebate)

OMM revela recorde na emissão dióxido de carbono


Estudo da OMM revela recorde na emissão dióxido de carbono

Estudo da Organização Mundial de Meteorologia, OMM, revela recorde na emissão global de dióxido de carbono.

Organização Mundial de Meteorologia acredita que altos níveis devem continuar pelas próximas gerações; fenômeno El Niño como principal “culpado”; secas limitaram a capacidade da terra absolver CO2.

Segundo a Organização Mundial de Meteorologia, OMM, no ano passado foi registrado um recorde de concentrações na atmosfera de gases que causam o efeito estufa. Pela primeira vez, as emissões de dióxido de carbono, CO2, ultrapassaram 400 partes por milhão.
O fenômeno El Niño seria o principal “culpado” dos níveis recordes de gases na atmosfera. Segundo a OMM, as secas em vários países limitaram a capacidade da terra de absorver dióxido de carbono, que é o principal gás responsável pelo aquecimento global.
Pré-industrial
Em Genebra, o secretário-executivo da OMM, Petteri Taalas, explicou mais sobre os resultados do levantamento.
Segundo ele, a notícia ruim é que o tempo de vida do dióxido de carbono é muito longo e poderão ser necessários “dezenas de milhares de anos” para que a qualidade do ar volte aos níveis da era pré-industrial.
A OMM revela que os níveis de CO2 na atmosfera estão 144% acima do patamar registrado em 1750. Outros gases também estão com volume recorde: óxido nitroso (121% acima da era pré-industrial) e metano (aumento de 256%).
A agência da ONU acredita que as concentrações de dióxido de carbono continuarão acima de 400 partes por milhão até o fim do ano e provavelmente não irão diminuir “pelas próximas gerações”. (ecodebate)


Dióxido de carbono no mundo

Mundo bate recorde de concentração de dióxido de carbono.
O gás é o causador do efeito estufa e não deve cair por muitas gerações; nova realidade climática bem pessimista é inaugurada.
Alerta grave!!!
Mundo bateu recorde de concentração de dióxido de carbono em 2015.
Pela primeira vez, a concentração média anual de dióxido de carbono (CO2) - o gás causador do efeito estufa - na atmosfera superou a marca de 400 partes por milhão (PPM), inaugurando uma nova era na realidade climática. A informação é da Agência Ansa.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial, os níveis de CO2 já haviam superado a barreira de 400 ppm em alguns meses e em alguns lugares, mas em 2015 foi a primeira vez que isso ocorreu em uma base média anual. Além disso, de acordo com a entidade, a concentração de dióxido de carbono permanecerá acima de 400 ppm durante 2016 e não cairá abaixo desse patamar por "muitas gerações".
Em 04/11/16 entrou em vigor o Acordo de Paris, que tem o objetivo de manter o aumento médio da temperatura global abaixo dos 2ºC em relação aos níveis pré-industriais. (yahoo)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Restaurantes reciclam 30.000L/mês em Vila Velha/ES

Restaurantes reciclam 30 mil litros de óleo todo mês em Vila Velha/ES
Em 2012, foi implantada uma lei que obriga o descarte correto do produto.
Desde então, foram reciclados mais de 1 milhão de litros de óleo.
Todo mês, são reciclados 30 mil litros de óleo em Vila Velha, na Grande Vitória. Em 2012, foi implantada uma lei que determina que os restaurantes façam o descarte correto do produto no município. E desde então, foram recuperados 1 milhão de litros.
Segundo Thiago Piccolo, que é sócio de um restaurante, são usados 150 litros por semana no estabelecimento. “Em torno de 150 litros. Nós trabalhamos com gordura de óleo de palma, que tem durabilidade maior que o óleo de soja. E então nós geramos menos detrito ainda para o meio ambiente”, afirmou.
Depois que não tem mais utilidade, é recolhido e colocado em tambores, para não ser descartado de forma errada. “A gente sempre teve essa preocupação. Nós trabalhamos com frutos do mar, e sabemos que se não for dado o destino adequado para esse óleo, isso vai interferir no ecossistema marinho. E isso prejudica todo mundo”, disse Thiago.
O óleo recolhido nos restaurantes de Vila Velha é levado para uma empresa de reciclagem em Cariacica, também na Grande Vitória. O produto passa por um processo de triagem, onde os resíduos ganham destinação adequada.
De acordo com o engenheiro responsável, Humberto Ferreira Martins, a empresa recebe óleo usado de mais de mil estabelecimentos só do município de Vila Velha. “Depois de tratado, o PH é corrigido e encaminhado para as indústrias químicas, para a produção de biodiesel, de sabão, de plastificantes e uma série de materiais”, relata.
O Secretário de Desenvolvimento de Vila Velha, José Merlo, explica que para funcionar, o estabelecimento que trabalha com o produto, tem que cumprir a lei.
“Só ajuda o meio ambiente e a população também. Porque a medida que você tem esse resíduo, nessa quantidade em quatro anos, você vê que deixou de ser despejado no meio ambiente, poluindo rios e solos. E os descarte correto retorna para a população, em forma de sabão. É um ciclo que se renova a cada descarte correto”, afirmou.
Produto passa por um processo de triagem, onde os resíduos ganham destinação adequada. (g1)

Restaurantes em Vila Velha reciclam 30.000L/mês de óleo

Restaurantes reciclam 30 mil litros de óleo todo mês em Vila Velha.
Todo mês, são reciclados 30 mil litros de óleo em Vila Velha/ES, na Grande Vitória. Em 2012, foi implantada uma lei que determina que os restaurantes façam o descarte correto do produto no município. E desde então, foram recuperados 1 milhão de litros.
Segundo Thiago Piccolo, que é sócio de um restaurante, são usados 150 litros por semana no estabelecimento. “Em torno de 150 litros. Nós trabalhamos com gordura de óleo de palma, que tem durabilidade maior que o óleo de soja. E então nós geramos menos detrito ainda para o meio ambiente”, afirmou.
Depois que não tem mais utilidade, é recolhido e colocado em tambores, para não ser descartado de forma errada. “A gente sempre teve essa preocupação. Nós trabalhamos com frutos do mar, e sabemos que se não for dado o destino adequado para esse óleo, isso vai interferir no ecossistema marinho. E isso prejudica todo mundo”, disse Thiago.
O óleo recolhido nos restaurantes de Vila Velha é levado para uma empresa de reciclagem em Cariacica, também na Grande Vitória. O produto passa por um processo de triagem, onde os resíduos ganham destinação adequada.
De acordo com o engenheiro responsável, Humberto Ferreira Martins, a empresa recebe óleo usado de mais de mil estabelecimentos só do município de Vila Velha. “Depois de tratado, o PH é corrigido e encaminhado para as indústrias químicas, para a produção de biodiesel, de sabão, de plastificantes e uma série de materiais”, relata.
O Secretário de Desenvolvimento de Vila Velha, José Merlo, explica que para funcionar, o estabelecimento que trabalha com o produto, tem que cumprir a lei.
“Só ajuda o meio ambiente e a população também. Porque a medida que você tem esse resíduo, nessa quantidade em quatro anos, você vê que deixou de ser despejado no meio ambiente, poluindo rios e solos. E o descarte correto retorna para a população, em forma de sabão. É um ciclo que se renova”, afirmou. (biodieselbr)

O império dos lixões e o custo Brasil do lixo


A notícia divulgada pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo – TCE, de que uma em quatro cidades paulistas tem lixões a céu aberto, evidencia que “estamos diante de um problema estrutural e institucional de gestão, demonstrando a inoperância do Estado em nível local, regional e nacional, à qual eu também agrego a perpetuação das práticas omissivas, sempre com a lógica em protelar qualquer solução para este problema”, diz Maurício Waldman à IHU On-Line.
Waldman informa ainda que somente “3,11% das prefeituras conseguem selecionar entre 75% e 100% dos itens encontrados nas lixeiras”, e o resultado da não adesão à Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS “é uma calamidade que, por sinal, tendencialmente segue no rumo de agravar ainda mais a situação sanitária e ambiental vivida pelo estado de São Paulo e pelo país como um todo”.
Para Maurício Waldman, a má gestão do lixo no país pode ser atribuída ao fato de que “a discussão do lixo é quase sempre uma narrativa fragmentada, baseada em pressupostos absolutamente falsos, inverídicos e inadequados, frequentemente resvalando para o autoritarismo ou para a folclorização do debate”.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Waldman comenta as propostas da Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS e critica a proposta de substituir os lixões por aterros sanitários. “Propor os aterros sanitários como contraponto não constitui, no meu entendimento – à parte materializarem alguns ganhos na comparação com os lixões -, uma proposta contemporânea para acabar com o problema. (…) Aterros sanitários utilizam vastas áreas de terrenos e envolvem investimentos consideráveis para enterrar materiais passíveis de reutilização ou compostagem”, diz.


Maurício Waldman é graduado em Sociologia, mestre em Antropologia e doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo – USP. Waldman é autor de Lixo: Cenários e Desafios (Cortez Editora, 2010), a primeira obra sobre lixo finalista do Prêmio Nacional Jabuti (edição de 2011). No final deste mês, está lançando um novo livro, intitulado A Civilização do Lixo, um dos quatro que publicou em 2016 pela Editora Kotev, publicadora digital sediada em São Paulo.
IHU On-Line – Recentemente o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo – TCE divulgou que uma em cada quatro cidades de SP tem lixões a céu aberto. Como o senhor interpreta esse dado?
Maurício Waldman – Este dado é em si mesmo aterrador se lembrarmos que o estado de São Paulo é a unidade da federação que desponta como polo dinâmico da economia nacional, principal agregador de massa cinzenta no país e que, em princípio, dispõe de um aparato estatal adequado para dar conta de uma questão tão séria como esta. Este panorama ganha cores mais preocupantes quando se considera que num plano geral há um cenário jurídico delineado pela Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS. Recorde-se que a PNRS, em curso legal a partir de 02/08/10, consistiu um esforço em rever, estatuir e ampliar o escopo das legislações anteriores com foco ou que mantinham conexão orgânica com a problemática dos resíduos sólidos. A PNRS propôs a criação de canais institucionais que viessem a normatizar e detalhar o funcionamento da lei, garantindo a juridicidade da proposta no referente às normatizações específicas na aplicação dos diferentes aspectos abarcados por esta legislação. Contudo, não seria demasiado mencionar que o próprio preâmbulo da PNRS evoca a Lei nº 9.605, relativa a crimes ambientais, que veio à luz em 12/02/1998. Isto é: doze anos antes já se criminalizava o uso de lixões para a desova dos resíduos urbanos.
Problema estrutural
Além do Estado, deve-se sinalizar para as responsabilidades de atores que orbitam na execução das chamadas políticas públicas, tais como as ONGs, parcelas do empresariado e para a falta de clareza da comunidade acadêmica nacional.
O que transparece com base nesta cronologia é que estamos diante de um problema estrutural e institucional de gestão, demonstrando a inoperância do Estado em nível local, regional e nacional, à qual eu também agrego a perpetuação das práticas omissivas, sempre com a lógica em protelar qualquer solução para este problema. Além do Estado, deve-se sinalizar para as responsabilidades de atores que orbitam na execução das chamadas políticas públicas, tais como as ONGs, parcelas do empresariado e para a falta de clareza da comunidade acadêmica nacional, que se tornam responsáveis, mesmo que indiretamente, por esta catástrofe, que ocorre até em contextos como o estado de SP, o estado líder da federação brasileira. Claro sinal do que estou colocando é tomar conhecimento de que, em 2016, seis anos após a suposta entrada em vigor da PNRS, a ação do TCE tenha trazido a público o inaceitável índice de 23,31% de municipalidades com lixões em funcionamento.
Mas existem outros dados igualmente constrangedores, pois os levantamentos indicam que apenas 51,54% dos municípios implantaram um Plano de Gestão Integrada dos Resíduos Sólidos – PGIRS e que 19,63% sequer iniciaram a elaboração dos PGIRS. Para piorar, não existe nenhum tipo de Coleta Seletiva de Lixo – CSL em 36,20% das cidades paulistas. Ademais, a CSL abrange fração pouquíssimo substantiva do recolhimento dos refugos. Meramente 3,11% das prefeituras conseguem selecionar entre 75% e 100% dos itens encontrados nas lixeiras. Portanto o que se tem é uma calamidade que, por sinal, tendencialmente segue no rumo de agravar ainda mais a situação sanitária e ambiental vivida pelo estado de SP e pelo país como um todo.
IHU On-Line – O que estes percentuais representam em termos técnicos?
Maurício Waldman – É a continuidade da ciranda de horrores que tem comandado a gestão do lixo no país. Os lixões e os aterros ditos controlados são avatares do descaso do poder público para com um mínimo de qualidade de vida dos governados, que pagam impostos para terem contrapartida em serviços prestados tipo “lixo”. Se é que este termo pode ser utilizado dessa forma. No final das contas os resíduos sólidos merecem respeito. Note-se que mesmo destacar o aterro sanitário como política de excelência na gestão dos refugos é merecedor de apartes, correções e considerandos. Sendo fato consumado o avolumar incessante das sobras e, paralelamente, o fato de que lixões e aterros controlados permanecem como modelo em curso num grande número de municípios, propor os aterros sanitários como contraponto não constitui, no meu entendimento – à parte materializarem alguns ganhos na comparação com os lixões -, uma proposta contemporânea para acabar com o problema. O aterro sanitário como equipamento capaz de proporcionar destinação adequada aos refugos é controverso e sujeito a contestações, mesmo quando teoricamente funcionam bem.
IHU On-Line – Quais seriam os problemas dos aterros sanitários?
Maurício Waldman – Os aterros sanitários utilizam vastas áreas de terrenos e envolvem investimentos consideráveis para enterrar materiais passíveis de reutilização ou compostagem. Constituem verdadeiras usinas de miasmas, que liberam imensas quantidades de gás metano, poderoso gás de efeito estufa (GEE) e de chorume, este último um efluente com razão considerado, ao lado do plutônio e das dioxinas, como das três mais perigosas e mortais ameaças ao meio ambiente criadas pela civilização humana. Mesmo o suposto protagonismo dos aterros sanitários em garantir a degradabilidade dos rebotalhos não possui pleno respaldo técnico. Por exemplo, o grande pesquisador norte-americano William Bill Rathje, decano da lixologia, admirou-se ao escavar aterros nos Estados Unidos e Canadá, com a conservação de certos itens orgânicos encontrados nas camadas profundas dos monturos, alguns dos quais, apesar de décadas de clausura total, apresentavam notável estado de conservação. Materiais celulósicos como jornais e revistas, tidos como facilmente degradáveis, foram encontrados incólumes após décadas de sepultamento.
Rathje assinalou a existência de inúmeras causalidades incomuns que contribuem para estancar a degradação biológica, desde bolsões de gás, processos de mumificação naturais e ambientes quimicamente saturados. Tais condicionantes físicos são pouco estudados e pouco conhecidos pela comunidade acadêmica nacional, que, até por desconhecimento da literatura internacional, acumula décadas de atraso na pesquisa científica do lixo. Por isso mesmo Rathje classificou a biodegradação e o confinamento seguro nos aterros sanitários como sendo pura e simplesmente um mito, responsável, aliás, pela aniquilação de enormes massas de materiais úteis aos humanos.
IHU On-Line – Quais são as razões que fazem os problemas de gestão do lixo perdurarem no Brasil?
Maurício Waldman – Entendo que a discussão do lixo é quase sempre uma narrativa fragmentada, baseada em pressupostos absolutamente falsos, inverídicos e inadequados, frequentemente resvalando para o autoritarismo ou para a folclorização do debate, nesta última variável pespontando muitos dos ativistas dos resíduos sólidos. Não há como não colocar o Estado brasileiro no centro do debate, que no caso apresenta amplo leque de especificidades. O cientista político alemão Joachim Hirsch defende que, numa perspectiva mais ampla, a noção de Estado no momento atual de mundo pressagia contraposições políticas conotadas por injunções contraditórias que se atam aos humores da economia, das reivindicações sociais e reclamos dos cidadãos. Disto se coloca que a máquina estatal deveria, ao menos em tese, prestar-se a uma compatibilização considerada legítima e propiciadora de um mínimo de equilíbrio. Mas o quadro que se apresenta no Brasil é outro. Tal como em muitos outros países periféricos, o aparato de Estado está ancorado em fragilidades estruturais ditadas por acentuadas disritmias socioeconômicas, que em caráter permanente influenciam, corroem e questionam sua pretendida representatividade.
O lixão é uma materialização da incúria, incompetência e da ausência de vínculos com o interesse público por parte do Estado brasileiro e dos gestores postados no comando deste.
Como assegurou o geógrafo brasileiro Milton Santos, o Estado no Brasil tem por meta um papel mistificador, propagador, ou mesmo gerador de uma ideologia de modernização, de paz social e de falsas esperanças, uma fabulação que nem de longe é capaz ou se mostra disposto a transferir para o mundo real. Dito de outro modo, o lixão é exatamente isto: uma materialização da incúria, incompetência e da ausência de vínculos com o interesse público por parte do Estado brasileiro e dos gestores postados no comando deste.
IHU On-Line – No que isto se associa aos lixões?
Maurício Waldman – No transcorrer do meu terceiro pós-doutoramento, desenvolvido nos anos 2014-2015 com aval do Programa Nacional de Pós-Doutorado – PNPD, vinculado à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES, identifiquei em termos de uma cartografia política a atuação de um Diretorado do Lixo, articulação que na realidade é quem dá as cartas na gestão dos resíduos. Evidentemente, num organograma funcional a gestão e o gerenciamento dos resíduos sólidos urbanos são de competência dos Serviços de Limpeza Urbanos – SLU. Mas não de um ponto de vista objetivo. Na realidade, os interesses das empresas de lixo consorciados à gestão “pública” formam concretamente uma soldadura que funciona tal como um único colegiado. Na prática é a voz e a ação de um único corpo. Portanto um Diretorado do Lixo.
Para este campo político-funcional não interessam tipos de solução minimamente decentes para a gestão dos refugos, nisto incluídos os aterros sanitários. Reciclagem e apoio aos catadores então, nem pensar. Para muitos gestores o lixo é visto como uma miscelânea de itens imprestáveis, repugnantes e daninhos à saúde, o que justificaria uma opção preferencial por estratégias simplesmente estéticas e eliminatórias. Em linhas gerais, a cultura de jogar o lixo longe dos olhos do cidadão tem-se revelado mais poderosa do que a consciência quanto aos danos causados pela destinação inadequada. Além disso, desovar refugo num lixão é um procedimento coerente com uma burocracia pouco afeita a formas de gestão complexas.
O lixão é simples, exigindo pouco de máquinas administrativas viciadas em rotinas repetitivas, na nojenta disputa por cargos, azeitadas pelo mandonismo político, pelo corporativismo e pela aguda falta de visão social e de preparo técnico. No geral, o aparato de Estado tem por meta sancionar intervenções que o coloquem a salvo de interpolações e do trato com segmentos que, como os catadores, são antes entendidos como um estorvo do que como parceiros na gestão do lixo. Naturalmente a isto se soma a ação das empreiteiras, que se consorciam no esforço por perpetuar os lixões, em especial por serem remuneradas por tonelada de lixo coletada, invariavelmente reportando a custos extremamente altos para o cidadão, que paga caríssimo por serviços simplesmente jurássicos.
IHU On-Line – Qual é o custo desta política?
Maurício Waldman – No âmbito do meu terceiro pós-doutoramento, fiz uso da noção de um “Custo Brasil do Lixo”. Em outras palavras, o alto custo da máquina de Estado voltada para gerenciar os refugos. Muito imposto de um lado e péssimos serviços prestados de outro. Certo é que em face das contradições e desigualdades que marcam a economia nacional, seria inútil comparar a gestão do lixo no Brasil com os países afluentes. Daí que uma avaliação mais oportuna seria com a América Latina, cuja realidade é ao menos semelhante à brasileira.
O Brasil é campeão latino-americano em geração de resíduos
Pois bem, o que as estatísticas mostram é assombroso. No custo unitário para a remuneração da limpeza por km, para coleta e disposição final do lixo, os valores brasileiros são todos, sem exceção, os mais altos. Isto para abduzir refugos que evoluem numa escala ímpar. O Brasil é campeão latino-americano em geração de resíduos. Mesmo com os batalhões de catadores, a recuperação do total de materiais permanece abaixo da média regional. Um dado significativo são os recursos humanos absorvidos pelos SLU. Brasil, República Dominicana e Colômbia lideram, na América Latina, em funcionários. Em média são 30 para cada 10.000 habitantes, as maiores taxas da região. Para planos de manejo do lixo, o Brasil apresenta índices constrangedores. Apenas Nicarágua e Jamaica apresentam resultados piores que o nosso. Mais: o Brasil empata com o Peru no primeiro lugar em ausência de planos para aglomerações metropolitanas. Isso sem contar que a existência de planos não garante qualidade do serviço prestado, nem sua aplicação ou mesmo a possibilidade de execução. No geral, os planos nada mais são que peças publicitárias exibidas durantes as eleições. Executá-los é outra discussão. O pior é perceber que a reação mais sanguínea dos burocratas dos resíduos, amparados pelo Diretorado do Lixo, quando pressionados por melhorias no atendimento e nas formas de gerenciamento dos SLU, desemboca invariavelmente na demanda por mais numerários, seja propondo taxas para o lixo, ou então, arrebanhando mais arrecadação via aumento dos impostos urbanos.
IHU On-Line – Outro apontamento feito pelo TCE diz respeito à coleta seletiva dos resíduos urbanos. Segundo as informações do órgão, somente 63,8% dos municípios oferecem esse serviço. Quais são as dificuldades de se implantar a coleta seletiva?
Maurício Waldman – Note-se que muitos dos supostos programas de CSL funcionam quase que exclusivamente como peça de marketing institucional das prefeituras, iniciativas meramente figurativas, propagandeadas como ações de educação ambiental e de compromisso com a sustentabilidade. No geral, estão restritos a reluzentes “ilhas recicladoras” plotadas em locais coerentemente à vista de todos, cujos contêineres são visitados de tempos em tempos por caminhões coletores. Mas, apesar de irrelevantes, são úteis para os bons ofícios do Diretorado do Lixo, pois inflam e adereçam as estatísticas, na prática uma fabulação, pois permite que muitos municípios com inexpressiva, ficcional ou tecnicamente nula atuação na reciclagem – daí a utilização do conceito de algum tipo de serviço de reciclagem – sejam contabilizados na somatória dos que executam programas de recuperação dos materiais, demonstrando assim “progressos” alcançados pela CSL. É o que se observa nos levantamentos. Exemplo bem conhecido, relatórios da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais – Abrelpe acusavam, para o ano de 2009, a existência de programas de CSL em 56,6% dos então 5.565 municípios brasileiros, em especial no Sul e Sudeste do país, onde respectivamente 76,2% e 78,7% das localidades confirmavam a execução, note-se bem, de algum tipo de serviço de CSL.
Muito embora a inconsistência desta informação tenha sido objeto de contestação por parte de pesquisadores e especialistas, o relatório mais recente da mesma entidade esclarece, no tocante à CSL para o ano de 2014, que aproximadamente 65% dos municípios registravam alguma iniciativa neste sentido. Portanto a situação vigente em São Paulo não contesta no essencial o dramático quadro nacional de mau desempenho da reciclagem. Isto sem contar que a compostagem do lixo, relacionada à recuperação da fração orgânica do lixo, patina em índices aviltantes. O mesmo parecer do TCE assinala que, no estado de SP, tão somente 2,47% dos municípios levam adiante ações de compostagem dos resíduos urbanos. E claro está que os números da reciclagem são mais uma demonstração da força inercial dos modelos tradicionais, conservadores e descompromissados com o meio ambiente que tipificam a gestão do lixo no país.
IHU On-Line – Em quais regiões de São Paulo há predominância dos lixões?
Maurício Waldman – Existem duas regiões particularmente problemáticas: a região do Oeste Paulista, assim entendendo o espaço geográfico magnetizado pela cidade de Presidente Prudente, e o vale do Ribeira do Iguape, no Sul do estado de São Paulo, sendo que das duas a que exibe contornos mais acintosos é o Oeste Paulista, área na qual tive atuação presencial durante minha terceira investigação de pós-doutoramento.
IHU On-Line – Por que Presidente Prudente seria um caso mais grave?
Maurício Waldman – Não diria mais grave, mas sim mais representativo da problemática dos lixões, tal como esta desponta no território nacional. Isto porque as contradições sociais e as dessimetrias econômicas transparecem com nitidez cristalina nesta região. A cidade de Presidente Prudente constitui um polo regional importante, “pivoteando” todas as demais cidades do entorno geográfico. É um centro urbano com aproximadamente 200.000 habitantes e que constitui a maior expressão urbana num raio de dezenas de quilômetros. A área magnetizada por Presidente Prudente constitui uma constelação de cidades muito inferiores em população e em expressão econômica. Neste senso, Presidente Prudente seria virtualmente uma “ilha”, tanto num olhar antropológico como no econômico. Porém, uma ilha dotada de portentoso protagonismo urbano. Muitos analistas indicam Presidente Prudente dentre as seis melhores cidades para se viver no estado de SP e a 29ª como cidade mais apropriada para seguir uma carreira no universo urbano brasileiro. Ao mesmo tempo, é a cidade polo de uma região pauperizada para os padrões do estado de SP, e os refugos da região são depositados basicamente em lixões, todos privados de acompanhamento geotécnico com todos os problemas sociais e ambientais gerados por este tipo de instalação.
A própria cidade de Presidente Prudente desova seus resíduos num lixão pavoroso, localizado em meio a nascentes de água, ainda em funcionamento em 2014, quando estive na cidade pela última vez. Isto 14 anos após uma palestra que dei na UNESP, ocasião em que já tinha visitado este lixão, praticamente num momento em que a fase operacional encetava os primeiros passos. Mas não é o único caso aberrante. Note-se que o único aterro sanitário em operação na região, situado na cidade de Presidente Venceslau, é um verdadeiro filme de terror. Um jovem pesquisador de resíduos da região, o engenheiro Lucas Osco, filmou neste “aterro sanitário” algo que eu nunca vi: um autêntico gêiser de chorume. Uma coisa inacreditável. Mais incrível ainda, no que comprova o cinismo descarado dos gestores municipais e dos órgãos ambientais, este verdadeiro lixão é, nas narrativas institucionais, considerado referência regional em disposição final de resíduos. E insisto em lembrar que se trata oficialmente de um aterro sanitário. Imagina se não fosse. Assim, seguramente a situação regional explicita contrastes que estruturalmente conectam o Oeste Paulista a um padrão, digamos assim, nacional, marcado por cidades modernas adereçadas com o que há de discrepante em conjunturas de atraso socioeconômico e de controle desagregador perpetrado pelo aparato de Estado. Todavia, marcado por fortes especificidades, as quais se associam a um variado leque de ambiguidades e contradições, expressão de vários dos obstáculos que a gestão do lixo enfrenta em todo o país.
IHU On-Line – Em que sentido o Oeste Paulista seria demonstrativo do problema nacional dos lixões?
Maurício Waldman – De vários modos, a começar pelo fato de que não existem neste mundo dois lixões iguais. Durante minha carreira como lixólogo, visitei 63 lixões, inclusive no exterior. Isto até agora. Mas o suficiente para dizer sem pestanejar que cada lixão é diferente de qualquer outro. Em visitas técnicas aos lixões do Oeste Paulista, chamaram-me a atenção vários detalhes, desde a utilização de tração animal nas carroças dos catadores, inexistentes nos grandes centros brasileiros em virtude da proibição de circulação de cavalos e muares nas ruas e logradouros públicos até a presença de esqueletos de fauna silvestre no meio dos monturos, resíduos da caça ilegal. Ao mesmo tempo, no Lixão de Pirapozinho, também no Oeste Paulista, eis que em meio a uma carcaça de tatu-bola e sabugos de milho, encontro um emaranhado de fios de computador e garrafas de vodka importada, claro sinal dos vínculos de um universo espacial específico com a globalização, regrada por formas de inserção desigual na economia estadual.
Ao mesmo tempo, mantive conversas com os trabalhadores dos lixões e indaguei sobre o preço dos materiais recicláveis. Fácil constatar que a remuneração do material recuperado era menor do que nas áreas concentradoras de capital. Este seria um dos muitos dados que exemplificam as trocas desiguais que regem a economia brasileira como um todo, que no caso do Oeste Paulista calçam uma abdução permanentemente da renda regional, encaminhada para os polos urbanos mais importantes, tais como a capital paulista. Trata-se de um movimento geográfico, de uma moldura econômica e de tratos culturais a demonstrar a diversidade de problemáticas evidenciadas pelos lixões, fato que infelizmente não está claro de modo algum para a imensa maioria dos acadêmicos, inclusive os da própria região e os que pesquisam os resíduos do Oeste Paulista, que teimam em repetir fórmulas divorciadas da vida regional. Um dos múltiplos impedimentos, inadequações e agravos que pavimentam a perpetuação do modelo nacional capenga de gestão do lixo.
IHU On-Line – Quais são as dificuldades de erradicar os lixões num país como o Brasil e de aplicar a Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS?
Maurício Waldman – Entenda-se antes de tudo que a gestão do lixo, até por estatuto legal, é uma atribuição do Estado, daí que centrarmos nossas atenções no vai e vem da política é essencial. Isto posto, temos que no Brasil a juridicidade das legislações não constitui uma factualidade a priori, com o que comumente os procedimentos omissivos, em especial dos poderes públicos, podem simplesmente revogar a vigência das leis. Neste sentido a Lei nº 10.635 é uma das muitas legislações brasileiras que “não pegaram”. A principal medida inserida na lei, a erradicação dos lixões — uma determinação central da PNRS e prevista para acontecer em agosto de 2014 —, foi sumariamente postergada em julho de 2015. O dispositivo legal que previa a data para fechar estas instalações foi prorrogado pelo Senado brasileiro para ser levado a cabo [teoricamente] apenas em junho de 2021. Alegou-se, para tanto, a existência de obstáculos administrativos e financeiros.
Mesmo metrópoles ricas, como Brasília, mantêm lixões em funcionamento, inclusive o famoso lixão Estrutural, situado a apenas 15 quilômetros do Planalto.
Nas considerações da Senadora Vanessa Grazziotin (PC do B), relatora do Projeto de Lei em favor da prorrogação, a PNRS não teria sido “realista”, em especial por prever um prazo que no seu entendimento era demasiado “exíguo” para que os municípios, em particular os menores e mais carentes, assumissem tal responsabilidade. Isto a despeito de que mesmo metrópoles ricas, como Brasília, mantêm lixões em funcionamento, inclusive o famoso lixão Estrutural, situado a apenas 15 km do Planalto. Neste particular, alerte-se que, nos momentos em que a aplicação da legislação era brutalizada, parecer da Confederação Nacional dos Municípios – CNM indicava que 61,7% dos municípios não se adequavam às exigências da PNRS. Note-se que apesar do indecente volume de verbas que os SLU gulosamente devoram, não faltaram alegações por parte dos representantes municipais de que a PNRS seria inviável e impossível de ser cumprida. Contudo, ao menos em termos do que a vontade política destes gestores tem demonstrado, afirmações como estas seriam absolutamente credíveis. No final das contas, um cálculo simples revelaria que, na hipótese de a média anual de encerramento dos lixões em operação ser mantida no ritmo do último quinquênio, o país somente poderia estar livre dos lixões em 150 anos.
IHU On-Line – Dado que os municípios não conseguiram pôr em prática a determinação da PNRS de erradicar os lixões até 2016, como avalia a prorrogação do fim dos lixões para 2021?
Maurício Waldman – O cenário que se descortina é dramático. Uma vez que o fechamento dos lixões foi sepultado pela conduta omissiva dos municípios, sem dúvida alguma uma das principais metas da PNRS, torna-se perfeitamente factível entender que os problemas relacionados à gestão dos resíduos sólidos se agravem ainda mais nos próximos anos, inclusive com prejuízos para a implantação da compostagem, emperramento dos serviços de CSL, maior morosidade nas negociações dos sistemas de logística reversa, ampliação de municípios em dissintonia com a PNRS, criação de novos lixões e persistência dos agravos que pesam sobre os catadores e suas entidades. Estes prognósticos ganham coloração mais sombria quando se sabe que, entre 2010 e 2014 – período em que a PNRS em tese começou a ser aplicada -, a geração de refugos no Brasil cresceu 10,36%.

Presumivelmente, ninguém pode prever o que está por acontecer e, tampouco, como se tornará exequível gerenciar a multiplicação de montanhas de lixo e os desdobramentos perversos de uma gestão irresponsável e contrária aos interesses nacionais. Com estes múltiplos dados desabonadores à mão, como que respaldadas por sentimentos de revolta e de frustração, duas indagações se desenhariam na mente sem pedir licença: Quem na época do lançamento da PNRS acreditou que, de fato, a lei “pegaria”? E hoje, quem acredita que ela “pegará” em 2021? (ecodebate)

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